Bio
Controle
Em parceria com instituto
de pesquisa, empresa lança em 2007 inseticida biológico
que pode aumentar produtividade da cana
Davi
Molinari
O Brasil está
prestes a entrar no grupo de nações
capazes de produzir e comercializar nematóides:
milimétricos vermes eficientes no combate
a pragas que afetam importantes produções
agrícolas. Atualmente, mais de 90 empresas
de 13 países detém a tecnologia
para produção de nematóides
entomopatogênicos, ou seja, que afetam a
saúde dos insetos. O uso do nematóide
é recomendável para controlar pragas
de solo que se protegem na terra da aplicação
dos inseticidas convencionais. É o caso
do bicudo da cana-de-açúcar (de
nome científico Sphenophorus levis),
uma praga capaz de destruir até 30 toneladas
de cana por hectare. Os nematóides invadem
o corpo do besouro e liberam bactérias
que em 48 horas matam o hospedeiro por septicemia.
"Comprovamos em testes de campo que as áreas
onde jogamos nematóides tiveram um incremento
de produção de cana de 17 toneladas
em relação àquelas que ficaram
descobertas", explica o pesquisador do Centro
Experimental do Instituto Biológico de
Campinas Luis Garrigós Leite, engenheiro
agrônomo e entomólogo com doutorado
pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq).
Desde a década
de 1930, biólogos procuram usar nematóides
para o controle de pragas. Mas só nos anos
1980 chegou-se a produção comercial
sabendo que cada uma das 40 espécies de
nematóides se alimenta de uma bactéria
específica, com quem mantém relação
simbionte — quer dizer, a bactéria
habita o corpo do nematóide e o nematóide
a usa para infectar sua presa. Nesse período,
empresas americanas e inglesas inauguraram a comercialização
de nematóides na condição
de bioinseticida; hoje, a produção
de nematóides ocupa o segundo maior segmento
do mercado de bioinseticidas nos países
desenvolvidos. "Fica atrás apenas
de uma bactéria chamada Bacillus thuringienses,
largamente utilizada para o controle de diversas
pragas, especialmente, lagartas", afirma
Leite. A partir do ano 2000, ele começou
a estudar, no Instituto Biológico de Campinas,
como produzir nematóides in vitro
e em larga escala.
Importar?
Não!
A Bio Controle,
fundada em 1996, é a maior das três
empresas brasileiras no mercado de produtos para
monitoramento e controle de pragas. O carro-chefe
da empresa são armadilhas com feromônios,
o hormônio sexual. Instaladas em uma plantação,
essas armadilhas atraem os insetos e, assim, alertam
o agricultor sobre a presença de pragas.
Ari Gitz, engenheiro agrônomo, é
um dos sócios da empresa. Mas para a Bio
Controle crescer no mercado, pensavam os sócios,
não bastava ter produtos para monitorar
pragas. Seria preciso também lançar
produtos capazes de combatê-las. Por isso,
Ari foi à Europa em 2002 pensando em importar
nematóides entomopatogênicos. Voltou
desanimado: "Concluímos que não
conseguiríamos importar nematóides
por dois motivos: o produto estrangeiro não
serviria para combater pragas nativas e o tempo
de espera para o desembaraço alfandegário
inviabilizaria o prazo de vida útil do
nematóide".
Foi quando o
agrônomo da Bio Controle soube do trabalho
de Luis Leite no Instituto Biológico de
Campinas — e propôs uma parceria.
Para levar os resultados já obtidos pelo
pesquisador em laboratório para a fase
de produção, a empresa apresentou
um projeto ao Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)
— aprovado em 2003 pelos pareceristas da
Fapesp. O financiamento recebido foi de R$ 337
mil para estudar a viabilidade do projeto, a eficiência
contra as pragas e a produção semi-industrial
dos nematóides. "O apoio da Fapesp
foi fundamental", afirma Gitz, "pois
não temos ainda capital próprio
para investir em pesquisa e desenvolvimento".
O projeto continua em curso.
A trajetória
da Bio Controle é um retrato de um segmento
que cresce exponencialmente. Gitz evita precisar
quanto é hoje o faturamento da empresa,
mas adianta que nos últimos dez anos o
lucro da Bio Controle aumentou 15 vezes. "Em
meio ano lucramos o equivalente ao investimento
feito pela Fapesp no projeto", afirma. A
empresa tem uma estrutura enxuta, terceiriza quase
a totalidade da produção. Onze funcionários
tocam a atividade da empresa, entre eles três
agrônomos, um com mestrado, três biólogos
e o restante de nível médio. Hoje
a empresa mantém parceria com o fabricante
estrangeiro do bioinseticida à base da
bactéria Bacillus thuringiens
que ganhou importância pela eficácia
contra pragas como broca de tomateiro, melão
e pepino; o bicho furão que ataca a citricultura
e a traça de repolho. O Agree, nome do
comercial da bactéria, é um dos
25 produtos comercializados pela Bio Controle.
