Optolink
Empresa filha da parceria
Unicamp-Telebrás confia que voltará
a crescer com tendência de expansão das redes de
fibras óticas
Thiago
Guimarães e Mônica
Teixeira
Um físico
carioca, professor ainda enquanto cursava os últimos
anos da graduação e um dos primeiros
profissionais brasileiros especializados em fibra
ótica. Outro físico, fluminense,
doutorado na Universidade de Stanford, na Califórnia,
dono de extrema habilidade para construir máquinas
e testemunha da criação da primeira
rede de fibra ótica no Brasil. Ildefonso
Félix de Faria Júnior e Francisco
Smolka participaram da aventura de desenvolver
no Brasil a tecnologia das telecomunicações
óticas e hoje enfrentam juntos o vaivém
do mercado de telecomunicações no
Brasil, como sócios da Optolink.
A empresa que
Ildefonso fundou em 1998 e à qual Smolka
se juntou em 2001 foi uma entre as que se originaram
dos investimentos feitos pela Telebrás
na parceria com a Unicamp, durante a década
de 1980. É uma empresa de fotônica
— nome dado às tecnologias ligadas
ao emprego industrial de instrumentos que envolvem
luz, como raios laser e fibras óticas.
O foco da empresa é desenvolver e fabricar
componentes utilizados em linhas de fibras óticas.
Esses componentes servem, principalmente, para
garantir que o sinal que contém informação
se mantenha constante ao viajar dentro da fibra.
Por isso, a sorte
da Optolink depende do movimento do mercado de
fibras óticas. Se as empresas de telecomunicações
— como as telefônicas, por exemplo
— estão implantando ou ampliando
suas redes, o mercado se aquece e mais dos dispositivos
da Optolink são necessários. Aconteceu
assim de 1997 a 2001 quando, depois da privatização,
as empresas de telefonia trabalharam para cumprir
as metas de universalização do serviço
telefônico. Nessa época, o Brasil
consumiu — segundo a publicação
especializada Anuário Telecom
— "o equivalente a três milhões
de quilômetros de fibra por ano". Hoje,
ainda segundo o Anuário, o ritmo
é dez vezes menor — caiu para 300
mil quilômetros anuais. Claro que isso afetou
os negócios desta pequena que inova.
Além da
retração do mercado, outro fator
vem atrapalhando os negócios da Optolink:
a concorrência dos preços baixos
chineses. A empresa passou de 17 para três
funcionários. A dificuldade parece tão
grande aos sócios que eles tomaram uma
decisão inédita: esperar por uma
melhora nas perspectivas de mercado para utilizar
R$ 500 mil de financiamento a fundo perdido que
a Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp) colocou
à disposição da empresa.
Em dezembro de 2004, a Optolink foi uma entre
20 empresas que tiveram projeto de comercialização
de produto inovador aprovado pela Fapesp, na única
vez em nove anos de Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)
em que a agência ofereceu recursos para
a fase III — em razão de uma parceria
ainda não repetida com o Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT). A fase III,
no jargão do PIPE, "destina-se ao
desenvolvimento de novos produtos comerciais,
baseados nos resultados das fases I e II",
como está escrito na página oficial
do programa.
Finalmente agora,
em setembro de 2006, Félix e Smolka sentem
uma perspectiva firme de melhora no mercado. O
que eles esperavam — e todos os que acompanham
o setor — já começou a acontecer:
a era da "fibra até a porta de casa".
Hoje, são cabos metálicos que levam
o sinal da TV a cabo e da Internet banda larga
de uma central até o aparelho de TV e o
computador. No futuro que se torna quase presente,
os sinais de Internet, TV Digital e transmissão
de dados chegarão por meio da mesma fibra
ótica até dentro de casa. Em Campinas
(SP), cidade muito progressista, já há
operadoras de TV a cabo fazendo testes, para instalar
o sistema em condomínios residenciais em
implantação. Para essas redes experimentais,
a Optolink está fornecendo dispositivos
como acopladores, cordões óticos
e atenuadores. Os sócios já se sentem
mais à vontade para usar os recursos da
fase III — destinados, de acordo com o projeto
aprovado, a atualizar as máquinas com que
fabricam esses componentes, de maneira a baratear
e agilizar a linha de produção.
