Publicado em 13 de setembro 2006
Atualizado em 20 de dezembro 2006





Opto
Aos 20 anos, empresa de ótica de precisão de São Carlos prova: também no Brasil, riqueza e crescimento rimam com conhecimento

Mônica Teixeira

Faturamento de R$ 45 milhões em 2006, 30% maior do que em 2005; 300 funcionários; no final do ano, lançamento de ações na bolsa da Austrália, com o objetivo de levantar US$ 100 milhões; portfolio de 50 produtos de "alta tecnologia em ótica para indústria, ciência e medicina", na descrição que a empresa faz de si própria; 47% do mercado mundial (e 100% do nacional) de refletores odontológicos — esses com que os dentistas iluminam a boca dos clientes: a Opto Eletrônica, de São Carlos, interior de São Paulo, é um colírio para os olhos de quem vê, no futuro do País, desenvolvimento gerado por conhecimento. Em outubro, a empresa comemorou 20 anos de fundação. Houve festa — de aniversário e de inauguração do prédio que agora abriga o Centro de Pesquisa, Tecnologia e Inovação da empresa.

A prosperidade transpira pelas dependências da empresa. Por exemplo, nas salas de um dos prédios mais antigos, ocupadas pelo laboratório de aplicação de tratamento anti-reflexo a lentes de óculos. De lá sai a menor parte da capacidade total de tratamentos — 900 tratamentos/dia — feitos em São Carlos, em Porto Alegre, pela Opto Sul, e em Fortaleza, pela Opto Nordeste, a mais nova filial da empresa. Quem conta sobre as filiais, com entusiasmo genuíno, é Cibele Marchiori, responsável pelo (bom) marketing, enquanto percorremos o labirinto de corredores que sucessivas ampliações foram traçando, unindo os prédios mais antigos da empresa. Entusiasmo e orgulho também se escutam nas palavras da funcionária da divisão médica, ao explicar que o ar elegante do microscópio cirúrgico branco, montado sobre um pedestal com rodinhas, ganhou prêmio de design. Não só elegante — também campeão de vendas da divisão: é usado em neurologia, odontologia, oftalmologia e otorrinolaringologia.

O tratamento anti-reflexo e anti-risco de lentes de óculos é um desdobramento do domínio da tecnologia de filmes finos, a mesma que fez o sucesso dos refletores odontológicos — o primeiro sucesso comercial da Opto, do começo da década de 1990, que impulsionou a empresa, e atualmente o produto principal da divisão de componentes. A maior especialidade da empresa, no entanto, é a tecnologia de lasers; uma de suas apostas mais importantes para o futuro são os microscópios e lasers para cirurgias e tratamentos oftalmológicos e odontológicos. A Opto Global, com sede em Adelaide, na Austrália, nasceu em 2003 para distribuir mundialmente, com exclusividade, a linha de produtos oftalmológicos. Dois deles — o retinógrafo, que fotografa retina, e o campímetro computadorizado, que mede campo visual — já foram aprovados pelo governo dos EUA para comercialização no país.

Um passo ousado para avançar no mercado global

A empresa global poderá ter muito trabalho comercializando nos próximos anos lasers especiais para terapia de retina, fabricados em São Carlos. Esses lasers poderão vir a ser utilizados no tratamento do tipo mais grave de uma doença chamada degeneração macular relacionada à idade (DMRI) — que atinge a retina e leva à cegueira. Atualmente, o tratamento combina lasers fabricados por duas empresas bem estabelecidas no mercado — a Coherent e a Zeiss — com um corante produzido pela Novartis. O oftalmologista injeta na corrente sanguínea do paciente o corante, que vai se concentrar na região doente da retina. O laser é então utilizado para "fotocoagular" a área doente. Para isso, o laser tem de emitir luz de um determinado comprimento de onda — aquele que reage com o corante. A terapia fotodinâmica — como é chamada — custa caro: cada ampola sai por R$ 4,6 mil e, no primeiro ano, o tratamento deve ser repetido três vezes.

