Publicado em 21 de setembro 2006





Linkgen
Detecção de doenças genéticas por análise de DNA é a próxima aposta da empresa, pioneira de testes genéticos para animais

Davi Molinari

Tudo o que a Linkgen precisa para dizer, com 99,9% de certeza, se um certo animal é mesmo filho de quem o dono diz serem seu pai e sua mãe está instalado em um escritório de 80 metros quadrados no bairro do Paraíso, capital de São Paulo. Esse é o negócio da empresa: comprovar o vínculo genético entre animais, usando técnicas de biologia molecular. No escritório, que também é um laboratório, a doutora em biologia Marcella Mazzamilla segue a rotina: analisar amostras de pêlos de cavalos — principalmente —, que vêm de diversos pontos do País. Enquanto Marcella manipula os pedaços minúsculos de pêlo, sempre com o bulbo, para retirar deles o DNA do animal, chega à mesa de trabalho um maço de pequenos envelopes pardos. Cada um deles contém um ficha padronizada, com nome, registro, data de nascimento, pelagem, sexo, raça e informações sobre os pais do potro que se quer identificar. Há também informações sobre o dono do animal. Desses envelopes, a bióloga retira o material que leva para exame. Cerca de 300 amostras de pêlos de cavalo chegam ao laboratório todos os meses.

O equipamento que Marcella usa para realizar os "testes de paternidade" foi adquirido com recursos do programa de apoio à pequena empresa que inova da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em 1998, a dona e fundadora da empresa, Cynthia Rachid Bydlowsky, apresentou seu projeto dentro do PIPE. Com a aprovação, nas fases I e II, a empresa recebeu R$ 20 mil e US$ 118,5 mil. Com o dinheiro, comprou uma máquina que copia os pedaços de DNA retirados dos pedaços de pêlo, uma outra máquina que lê o código genético contido nos trechos de DNA, chamada seqüenciador automático, e uma "capela" de fluxo laminar — que cria o ambiente esterilizado dentro do qual Marcella faz parte da manipulação das amostras. "Usamos marcadores de DNA como base de comparação para atestar a paternidade", explica a bióloga, enquanto mostra no monitor os gráficos gerados pelo seqüenciador. Se a filiação for mesmo a alegada, as curvas no monitor serão coincidentes.

Pioneirismo

Os anos 1980 e 1990 foram férteis para o desenvolvimento de técnicas e ferramentas de biotecnologia — como as utilizadas pela Linkgen. O barateamento e a simplificação das técnicas popularizaram os serviços de análise de DNA para testes de paternidade humanos. Cynthia projetou levar a análise por DNA à área de veterinária. "A idéia foi desenvolver um método para permitir a verificação da paternidade e a identificação de um animal por meio da análise de seu genótipo", explica a biomédica. Hoje, a Linkgen usa como padrão 12 trechos de DNA (marcadores) para verificar o vínculo genético. A definição do padrão dá velocidade à análise. Embora a empresa tenha condições técnicas de assinar um laudo em até 72 horas, ela pede duas semanas de prazo, por causa do número de pedidos.

Depois de desenvolver o método de análise, Cynthia precisou mostrar aos clientes suas vantagens em relação aos métodos convencionais. A própria pesquisadora saiu a campo em busca de negócios. Se o preço de um cavalo pode chegar a R$ 2 milhões, pensou, quanto mais precisa a certificação da raça e da ascendência, melhor. Ela procurou a Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM) para mostrar que os exames por DNA têm uma precisão de acerto de 99,91%, contra 96,5% das análises de tipagem sangüínea, usadas na época. Outra vantagem: a análise por sangue exige profissional especializado e instrumentos de coleta e transporte; o exame de DNA só precisa de uma amostra de 50 fios de pêlo retirados da crina do animal, enviados por carta.

