Publicado em 10 de Julho 2006







ProClone

Bióloga cria empresa para disputar espaço no mercado de flores; apoio da Fapesp há sete anos permitiu aperfeiçoamento técnico

Davi Molinari

A bióloga Monique Inês Segeren reúne capacidade de inovação tecnológica e vocação para comercializar. Mestre e doutora em genética de vegetal, em 1993, pela Unicamp, Segeren trabalha mais de 14 horas por dia atrás de uma obsessão: criar uma rede de produtores de flores reconhecidamente brasileiras, capazes de competir em pé de igualdade com os grandes produtores: Holanda, Japão e Estados Unidos. Uma tarefa ousada.

O mercado de flores movimenta hoje algo em torno de US$ 64 bilhões por ano. Dois terços dele pertencem à Holanda, terra natal dos pais de Segeren. "Com certeza a minha vocação para o comércio é de família", afirma a bióloga, que se dedica desde 1990 a providenciar maneiras de dar ganhos de qualidade e escala à produção de flores. Apesar de crescente, a participação do Brasil no comércio de flores é incipiente. O Instituto de Economia Agrícola (IEA) de São Paulo acompanha a evolução da floricultura nacional; seus dados apontam que, em 2005, o Brasil exportou US$ 25,8 milhões — um crescimento de 9,4% em relação a 2004 —, mas que representam míseros 0,04% do mercado global.

Mas não foi só o potencial do mercado que chamou a atenção da bióloga. Ela também está interessada em combater a evasão da flora brasileira. Segundo Monique, a Holanda registrou o germoplasma de 70% das espécies de flores comercializadas no mundo e recebe royalties por isso. Germoplasma, na linguagem dos botânicos, é o nome dado à base genética de uma planta que reúne os materiais hereditários da espécie. "Entre esses 70% estão flores consagradamente brasileiras como a gérbera, nossa margarida e algumas orquídeas", reclama Monique.

A fim de enfrentar a concorrência dos gigantes das flores, em 1997 Monique Segeren pediu financiamento do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para executar uma estratégia de entrada no mercado que tinha em mente. Quando abriu a ProClone Biotecnologia, em 1989, vislumbrou a criação de infra-estrutura e a produção de meio de cultura para clonar e multiplicar mudas de flores com a finalidade de abastecer outros laboratórios e produtores. Mas se a técnica de clonagem de flores já está difundida comercialmente no mundo há mais de 20 anos, como a ProClone conseguiria ser competitiva? Segeren tem a resposta da questão. "A chave está em programas de produção de muda de flores em escala", afirma.

A técnica da micropropagação

A micropropagação é uma técnica usual na agronomia. É usada como meio de difundir uma cultura sem sementes e ajudar a diminuir seu custo de produção. Ela pode ser in vitro ou no campo dependendo das facilidades de multiplicação. "A conveniência do uso da técnica depende do propósito", explica o agrônomo Marcos Antonio Machado, doutorado na Alemanha em 1987 em biologia molecular de plantas. "Os limites do uso da micropropagação in vitro advêm da relação custo-benefício ser economicamente viável ou não. Por exemplo, a propagação do eucalipto é feita diretamente no campo. Não faz sentido econômico fazê-la em laboratório, já que se pode selecionar uma planta matriz e usar a técnica da poda para produzir um broto que, ao ser plantado, vira um novo eucalipto", conta Machado. Os limites biológicos da micropropagação in vitro também dependem das espécies. A reprodução em ambiente asséptico é boa para o primeiro ou segundo cultivo. "Depois disso, a planta perde sua bagagem genética e gera aberrações", afirma Machado. Por isso, o ideal é a partir de uma planta matriz produzir, em laboratório, mudas que vão crescer no campo, como faz a ProClone com uma variedade de copo-de-leite de cor bordô, desenvolvida pela empresa.

A técnica de clonagem de mudas pode ser observada na rotina sistemática de quatro das 12 funcionárias da ProClone. Paramentadas com aventais, luvas e tocas, sentadas diante de capelas apropriadas, empregadas de nível técnico manipulam pedaços minúsculos do broto da flor copo-de-leite. Cortam-no em pedacinhos e com pinças os "plantam" num gel, que é um meio de cultura, dentro de potes de plástico; cada pedacinho do broto é o meristema, um aglomerado de células de um milímetro. Um pedaço de meristema de copo-de-leite pode render até cinco mil mudinhas no processo chamado de micropropagação in vitro. À primeira vista é difícil perceber como essa manipulação pode garantir competitividade à ProClone, mas basta uma visita pelo laboratório para entender onde está concentrada a capacitação técnica desenvolvida por Monique Segeren.