Quem explica tudo isso é Rogério Alves Costa que, com José Augusto Cardillo, desenvolveu uma alternativa de tratamento, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que utiliza um corante diferente — chamado indocianina verde. Se o corante é diferente, o laser também tem de ser: sob orientação dos médicos, a Opto desenvolveu o fotocoagulador a laser com o comprimento de onda e as características adequadas às necessidades ditadas pelo uso da indocianina. Para verificar a eficiência do tratamento brasileiro em relação ao tratamento hoje padrão, desde junho de 2006 a Opto financia ensaios clínicos: instalou seus lasers em 27 centros oftalmológicos que estão aplicando o corante e estudando o novo tratamento. A principal vantagem: o preço. Cada ampola custa R$ 300, nove vezes menos que o corante da Novartis.

Se os resultados forem bons, os ensaios clínicos serão estendidos a centros oftalmológicos em todo o mundo. Vai ser um estouro, pensam os donos: só nos EUA, há 14 milhões de pessoas com DMRI. A Opto sairá na frente, com o laser certo para o corante muito mais barato. Mas enquanto se prepara para essa possibilidade, a Opto não pára: outro laser para oftalmologia está em desenvolvimento. Um laser que os oftalmologistas vão poder usar com mais segurança nos tratamentos da retina de seus pacientes, e feito só por mais duas empresas no mundo. E de onde está vindo parte dos recursos para a empresa desenvolver mais esse laser? Do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) — o quarto da Opto.

O primeiro Pipe a Opto ainda não esqueceu

Mário Antonio Stefani é o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Opto há 15 anos. No momento, o P&D trabalha em sete projetos — três militares, dois da divisão espacial, dois da área oftalmológica. Em seu setor, trabalham 11 doutores — Mário incluído —, sete técnicos e 12 engenheiros e físicos. A posição é chave na empresa: como explica Jarbas Caiado de Castro, presidente e fundador, todos os produtos da Opto derivam de conhecimento criado pelos pesquisadores da própria empresa.

O investimento médio anual em P&D é de 16% do faturamento. Dali saem artigos científicos, doutorados e patentes. Em 1997, Mário coordenou o primeiro PIPE da empresa — para desenvolver um medidor de distâncias longas a laser, destinado a uso industrial. (A Opto nasceu para construir lasers — por isso o equipamento permeia tantos de seus produtos. Esse laser pioneiro, Jarbas aprendeu a construir na USP de São Carlos, com financiamento do Banco do Brasil. Mas não havia mercado para ele no País. Parte do conhecimento necessário para construir esse laser esteve na base do espelho odontológico que deu fôlego à empresa.) A Opto já sabia fazer medidores de distâncias mais curtas — esse tinha sido o tema do doutorado de Mário, com orientação do próprio Jarbas, no Instituto de Física de São Carlos. A Fapesp aprovou o financiamento de R$ 117 mil e US$ 115 mil.

Dois anos depois, o projeto, bem-sucedido, virou produto — que, afinal, nunca fez sucesso. Nas palavras de Mário, o medidor de longa distância a laser "não pegou". No entanto, como no mundo da tecnologia o certo pode perfeitamente se escrever por linhas tortas, o financiamento do PIPE, ao criar uma capacidade que antes não existia na empresa, gerou outro produto, para outro mercado: uma espoleta a laser, ou sensor de proximidade de míssil, atualmente usada pela Força Aérea, que compra cinco por mês, e é de valor agregado "altíssimo". Funciona mais ou menos assim: o alvo do míssil é o avião do oponente. Mísseis equipados com espoleta a laser dispensam chocar-se com o avião para explodir: ela é um sensor que detecta quando o míssil chega à chamada "distância de letalidade" do alvo — quer dizer, é um medidor de distância —; a partir daí, avalia as trajetórias relativas e decide o melhor momento para detonar. A Opto desenvolveu software e hardware.

