Orbys Desenvolvimento de Tecnologia de
Materiais
Empresa
cria nanocompósito baseado em patente
da Unicamp
que
melhora performance da borracha e vira
produto em 2009
Rachel
Bueno
O primeiro produto da Orbys
Desenvolvimento de Tecnologia de Materiais
deve entrar em produção
industrial até a metade de 2009.
Trata-se do Imbrik, nanocompósito
polimérico de borracha natural
e argila esfoliada ou em lâminas
criado a partir de tecnologia licenciada
da Unicamp. Quando firmou o licenciamento
com a universidade, em dezembro de 2004,
a Orbys imaginou que precisaria de um
ano e meio e aproximadamente US$ 300 mil
para começar a fabricar o nanocompósito
em grande escala. Passados quase quatro
anos, o investimento no projeto já
está na casa de US$ 1,5 milhão.
Desse total, 15% vieram de agências
de fomento. O restante saiu das economias
do engenheiro naval Eduardo Figueiredo,
fundador da empresa. "Ficamos frustrados
com a demora para a tecnologia se tornar
viável", admite o empresário.
"Isso exigiu esforço financeiro
e perseverança, mas agora estamos
otimistas."
Eduardo
tem motivos para acreditar no futuro da
Orbys. Em julho de 2007, a empresa e a
Unicamp depositaram juntas a patente de
um novo processo de produção
do Imbrik. A Orbys recebeu financiamento
do PIPE, o programa da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) que apóia
as pequenas firmas inovadoras, para investigar
se o processo seria eficiente. Comprovada
a viabilidade, o professor Fernando
Galembeck, do Instituto de
Química (IQ) da universidade, coordenou
o desenvolvimento, feito em parceria com
a empresa. Galembeck é um dos inventores
do processo licenciado para a Orbys em
2004.
"A
patente usa o processo básico do
Imbrik, mas em condições
que o tornam muito mais econômico",
explica o professor. "A diferença
é que a mistura [da argila esfoliada
ou em lâminas à borracha
natural] é feita em concentração
alta. Isso ajuda a viabilizar o produto",
acrescenta.
De olho
no mercado internacional, a Orbys pediu
a extensão da patente para o exterior
no último mês de julho. Apesar
de dividir a titularidade da tecnologia
com a Unicamp, a empresa está arcando
sozinha com os custos do pedido, feito
por meio do Tratado de Cooperação
em Matéria de Patentes (PCT). Conforme
as regras do PCT, a Orbys tem até
julho de 2009 para decidir em quais países
participantes do tratado vai de fato registrar
a tecnologia.
Bolinha
de tênis mais resistente e solado
"ecológico"
O que
faz do Imbrik um nanocompósito
é a presença da argila esfoliada
ou em lâminas, que tem dimensões
nanométricas. A página da
Orbys na Internet lista uma série
de vantagens do material em relação
às borrachas naturais: maior resistência
a esforços elevados, à flexão
e a solventes; maior estabilidade térmica;
redução em mais de 90% da
permeabilidade a gases; entre outras.
Essas características chamaram
a atenção de empresas de
diferentes setores, que estudam o uso
do Imbrik em produtos como amortecedores
e molas para automóveis, correias
transportadoras, revestimentos de cilindros
de borracha, pneus, solados recicláveis
e biodegradáveis para calçados
e até bolinhas de tênis.
Dois desses
produtos já tiveram seus protótipos
testados e aprovados pelos futuros fabricantes
e dependem basicamente do início
da produção industrial do
Imbrik para chegar ao mercado. Um deles
é o solado "ecológico",
como diz Eduardo, desenvolvido pelo Instituto
Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado
e Artefatos (IBTeC), de Novo Hamburgo
(RS), junto com cinco empresas do setor.
O solado é, na verdade, um laminado
que virá pronto para ser cortado
no formato do calçado.
O outro
produto é o que deve ser lançado
primeiro: a bolinha de tênis. Graças
ao Imbrik, ela mantém sua pressão
interna por mais tempo do que as bolinhas
convencionais, o que lhe garante maior
resistência e durabilidade. O futuro
fabricante da bolinha é nacional,
mas uma indústria argentina de
artigos esportivos já começou
a testar o nanocompósito para a
mesma aplicação. Por enquanto,
essa é a única parceira
internacional da Orbys, mas Eduardo pretende
encontrar outras ainda em 2008.
