Publicado em 25 de setembro 2006





Optolink
Empresa filha da parceria Unicamp-Telebrás confia que voltará
a crescer com tendência de expansão das redes de fibras óticas

Thiago Guimarães e Mônica Teixeira

Um físico carioca, professor ainda enquanto cursava os últimos anos da graduação e um dos primeiros profissionais brasileiros especializados em fibra ótica. Outro físico, fluminense, doutorado na Universidade de Stanford, na Califórnia, dono de extrema habilidade para construir máquinas e testemunha da criação da primeira rede de fibra ótica no Brasil. Ildefonso Félix de Faria Júnior e Francisco Smolka participaram da aventura de desenvolver no Brasil a tecnologia das telecomunicações óticas e hoje enfrentam juntos o vaivém do mercado de telecomunicações no Brasil, como sócios da Optolink.

A empresa que Ildefonso fundou em 1998 e à qual Smolka se juntou em 2001 foi uma entre as que se originaram dos investimentos feitos pela Telebrás na parceria com a Unicamp, durante a década de 1980. É uma empresa de fotônica — nome dado às tecnologias ligadas ao emprego industrial de instrumentos que envolvem luz, como raios laser e fibras óticas. O foco da empresa é desenvolver e fabricar componentes utilizados em linhas de fibras óticas. Esses componentes servem, principalmente, para garantir que o sinal que contém informação se mantenha constante ao viajar dentro da fibra.

Por isso, a sorte da Optolink depende do movimento do mercado de fibras óticas. Se as empresas de telecomunicações — como as telefônicas, por exemplo — estão implantando ou ampliando suas redes, o mercado se aquece e mais dos dispositivos da Optolink são necessários. Aconteceu assim de 1997 a 2001 quando, depois da privatização, as empresas de telefonia trabalharam para cumprir as metas de universalização do serviço telefônico. Nessa época, o Brasil consumiu — segundo a publicação especializada Anuário Telecom — "o equivalente a três milhões de quilômetros de fibra por ano". Hoje, ainda segundo o Anuário, o ritmo é dez vezes menor — caiu para 300 mil quilômetros anuais. Claro que isso afetou os negócios desta pequena que inova.

Além da retração do mercado, outro fator vem atrapalhando os negócios da Optolink: a concorrência dos preços baixos chineses. A empresa passou de 17 para três funcionários. A dificuldade parece tão grande aos sócios que eles tomaram uma decisão inédita: esperar por uma melhora nas perspectivas de mercado para utilizar R$ 500 mil de financiamento a fundo perdido que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) colocou à disposição da empresa. Em dezembro de 2004, a Optolink foi uma entre 20 empresas que tiveram projeto de comercialização de produto inovador aprovado pela Fapesp, na única vez em nove anos de Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) em que a agência ofereceu recursos para a fase III — em razão de uma parceria ainda não repetida com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). A fase III, no jargão do PIPE, "destina-se ao desenvolvimento de novos produtos comerciais, baseados nos resultados das fases I e II", como está escrito na página oficial do programa.

Finalmente agora, em setembro de 2006, Félix e Smolka sentem uma perspectiva firme de melhora no mercado. O que eles esperavam — e todos os que acompanham o setor — já começou a acontecer: a era da "fibra até a porta de casa". Hoje, são cabos metálicos que levam o sinal da TV a cabo e da Internet banda larga de uma central até o aparelho de TV e o computador. No futuro que se torna quase presente, os sinais de Internet, TV Digital e transmissão de dados chegarão por meio da mesma fibra ótica até dentro de casa. Em Campinas (SP), cidade muito progressista, já há operadoras de TV a cabo fazendo testes, para instalar o sistema em condomínios residenciais em implantação. Para essas redes experimentais, a Optolink está fornecendo dispositivos como acopladores, cordões óticos e atenuadores. Os sócios já se sentem mais à vontade para usar os recursos da fase III — destinados, de acordo com o projeto aprovado, a atualizar as máquinas com que fabricam esses componentes, de maneira a baratear e agilizar a linha de produção. Eles esperam apenas a Fapesp concordar com pequenas mudanças que serão feitas em relação ao projeto original.

De PIPE em PIPE

Como diz em sua página na Internet, a Fapesp considera a fase III como a fase de comercialização de produtos desenvolvidos em projetos aprovados nas fases I e II do PIPE. É bem o caso da Optolink: em seus oito anos de vida, apresentou à agência quatro projetos de pesquisa e desenvolvimento de dispositivos e equipamentos para comunicação ótica. Com a aprovação pela agência, a empresa recebeu quase R$ 960 mil e US$ 84 mil. Três dos projetos tiveram fase I — definida como "para a realização de pesquisas sobre a viabilidade das idéias propostas" — antes de passarem à fase II (em que se realiza "a parte principal da pesquisa"). Para o quarto projeto, a Fapesp prescindiu do estudo de viabilidade, e ele foi aprovado como "direto fase II". O objetivo dele era desenvolver a máquina para fabricação de componentes com a qual, agora, a Optolink pretende constituir sua nova linha de produção, com os recursos da fase III.

No primeiro PIPE, aprovado em 1998, Félix financiou a pesquisa que resultou, depois de dois anos, na produção de amplificadores óticos. Nesse ponto, a empresa enfrentou uma dificuldade: apesar do esforço de desenvolvimento, seus amplificadores nunca chegaram ao mercado. "O dispositivo já vem incorporado aos equipamentos importados", diz Ildefonso. "Era impossível furar o bloqueio e fornecer amplificador ótico para um equipamento fabricado, por exemplo, pela Alcatel ou pela Lucent — os amplificadores já vêm dentro dele." Por isso, houve uma inflexão: a empresa passou a fabricar não amplificadores, mas outros componentes, chamados de "passivos" — passivos porque a luz passa por eles sem ser transformada em sinal elétrico.