Mas, voltando um pouco atrás, o que será essa "capacidade" a que Mário se referiu? O diretor de P&D explica com clareza: capacidade é gente, conhecimento e instrumentação. A equipe que trabalhou na espoleta — três engenheiros e dois técnicos — "já conhecia um rol de soluções", pois foi a mesma do projeto do PIPE. Por meio do financiamento do PIPE, a empresa teve acesso a uma bagagem instrumental. No caso, osciloscópios, espectrofotômetros, analisador lógico, analisador de espectro. Tudo isso é da Fapesp, mas fica na empresa. E ainda está lá. "Se tivéssemos que comprar só esse osciloscópio, na época, nossa capacidade de investimento estaria terminada. E pagaríamos o dobro do que a Fapesp pagou, por causa dos impostos de importação."

Para atender às necessidades de detectar o alvo em movimento rápido, à distância, em baixas temperaturas, a equipe desenvolveu um sistema sofisticado de controle para o laser da espoleta. O laser que vai ser usado para tratar a degeneração macular também exige controle sofisticado — a capacidade adquirida no projeto militar da espoleta está sendo reaproveitada no novo aparelho. O fotocoagulador trata também certos tipos de glaucomas e outras doenças da retina. É uma aplicação de um tipo de laser mais sofisticado — chamado laser de diodo — à oftalmologia. Esse é um desenvolvimento de risco alto — e, para isso, a empresa pediu um financiamento novo no programa PIPE, aprovado em fevereiro: US$ 80 mil mais R$ 207 mil.

Primeira no País

Em março, a Opto tornou-se a primeira empresa a receber financiamento dentro das novas linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para inovação — lançadas 15 dias antes. Os R$ 6,7 milhões do banco representam 55% do investimento necessário para implantar a linha de produção de lentes anesféricas. Jarbas explicou à repórter Janaína Simões, do Inovação, em março de 2006, que a nova tecnologia é sofisticada. "O custo de produção varia de US$ 200 a US$ 300, mas quem fabrica vende até por US$ 4 mil", disse. As lentes anesféricas aumentam a precisão dos aparelhos óticos e permitem o uso de um número menor de lentes. Os retinógrafos da Opto precisam, atualmente, de um conjunto de 37 lentes. Quando começar a produção das novas, anesféricas, esse número será reduzido. Com isso, o preço deverá cair e a qualidade, aumentar. Hoje, o preço do retinógrafo da Opto gira em torno de US$ 30 mil.

"Apenas quatro ou cinco lugares no mundo fazem esse equipamento", informa Castro. Ele espera, por isso, ampliar as exportações de retinógrafos de 20% — como é hoje — para 40% ou 50% de sua produção, com a fabricação das novas lentes. "Não vamos vender as lentes, e sim produzir as que precisamos para tornar nosso produto mais competitivo", ressalta.

Essa inovação envolverá um grande esforço dos pesquisadores, engenheiros e técnicos da Opto no processo de redesenho ótico dos equipamentos. A empresa deverá contratar um ou dois cientistas para o trabalho. “Redesenhar a ótica do equipamento é uma das partes mais caras da pesquisa e desenvolvimento”, disse Jarbas.

Para a nova linha de produção, a Opto comprou um equipamento de um milhão de euros — para operá-lo, contratou mais um doutor em ótica. Equipamento e linha foram instalados no prédio novo. Os quatro andares mais uma metade de andar para o heliponto custaram R$ 6 milhões. Uma sala limpa muito especial também 'mora' nele. Sozinha, representa um sexto do investimento no prédio. Ela atende à divisão aeroespacial, outro front de atuação da empresa.

A Opto e o INPE

Esse front se abriu em 2004, quando a Opto ganhou a concorrência feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para o desenvolvimento de uma das câmaras que vão equipar os próximos satélites sino-brasileiros de sensoriamento remoto — o CBERS 3, com lançamento previsto para 2008, e o CBERS 4, previsto para 2010. A China fabricou as câmaras do CBERS 1 e do CBERS 2. Desta vez, das quatro que vão equipar o terceiro e o quarto satélites, duas estão sendo fabricadas no Brasil. A Opto desenvolve sozinha — e depois vai fabricar — a câmara chamada "MUX", ou multiespectral. Com outra empresa fornecedora do projeto do satélite — a Equatorial —, participa do desenvolvimento da segunda. Nesta, chamada "WFI" — Wide Field Imager, ou Imageador de Amplo Campo de Visada —, faz as partes ótica, eletrônica e mecânica. A resolução espacial da primeira é de 20 metros — quer dizer, mostrará com definição quadrados com 20 metros de aresta. Com ela, o INPE poderá dizer, quando o CBERS 3 estiver em órbita, em que terreno está ocorrendo desmatamento na Amazônia; ou o lugar de um loteamento clandestino em São Paulo. A outra câmara tem o objetivo de ver áreas maiores: quadrados do solo de 80 metros de lado.

