Opto
Aos 20 anos, empresa de ótica
de precisão de São Carlos prova: também no Brasil,
riqueza e crescimento rimam com conhecimento
Mônica
Teixeira
Faturamento de
R$ 45 milhões em 2006, 30% maior do que
em 2005; 300 funcionários; no final do
ano, lançamento de ações
na bolsa da Austrália, com o objetivo de
levantar US$ 100 milhões; portfolio
de 50 produtos de "alta tecnologia em ótica
para indústria, ciência e medicina",
na descrição que a empresa faz de
si própria; 47% do mercado mundial (e 100%
do nacional) de refletores odontológicos
— esses com que os dentistas iluminam a
boca dos clientes: a Opto Eletrônica, de
São Carlos, interior de São Paulo,
é um colírio para os olhos de quem
vê, no futuro do País, desenvolvimento
gerado por conhecimento. Em outubro, a empresa
comemorou 20 anos de fundação. Houve festa — de
aniversário e de inauguração do prédio que agora
abriga o Centro de Pesquisa, Tecnologia e Inovação
da empresa.
A prosperidade
transpira pelas dependências da empresa.
Por exemplo, nas salas de um dos prédios
mais antigos, ocupadas pelo laboratório
de aplicação de tratamento anti-reflexo
a lentes de óculos. De lá sai a
menor parte da capacidade total de tratamentos
— 900 tratamentos/dia — feitos em
São Carlos, em Porto Alegre, pela Opto
Sul, e em Fortaleza, pela Opto Nordeste, a mais
nova filial da empresa. Quem conta sobre as filiais,
com entusiasmo genuíno, é Cibele
Marchiori, responsável pelo (bom) marketing,
enquanto percorremos o labirinto de corredores
que sucessivas ampliações foram
traçando, unindo os prédios mais
antigos da empresa. Entusiasmo e orgulho também
se escutam nas palavras da funcionária
da divisão médica, ao explicar que
o ar elegante do microscópio cirúrgico
branco, montado sobre um pedestal com rodinhas,
ganhou prêmio de design. Não
só elegante — também campeão
de vendas da divisão: é usado em
neurologia, odontologia, oftalmologia e otorrinolaringologia.
O tratamento anti-reflexo
e anti-risco de lentes de óculos é
um desdobramento do domínio da tecnologia
de filmes finos, a mesma que fez o sucesso dos
refletores odontológicos — o primeiro
sucesso comercial da Opto, do começo da
década de 1990, que impulsionou a empresa,
e atualmente o produto principal da divisão
de componentes. A maior especialidade da empresa,
no entanto, é a tecnologia de lasers;
uma de suas apostas mais importantes para o futuro
são os microscópios e lasers
para cirurgias e tratamentos oftalmológicos
e odontológicos. A Opto Global, com sede
em Adelaide, na Austrália, nasceu em 2003
para distribuir mundialmente, com exclusividade,
a linha de produtos oftalmológicos. Dois
deles — o retinógrafo, que fotografa
retina, e o campímetro computadorizado,
que mede campo visual — já foram
aprovados pelo governo dos EUA para comercialização
no país.
Um passo
ousado para avançar no mercado global
A empresa global
poderá ter muito trabalho comercializando
nos próximos anos lasers especiais
para terapia de retina, fabricados em São
Carlos. Esses lasers poderão vir
a ser utilizados no tratamento do tipo mais grave
de uma doença chamada degeneração
macular relacionada à idade (DMRI) —
que atinge a retina e leva à cegueira.
Atualmente, o tratamento combina lasers
fabricados por duas empresas bem estabelecidas
no mercado — a Coherent e a Zeiss —
com um corante produzido pela Novartis. O oftalmologista
injeta na corrente sanguínea do paciente
o corante, que vai se concentrar na região
doente da retina. O laser é então
utilizado para "fotocoagular" a área
doente. Para isso, o laser tem de emitir
luz de um determinado comprimento de onda —
aquele que reage com o corante. A terapia fotodinâmica
— como é chamada — custa caro:
cada ampola sai por R$ 4,6 mil e, no primeiro
ano, o tratamento deve ser repetido três
vezes.
