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Publicado em 30 de setembro de 2008










Orbys Desenvolvimento de Tecnologia de Materiais

Empresa cria nanocompósito baseado em patente da Unicamp
que melhora performance da borracha e vira produto em 2009

Rachel Bueno

O primeiro produto da Orbys Desenvolvimento de Tecnologia de Materiais deve entrar em produção industrial até a metade de 2009. Trata-se do Imbrik, nanocompósito polimérico de borracha natural e argila esfoliada ou em lâminas criado a partir de tecnologia licenciada da Unicamp. Quando firmou o licenciamento com a universidade, em dezembro de 2004, a Orbys imaginou que precisaria de um ano e meio e aproximadamente US$ 300 mil para começar a fabricar o nanocompósito em grande escala. Passados quase quatro anos, o investimento no projeto já está na casa de US$ 1,5 milhão. Desse total, 15% vieram de agências de fomento. O restante saiu das economias do engenheiro naval Eduardo Figueiredo, fundador da empresa. "Ficamos frustrados com a demora para a tecnologia se tornar viável", admite o empresário. "Isso exigiu esforço financeiro e perseverança, mas agora estamos otimistas."

Eduardo tem motivos para acreditar no futuro da Orbys. Em julho de 2007, a empresa e a Unicamp depositaram juntas a patente de um novo processo de produção do Imbrik. A Orbys recebeu financiamento do PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas firmas inovadoras, para investigar se o processo seria eficiente. Comprovada a viabilidade, o professor Fernando Galembeck, do Instituto de Química (IQ) da universidade, coordenou o desenvolvimento, feito em parceria com a empresa. Galembeck é um dos inventores do processo licenciado para a Orbys em 2004.

"A patente usa o processo básico do Imbrik, mas em condições que o tornam muito mais econômico", explica o professor. "A diferença é que a mistura [da argila esfoliada ou em lâminas à borracha natural] é feita em concentração alta. Isso ajuda a viabilizar o produto", acrescenta.

De olho no mercado internacional, a Orbys pediu a extensão da patente para o exterior no último mês de julho. Apesar de dividir a titularidade da tecnologia com a Unicamp, a empresa está arcando sozinha com os custos do pedido, feito por meio do Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT). Conforme as regras do PCT, a Orbys tem até julho de 2009 para decidir em quais países participantes do tratado vai de fato registrar a tecnologia.

Bolinha de tênis mais resistente e solado "ecológico"

O que faz do Imbrik um nanocompósito é a presença da argila esfoliada ou em lâminas, que tem dimensões nanométricas. A página da Orbys na Internet lista uma série de vantagens do material em relação às borrachas naturais: maior resistência a esforços elevados, à flexão e a solventes; maior estabilidade térmica; redução em mais de 90% da permeabilidade a gases; entre outras. Essas características chamaram a atenção de empresas de diferentes setores, que estudam o uso do Imbrik em produtos como amortecedores e molas para automóveis, correias transportadoras, revestimentos de cilindros de borracha, pneus, solados recicláveis e biodegradáveis para calçados e até bolinhas de tênis.

Dois desses produtos já tiveram seus protótipos testados e aprovados pelos futuros fabricantes e dependem basicamente do início da produção industrial do Imbrik para chegar ao mercado. Um deles é o solado "ecológico", como diz Eduardo, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), de Novo Hamburgo (RS), junto com cinco empresas do setor. O solado é, na verdade, um laminado que virá pronto para ser cortado no formato do calçado.

O outro produto é o que deve ser lançado primeiro: a bolinha de tênis. Graças ao Imbrik, ela mantém sua pressão interna por mais tempo do que as bolinhas convencionais, o que lhe garante maior resistência e durabilidade. O futuro fabricante da bolinha é nacional, mas uma indústria argentina de artigos esportivos já começou a testar o nanocompósito para a mesma aplicação. Por enquanto, essa é a única parceira internacional da Orbys, mas Eduardo pretende encontrar outras ainda em 2008.

