Publicado em 4 de setembro 2006





Adespec
Adesivos à base de água desenvolvidos por empresa de São Paulo ganham canal de distribuição novo e chegam ao consumo de massa

Davi Molinari

Um galpão de 430 metros quadrados na cidade de Taboão da Serra, Grande São Paulo, abriga a perspectiva de sucesso da engenheira química Wang Shu Chen, diretora da pequena que inova Adespec, Adesivos Especiais. O galpão é a primeira sede industrial da Adespec, empresa cultivada nos corredores do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Cietec-Ipen) desde 2001, onde ainda mantém duas pequenas salas. A fábrica começou a funcionar em julho de 2006; de seus reatores, envasadores e misturadores nasce um líquido branco e viscoso — que pode levar a Adespec a disputar um grande mercado da indústria química. O líquido molda-se ao espaço em que é aplicado e, quando seca, impede a passagem de ar e líquidos. O composto, segundo Chen, tem "alta capacidade" de colar cerâmicas, madeiras, borrachas, plásticos e vidros. Mas a principal vantagem do produto da Adespec é não conter solventes derivados de hidrocarbonetos aromáticos — que fazem mal à saúde. A empresa desenvolveu um selante adesivo — como se diz no jargão da indústria química — à base de água.

Batizado comercialmente de Pesilox Fixtudo, o produto resulta de cinco anos de pesquisas, financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O Fixtudo, como o próprio nome revela, cola qualquer tipo de material. O produto satisfez às exigências do IS0 11.600 para ser usado na construção civil. Além da Fapesp, que apoiou a pesquisa dentro do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), a Adespec também teve apoio do Cietec, onde ficou incubada, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), onde Chen trabalhava, do Ipen, onde fica o Cietec, e do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

Fórmula secreta

A Adespec já lançou dez produtos no mercado — cada um com seu propósito específico e uma característica peculiar. O primeiro ganhou o nome de "Prego Líquido" — que chegou ao comércio em 2003. Segundo a página da empresa na Internet, "é um adesivo especialmente desenvolvido para 'pregar' peças, quadros e molduras em paredes". Pode colar até vidros em paredes. O IPT realizou os ensaios físicos com o produto — de resistência à tração, ao impacto, de impermeabilidade e até de envelhecimento acelerado, com raios ultravioleta. "Sem esses testes, não seria possível caracterizar esta nova tecnologia", conta Chen. Mas como ele é feito? Isso, Chen não responde.

O Prego Líquido foi uma espécie de efeito colateral dos frutos da pesquisa financiada pelo PIPE que teve como resultado principal o Pesilox Fixtudo. Também essa receita, Chen guarda a sete chaves. Conta apenas que o adesivo é um polímero feito a partir de derivados de sílica; e que ela o formulou especialmente para a construção civil. "Não patenteei o produto para não revelar sua fórmula", diz, "mas registrei a marca".

À prova de água e de tráfego intenso de pessoas

Quem usa a Estação Luz do Metrô paulistano pode já ter pisado no produto da Adespec. A Companhia do Metropolitano de São Paulo comprou o Pesilox para fixar placas táteis — usadas para os cegos se orientarem — sobre o piso das plataformas. A resistência à água foi um dos motivos que levaram a Companhia do Metropolitano a comprar o produto. Em contato com a umidade do ar, o Pesilox se solidifica, formando uma espécie de borracha flexível à prova de água que une materiais diferentes. "A fixação é resultado de uma ligação covalente", lembra Chen, sobre as propriedades físico-químicas do produto. A fórmula secreta do Pesilox é caracterizada pela capacidade de compartilhamento de um ou mais pares de elétrons entre seus átomos e os de outra superfície ou material.

O Pesilox levou cinco anos para ganhar fórmula definitiva e consumiu R$ 345,4 mil das fases I e II do PIPE e R$ 500 mil da fase III. O apoio da Fapesp permitiu à empresa ter o domínio de todas as etapas da tecnologia e conhecer todos os usos aprovados no mundo.