Quem explica tudo
isso é Rogério Alves Costa que,
com José Augusto Cardillo, desenvolveu
uma alternativa de tratamento, na Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), que utiliza
um corante diferente — chamado indocianina
verde. Se o corante é diferente, o laser
também tem de ser: sob orientação
dos médicos, a Opto desenvolveu o fotocoagulador
a laser com o comprimento de onda e as
características adequadas às necessidades
ditadas pelo uso da indocianina. Para verificar
a eficiência do tratamento brasileiro em
relação ao tratamento hoje padrão,
desde junho de 2006 a Opto financia ensaios clínicos:
instalou seus lasers em 27 centros oftalmológicos
que estão aplicando o corante e estudando
o novo tratamento. A principal vantagem: o preço.
Cada ampola custa R$ 300, nove vezes menos que
o corante da Novartis.
Se os resultados
forem bons, os ensaios clínicos serão
estendidos a centros oftalmológicos em
todo o mundo. Vai ser um estouro, pensam os donos:
só nos EUA, há 14 milhões
de pessoas com DMRI. A Opto sairá na frente,
com o laser certo para o corante muito
mais barato. Mas enquanto se prepara para essa
possibilidade, a Opto não pára:
outro laser para oftalmologia está
em desenvolvimento. Um laser que os oftalmologistas
vão poder usar com mais segurança
nos tratamentos da retina de seus pacientes, e
feito só por mais duas empresas no mundo.
E de onde está vindo parte dos recursos
para a empresa desenvolver mais esse laser?
Do Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) — o quarto da Opto.
O primeiro
Pipe a Opto ainda não esqueceu
Mário Antonio
Stefani é o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento
da Opto há 15 anos. No momento, o P&D
trabalha em sete projetos — três militares,
dois da divisão espacial, dois da área
oftalmológica. Em seu setor, trabalham
11 doutores — Mário incluído
—, sete técnicos e 12 engenheiros
e físicos. A posição é
chave na empresa: como explica Jarbas Caiado de
Castro, presidente e fundador, todos os produtos
da Opto derivam de conhecimento criado pelos pesquisadores
da própria empresa.
O investimento
médio anual em P&D é de 16%
do faturamento. Dali saem artigos científicos,
doutorados e patentes. Em 1997, Mário coordenou
o primeiro PIPE da empresa — para desenvolver
um medidor de distâncias longas a laser,
destinado a uso industrial. (A Opto nasceu para
construir lasers — por isso o equipamento
permeia tantos de seus produtos. Esse laser
pioneiro, Jarbas aprendeu a construir na USP de
São Carlos, com financiamento do Banco
do Brasil. Mas não havia mercado para ele
no País. Parte do conhecimento necessário
para construir esse laser esteve na base
do espelho odontológico que deu fôlego
à empresa.) A Opto já sabia fazer
medidores de distâncias mais curtas —
esse tinha sido o tema do doutorado de Mário,
com orientação do próprio
Jarbas, no Instituto de Física de São
Carlos. A Fapesp aprovou o financiamento de R$
117 mil e US$ 115 mil.
Dois anos depois,
o projeto, bem-sucedido, virou produto —
que, afinal, nunca fez sucesso. Nas palavras de
Mário, o medidor de longa distância
a laser "não pegou". No
entanto, como no mundo da tecnologia o certo pode
perfeitamente se escrever por linhas tortas, o
financiamento do PIPE, ao criar uma capacidade
que antes não existia na empresa, gerou
outro produto, para outro mercado: uma espoleta
a laser, ou sensor de proximidade de míssil,
atualmente usada pela Força Aérea,
que compra cinco por mês, e é de
valor agregado "altíssimo". Funciona
mais ou menos assim: o alvo do míssil é
o avião do oponente. Mísseis equipados
com espoleta a laser dispensam chocar-se
com o avião para explodir: ela é
um sensor que detecta quando o míssil chega
à chamada "distância de letalidade"
do alvo — quer dizer, é um medidor
de distância —; a partir daí,
avalia as trajetórias relativas e decide
o melhor momento para detonar. A Opto desenvolveu
software e hardware.
Mas, voltando
um pouco atrás, o que será essa
"capacidade" a que Mário se referiu?
O diretor de P&D explica com clareza: capacidade
é gente, conhecimento e instrumentação.