Construir câmaras que devem funcionar por muito tempo no espaço é tarefa difícil. Elas devem ser capazes, por exemplo, de suportar temperaturas muito altas e muito baixas. Também a luz solar incidindo nas lentes é um problema. É por isso que precisam da sala limpa. Se o trabalho for bem sucedido — de acordo com o INPE, as etapas estão sendo cumpridas —, a Opto poderá dizer ao mercado internacional de instrumentos óticos de precisão que tem competência para projetos muito sofisticados do ponto de vista tecnológico.

O papel decisivo da Finep

Jarbas de Castro está sempre preocupado com o financiamento da expansão da Opto. Por exemplo, se os ensaios clínicos do tratamento de degeneração macular derem certo aqui no Brasil, vai ser preciso estendê-los para o mundo. Jarbas calcula o custo disso em US$ 20 milhões — e é por isso que quis lançar a Opto Global em bolsa na Austrália, para arrecadar o dinheiro necessário. Quando fundou a empresa com Milton Ferreira de Souza, que fora seu orientador no mestrado do Instituto de Física da USP de São Carlos, ele já pensava nisso. O primeiro milhão de dólares, necessário para dar o pontapé inicial no sonho de fazer o laser que aprendeu a fazer em seu doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), os sócios foram buscar na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Conseguiram — porque a agência confiou, especialmente, no professor Milton, muito respeitado no meio acadêmico, e aceitou como garantia para o empréstimo os próprios equipamentos que o empréstimo comprou: máquinas para fazer filmes finos, espelhos de laser etc. O passo seguinte foi buscar um investidor — que colocou R$ 280 mil na Opto. Jarbas diz não ter gostado da experiência, mas admite que foi a pressão dele, querendo multiplicar o investido o mais rápido possível, que fez a Opto virar uma empresa de verdade. Em 2003, o investidor finalmente saiu do capital, levando dez vezes o que aplicou. "E ainda achou pouco", reclama o presidente.

Outra reclamação de Jarbas mostra que a Opto é uma empresa de base tecnológica com visão de empresa primeiro mundista. "Investimos R$ 4 milhões para desenvolver o retinógrafo. Parece que não adiantou nada, porque nem a Finep nem o BNDES aceitam as patentes como bens." A cultura de valorização da propriedade intelectual ainda não se construiu no Brasil — no caso das agências governamentais, a legislação não permite garantias não reais, como é o caso de patentes. A Opto tem patentes registradas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), mas as últimas três estão sendo registradas no escritório de patentes do governo norte-americano. "Já ocorreu de escolhermos não depositar patentes para abrir tecnologia. Quando depositamos, é porque achamos que poderemos ganhar dinheiro com a tecnologia, ou porque achamos que vamos precisar nos defender." Os produtos para a área de defesa — como a espoleta a laser — não podem ser patenteados.

Para obter o empréstimo mais recente na Finep, que complementa o PIPE para o desenvolvimento do laser mais seguro para aplicações médicas, a empresa deu em garantia os bens pessoais dos sócios; e para o BNDES, os imóveis da empresa e os equipamentos que vão ser comprados. "Estamos dando tudo. Tenho certeza que vamos conseguir pagar — o caso é que nossa capacidade para novos financiamentos agora está limitada."

Jarbas, ainda professor do Instituto de Física da USP de São Carlos, tem a fórmula para o desenvolvimento do Brasil: "Precisamos exportar mais qualidade de trabalho. Na soja, por exemplo, o que exportamos é trabalho braçal. Mais riqueza vai ficar no País quando exportamos o trabalho de um físico, de um químico — dos nossos doutores".