Publicado em 02 de outubro 2006





Bio Controle
Em parceria com instituto de pesquisa, empresa lança em 2007 inseticida biológico que pode aumentar produtividade da cana

Davi Molinari

O Brasil está prestes a entrar no grupo de nações capazes de produzir e comercializar nematóides: milimétricos vermes eficientes no combate a pragas que afetam importantes produções agrícolas. Atualmente, mais de 90 empresas de 13 países detém a tecnologia para produção de nematóides entomopatogênicos, ou seja, que afetam a saúde dos insetos. O uso do nematóide é recomendável para controlar pragas de solo que se protegem na terra da aplicação dos inseticidas convencionais. É o caso do bicudo da cana-de-açúcar (de nome científico Sphenophorus levis), uma praga capaz de destruir até 30 toneladas de cana por hectare. Os nematóides invadem o corpo do besouro e liberam bactérias que em 48 horas matam o hospedeiro por septicemia. "Comprovamos em testes de campo que as áreas onde jogamos nematóides tiveram um incremento de produção de cana de 17 toneladas em relação àquelas que ficaram descobertas", explica o pesquisador do Centro Experimental do Instituto Biológico de Campinas Luis Garrigós Leite, engenheiro agrônomo e entomólogo com doutorado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).

Desde a década de 1930, biólogos procuram usar nematóides para o controle de pragas. Mas só nos anos 1980 chegou-se a produção comercial sabendo que cada uma das 40 espécies de nematóides se alimenta de uma bactéria específica, com quem mantém relação simbionte — quer dizer, a bactéria habita o corpo do nematóide e o nematóide a usa para infectar sua presa. Nesse período, empresas americanas e inglesas inauguraram a comercialização de nematóides na condição de bioinseticida; hoje, a produção de nematóides ocupa o segundo maior segmento do mercado de bioinseticidas nos países desenvolvidos. "Fica atrás apenas de uma bactéria chamada Bacillus thuringienses, largamente utilizada para o controle de diversas pragas, especialmente, lagartas", afirma Leite. A partir do ano 2000, ele começou a estudar, no Instituto Biológico de Campinas, como produzir nematóides in vitro e em larga escala.

Importar? Não!

A Bio Controle, fundada em 1996, é a maior das três empresas brasileiras no mercado de produtos para monitoramento e controle de pragas. O carro-chefe da empresa são armadilhas com feromônios, o hormônio sexual. Instaladas em uma plantação, essas armadilhas atraem os insetos e, assim, alertam o agricultor sobre a presença de pragas. Ari Gitz, engenheiro agrônomo, é um dos sócios da empresa. Mas para a Bio Controle crescer no mercado, pensavam os sócios, não bastava ter produtos para monitorar pragas. Seria preciso também lançar produtos capazes de combatê-las. Por isso, Ari foi à Europa em 2002 pensando em importar nematóides entomopatogênicos. Voltou desanimado: "Concluímos que não conseguiríamos importar nematóides por dois motivos: o produto estrangeiro não serviria para combater pragas nativas e o tempo de espera para o desembaraço alfandegário inviabilizaria o prazo de vida útil do nematóide".

Foi quando o agrônomo da Bio Controle soube do trabalho de Luis Leite no Instituto Biológico de Campinas — e propôs uma parceria. Para levar os resultados já obtidos pelo pesquisador em laboratório para a fase de produção, a empresa apresentou um projeto ao Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) — aprovado em 2003 pelos pareceristas da Fapesp. O financiamento recebido foi de R$ 337 mil para estudar a viabilidade do projeto, a eficiência contra as pragas e a produção semi-industrial dos nematóides. "O apoio da Fapesp foi fundamental", afirma Gitz, "pois não temos ainda capital próprio para investir em pesquisa e desenvolvimento". O projeto continua em curso.

A trajetória da Bio Controle é um retrato de um segmento que cresce exponencialmente. Gitz evita precisar quanto é hoje o faturamento da empresa, mas adianta que nos últimos dez anos o lucro da Bio Controle aumentou 15 vezes. "Em meio ano lucramos o equivalente ao investimento feito pela Fapesp no projeto", afirma. A empresa tem uma estrutura enxuta, terceiriza quase a totalidade da produção. Onze funcionários tocam a atividade da empresa, entre eles três agrônomos, um com mestrado, três biólogos e o restante de nível médio. Hoje a empresa mantém parceria com o fabricante estrangeiro do bioinseticida à base da bactéria Bacillus thuringiens que ganhou importância pela eficácia contra pragas como broca de tomateiro, melão e pepino; o bicho furão que ataca a citricultura e a traça de repolho. O Agree, nome do comercial da bactéria, é um dos 25 produtos comercializados pela Bio Controle. Dentre eles, dois tiveram as patentes requeridas: um sistema de liberação de feromônios e o desenho industrial de uma das armadilhas de inseto.