A equipe que trabalhou na espoleta — três
engenheiros e dois técnicos — "já
conhecia um rol de soluções",
pois foi a mesma do projeto do PIPE. Por meio
do financiamento do PIPE, a empresa teve acesso
a uma bagagem instrumental. No caso, osciloscópios,
espectrofotômetros, analisador lógico,
analisador de espectro. Tudo isso é da
Fapesp, mas fica na empresa. E ainda está
lá. "Se tivéssemos que comprar
só esse osciloscópio, na época,
nossa capacidade de investimento estaria terminada.
E pagaríamos o dobro do que a Fapesp pagou,
por causa dos impostos de importação."
Para atender às
necessidades de detectar o alvo em movimento rápido,
à distância, em baixas temperaturas,
a equipe desenvolveu um sistema sofisticado de
controle para o laser da espoleta. O laser
que vai ser usado para tratar a degeneração
macular também exige controle sofisticado
— a capacidade adquirida no projeto militar
da espoleta está sendo reaproveitada no
novo aparelho. O fotocoagulador trata também
certos tipos de glaucomas e outras doenças
da retina. É uma aplicação
de um tipo de laser mais sofisticado —
chamado laser de diodo — à
oftalmologia. Esse é um desenvolvimento
de risco alto — e, para isso, a empresa
pediu um financiamento novo no programa PIPE,
aprovado em fevereiro: US$ 80 mil mais R$ 207
mil.
Primeira
no País
Em março,
a Opto tornou-se a primeira empresa a receber
financiamento dentro das novas linhas do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) para inovação —
lançadas 15 dias antes. Os R$ 6,7 milhões
do banco representam 55% do investimento necessário
para implantar a linha de produção
de lentes anesféricas. Jarbas explicou
à repórter Janaína Simões,
do Inovação,
em março
de 2006, que a nova tecnologia é sofisticada.
"O custo de produção varia
de US$ 200 a US$ 300, mas quem fabrica vende até
por US$ 4 mil", disse. As lentes anesféricas
aumentam a precisão dos aparelhos óticos
e permitem o uso de um número menor de
lentes. Os retinógrafos da Opto precisam,
atualmente, de um conjunto de 37 lentes. Quando
começar a produção das novas,
anesféricas, esse número será
reduzido. Com isso, o preço deverá
cair e a qualidade, aumentar. Hoje, o preço
do retinógrafo da Opto gira em torno de
US$ 30 mil.
"Apenas
quatro ou cinco lugares no mundo fazem esse equipamento",
informa Castro. Ele espera, por isso, ampliar
as exportações de retinógrafos
de 20% — como é hoje — para
40% ou 50% de sua produção, com
a fabricação das novas lentes. "Não
vamos vender as lentes, e sim produzir as que
precisamos para tornar nosso produto mais competitivo",
ressalta.
Essa inovação
envolverá um grande esforço dos
pesquisadores, engenheiros e técnicos da
Opto no processo de redesenho ótico dos
equipamentos. A empresa deverá contratar
um ou dois cientistas para o trabalho. “Redesenhar
a ótica do equipamento é uma das
partes mais caras da pesquisa e desenvolvimento”,
disse Jarbas.
Para a nova linha
de produção, a Opto comprou um equipamento
de um milhão de euros — para operá-lo,
contratou mais um doutor em ótica. Equipamento
e linha foram instalados no prédio novo.
Os quatro andares mais uma metade de andar para
o heliponto custaram R$ 6 milhões. Uma
sala limpa muito especial também 'mora'
nele. Sozinha, representa um sexto do investimento
no prédio. Ela atende à divisão
aeroespacial, outro front de atuação
da empresa.
A Opto
e o INPE
Esse front
se abriu em 2004, quando a Opto ganhou a concorrência
feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE) para o desenvolvimento de uma das câmaras
que vão equipar os próximos satélites
sino-brasileiros de sensoriamento remoto —
o CBERS 3, com lançamento previsto para
2008, e o CBERS 4, previsto para 2010. A China
fabricou as câmaras do CBERS 1 e do CBERS
2. Desta vez, das quatro que vão equipar
o terceiro e o quarto satélites, duas estão
sendo fabricadas no Brasil. A Opto desenvolve
sozinha — e depois vai fabricar —
a câmara chamada "MUX", ou multiespectral.