As fases do PIPE

Na primeira fase, Chen desenvolveu a viabilidade técnica e comercial do produto. Determinou fórmulas para alcançar as propriedades físico-químicas que lhe interessavam. Uma vez de posse de uma fórmula ideal, Chen comparou seu produto com outros à base de poliuretanos e silicone. Fez testes pilotos até chegar ao produto e ao processo de fabricação. Na fase II, o financiamento foi para o estudo de aplicação. Os testes nessa fase foram em aplicações na indústria e na construção civil. Quando terminou a pesquisa e desenvolvimento, Chen obteve uma nova classe de selantes não tóxicos. Ao contrário de outros selantes, o da Adespec ganha elasticidade depois de seco. Por isso, os materiais colados não sofrem rachaduras ou rupturas causadas por vibrações, movimentações e envelhecimento. Tem cura, secagem rápida e neutra em toda a superfície aplicada. Não precisa de misturas na aplicação. Resiste a uma faixa de temperatura ambiente entre -40º e 90º. Não forma bolhas, mesmo se aplicado em locais expostos a altas temperaturas ou umidade.

Inofensivo à saúde e mais aderente

A busca por um adesivo que não prejudicasse o organismo humano foi uma obsessão pessoal de Wang Chen. Depois de 20 anos trabalhando em indústrias como a Brascola, Petroquímica de Camaçari e Henkel—Loctite (fabricante da Super Bonder), ela se viu diante de um problema de saúde. Em meados do ano 2000, teve uma súbita redução do nível de células brancas no sangue — resultado de sua exposição continuada aos solventes usados por essas empresas na fabricação de seus produtos. Os solventes mais comuns nessa indústria são derivados de petróleo, e muito voláteis. A aspiração é que causa a diminuição da contagem de glóbulos brancos — chamada leucopenia. Por isso, Chen passou a estudar a relação desses solventes com o organismo humano e com o ambiente. A doença fez com que ela usasse toda a sua experiência e conhecimento para criar um adesivo alternativo, não prejudicial à saúde de quem o manuseia. Por isso, os produtos oferecidos pela Adespec tem 0% de compostos orgânicos voláteis (VOC, sigla em inglês) — ou seja, não emitem vapores prejudiciais.

Nascida à frente da concorrência

Essa classe de solventes que adoeceu Chen está sendo banida das colas e adesivos em todo o mundo — inclusive no Brasil. Aí está a vantagem competitiva da Adespec: a empresa nasceu sob medida para fabricar produtos livres de compostos orgânicos voláteis. Enquanto as empresas veteranas procuram investir em pesquisa e desenvolvimento e em mudanças na linha de produção, a Adespec foi criada para este mercado "limpo".

Um bom exemplo é a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que determina a substituição das substâncias voláteis presentes nos adesivos, especialmente na cola de sapateiro — usada como entorpecente. As empresas têm prazo até final deste ano para tirar os solventes das fórmulas. A decisão da Anvisa vem no esteio de um movimento que ganha força em todo o mundo. A Europa estuda medidas para banir os solventes e derivados, como já fez o Estado da Califórnia, nos Estados Unidos. A própria Brascola, onde Chen trabalhou, tradicional fabricante de cola de sapateiro, aderiu às exigências do mercado e lançou uma linha de produtos à base de água. As mudanças já podem ser percebidas no aumento da produção de adesivos à base de água no Brasil, que, em 2005, cresceu 21,8% em relação ao ano anterior.

O acordo com a Eternit

A Adespec calcou sua estratégia comercial baseada nesse movimento de substituição de adesivos à base de solventes por adesivos à base de água. A empresa trabalha para conquistar o mercado coorporativo e aqueles que considera estratégicos para garantir acesso a consumidores diretos — como os fabricantes de material de construção. Planejou 2006 como o ano de entrada no mercado de consumo de massa. Entre seus clientes, além do Metrô, já figuram a Cebrace Cristal Plano, com quem tem contrato para o fornecimento de cola e selante; a Pertch do Brasil, para quem fornece cola para laminados; a Armstrong-Armtech, para quem vende cola de piso e, por fim, a Brasilit-Decorlit.