Eles esperam apenas a Fapesp concordar com pequenas
mudanças que serão feitas em relação
ao projeto original.
De PIPE
em PIPE
Como diz em sua
página na Internet, a Fapesp considera
a fase III como a fase de comercialização
de produtos desenvolvidos em projetos aprovados
nas fases I e II do PIPE. É bem o caso
da Optolink: em seus oito anos de vida, apresentou
à agência quatro projetos de pesquisa
e desenvolvimento de dispositivos e equipamentos
para comunicação ótica. Com
a aprovação pela agência,
a empresa recebeu quase R$ 960 mil e US$ 84 mil.
Três dos projetos tiveram fase I —
definida como "para a realização
de pesquisas sobre a viabilidade das idéias
propostas" — antes de passarem à
fase II (em que se realiza "a parte principal
da pesquisa"). Para o quarto projeto, a Fapesp
prescindiu do estudo de viabilidade, e ele foi
aprovado como "direto fase II". O objetivo
dele era desenvolver a máquina para fabricação
de componentes com a qual, agora, a Optolink pretende
constituir sua nova linha de produção,
com os recursos da fase III.
No primeiro PIPE,
aprovado em 1998, Félix financiou a pesquisa
que resultou, depois de dois anos, na produção
de amplificadores óticos. Nesse ponto,
a empresa enfrentou uma dificuldade: apesar do
esforço de desenvolvimento, seus amplificadores
nunca chegaram ao mercado. "O dispositivo
já vem incorporado aos equipamentos importados",
diz Ildefonso. "Era impossível furar
o bloqueio e fornecer amplificador ótico
para um equipamento fabricado, por exemplo, pela
Alcatel ou pela Lucent — os amplificadores
já vêm dentro dele." Por isso,
houve uma inflexão: a empresa passou a
fabricar não amplificadores, mas outros
componentes, chamados de "passivos"
— passivos porque a luz passa por eles sem
ser transformada em sinal elétrico.
A OptoLink decidiu
investir nesses dispositivos — como os acopladores
que são uma sua especialidade — ao
perceber que esse mercado movimentava milhões
de reais no Brasil. "Existia a possibilidade
de vender acopladores por um preço muito
competitivo em relação aos provenientes
de países asiáticos. Então,
pedi verba adicional no mesmo projeto do PIPE
para desenvolver a tecnologia industrial de acopladores
óticos e a Fapesp concordou", diz
Ildefonso. Os acopladores óticos significaram
a primeira conquista da OptoLink, quando a empresa
ainda era incubada no Pólo de Empresas
de Alta Tecnologia de Campinas, o Ciatec, ligado
à prefeitura da cidade. Com a venda de
acopladores, a empresa conseguiu dobrar o faturamento
ano a ano, entre 2000 e 2003, chegando a R$ 1
milhão. A OptoLink fabrica 12 tipos de
acopladores adaptados aos diferentes comprimentos
de onda dos sinais luminosos e às diferentes
características da linha e, de acordo com
Ildefonso, deve desenvolver outros, pois tem crescido
o número de aplicações. "A
tecnologia de acopladores é conhecida na
literatura há mais de 20 anos. Mas foi
implementada na prática pela primeira vez
no Brasil, em escala industrial, por nós",
conta Ildefonso.
