Adespec
Adesivos à base de água desenvolvidos
por empresa de São Paulo ganham canal de distribuição
novo e chegam ao consumo de massa
Davi
Molinari
Um galpão
de 430 metros quadrados na cidade de Taboão
da Serra, Grande São Paulo, abriga a perspectiva
de sucesso da engenheira química Wang Shu
Chen, diretora da pequena que inova Adespec, Adesivos
Especiais. O galpão é a primeira
sede industrial da Adespec, empresa cultivada
nos corredores do Centro Incubador de Empresas
Tecnológicas do Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (Cietec-Ipen) desde
2001, onde ainda mantém duas pequenas salas.
A fábrica começou a funcionar em
julho de 2006; de seus reatores, envasadores e
misturadores nasce um líquido branco e
viscoso — que pode levar a Adespec a disputar
um grande mercado da indústria química.
O líquido molda-se ao espaço em
que é aplicado e, quando seca, impede a
passagem de ar e líquidos. O composto,
segundo Chen, tem "alta capacidade"
de colar cerâmicas, madeiras, borrachas,
plásticos e vidros. Mas a principal vantagem
do produto da Adespec é não conter
solventes derivados de hidrocarbonetos aromáticos
— que fazem mal à saúde. A
empresa desenvolveu um selante adesivo —
como se diz no jargão da indústria
química — à base de água.
Batizado comercialmente
de Pesilox Fixtudo, o produto resulta de cinco
anos de pesquisas, financiadas pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). O Fixtudo, como o próprio
nome revela, cola qualquer tipo de material. O
produto satisfez às exigências do
IS0 11.600 para ser usado na construção
civil. Além da Fapesp, que apoiou a pesquisa
dentro do Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE), a Adespec também
teve apoio do Cietec, onde ficou incubada, do
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT),
onde Chen trabalhava, do Ipen, onde fica o Cietec,
e do Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT).
Fórmula
secreta
A Adespec já
lançou dez produtos no mercado —
cada um com seu propósito específico
e uma característica peculiar. O primeiro
ganhou o nome de "Prego Líquido"
— que chegou ao comércio em 2003.
Segundo a página da empresa na Internet,
"é um adesivo especialmente desenvolvido
para 'pregar' peças, quadros e molduras
em paredes". Pode colar até vidros
em paredes. O IPT realizou os ensaios físicos
com o produto — de resistência à
tração, ao impacto, de impermeabilidade
e até de envelhecimento acelerado, com
raios ultravioleta. "Sem esses testes, não
seria possível caracterizar esta nova tecnologia",
conta Chen. Mas como ele é feito? Isso,
Chen não responde.
O Prego Líquido
foi uma espécie de efeito colateral dos
frutos da pesquisa financiada pelo PIPE que teve
como resultado principal o Pesilox Fixtudo. Também
essa receita, Chen guarda a sete chaves. Conta
apenas que o adesivo é um polímero
feito a partir de derivados de sílica;
e que ela o formulou especialmente para a construção
civil. "Não patenteei o produto para
não revelar sua fórmula", diz,
"mas registrei a marca".
À
prova de água e de tráfego intenso
de pessoas
Quem usa a Estação
Luz do Metrô paulistano pode já ter
pisado no produto da Adespec. A Companhia do Metropolitano
de São Paulo comprou o Pesilox para fixar
placas táteis — usadas para os cegos
se orientarem — sobre o piso das plataformas.
A resistência à água foi um
dos motivos que levaram a Companhia do Metropolitano
a comprar o produto. Em contato com a umidade
do ar, o Pesilox se solidifica, formando uma espécie
de borracha flexível à prova de
água que une materiais diferentes. "A
fixação é resultado de uma
ligação covalente", lembra
Chen, sobre as propriedades físico-químicas
do produto. A fórmula secreta do Pesilox
é caracterizada pela capacidade de compartilhamento
de um ou mais pares de elétrons entre seus
átomos e os de outra superfície
ou material.
O Pesilox levou
cinco anos para ganhar fórmula definitiva
e consumiu R$ 345,4 mil das fases I e II do PIPE
e R$ 500 mil da fase III. O apoio da Fapesp permitiu
à empresa ter o domínio de todas
as etapas da tecnologia e conhecer todos os usos
aprovados no mundo.