Com outra empresa fornecedora do projeto do satélite
— a Equatorial —, participa do desenvolvimento
da segunda. Nesta, chamada "WFI" —
Wide Field Imager, ou Imageador de Amplo Campo
de Visada —, faz as partes ótica,
eletrônica e mecânica. A resolução
espacial da primeira é de 20 metros —
quer dizer, mostrará com definição
quadrados com 20 metros de aresta. Com ela, o
INPE poderá dizer, quando o CBERS 3 estiver
em órbita, em que terreno está ocorrendo
desmatamento na Amazônia; ou o lugar de
um loteamento clandestino em São Paulo.
A outra câmara tem o objetivo de ver áreas
maiores: quadrados do solo de 80 metros de lado.
Construir câmaras
que devem funcionar por muito tempo no espaço
é tarefa difícil. Elas devem ser
capazes, por exemplo, de suportar temperaturas
muito altas e muito baixas. Também a luz
solar incidindo nas lentes é um problema.
É por isso que precisam da sala limpa.
Se o trabalho for bem sucedido — de acordo
com o INPE, as etapas estão sendo cumpridas
—, a Opto poderá dizer ao mercado
internacional de instrumentos óticos de
precisão que tem competência para
projetos muito sofisticados do ponto de vista
tecnológico.
O papel
decisivo da Finep
Jarbas de Castro
está sempre preocupado com o financiamento
da expansão da Opto. Por exemplo, se os
ensaios clínicos do tratamento de degeneração
macular derem certo aqui no Brasil, vai ser preciso
estendê-los para o mundo. Jarbas calcula
o custo disso em US$ 20 milhões —
e é por isso que quis lançar a Opto
Global em bolsa na Austrália, para arrecadar
o dinheiro necessário. Quando fundou a
empresa com Milton Ferreira de Souza, que fora
seu orientador no mestrado do Instituto de Física
da USP de São Carlos, ele já pensava
nisso. O primeiro milhão de dólares,
necessário para dar o pontapé inicial
no sonho de fazer o laser que aprendeu
a fazer em seu doutorado no Massachusetts Institute
of Technology (MIT), os sócios foram buscar
na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Conseguiram — porque a agência confiou,
especialmente, no professor Milton, muito respeitado
no meio acadêmico, e aceitou como garantia
para o empréstimo os próprios equipamentos
que o empréstimo comprou: máquinas
para fazer filmes finos, espelhos de laser
etc. O passo seguinte foi buscar um investidor
— que colocou R$ 280 mil na Opto. Jarbas
diz não ter gostado da experiência,
mas admite que foi a pressão dele, querendo
multiplicar o investido o mais rápido possível,
que fez a Opto virar uma empresa de verdade. Em
2003, o investidor finalmente saiu do capital,
levando dez vezes o que aplicou. "E ainda
achou pouco", reclama o presidente.
Outra reclamação
de Jarbas mostra que a Opto é uma empresa
de base tecnológica com visão de
empresa primeiro mundista. "Investimos R$
4 milhões para desenvolver o retinógrafo.
Parece que não adiantou nada, porque nem
a Finep nem o BNDES aceitam as patentes como bens."
A cultura de valorização da propriedade
intelectual ainda não se construiu no Brasil
— no caso das agências governamentais,
a legislação não permite
garantias não reais, como é o caso
de patentes. A Opto tem patentes registradas no
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI),
mas as últimas três estão
sendo registradas no escritório de patentes
do governo norte-americano. "Já ocorreu
de escolhermos não depositar patentes para
abrir tecnologia. Quando depositamos, é
porque achamos que poderemos ganhar dinheiro com
a tecnologia, ou porque achamos que vamos precisar
nos defender." Os produtos para a área
de defesa — como a espoleta a laser
— não podem ser patenteados.
Para obter o empréstimo
mais recente na Finep, que complementa o PIPE
para o desenvolvimento do laser mais seguro
para aplicações médicas,
a empresa deu em garantia os bens pessoais dos
sócios; e para o BNDES, os imóveis
da empresa e os equipamentos que vão ser
comprados. "Estamos dando tudo. Tenho certeza
que vamos conseguir pagar — o caso é
que nossa capacidade para novos financiamentos
agora está limitada."
Jarbas, ainda
professor do Instituto de Física da USP
de São Carlos, tem a fórmula para
o desenvolvimento do Brasil: "Precisamos
exportar mais qualidade de trabalho. Na soja,
por exemplo, o que exportamos é trabalho
braçal. Mais riqueza vai ficar no País
quando exportamos o trabalho de um físico,
de um químico — dos nossos doutores".