Com a Brasilit (que junto com a Eternit forma uma joint-venture para a produção de telhas e caixas d'água de fibrocimento), a Adespec firmou um acordo para o fornecimento de uma massa adesiva e selante para ser usada nas juntas de placas de cimento. A massa é aplicada nos novos sistemas de construção civil que empregam pré-moldados de aço e placas de concreto e gesso; será produzida pela Adespec, mas comercializada com a marca Eternit. O engenheiro André Gomes, analista do desenvolvimento de novos produtos da empresa, está animado com o acordo. Ele acompanhou os testes com produtos de três empresas diferentes, para finalmente escolher a Adespec. "O produto da Adespec venceu praticamente em todos os quesitos de análise de resultado: rentabilidade, resistência e facilidade de aplicação." O engenheiro também gostou do fato de a assistência técnica da empresa estar sempre pronta para resolver dúvidas e apresentar soluções.

Mas qual a vantagem de uma empresa que mal saiu da fralda em ceder o produto para outra marca? Como moeda de troca, a Adespec vai ter acesso ao canal de distribuição da Eternit. No País inteiro, a Eternit tem cinco mil pontos de venda. Na primeira etapa, o Prego Líquido e o Pesilox vão chegar a cem pontos de venda, nas maiores cidades do Brasil — todas as capitais de Estado incluídas.

A tática vai garantir à Adespec o acesso aos consumidores finais, já que a empresa precisa ganhar a confiança de quem põe a mão na massa. Um exército de empreiteiros e trabalhadores da construção civil ainda desconhece todas as vantagens do Pesilox. Assim, a Adespec espera entrar no universo do consumo de massa.

Faturamento

A Adespec tem hoje nove funcionários. Três com ensino médio, que trabalham na fábrica, três bolsistas financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e três diretores, incluindo Chen. Um número que deverá aumentar conforme o crescimento da empresa. O parque instalado hoje, financiado em parte pela Fapesp e em parte por capital de risco, tem capacidade para produzir 15 toneladas de adesivos. O faturamento atual da empresa é de R$ 800 mil. Pouco, perto do objetivo exposto em seu plano de negócios: chegar a 2010 com um faturamento de R$ 54 milhões, dos quais 65% — espera-se — vão resultar da comercialização do Pesilox. "Nossa missão é desenvolver a tecnologia nacional e gerar empregos aqui", afirma Chen — que nasceu em Taiwan e chegou ao Brasil com oito anos de idade.

Gigantes químicos

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o mercado global de adesivos fatura um volume de recursos na marca de US$ 27 bilhões por ano. A fatia brasileira neste mercado é de apenas 1,5%. Em números absolutos, as indústrias em território brasileiro devem fechar 2006 com a participação de US$ 408 milhões. Apesar de estar pronta para atender à exigência de um produto "limpo", Chen ainda tem o desafio de vencer as barreiras de preço e qualidade do mercado de colas e adesivos. O Cietec e a Fapesp ajudaram-na a construir o caminho da sala de pesquisa ao mercado e a confiar no próprio projeto. No quesito autoconfiança, Chen ressalta o papel de Guilherme Ary Plonski, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e superintendente do IPT de 2002 a 2006: "Ele acredita no desenvolvimento do País por meio da ciência e seu apoio foi muito encorajador para mim", afirmou.

O professor Ary Plonski conheceu Chen durante a entrevista para seleção de novos "residentes" no Cietec. Acompanhou a evolução da pesquisa de Chen e o lançamento da linha de adesivos à base de água. Ele não esconde o orgulho de ver o sucesso da empresa. "Após atingir um novo patamar de desenvolvimento que a está profissionalizando, internacionalizando e capitalizando, verifico, com alegria, que estava correta a percepção inicial: é um empreendimento vencedor", conclui Plonski.