Máquinas de assepsia

O laboratório de micropropagação, não por coincidência, foi instalado na cidade de Holambra, região de Campinas, a 155 quilômetros de São Paulo, onde o leilão Veiling, reconhecido pelo mercado de flores, é responsável hoje pela metade da comercialização de flores do País. O laboratório é dividido entre uma sala de cem metros quadrados com pressão de ar positiva (ou seja, onde é insuflado mais ar internamente do que a possibilidade de saída, o que evita a entrada de poeira) para o crescimento das mudas e outra para a sua manipulação. Ele abriga as máquinas que dão à ProClone condições de produção em escala: um esterilizador a plasma (quarto estado da matéria) e uma caldeira de autoclavagem com distribuição semi-automática de solução de cultura.

As máquinas foram desenvolvidas especialmente para a ProClone nas fases I e II do primeiro PIPE, aprovado em 1999. "Desenvolvimento de controle de qualidade de mudas em laboratórios coligados de biotecnologia" — esse era o nome do projeto. Segeren sabe que o ganho de escala na reprodução in vitro de matrizes só pode ser viabilizado com um controle rígido nas fases iniciais do processo: a contaminação por bactérias ou vírus mata as mudas antes mesmo da formação dos bulbos.

O desafio estava em criar ambientes extremamente seguros para a sanidade dos pedacinhos do broto até que se desenvolvessem em bulbos — ou batatas — das plantas. Depois de investir R$ 700 mil de capital próprio, "uma herança de família", para montar o laboratório, Monique foi buscar os recursos na Fapesp para evitar a contaminação das plantas. A missão estava em garantir a assepsia de tudo que tivesse contato com as plantas, principalmente o meio de cultura, incluindo os potes de plástico onde as mudas crescem; tudo em escala de centenas de milhares. A própria matriz da planta não entra em multiplicação se não tiver passado antes por um teste Elisa para identificar eventuais vírus.

Com os R$ 310 mil e os US$ 3 mil das fases I e II, a ProClone, em uma joint venture com a empresa Ceres Vitro — incubada na Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec) —, conseguiu patentear uma autoclave sem similar nacional. O equipamento lembra uma enorme caldeira industrial. Projetada pelo engenheiro Sérgio Koseki, que trabalha há 22 anos na Baumer, empresa especializada em equipamentos hospitalares, a autoclave garante a pureza e a assepsia do meio de cultura que será o primeiro "nutriente" dos pedacinhos de broto. Composto por uma receita mantida secreta pela dona da ProClone, ele leva sais minerais, potássio e até açúcar. Uma hélice no interior da autoclave torna os líquidos mais homogêneos e melhora a esterilização. Ainda nesse projeto do PIPE, Monique precisava dar cabo da contaminação dos potes plásticos. Com ajuda de outra empresa também incubada na Ciatec, a Valitech, desenvolveu o esterilizador a plasma. O equipamento usa peróxido de hidrogênio — água oxigenada — na esterilização dos potes, o que permite a esterilização a frio. A máquina pode esterilizar até dois mil potes plásticos em uma hora. Hoje, a perda por contaminação não chega a 2% da produção in vitro.

Pipe III — A Estufa

Com a infra-estrutura montada, Monique conseguiu o que buscava: escala. Sempre segundo a bióloga, apenas o laboratório da multinacional holandesa SBW, instalado recentemente em Holambra, tem condições de produção numa escala semelhante à da ProClone. Nenhum entre os 20 concorrentes brasileiros tem condições de produzir até 500 mil brotos de flores por estação. Mas quando a ProClone passou a vender suas mudas para os produtores de flores, outro problema se apresentou: a falta de conhecimento técnico dos compradores e a ação das intempéries causavam perdas consideráveis na plantação. Excesso de calor ou chuva, falta de nutrientes ou ataque de pragas justamente na fase em que o broto deveria formar o bulbo colocavam toda a produção em risco. Cada bulbo resulta em uma flor. Para garantir a florada, Monique projetou uma estufa capaz de resguardar as mudas até o crescimento do bulbo. Para construí-la, pediu mais R$ 477 mil à Fapesp dentro da Fase III do PIPE.