Produção industrial

O dono da Orbys atribui a demora para o início da produção industrial do Imbrik a dois fatores: o estágio em que se encontrava a tecnologia quando foi licenciada da Unicamp, não muito avançado, e o fracasso de um projeto que previa o uso do nanocompósito em adesivos, para o qual a Orbys dedicou dois anos de trabalho. Em virtude do atraso, a empresa não pôde começar a pagar royalties para a universidade em março de 2007, como estava previsto no contrato de licenciamento assinado com a Agência de Inovação Inova Unicamp. "Decidiu-se postergar o pagamento de royalties mínimos por um período curto", diz o diretor de desenvolvimento de parcerias da agência, Diógenes Feldhaus, sem especificar a nova data para o início dos pagamentos. "Depois desse período, a Orbys pagará o royalty devido mais o royalty do período diferido. O royalty devido é o royalty mínimo; logo, um valor não substancial", completa.

Como possui apenas um laboratório com capacidade para produzir de sete a oito quilos de Imbrik por batelada, a Orbys vai contratar uma processadora de borracha da região de Barretos (SP) para fabricar o nanocompósito em escala comercial. As duas já trabalham juntas no escalonamento da produção. Em uma primeira etapa, conseguiram obter pouco mais de cem quilos por batelada. Depois, ainda usando equipamentos adaptados, chegaram a produzir duas toneladas em um dia. Elas agora se dedicam a projetar máquinas específicas para a fabricação do Imbrik. A expectativa de Eduardo é alcançar 40 toneladas no primeiro ano de produção.

Três PIPES já concluídos e dois em andamento

De dezembro de 2006, quando Inovação conversou com Eduardo pela primeira vez, até agora, a Orbys concluiu três projetos da primeira fase do PIPE, incluindo o que gerou o novo processo de produção do Imbrik. Em um dos outros dois projetos, a Orbys estudou o uso do nanocompósito como modificador de argamassas e concretos, aplicação que se mostrou inviável. No terceiro projeto, por outro lado, provou que é possível fabricar o material a partir de borracha sintética, o que a levou a solicitar financiamento para a Fase II do programa. A Fapesp aprovou a liberação de R$ 300 mil, que já estão sendo aplicados na ampliação da planta-piloto da empresa. O objetivo é tornar a planta capaz de trabalhar com dois tipos de borracha sintética: a nitrílica (NBR) e a de estireno-butadieno (SBR).

A Orbys também tem um projeto da primeira fase do PIPE em andamento, para o qual a Fapesp liberou cerca de R$ 70 mil. Esse projeto visa a descobrir qual é a melhor argila para a fabricação do Imbrik. A empresa já fez o levantamento e caracterização de várias argilas nacionais; agora, está produzindo diferentes versões do nanocompósito com cada uma delas, para depois testá-las. O projeto está previsto para terminar neste mês de outubro.

Balanço da parceria

Embora tenha despendido mais tempo e dinheiro do que esperava no desenvolvimento do Imbrik, Eduardo pretende fazer novas parcerias com o setor acadêmico. "O trabalho com a Unicamp foi muito importante para o nosso conhecimento básico", avalia. O contato com o grupo do professor Galembeck foi intenso durante três anos. Agora, quando necessário, o professor presta consultoria e realiza alguns ensaios para a empresa. A Orbys conta hoje com 11 profissionais, entre os quais seis dedicam-se à atividade de pesquisa e três à industrialização do nanocompósito. Há um mestre e dois doutores no primeiro grupo e outros dois mestres no segundo. O mestre e um dos doutores da equipe de pesquisa recebem bolsa do programa Recursos Humanos para Atividades Estratégicas (RHAE), do Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A parceria também foi positiva para a universidade. "Do ponto de vista científico, houve um resultado muito importante", afirma Galembeck. "Quando foi feito o nanocompósito, não entendíamos bem o porquê de certas propriedades dele. Isso motivou um trabalho de pós-graduação aqui, e hoje sabemos que o Imbrik é estabilizado por adesão eletrostática — um tipo de adesão que a maior parte da literatura não reconhece e não aceita." Essa descoberta permitiu a publicação de artigos em duas revistas da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês): Chemistry of Materials e Journal of Physical Chemistry.

Além disso, o grupo de Galembeck no IQ gerou outras duas patentes derivadas do projeto do Imbrik, depositadas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em agosto passado. "Enfim, há vários tipos de 'filhotes' do Imbrik, sejam tecnológicos, sejam científicos", resume o professor.

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