Publicado em 21 de agosto 2006







Eletrovento

Eletrovento é sociedade anônima; quer espalhar energia eólica
pelo País; instalou os primeiros geradores e já tem uma patente!

Rachel Bueno

Sentado no escritório no segundo andar do barracão onde funciona a Eletrovento, em Campinas (SP), o engenheiro eletricista Cassiano Nucci Paes Cruz afirma que o mês de agosto de 2006 ficará marcado na história da empresa, da qual é diretor. Uma das primeiras filhas da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp), a Eletrovento caminha sozinha desde março de 2005. Neste agosto de 2006, pela primeira vez, a contabilidade registrou um valor na coluna "receita". Antes deste mês, todo o dinheiro que entrou na empresa veio de agências de fomento à pesquisa e de ações — embora seja pouco comum entre as pequenas, a Eletrovento é uma sociedade anônima.

A primeira receita resultou da venda de dois geradores eólicos — para produzir eletricidade a partir do vento — de 2 kW. Geradores dessa potência conseguem atender às necessidades de uma casa — ou de uma escola. É esse o destino desses geradores da Eletrovento: em setembro, eles estarão instalados em duas escolas estaduais da Ilha do Cardoso, no litoral de São Paulo. A rede elétrica convencional não chega até lá. Desde 2000, painéis fotovoltaicos — que geram energia elétrica a partir da luz do Sol — abastecem as escolas. Como as necessidades de energia aumentaram, os geradores eólicos vão completar o abastecimento.

O projeto da Ilha do Cardoso combina perfeitamente com a idéia de Cassiano: ele criou a empresa para levar energia de fontes alternativas — como a energia eólica — a comunidades não alcançadas pela rede convencional. Nesse primeiro caso, a instalação dos geradores faz parte de um projeto do Escritório Regional para a América Latina da organização não governamental International Energy Initiative (IEI-LA), e foi financiado pelo HSBC. O banco doou R$ 103 mil; a IEI-LA entrou com R$ 21 mil de contrapartida. Os dois geradores, o estudo para sua instalação e os acessórios necessários custaram em torno de R$ 50 mil, valor que constituiu a primeira entrada na coluna "receita" da jovem Eletrovento.

Os recursos da Eletrovento

Os geradores na Ilha do Cardoso serão também o primeiro projeto piloto de escala maior da Eletrovento. A empresa tem outros dois equipamentos para testes instalados: um no distrito de Sousas, em Campinas, e outro no campus da Unicamp, que ainda não está operando. Um terceiro será montado para demonstração em uma ilha no Guarujá, no litoral de São Paulo, onde os ventos são mais fortes. Cassiano espera que as vendas deslanchem quando todos esses geradores estiverem funcionando.

A ambição da empresa é desenvolver um gerador maior, de 5 kW, que pode atender às necessidades de uma comunidade de até seis casas. Para isso, a Eletrovento tem três fontes de recursos: o Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); um financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), e o capital próprio, vindo da venda de ações.

A Fapesp aprovou a segunda parte dos recursos para o desenvolvimento do gerador eólico de 5 kW em maio de 2006: são R$ 275 mil. Este é o segundo PIPE da Eletrovento. Antes, logo que entrou na incubadora, a empresa teve aprovado um projeto menor, na chamada fase I do programa — até R$ 50 mil — para desenvolver duas das partes de um gerador: a hélice e o motor que ela gira com a força do vento. Agora, o novo financiamento é para produzir um gerador eólico completo. O processo para obtenção do financiamento na fase II do PIPE começou com a apresentação do relatório técnico e das contas referentes à fase I, em fevereiro de 2005. A aprovação desses documentos, necessária para a avaliação do novo projeto, demorou quase seis meses no caso da Eletrovento. Depois, quando a avaliação começou, os assessores encarregados de examinar a proposta da Eletrovento questionaram o valor pedido pela empresa para o pagamento de consultores. Finalmente, o financiamento saiu. A demora angustiou o engenheiro, mas nem por isso o dinheiro do PIPE deixou de ser "fundamental", diz ele — pois projeto aprovado na Fapesp é marca de credibilidade para as pequenas que inovam.

De acordo com Cassiano, os prestígios da agência de fomento e da incubadora da Unicamp contribuíram para que a estratégia de transformar a empresa em S.A. desse certo: os investidores sentiram-se seguros para colocar seu dinheiro na Eletrovento. A empresa vendeu ações e tem atualmente 20 sócios — a maioria deles com participação pequena, entre 2% e 5%. Até agora, a venda de ações arrecadou R$ 1,2 milhão para a empresa. Os donos das ações não pressionam por retorno financeiro alto em pouco tempo; contudo, interessam-se pelo que se passa na empresa e acompanham as atividades. São representados por um conselho com três membros, que se reúne a cada 15 dias para tratar dos assuntos mais estratégicos. Esse sistema parece estar dando certo: no último aumento de capital, em abril, os próprios sócios compraram todas as ações que foram criadas.