As fases
do PIPE
Na primeira fase,
Chen desenvolveu a viabilidade técnica
e comercial do produto. Determinou fórmulas
para alcançar as propriedades físico-químicas
que lhe interessavam. Uma vez de posse de uma
fórmula ideal, Chen comparou seu produto
com outros à base de poliuretanos e silicone.
Fez testes pilotos até chegar ao produto
e ao processo de fabricação. Na
fase II, o financiamento foi para o estudo de
aplicação. Os testes nessa fase
foram em aplicações na indústria
e na construção civil. Quando terminou
a pesquisa e desenvolvimento, Chen obteve uma
nova classe de selantes não tóxicos.
Ao contrário de outros selantes, o da Adespec
ganha elasticidade depois de seco. Por isso, os
materiais colados não sofrem rachaduras
ou rupturas causadas por vibrações,
movimentações e envelhecimento.
Tem cura, secagem rápida e neutra em toda
a superfície aplicada. Não precisa
de misturas na aplicação. Resiste
a uma faixa de temperatura ambiente entre -40º
e 90º. Não forma bolhas, mesmo se
aplicado em locais expostos a altas temperaturas
ou umidade.
Inofensivo
à saúde e mais aderente
A busca por um
adesivo que não prejudicasse o organismo
humano foi uma obsessão pessoal de Wang
Chen. Depois de 20 anos trabalhando em indústrias
como a Brascola, Petroquímica de Camaçari
e Henkel—Loctite (fabricante da Super Bonder),
ela se viu diante de um problema de saúde.
Em meados do ano 2000, teve uma súbita
redução do nível de células
brancas no sangue — resultado de sua exposição
continuada aos solventes usados por essas empresas
na fabricação de seus produtos.
Os solventes mais comuns nessa indústria
são derivados de petróleo, e muito
voláteis. A aspiração é
que causa a diminuição da contagem
de glóbulos brancos — chamada leucopenia.
Por isso, Chen passou a estudar a relação
desses solventes com o organismo humano e com
o ambiente. A doença fez com que ela usasse
toda a sua experiência e conhecimento para
criar um adesivo alternativo, não prejudicial
à saúde de quem o manuseia. Por
isso, os produtos oferecidos pela Adespec tem
0% de compostos orgânicos voláteis
(VOC, sigla em inglês) — ou seja,
não emitem vapores prejudiciais.
Nascida
à frente da concorrência
Essa classe de
solventes que adoeceu Chen está sendo banida
das colas e adesivos em todo o mundo — inclusive
no Brasil. Aí está a vantagem competitiva
da Adespec: a empresa nasceu sob medida para fabricar
produtos livres de compostos orgânicos voláteis.
Enquanto as empresas veteranas procuram investir
em pesquisa e desenvolvimento e em mudanças
na linha de produção, a Adespec
foi criada para este mercado "limpo".
Um bom exemplo
é a resolução da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) que determina a substituição
das substâncias voláteis presentes
nos adesivos, especialmente na cola de sapateiro
— usada como entorpecente. As empresas têm
prazo até final deste ano para tirar os
solventes das fórmulas. A decisão
da Anvisa vem no esteio de um movimento que ganha
força em todo o mundo. A Europa estuda
medidas para banir os solventes e derivados, como
já fez o Estado da Califórnia, nos
Estados Unidos. A própria Brascola, onde
Chen trabalhou, tradicional fabricante de cola
de sapateiro, aderiu às exigências
do mercado e lançou uma linha de produtos
à base de água. As mudanças
já podem ser percebidas no aumento da produção
de adesivos à base de água no Brasil,
que, em 2005, cresceu 21,8% em relação
ao ano anterior.
O acordo
com a Eternit
A Adespec calcou
sua estratégia comercial baseada nesse
movimento de substituição de adesivos
à base de solventes por adesivos à
base de água. A empresa trabalha para conquistar
o mercado coorporativo e aqueles que considera
estratégicos para garantir acesso a consumidores
diretos — como os fabricantes de material
de construção. Planejou 2006 como
o ano de entrada no mercado de consumo de massa.
Entre seus clientes, além do Metrô,
já figuram a Cebrace Cristal Plano, com
quem tem contrato para o fornecimento de cola
e selante; a Pertch do Brasil, para quem fornece
cola para laminados; a Armstrong-Armtech, para
quem vende cola de piso e, por fim, a Brasilit-Decorlit.
