Eletrovento
Eletrovento é sociedade anônima;
quer espalhar energia eólica
pelo País; instalou os primeiros geradores e já
tem uma patente!
Rachel
Bueno
Sentado no escritório
no segundo andar do barracão onde funciona
a Eletrovento, em Campinas (SP), o engenheiro
eletricista Cassiano Nucci Paes Cruz afirma que
o mês de agosto de 2006 ficará marcado
na história da empresa, da qual é
diretor. Uma das primeiras filhas da Incubadora
de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp
(Incamp), a Eletrovento caminha sozinha desde
março de 2005. Neste agosto de 2006, pela
primeira vez, a contabilidade registrou um valor
na coluna "receita". Antes deste mês,
todo o dinheiro que entrou na empresa veio de
agências de fomento à pesquisa e
de ações — embora seja pouco
comum entre as pequenas, a Eletrovento é
uma sociedade anônima.
A primeira receita
resultou da venda de dois geradores eólicos
— para produzir eletricidade a partir do
vento — de 2 kW. Geradores dessa potência
conseguem atender às necessidades de uma
casa — ou de uma escola. É esse o
destino desses geradores da Eletrovento: em setembro,
eles estarão instalados em duas escolas
estaduais da Ilha do Cardoso, no litoral de São
Paulo. A rede elétrica convencional não
chega até lá. Desde 2000, painéis
fotovoltaicos — que geram energia elétrica
a partir da luz do Sol — abastecem as escolas.
Como as necessidades de energia aumentaram, os
geradores eólicos vão completar
o abastecimento.
O projeto da Ilha
do Cardoso combina perfeitamente com a idéia
de Cassiano: ele criou a empresa para levar energia
de fontes alternativas — como a energia
eólica — a comunidades não
alcançadas pela rede convencional. Nesse
primeiro caso, a instalação dos
geradores faz parte de um projeto do Escritório
Regional para a América Latina da organização
não governamental International Energy
Initiative (IEI-LA), e foi financiado pelo HSBC.
O banco doou R$ 103 mil; a IEI-LA entrou com R$
21 mil de contrapartida. Os dois geradores, o
estudo para sua instalação e os
acessórios necessários custaram
em torno de R$ 50 mil, valor que constituiu a
primeira entrada na coluna "receita"
da jovem Eletrovento.
Os recursos
da Eletrovento
Os geradores na
Ilha do Cardoso serão também o primeiro
projeto piloto de escala maior da Eletrovento.
A empresa tem outros dois equipamentos para testes
instalados: um no distrito de Sousas, em Campinas,
e outro no campus da Unicamp, que ainda não
está operando. Um terceiro será
montado para demonstração em uma
ilha no Guarujá, no litoral de São
Paulo, onde os ventos são mais fortes.
Cassiano espera que as vendas deslanchem quando
todos esses geradores estiverem funcionando.
A ambição
da empresa é desenvolver um gerador maior,
de 5 kW, que pode atender às necessidades
de uma comunidade de até seis casas. Para
isso, a Eletrovento tem três fontes de recursos:
o Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp); um financiamento da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), agência do
Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT), e o capital próprio, vindo da venda
de ações.
A Fapesp aprovou
a segunda parte dos recursos para o desenvolvimento
do gerador eólico de 5 kW em maio de 2006:
são R$ 275 mil. Este é o segundo
PIPE da Eletrovento. Antes, logo que entrou na
incubadora, a empresa teve aprovado um projeto
menor, na chamada fase I do programa — até
R$ 50 mil — para desenvolver duas das partes
de um gerador: a hélice e o motor que ela
gira com a força do vento. Agora, o novo
financiamento é para produzir um gerador
eólico completo. O processo para obtenção
do financiamento na fase II do PIPE começou
com a apresentação do relatório
técnico e das contas referentes à
fase I, em fevereiro de 2005. A aprovação
desses documentos, necessária para a avaliação
do novo projeto, demorou quase seis meses no caso
da Eletrovento. Depois, quando a avaliação
começou, os assessores encarregados de
examinar a proposta da Eletrovento questionaram
o valor pedido pela empresa para o pagamento de
consultores. Finalmente, o financiamento saiu.
A demora angustiou o engenheiro, mas nem por isso
o dinheiro do PIPE deixou de ser "fundamental",
diz ele — pois projeto aprovado na Fapesp
é marca de credibilidade para as pequenas
que inovam.
De acordo com Cassiano,
os prestígios da agência de fomento
e da incubadora da Unicamp contribuíram
para que a estratégia de transformar a
empresa em S.A. desse certo: os investidores sentiram-se
seguros para colocar seu dinheiro na Eletrovento.
A empresa vendeu ações e tem atualmente
20 sócios — a maioria deles com participação
pequena, entre 2% e 5%. Até agora, a venda
de ações arrecadou R$ 1,2 milhão
para a empresa. Os donos das ações
não pressionam por retorno financeiro alto
em pouco tempo; contudo, interessam-se pelo que
se passa na empresa e acompanham as atividades.
São representados por um conselho com três
membros, que se reúne a cada 15 dias para
tratar dos assuntos mais estratégicos.
Esse sistema parece estar dando certo: no último
aumento de capital, em abril, os próprios
sócios compraram todas as ações
que foram criadas.