Desde o início, a ABQM apoiou o projeto da Linkgen. Hoje responsável pelo registro de um plantel de 300 mil cavalos da raça quarto de milha, a associação é a principal cliente do laboratório. Os proprietários dos cavalos são orientados a verificar o vínculo genético do potro para obter a inscrição nos cartórios de registro dos animais. "Nossa associação foi a pioneira em pedir exames de DNA, e em breve isto será obrigatório para todas as entidades", prevê o veterinário Jarbas Bertolli, superintendente do Stud Book, livro de registro da ABQM. A própria associação recolhe as amostras e as envia para a Linkgen. O custo para o produtor é de R$ 140 por potro — o que cobre os custos da empresa e os da associação. "O exame por DNA nos dá segurança para registro, não tem interferência humana. Não tem o 'pode ser': é quarto de milha ou não é", finaliza Bertolli.

Em franca expansão

A ABQM é responsável por 90% dos pedidos de análise que chegam à Linkgen. A empresa recentemente iniciou análise para a Associação Brasileira dos Cavalos Paint e também negocia com a Asociación Rural del Paraguay. A Linkgen não tem patente da sua técnica, já que usa o conhecimento difundido na literatura. No setor, hoje, a Linkgen enfrenta a concorrência de outros seis laboratórios. O Ministério da Agricultura é o órgão que credencia e autoriza o funcionamento de "laboratórios de genotipagem veterinária por DNA", como o que está no coração da Linkgen.

Para Cynthia — que fundou sua empresa em 1996 —, o mercado está em franca expansão e há espaço para todos. Além do crescimento do plantel, há um novo mercado em formação: o da identificação e certificação de clones. Apesar de ainda não ser realizada comercialmente, a clonagem tem, por exemplo, o apoio da rica Associação Brasileira de Criadores de Zebu. Nas feiras que realiza, um único leilão de animais movimenta cerca de R$ 40 milhões; e o volume de material genético para inseminação comercializado pode atingir R$ 6 milhões por feira.

O professor José Antonio Visintin, do Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), primeiro pesquisador brasileiro a clonar um bezerro por célula diferenciada, já recorreu duas vezes à Linkgen. Em 2002, um dos seus alunos trocou por acidente a célula de clonagem entre dois experimentos — o que só foi percebido quando, para surpresa geral, em vez de nascer uma bezerra clonada, nasceu um bezerro, batizado Marcolino. Naquela ocasião, o professor Visintin recorreu à Linkgen. "Nós fazíamos dois experimentos: um com a célula de um macho jovem e outro com a célula de uma fêmea adulta. A idéia era começar pela fêmea adulta. Mas houve uma troca. Pedi socorro à Linkgen, que ajudou a resolver o mistério — provando que o Marcolino era mesmo um clone, resultado da inversão do experimento." Visintin foi orientador de doutorado de Marcella Mazzamilla e também de um dos consultores da empresa, José Fernando Garcia, professor da Veterinária da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araçatuba.

"A verificação pelos marcadores genéticos é fundamental para comprovar o sucesso da clonagem, uma vez que se trabalha com quatro materiais de origens diferentes: do doador da célula, da cultura da célula, do bezerro que nasce e da mãe de aluguel. Nesse aspecto, a Linkgen atua com segurança", finaliza Visintin.

Novos projetos

O faturamento anual da empresa está na faixa dos R$ 300 mil. Cynthia espera ampliar a renda tão logo consiga desenvolver técnicas de novos exames, dedicados à detecção de doenças. Atualmente, a empresa já é capaz de identificar se um cavalo é ou não portador ativo do gene da chamada paralisia periódica e hipercalcêmica — que pode deixar o animal paralítico. A doença tem base genética — por isso pode ser detectada por técnicas como a que a Linkgen já usa. Outro projeto da empresa é desenvolver um método de detecção do gene causador de uma doença de ovelhas chamada "scrapie" — e para isso enviou outro projeto para a Fapesp. "É uma doença correlata à doença da vaca louca, mas em ovinos", explica Cynthia. Este novo campo de análises por DNA para prevenção de doenças é a aposta da Linkgen para se manter à frente no mercado veterinário.