Com a Brasilit
(que junto com a Eternit forma uma joint-venture
para a produção de telhas e caixas
d'água de fibrocimento), a Adespec firmou
um acordo para o fornecimento de uma massa adesiva
e selante para ser usada nas juntas de placas
de cimento. A massa é aplicada nos novos
sistemas de construção civil que
empregam pré-moldados de aço e placas
de concreto e gesso; será produzida pela
Adespec, mas comercializada com a marca Eternit.
O engenheiro André Gomes, analista do desenvolvimento
de novos produtos da empresa, está animado
com o acordo. Ele acompanhou os testes com produtos
de três empresas diferentes, para finalmente
escolher a Adespec. "O produto da Adespec
venceu praticamente em todos os quesitos de análise
de resultado: rentabilidade, resistência
e facilidade de aplicação."
O engenheiro também gostou do fato de a
assistência técnica da empresa estar
sempre pronta para resolver dúvidas e apresentar
soluções.
Mas qual a vantagem
de uma empresa que mal saiu da fralda em ceder
o produto para outra marca? Como moeda de troca,
a Adespec vai ter acesso ao canal de distribuição
da Eternit. No País inteiro, a Eternit
tem cinco mil pontos de venda. Na primeira etapa,
o Prego Líquido e o Pesilox vão
chegar a cem pontos de venda, nas maiores cidades
do Brasil — todas as capitais de Estado
incluídas.
A tática
vai garantir à Adespec o acesso aos consumidores
finais, já que a empresa precisa ganhar
a confiança de quem põe a mão
na massa. Um exército de empreiteiros e
trabalhadores da construção civil
ainda desconhece todas as vantagens do Pesilox.
Assim, a Adespec espera entrar no universo do
consumo de massa.
Faturamento
A Adespec tem
hoje nove funcionários. Três com
ensino médio, que trabalham na fábrica,
três bolsistas financiados pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) e três diretores,
incluindo Chen. Um número que deverá
aumentar conforme o crescimento da empresa. O
parque instalado hoje, financiado em parte pela
Fapesp e em parte por capital de risco, tem capacidade
para produzir 15 toneladas de adesivos. O faturamento
atual da empresa é de R$ 800 mil. Pouco,
perto do objetivo exposto em seu plano de negócios:
chegar a 2010 com um faturamento de R$ 54 milhões,
dos quais 65% — espera-se — vão
resultar da comercialização do Pesilox.
"Nossa missão é desenvolver
a tecnologia nacional e gerar empregos aqui",
afirma Chen — que nasceu em Taiwan e chegou
ao Brasil com oito anos de idade.
Gigantes
químicos
De acordo com
dados da Associação Brasileira da
Indústria Química (Abiquim), o mercado
global de adesivos fatura um volume de recursos
na marca de US$ 27 bilhões por ano. A fatia
brasileira neste mercado é de apenas 1,5%.
Em números absolutos, as indústrias
em território brasileiro devem fechar 2006
com a participação de US$ 408 milhões.
Apesar de estar pronta para atender à exigência
de um produto "limpo", Chen ainda tem
o desafio de vencer as barreiras de preço
e qualidade do mercado de colas e adesivos. O
Cietec e a Fapesp ajudaram-na a construir o caminho
da sala de pesquisa ao mercado e a confiar no
próprio projeto. No quesito autoconfiança,
Chen ressalta o papel de Guilherme Ary Plonski,
professor da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo (FEA-USP)
e superintendente do IPT de 2002 a 2006: "Ele
acredita no desenvolvimento do País por
meio da ciência e seu apoio foi muito encorajador
para mim", afirmou.
O professor Ary
Plonski conheceu Chen durante a entrevista para
seleção de novos "residentes"
no Cietec. Acompanhou a evolução
da pesquisa de Chen e o lançamento da linha
de adesivos à base de água. Ele
não esconde o orgulho de ver o sucesso
da empresa. "Após atingir um novo
patamar de desenvolvimento que a está profissionalizando,
internacionalizando e capitalizando, verifico,
com alegria, que estava correta a percepção
inicial: é um empreendimento vencedor",
conclui Plonski.