Linkgen
Detecção de doenças genéticas
por análise de DNA é a próxima aposta da empresa,
pioneira de testes genéticos para animais
Davi
Molinari
Tudo o que a Linkgen
precisa para dizer, com 99,9% de certeza, se um
certo animal é mesmo filho de quem o dono
diz serem seu pai e sua mãe está
instalado em um escritório de 80 metros
quadrados no bairro do Paraíso, capital
de São Paulo. Esse é o negócio
da empresa: comprovar o vínculo genético
entre animais, usando técnicas de biologia
molecular. No escritório, que também
é um laboratório, a doutora em biologia
Marcella Mazzamilla segue a rotina: analisar amostras
de pêlos de cavalos — principalmente
—, que vêm de diversos pontos do País.
Enquanto Marcella manipula os pedaços minúsculos
de pêlo, sempre com o bulbo, para retirar
deles o DNA do animal, chega à mesa de
trabalho um maço de pequenos envelopes
pardos. Cada um deles contém um ficha padronizada,
com nome, registro, data de nascimento, pelagem,
sexo, raça e informações
sobre os pais do potro que se quer identificar.
Há também informações
sobre o dono do animal. Desses envelopes, a bióloga
retira o material que leva para exame. Cerca de
300 amostras de pêlos de cavalo chegam ao
laboratório todos os meses.
O equipamento
que Marcella usa para realizar os "testes
de paternidade" foi adquirido com recursos
do programa de apoio à pequena empresa
que inova da Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp). Em 1998, a dona e fundadora da empresa,
Cynthia Rachid Bydlowsky, apresentou seu projeto
dentro do PIPE. Com a aprovação,
nas fases I e II, a empresa recebeu R$ 20 mil
e US$ 118,5 mil. Com o dinheiro, comprou uma máquina
que copia os pedaços de DNA retirados dos
pedaços de pêlo, uma outra máquina
que lê o código genético contido
nos trechos de DNA, chamada seqüenciador
automático, e uma "capela" de
fluxo laminar — que cria o ambiente esterilizado
dentro do qual Marcella faz parte da manipulação
das amostras. "Usamos marcadores de DNA como
base de comparação para atestar
a paternidade", explica a bióloga,
enquanto mostra no monitor os gráficos
gerados pelo seqüenciador. Se a filiação
for mesmo a alegada, as curvas no monitor serão
coincidentes.
Pioneirismo
Os anos 1980 e
1990 foram férteis para o desenvolvimento
de técnicas e ferramentas de biotecnologia
— como as utilizadas pela Linkgen. O barateamento
e a simplificação das técnicas
popularizaram os serviços de análise
de DNA para testes de paternidade humanos. Cynthia
projetou levar a análise por DNA à
área de veterinária. "A idéia
foi desenvolver um método para permitir
a verificação da paternidade e a
identificação de um animal por meio
da análise de seu genótipo",
explica a biomédica. Hoje, a Linkgen usa
como padrão 12 trechos de DNA (marcadores)
para verificar o vínculo genético.
A definição do padrão dá
velocidade à análise. Embora a empresa
tenha condições técnicas
de assinar um laudo em até 72 horas, ela
pede duas semanas de prazo, por causa do número
de pedidos.
Depois de desenvolver
o método de análise, Cynthia precisou
mostrar aos clientes suas vantagens em relação
aos métodos convencionais. A própria
pesquisadora saiu a campo em busca de negócios.
Se o preço de um cavalo pode chegar a R$
2 milhões, pensou, quanto mais precisa
a certificação da raça e
da ascendência, melhor. Ela procurou a Associação
Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha
(ABQM) para mostrar que os exames por DNA têm
uma precisão de acerto de 99,91%, contra
96,5% das análises de tipagem sangüínea,
usadas na época. Outra vantagem: a análise
por sangue exige profissional especializado e
instrumentos de coleta e transporte; o exame de
DNA só precisa de uma amostra de 50 fios
de pêlo retirados da crina do animal, enviados
por carta.
Desde o início,
a ABQM apoiou o projeto da Linkgen. Hoje responsável
pelo registro de um plantel de 300 mil cavalos
da raça quarto de milha, a associação
é a principal cliente do laboratório.
Os proprietários dos cavalos são
orientados a verificar o vínculo genético
do potro para obter a inscrição
nos cartórios de registro dos animais.