Finalmente, a Eletrovento obteve também um financiamento da Finep. O projeto financiado pela Finep foi aprovado no final de 2003, num edital da Rede Brasil de Tecnologia (RBT) específico para fontes alternativas de energia. O projeto está mais concentrado na parte de produção dos geradores. A verba de R$ 295 mil, proveniente do Fundo Setorial de Energia (CT-Energ), prevê o pagamento do primeiro lote, com pelo menos quatro geradores. O prazo para conclusão do projeto era de dois anos, mas ele está com seis meses de atraso.

Afinal, o que é um gerador eólico?

Para produzir energia elétrica, o fundamental é fazer girar um gerador elétrico. Numa usina hidrelétrica, quem faz girar os geradores é a força da água passando pelas turbinas; em um gerador eólico, o vento impulsiona a hélice, que faz girar o gerador e, assim, há produção de energia elétrica. No caso dos cata-ventos, um dos problemas tecnológicos a serem resolvidos está no fato de a hélice, impulsionada pelo vento, girar a uma freqüência menor do que aquela que é boa para os geradores elétricos. Um sistema de transmissão que ligue a hélice ao gerador elétrico precisa ser desenvolvido de tal modo a aumentar essa freqüência de rotação.

Outro problema é que o vento varia — o que quer dizer que a hélice pode girar mais depressa ou mais devagar. A freqüência da rotação influi na energia produzida pelo gerador: faz com que varie a voltagem, por exemplo. Por isso, o equipamento eólico precisa ter um controlador de potência na saída do gerador elétrico. Esse controlador é eletrônico, e uma peça sofisticada. O próximo componente dos cata-ventos são as baterias, que armazenam a energia produzida no gerador elétrico. O controlador de potência, ao estabilizar a energia que sai do gerador, protege as baterias — que seriam danificadas pela variação produzida pelo vento. As baterias são como uma caixa d' água: estocam a energia para que ela fique disponível independentemente de haver vento ou não.

A hélice e o gerador elétrico ficam no alto, em uma plataforma, para pegar o vento — para isso existe a torre, de 15 metros, até 20 metros de altura. Atrás dessa plataforma existe um leme, como um rabo de avião, que faz com que a hélice fique sempre de frente para o vento — isso porque o vento é de natureza muito fugidia.

A equipe, a pesquisa e o desenvolvimento

Em abril de 2006, a Eletrovento ganhou mais um diretor: Arnaldo Coutinho, que cuida das questões administrativas e comerciais do negócio. Cassiano responde pela parte técnica; na prática, é o chefe da pesquisa e desenvolvimento. Há oito pessoas trabalhando na equipe: uma auxiliar administrativa, três engenheiros — um deles com doutorado em mecânica de materiais pela Unicamp —, dois estagiários, também da Unicamp, e dois técnicos de produção.

Rubens Luciano é o doutor. No momento, ele aplica seu conhecimento da arte de pesquisar para aperfeiçoar o controlador de potência. Antes de chegar à Eletrovento, passou por vários institutos da universidade para fazer sua tese sobre biomateriais. Também foi consultor da Agência de Inovação da Unicamp (Inova) para elaboração de patentes. Mas, em um determinado momento, constatou que o assunto com o qual trabalhava já estava saturado. "Eu não via muitas oportunidades a não ser continuar na área acadêmica como professor. As empresas só estavam importando; ninguém queria desenvolver nada no País", lembra. Na Eletrovento há quatro meses, não encara a mudança de área como um problema. "Pelo fato de ter feito um doutorado bem multidisciplinar, sinto-me confortável para mudar de assunto", afirma. "Carrego uma bagagem muito boa em relação à realização de experimentos, o que me ajuda a resolver problemas fora da minha área específica de formação."

Resolver problemas é uma atividade constante na Eletrovento. A empresa criou um sistema para medir a velocidade do vento, usado nos estudos que são feitos antes da implantação dos geradores, e já depositou uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI): desenvolveu uma tecnologia própria para o leme que mantém as hélices sempre de frente para os ventos fugidios. O leme da Eletrovento também ajuda as hélices a evitar ventos muito fortes, que possam causar danos ao equipamento. Segundo Cassiano Cruz, há "outras quatro ou cinco melhorias" feitas pela empresa para os geradores eólicos que também são candidatas a patentes.

O começo e o fim

Cassiano Cruz começou a Eletrovento com R$ 50 mil do próprio bolso. Agora tem financiamentos das mais importantes agências de fomento, acionistas, uma equipe animada e competente. Nos seus planos, até o final de 2006 estarão prontos o gerador de 5 kW e outro bem menor, de 500 W, que vem sendo desenvolvido como um subproduto do PIPE — para barcos, por exemplo.

Que outros planos Cassiano tem para o futuro? "Trabalhar muito", responde ele sorridente. Que bons ventos o levem.