Nos últimos
anos, a empresa fez os outros pedidos à
Fapesp: para desenvolver um método de depositar
metais na superfície da fibra, para que
pudesse ser soldada da mesma forma que um fio
metálico e conduzir o máximo possível
da luz emitida pelo laser — projeto
já encerrado, mas que não virou
produto, segundo Ildefonso, por causa de uma "reviravolta"
no mercado, que os tornou mais baratos e menos
utilizados —; e um quarto, para desenvolver
"uma família de instrumentos para
aplicações" em comunicações
óticas. Diz Ildefonso: "Os projetos
aprovados no PIPE deram suporte para a gente desenvolver
novas tecnologias e lançar as aplicações
no mercado. Foram a base de sustentação
da OptoLink".
Amplificadores,
acopladores, monitoramento...
A idéia
básica da fibra ótica é transmitir
informações à velocidade
da luz. Feixes de luz percorrem o interior de
um fio de 0,1 milímetro de diâmetro,
levando informações codificadas
em sinais de luz. Ocorre que parte dessa energia
luminosa pode ser perdida ao longo da linha, o
que impediria a comunicação de longa
distância. Para contornar o problema da
atenuação do sinal de luz, existem
os amplificadores óticos, instrumentos
compostos de uma fibra especial e um laser
que fornece energia adicional. Normalmente são
usados na origem da linha, junto à fonte
de luz, mas, dependendo da distância, também
podem ser instalados ao longo da linha de fibra
ótica ou em seu final. Os amplificadores
foram os primeiros componentes fabricados pela
OptoLink, criados com os conhecimentos de física
e eletrônica de seus sócios.
Já os
acopladores óticos são componentes
de três milímetros de diâmetro
produzidos a partir da fusão de fibras
óticas. Eles podem combinar ou separar
sinais luminosos, permitindo que a mesma fibra
seja usada para enviar e receber dados, o que
reduz o custo de construção dos
sistemas de transmissão. Quando transmitimos
e recebemos sinais, normalmente precisamos de
duas fibras. Mas podemos colocar os dois sinais
na mesma fibra. Fazendo um paralelo com a eletricidade,
seria um "benjamim ótico", explica
Ildefonso. Fabricados com uma tecnologia de fusão
das fibras, os acopladores são o carro-chefe
da OptoLink.
E, mais recentemente,
a empresa começou a desenvolver e comercializar
sistemas de monitoramento de linhas de fibras
óticas usadas em plantas industriais. Ildefonso
explica que, sem o sistema, a empresa poderia
perder a comunicação com a planta
e nem ficar sabendo disso, caso as linhas de fibra
ótica se rompessem. Com o sistema, a empresa
seria alertada e poderia tomar providências
para evitar a interrupção da produção.
O quadro
atual
Os sócios
continuam preocupados com a concorrência
chinesa e com as incertezas sobre a política
de telecomunicações. Mas o início
dos testes com as redes fiber-to-the-home
e até mesmo a decisão sobre o padrão
japonês para a TV Digital os animam. Enquanto
isso, a empresa atende clientes com necessidades
especiais — que têm muita pressa,
ou precisam de dispositivos muitos customizados
— e que, por isso, se dispõem a pagar
preços maiores que os preços chineses.
"Com os coreanos e taiwaneses, a gente compete
em preço. Mas com os chineses não
dá", reclama Ildefonso. Os sócios
acham que, no caso da expansão da rede
de fibra ótica até as casas das
pessoas, poderão colocar seus dispositivos
porque oferecerão assistência técnica
on-line e em português, e com presteza
na entrega.
Na indústria,
empresas ligadas à área de energia
têm utilizado redes de fibra ótica
para a automação industrial. Ildefonso
conta que é cada vez mais comum usar a
fibra ótica para controlar remotamente
máquinas e operações na planta
de fábricas, sem usar o fio metálico.
A OptoLink vendeu para a Eletropaulo, por exemplo,
uma tecnologia de monitoramento da linha de fibra
ótica que faz a comunicação
da central com uma estação de biogás
(geração de energia a partir do
lixo) — resultado do projeto de desenvolvimento
de instrumentos aprovado no PIPE.