A OptoLink decidiu investir nesses dispositivos — como os acopladores que são uma sua especialidade — ao perceber que esse mercado movimentava milhões de reais no Brasil. "Existia a possibilidade de vender acopladores por um preço muito competitivo em relação aos provenientes de países asiáticos. Então, pedi verba adicional no mesmo projeto do PIPE para desenvolver a tecnologia industrial de acopladores óticos e a Fapesp concordou", diz Ildefonso. Os acopladores óticos significaram a primeira conquista da OptoLink, quando a empresa ainda era incubada no Pólo de Empresas de Alta Tecnologia de Campinas, o Ciatec, ligado à prefeitura da cidade. Com a venda de acopladores, a empresa conseguiu dobrar o faturamento ano a ano, entre 2000 e 2003, chegando a R$ 1 milhão. A OptoLink fabrica 12 tipos de acopladores adaptados aos diferentes comprimentos de onda dos sinais luminosos e às diferentes características da linha e, de acordo com Ildefonso, deve desenvolver outros, pois tem crescido o número de aplicações. "A tecnologia de acopladores é conhecida na literatura há mais de 20 anos. Mas foi implementada na prática pela primeira vez no Brasil, em escala industrial, por nós", conta Ildefonso.

Nos últimos anos, a empresa fez os outros pedidos à Fapesp: para desenvolver um método de depositar metais na superfície da fibra, para que pudesse ser soldada da mesma forma que um fio metálico e conduzir o máximo possível da luz emitida pelo laser — projeto já encerrado, mas que não virou produto, segundo Ildefonso, por causa de uma "reviravolta" no mercado, que os tornou mais baratos e menos utilizados —; e um quarto, para desenvolver "uma família de instrumentos para aplicações" em comunicações óticas. Diz Ildefonso: "Os projetos aprovados no PIPE deram suporte para a gente desenvolver novas tecnologias e lançar as aplicações no mercado. Foram a base de sustentação da OptoLink".

Amplificadores, acopladores, monitoramento...

A idéia básica da fibra ótica é transmitir informações à velocidade da luz. Feixes de luz percorrem o interior de um fio de 0,1 milímetro de diâmetro, levando informações codificadas em sinais de luz. Ocorre que parte dessa energia luminosa pode ser perdida ao longo da linha, o que impediria a comunicação de longa distância. Para contornar o problema da atenuação do sinal de luz, existem os amplificadores óticos, instrumentos compostos de uma fibra especial e um laser que fornece energia adicional. Normalmente são usados na origem da linha, junto à fonte de luz, mas, dependendo da distância, também podem ser instalados ao longo da linha de fibra ótica ou em seu final. Os amplificadores foram os primeiros componentes fabricados pela OptoLink, criados com os conhecimentos de física e eletrônica de seus sócios.

Já os acopladores óticos são componentes de três milímetros de diâmetro produzidos a partir da fusão de fibras óticas. Eles podem combinar ou separar sinais luminosos, permitindo que a mesma fibra seja usada para enviar e receber dados, o que reduz o custo de construção dos sistemas de transmissão. Quando transmitimos e recebemos sinais, normalmente precisamos de duas fibras. Mas podemos colocar os dois sinais na mesma fibra. Fazendo um paralelo com a eletricidade, seria um "benjamim ótico", explica Ildefonso. Fabricados com uma tecnologia de fusão das fibras, os acopladores são o carro-chefe da OptoLink.

E, mais recentemente, a empresa começou a desenvolver e comercializar sistemas de monitoramento de linhas de fibras óticas usadas em plantas industriais. Ildefonso explica que, sem o sistema, a empresa poderia perder a comunicação com a planta e nem ficar sabendo disso, caso as linhas de fibra ótica se rompessem. Com o sistema, a empresa seria alertada e poderia tomar providências para evitar a interrupção da produção.

O quadro atual

Os sócios continuam preocupados com a concorrência chinesa e com as incertezas sobre a política de telecomunicações. Mas o início dos testes com as redes fiber-to-the-home e até mesmo a decisão sobre o padrão japonês para a TV Digital os animam. Enquanto isso, a empresa atende clientes com necessidades especiais — que têm muita pressa, ou precisam de dispositivos muitos customizados — e que, por isso, se dispõem a pagar preços maiores que os preços chineses. "Com os coreanos e taiwaneses, a gente compete em preço. Mas com os chineses não dá", reclama Ildefonso. Os sócios acham que, no caso da expansão da rede de fibra ótica até as casas das pessoas, poderão colocar seus dispositivos porque oferecerão assistência técnica on-line e em português, e com presteza na entrega.

Na indústria, empresas ligadas à área de energia têm utilizado redes de fibra ótica para a automação industrial. Ildefonso conta que é cada vez mais comum usar a fibra ótica para controlar remotamente máquinas e operações na planta de fábricas, sem usar o fio metálico. A OptoLink vendeu para a Eletropaulo, por exemplo, uma tecnologia de monitoramento da linha de fibra ótica que faz a comunicação da central com uma estação de biogás (geração de energia a partir do lixo) — resultado do projeto de desenvolvimento de instrumentos aprovado no PIPE.