Produção
industrial
O dono
da Orbys atribui a demora para o início
da produção industrial do
Imbrik a dois fatores: o estágio
em que se encontrava a tecnologia quando
foi licenciada da Unicamp, não
muito avançado, e o fracasso de
um projeto que previa o uso do nanocompósito
em adesivos, para o qual a Orbys dedicou
dois anos de trabalho. Em virtude do atraso,
a empresa não pôde começar
a pagar royalties para a universidade
em março de 2007, como estava previsto
no contrato de licenciamento assinado
com a Agência de Inovação
Inova Unicamp. "Decidiu-se postergar
o pagamento de royalties mínimos
por um período curto", diz
o diretor de desenvolvimento de parcerias
da agência, Diógenes Feldhaus,
sem especificar a nova data para o início
dos pagamentos. "Depois desse período,
a Orbys pagará o royalty
devido mais o royalty do período
diferido. O royalty devido é
o royalty mínimo; logo,
um valor não substancial",
completa.
Como possui
apenas um laboratório com capacidade
para produzir de sete a oito quilos de
Imbrik por batelada, a Orbys vai contratar
uma processadora de borracha da região
de Barretos (SP) para fabricar o nanocompósito
em escala comercial. As duas já
trabalham juntas no escalonamento da produção.
Em uma primeira etapa, conseguiram obter
pouco mais de cem quilos por batelada.
Depois, ainda usando equipamentos adaptados,
chegaram a produzir duas toneladas em
um dia. Elas agora se dedicam a projetar
máquinas específicas para
a fabricação do Imbrik.
A expectativa de Eduardo é alcançar
40 toneladas no primeiro ano de produção.
Três
PIPES já concluídos e dois
em andamento
De dezembro
de 2006, quando Inovação
conversou com Eduardo pela primeira vez,
até agora, a Orbys concluiu três
projetos da primeira fase do PIPE, incluindo
o que gerou o novo processo de produção
do Imbrik. Em um dos outros dois projetos,
a Orbys estudou o uso do nanocompósito
como modificador de argamassas e concretos,
aplicação que se mostrou
inviável. No terceiro projeto,
por outro lado, provou que é possível
fabricar o material a partir de borracha
sintética, o que a levou a solicitar
financiamento para a Fase II do programa.
A Fapesp aprovou a liberação
de R$ 300 mil, que já estão
sendo aplicados na ampliação
da planta-piloto da empresa. O objetivo
é tornar a planta capaz de trabalhar
com dois tipos de borracha sintética:
a nitrílica (NBR) e a de estireno-butadieno
(SBR).
A Orbys
também tem um projeto da primeira
fase do PIPE em andamento, para o qual
a Fapesp liberou cerca de R$ 70 mil. Esse
projeto visa a descobrir qual é
a melhor argila para a fabricação
do Imbrik. A empresa já fez o levantamento
e caracterização de várias
argilas nacionais; agora, está
produzindo diferentes versões do
nanocompósito com cada uma delas,
para depois testá-las. O projeto
está previsto para terminar neste
mês de outubro.
Balanço
da parceria
Embora
tenha despendido mais tempo e dinheiro
do que esperava no desenvolvimento do
Imbrik, Eduardo pretende fazer novas parcerias
com o setor acadêmico. "O trabalho
com a Unicamp foi muito importante para
o nosso conhecimento básico",
avalia. O contato com o grupo do professor
Galembeck foi intenso durante três
anos. Agora, quando necessário,
o professor presta consultoria e realiza
alguns ensaios para a empresa. A Orbys
conta hoje com 11 profissionais, entre
os quais seis dedicam-se à atividade
de pesquisa e três à industrialização
do nanocompósito. Há um
mestre e dois doutores no primeiro grupo
e outros dois mestres no segundo. O mestre
e um dos doutores da equipe de pesquisa
recebem bolsa do programa Recursos Humanos
para Atividades Estratégicas (RHAE),
do Conselho de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq).
A
parceria também foi positiva para
a universidade. "Do ponto de vista
científico, houve um resultado
muito importante", afirma Galembeck.
"Quando foi feito o nanocompósito,
não entendíamos bem o porquê
de certas propriedades dele. Isso motivou
um trabalho de pós-graduação
aqui, e hoje sabemos que o Imbrik é
estabilizado por adesão eletrostática
— um tipo de adesão que a
maior parte da literatura não reconhece
e não aceita." Essa descoberta
permitiu a publicação de
artigos em duas revistas da Sociedade
Americana de Química (ACS, na sigla
em inglês): Chemistry of Materials
e Journal of Physical Chemistry.
Além
disso, o grupo de Galembeck no IQ gerou
outras duas patentes derivadas do projeto
do Imbrik, depositadas no Instituto Nacional
da Propriedade Industrial (INPI) em agosto
passado. "Enfim, há vários
tipos de 'filhotes' do Imbrik, sejam tecnológicos,
sejam científicos", resume
o professor.