Pesquisa e desenvolvimento

A produção dos nematóides acontece em um dos sete laboratórios do Instituto Biológico de Campinas. A bióloga Carmen Maria Ambrós Ginarte, doutora pelo Instituto de Biologia da Unicamp, coordena o projeto. Em 700 metros quadrados estão arranjados os dois métodos possíveis para multiplicar in vitro duas espécies de nematóides que interessam à agricultura brasileira — Heterorhabditis sp. e Steinernema sp. A equipe está prestes a dominar a tecnologia por fermentação. Três fermentadores de 20, 50 e 200 litros, comprados com os recursos do PIPE, multiplicam os agentes contra as pragas. É um caldo vermelho ocre. Entre os ingredientes, fígado de boi, nematóides e bactérias. A formulação precisa, no entanto, é um segredo. Essa técnica, já usada no exterior, permite obter em tanques de até 80 mil litros um rendimento de 500 mil nematóides por mililitro.

O outro método de multiplicação possível é a produção dos nematóides em esponjas de poliuretano — que o Instituto Biológico já domina com sucesso. As esponjas são embebidas no meio de cultura. Quando os nematóides estão "maduros" para ser retirados, as tiras de esponjas são levadas para máquinas de lavar. Depois de algumas batidas, a água com os nematóides é recolhida. Com este sistema, os pesquisadores já alcançaram a produção de 200 mil nematóides por mililitro de água, também em meio de cultura à base de fígado. "Nosso objetivo é determinar qual é a melhor formulação para produção e comercialização em massa", conta Carmem, responsável pela formulação do produto. Da formulação, dependem resultados como tempo possível de armazenamento, condições de preservação durante o transporte e custos de manuseio e aplicação.

Em junho, o relatório do projeto foi encaminhado à Fapesp. Nele está escrito que é possível obter nematóides em massa, resistentes à temperatura ambiente e de fácil aplicação. Comercializados como pó molhável ou em esponja, e diluídos em água, os nematóides podem ser pulverizados por sistemas convencionais do mesmo modo que se faz com defensivos químicos. No controle de pragas subterrâneas, deve ser aplicado nos períodos de chuva ou depois da irrigação, pois a umidade é favorável à atuação do nematóide.

A biofábrica

A confiança no sucesso do projeto é tamanha que a Bio Controle já adquiriu um terreno de 9 mil metros quadrados em Araras, interior de São Paulo, para montar em dois anos a biofábrica de nematóides. "Numa primeira fase queremos produzir 15 toneladas de produto por mês, o suficiente para tratar 15 mil hectares", conta Gitz. Para a viabilização comercial do produto, a empresa pretende realizar cursos e palestras para os produtores agrícolas. Também será necessário o registro do produto em órgãos competentes dos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

No começo de 2007 começarão a ser vendidos os primeiros lotes de nematóides. Como qualquer produto novo, o preço do quilo de nematóide não deve ser baixo no início. A Bio Controle escolheu como foco a produção de duas espécies de nematóides, Steinernema sp. e Heterorhabditis sp., eficientes para o ataque a pragas de solos como o bicudo da cana-de-açúcar. O resultado positivo dos testes de campo, feitos na Usina São João, em Araras, animaram os produtores de açúcar e álcool. Com a acentuada subida do preço do álcool e do açúcar, o setor está investindo todos os recursos para aumentar a produtividade e obter ganho de produção por hectare. "Se o preço dos nematóides for compatível com o que gastamos com inseticidas, vamos ficar com os nematóides — que são bem mais eficientes para combater o bicudo", conta André Luís da Silva, coordenador de controle biológico da Usina São João. A eficiência do nematóide está no fato de que ele encontra a presa perseguindo o gás carbônico que o besouro emite. Já para o pesticida fazer efeito é preciso que haja o contato do besouro com a química. "É como um míssil teleguiado que solta inúmeras bombas no interior de um prédio", explica Gitz. Além do bicudo, os nematóides se alimentam de outras pragas da cana como a cigarrinha da raiz (Mahanarva fimbriolata) e a broca (Migdolus fryanus) Os produtores de cogumelo também querem usá-lo no combate á mosca dos fungos (Fungus gnat).

E os seres humanos podem ser afetados direta ou indiretamente pelo vermezinho? "Podem ficar tranqüilos, os nematóides são inofensivos em relação ao homem ou a animais domésticos, tanto é que eles estão isentos de registro na Agência de Proteção Ambiental Americana", garante Carmen Ginarte.