Dentre eles, dois tiveram as patentes requeridas:
um sistema de liberação de feromônios
e o desenho industrial de uma das armadilhas de
inseto.
Pesquisa
e desenvolvimento
A produção
dos nematóides acontece em um dos sete
laboratórios do Instituto Biológico
de Campinas. A bióloga Carmen Maria Ambrós
Ginarte, doutora pelo Instituto de Biologia da
Unicamp, coordena o projeto. Em 700 metros quadrados
estão arranjados os dois métodos
possíveis para multiplicar in vitro
duas espécies de nematóides que
interessam à agricultura brasileira —
Heterorhabditis sp. e Steinernema
sp. A equipe está prestes a dominar
a tecnologia por fermentação. Três
fermentadores de 20, 50 e 200 litros, comprados
com os recursos do PIPE, multiplicam os agentes
contra as pragas. É um caldo vermelho ocre.
Entre os ingredientes, fígado de boi, nematóides
e bactérias. A formulação
precisa, no entanto, é um segredo. Essa
técnica, já usada no exterior, permite
obter em tanques de até 80 mil litros um
rendimento de 500 mil nematóides por mililitro.
O outro método
de multiplicação possível
é a produção dos nematóides
em esponjas de poliuretano — que o Instituto
Biológico já domina com sucesso.
As esponjas são embebidas no meio de cultura.
Quando os nematóides estão "maduros"
para ser retirados, as tiras de esponjas são
levadas para máquinas de lavar. Depois
de algumas batidas, a água com os nematóides
é recolhida. Com este sistema, os pesquisadores
já alcançaram a produção
de 200 mil nematóides por mililitro de
água, também em meio de cultura
à base de fígado. "Nosso objetivo
é determinar qual é a melhor formulação
para produção e comercialização
em massa", conta Carmem, responsável
pela formulação do produto. Da formulação,
dependem resultados como tempo possível
de armazenamento, condições de preservação
durante o transporte e custos de manuseio e aplicação.
Em junho, o relatório
do projeto foi encaminhado à Fapesp. Nele
está escrito que é possível
obter nematóides em massa, resistentes
à temperatura ambiente e de fácil
aplicação. Comercializados como
pó molhável ou em esponja, e diluídos
em água, os nematóides podem ser
pulverizados por sistemas convencionais do mesmo
modo que se faz com defensivos químicos.
No controle de pragas subterrâneas, deve
ser aplicado nos períodos de chuva ou depois
da irrigação, pois a umidade é
favorável à atuação
do nematóide.
A biofábrica
A confiança
no sucesso do projeto é tamanha que a Bio
Controle já adquiriu um terreno de 9 mil
metros quadrados em Araras, interior de São
Paulo, para montar em dois anos a biofábrica
de nematóides. "Numa primeira fase
queremos produzir 15 toneladas de produto por
mês, o suficiente para tratar 15 mil hectares",
conta Gitz. Para a viabilização
comercial do produto, a empresa pretende realizar
cursos e palestras para os produtores agrícolas.
Também será necessário o
registro do produto em órgãos competentes
dos Ministérios da Agricultura e do Meio
Ambiente.
No começo
de 2007 começarão a ser vendidos
os primeiros lotes de nematóides. Como
qualquer produto novo, o preço do quilo
de nematóide não deve ser baixo
no início. A Bio Controle escolheu como
foco a produção de duas espécies
de nematóides, Steinernema sp.
e Heterorhabditis sp., eficientes para
o ataque a pragas de solos como o bicudo da cana-de-açúcar.
O resultado positivo dos testes de campo, feitos
na Usina São João, em Araras, animaram
os produtores de açúcar e álcool.
Com a acentuada subida do preço do álcool
e do açúcar, o setor está
investindo todos os recursos para aumentar a produtividade
e obter ganho de produção por hectare.
"Se o preço dos nematóides
for compatível com o que gastamos com inseticidas,
vamos ficar com os nematóides — que
são bem mais eficientes para combater o
bicudo", conta André Luís da
Silva, coordenador de controle biológico
da Usina São João. A eficiência
do nematóide está no fato de que
ele encontra a presa perseguindo o gás
carbônico que o besouro emite. Já
para o pesticida fazer efeito é preciso
que haja o contato do besouro com a química.
"É como um míssil teleguiado
que solta inúmeras bombas no interior de
um prédio", explica Gitz. Além
do bicudo, os nematóides se alimentam de
outras pragas da cana como a cigarrinha da raiz
(Mahanarva fimbriolata) e a broca (Migdolus
fryanus) Os produtores de cogumelo também
querem usá-lo no combate á mosca
dos fungos (Fungus gnat).
E os seres humanos
podem ser afetados direta ou indiretamente pelo
vermezinho? "Podem ficar tranqüilos,
os nematóides são inofensivos em
relação ao homem ou a animais domésticos,
tanto é que eles estão isentos de
registro na Agência de Proteção
Ambiental Americana", garante Carmen Ginarte.