"Nossa associação foi a pioneira
em pedir exames de DNA, e em breve isto será
obrigatório para todas as entidades",
prevê o veterinário Jarbas Bertolli,
superintendente do Stud Book, livro de registro
da ABQM. A própria associação
recolhe as amostras e as envia para a Linkgen.
O custo para o produtor é de R$ 140 por
potro — o que cobre os custos da empresa
e os da associação. "O exame
por DNA nos dá segurança para registro,
não tem interferência humana. Não
tem o 'pode ser': é quarto de milha ou
não é", finaliza Bertolli.
Em franca
expansão
A ABQM é
responsável por 90% dos pedidos de análise
que chegam à Linkgen. A empresa recentemente
iniciou análise para a Associação
Brasileira dos Cavalos Paint e também negocia
com a Asociación Rural del Paraguay. A
Linkgen não tem patente da sua técnica,
já que usa o conhecimento difundido na
literatura. No setor, hoje, a Linkgen enfrenta
a concorrência de outros seis laboratórios.
O Ministério da Agricultura é o
órgão que credencia e autoriza o
funcionamento de "laboratórios de
genotipagem veterinária por DNA",
como o que está no coração
da Linkgen.
Para Cynthia —
que fundou sua empresa em 1996 —, o mercado
está em franca expansão e há
espaço para todos. Além do crescimento
do plantel, há um novo mercado em formação:
o da identificação e certificação
de clones. Apesar de ainda não ser realizada
comercialmente, a clonagem tem, por exemplo, o
apoio da rica Associação Brasileira
de Criadores de Zebu. Nas feiras que realiza,
um único leilão de animais movimenta
cerca de R$ 40 milhões; e o volume de material
genético para inseminação
comercializado pode atingir R$ 6 milhões
por feira.
O professor José Antonio Visintin, do Departamento
de Reprodução Animal da Faculdade
de Medicina Veterinária e Zootecnia da
Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), primeiro
pesquisador brasileiro a clonar um bezerro por
célula diferenciada, já recorreu
duas vezes à Linkgen. Em 2002, um dos seus
alunos trocou por acidente a célula de
clonagem entre dois experimentos — o que
só foi percebido quando, para surpresa
geral, em vez de nascer uma bezerra clonada, nasceu
um bezerro, batizado Marcolino. Naquela ocasião,
o professor Visintin recorreu à Linkgen.
"Nós fazíamos dois experimentos:
um com a célula de um macho jovem e outro
com a célula de uma fêmea adulta.
A idéia era começar pela fêmea
adulta. Mas houve uma troca. Pedi socorro à
Linkgen, que ajudou a resolver o mistério
— provando que o Marcolino era mesmo um
clone, resultado da inversão do experimento."
Visintin foi orientador de doutorado de Marcella
Mazzamilla e também de um dos consultores
da empresa, José Fernando Garcia, professor
da Veterinária da Universidade Estadual
Paulista (Unesp) de Araçatuba.
"A verificação
pelos marcadores genéticos é fundamental
para comprovar o sucesso da clonagem, uma vez
que se trabalha com quatro materiais de origens
diferentes: do doador da célula, da cultura
da célula, do bezerro que nasce e da mãe
de aluguel. Nesse aspecto, a Linkgen atua com
segurança", finaliza Visintin.
Novos projetos
O faturamento
anual da empresa está na faixa dos R$ 300
mil. Cynthia espera ampliar a renda tão
logo consiga desenvolver técnicas de novos
exames, dedicados à detecção
de doenças. Atualmente, a empresa já
é capaz de identificar se um cavalo é
ou não portador ativo do gene da chamada
paralisia periódica e hipercalcêmica
— que pode deixar o animal paralítico.
A doença tem base genética —
por isso pode ser detectada por técnicas
como a que a Linkgen já usa. Outro projeto
da empresa é desenvolver um método
de detecção do gene causador de
uma doença de ovelhas chamada "scrapie"
— e para isso enviou outro projeto para
a Fapesp. "É uma doença correlata
à doença da vaca louca, mas em ovinos",
explica Cynthia. Este novo campo de análises
por DNA para prevenção de doenças
é a aposta da Linkgen para se manter à
frente no mercado veterinário.