Finalmente, a Eletrovento
obteve também um financiamento da Finep.
O projeto financiado pela Finep foi aprovado no
final de 2003, num edital da Rede Brasil de Tecnologia
(RBT) específico para fontes alternativas
de energia. O projeto está mais concentrado
na parte de produção dos geradores.
A verba de R$ 295 mil, proveniente do Fundo Setorial
de Energia (CT-Energ), prevê o pagamento
do primeiro lote, com pelo menos quatro geradores.
O prazo para conclusão do projeto era de
dois anos, mas ele está com seis meses
de atraso.
Afinal, o que é um gerador eólico?
Para produzir energia
elétrica, o fundamental é fazer
girar um gerador elétrico. Numa usina hidrelétrica,
quem faz girar os geradores é a força
da água passando pelas turbinas; em um
gerador eólico, o vento impulsiona a hélice,
que faz girar o gerador e, assim, há produção
de energia elétrica. No caso dos cata-ventos,
um dos problemas tecnológicos a serem resolvidos
está no fato de a hélice, impulsionada
pelo vento, girar a uma freqüência
menor do que aquela que é boa para os geradores
elétricos. Um sistema de transmissão
que ligue a hélice ao gerador elétrico
precisa ser desenvolvido de tal modo a aumentar
essa freqüência de rotação.
Outro problema
é que o vento varia — o que quer
dizer que a hélice pode girar mais depressa
ou mais devagar. A freqüência da rotação
influi na energia produzida pelo gerador: faz
com que varie a voltagem, por exemplo. Por isso,
o equipamento eólico precisa ter um controlador
de potência na saída do gerador elétrico.
Esse controlador é eletrônico, e
uma peça sofisticada. O próximo
componente dos cata-ventos são as baterias,
que armazenam a energia produzida no gerador elétrico.
O controlador de potência, ao estabilizar
a energia que sai do gerador, protege as baterias
— que seriam danificadas pela variação
produzida pelo vento. As baterias são como
uma caixa d' água: estocam a energia para
que ela fique disponível independentemente
de haver vento ou não.
A hélice
e o gerador elétrico ficam no alto, em
uma plataforma, para pegar o vento — para
isso existe a torre, de 15 metros, até
20 metros de altura. Atrás dessa plataforma
existe um leme, como um rabo de avião,
que faz com que a hélice fique sempre de
frente para o vento — isso porque o vento
é de natureza muito fugidia.
A equipe,
a pesquisa e o desenvolvimento
Em abril de 2006,
a Eletrovento ganhou mais um diretor: Arnaldo
Coutinho, que cuida das questões administrativas
e comerciais do negócio. Cassiano responde
pela parte técnica; na prática,
é o chefe da pesquisa e desenvolvimento.
Há oito pessoas trabalhando na equipe:
uma auxiliar administrativa, três engenheiros
— um deles com doutorado em mecânica
de materiais pela Unicamp —, dois estagiários,
também da Unicamp, e dois técnicos
de produção.
Rubens Luciano
é o doutor. No momento, ele aplica seu
conhecimento da arte de pesquisar para aperfeiçoar
o controlador de potência. Antes de chegar
à Eletrovento, passou por vários
institutos da universidade para fazer sua tese
sobre biomateriais. Também foi consultor
da Agência de Inovação da
Unicamp (Inova) para elaboração
de patentes. Mas, em um determinado momento, constatou
que o assunto com o qual trabalhava já
estava saturado. "Eu não via muitas
oportunidades a não ser continuar na área
acadêmica como professor. As empresas só
estavam importando; ninguém queria desenvolver
nada no País", lembra. Na Eletrovento
há quatro meses, não encara a mudança
de área como um problema. "Pelo fato
de ter feito um doutorado bem multidisciplinar,
sinto-me confortável para mudar de assunto",
afirma. "Carrego uma bagagem muito boa em
relação à realização
de experimentos, o que me ajuda a resolver problemas
fora da minha área específica de
formação."
Resolver problemas
é uma atividade constante na Eletrovento.
A empresa criou um sistema para medir a velocidade
do vento, usado nos estudos que são feitos
antes da implantação dos geradores,
e já depositou uma patente no Instituto
Nacional da Propriedade Industrial (INPI): desenvolveu
uma tecnologia própria para o leme que
mantém as hélices sempre de frente
para os ventos fugidios. O leme da Eletrovento
também ajuda as hélices a evitar
ventos muito fortes, que possam causar danos ao
equipamento. Segundo Cassiano Cruz, há
"outras quatro ou cinco melhorias" feitas
pela empresa para os geradores eólicos
que também são candidatas a patentes.
O começo
e o fim
Cassiano Cruz começou
a Eletrovento com R$ 50 mil do próprio
bolso. Agora tem financiamentos das mais importantes
agências de fomento, acionistas, uma equipe
animada e competente. Nos seus planos, até
o final de 2006 estarão prontos o gerador
de 5 kW e outro bem menor, de 500 W, que vem sendo
desenvolvido como um subproduto do PIPE —
para barcos, por exemplo.
Que outros planos
Cassiano tem para o futuro? "Trabalhar muito",
responde ele sorridente. Que bons ventos o levem.