Em 2003, a ProClone teve mais um projeto aprovado no programa que apóia a inovação na pequena empresa — para otimizar o processo de gerenciamento e automatizar a máquina de enchimento de meio de cultura. Um software de gerenciamento está sendo desenvolvido — cada pote com muda terá um código de barra. Isso permitirá à empresa acompanhar cada clone multiplicado de suas matrizes.

O cartel holandês

Mas nem tudo são flores no caminho da bióloga-empreendedora. "Sinto-me desprotegida, não tenho capital de giro e sempre falta dinheiro. Por isso, nada pode dar nada errado", afirma. Não é para menos. Apesar de a estufa estar cheia com 500 mil mudas de copos-de-leite prontinhas para ser plantadas no inverno de 2006, Monique pouco esconde a ansiedade de ter de enfrentar o cartel holandês das flores. "Procuro registrar minhas espécies, mas o custo é muito alto e ainda assim não me livra do risco de ser acusada de pirataria", afirma. A lei brasileira de proteção de cultivares admite o registro e o pedido de proteção na nova espécie, mas não existe patente de plantas no Brasil, como na Europa. Deste modo, empresas de má fé podem requerer patentes de plantas registradas aqui no Brasil e levar as divergências comerciais para o âmbito jurídico.

De lavra própria, com o cruzamento de espécies silvestres, a ProClone criou 12 variedades de antúrios, quatro de copos-de-leite e uma de gérbera. Mas os trâmites para pedir o reconhecimento internacional de dono do germoplasma são caros e demorados. O custo de preparação para registro e pedido de proteção no Ministério da Agricultura do Brasil está estimado em R$ 5 mil por espécie. O engenheiro agrônomo Roberto Barreto Pires Filho é o responsável na empresa pela classificação morfológica das flores de que a ProClone pediu registro. Ele reúne o registro legal de provas de criação de espécie nova e encaminha a documentação para os órgãos oficiais como o Ministério da Agricultura e a Associação Brasileira de Flores e Plantas Ornamentais. "Apesar de todos os cuidados técnicos e científicos, depois que uma espécie é registrada a empresa tem de se preparar para se proteger. Se começar a incomodar, a concorrência vai questionar legalmente sua espécie", explica Pires Filho.

A sagacidade holandesa, contudo, também corre nas veias de Monique. A filha de holandeses tem tino para o negócio. Baseada no ciclo de multiplicação das flores, ela estruturou uma estratégia de entrada no mercado que torna a ProClone menos vulnerável. As mudas geradas in vitro da flor matriz podem ser multiplicadas no campo até por três vezes antes de perderem a força e a consistência genética. Além disso, as flores ornamentais têm potencial de comercialização quando são novidades. "Montei uma parceria com uma rede de produtores e levantei um bom estoque de mudas. Em três anos, fecho o ciclo desta espécie de copo-de-leite. Depois que ela deixar de ser novidade, faço outra espécie", explica Segeren. Quer dizer: quando a concorrência acordar para o copo-de-leite bordô da ProClone, ela estará com outra variedade na praça.

"Esta é uma estratégia de comercialização interessante. Se o laboratório não estiver inserido na cadeia de produção e venda, ele não lucra e não sobrevive. No fundo, ninguém está interessado nas mudas, as pessoas querem colher os fruto ou as flores. Ou seja, só fazer a micropropagação in vitro não garante o sucesso da empresa", afirma o agrônomo Marcos Antonio Machado.

Campo de teste

A ProClone tem hoje quatro floricultores "coligados": o laboratório inventa, clona, multiplica a espécie e cuida das mudas até elas formarem os bulbos. Neste estado, as flores são transportadas para as fazendas, onde serão plantadas e colhidas pelos coligados. Depois de nascidas, as flores voltam para Holambra, onde a própria ProClone as leva a leilão. Sessenta por cento dos ganhos ficam com o laboratório e 40% com os produtores. Um dos mais antigos e atuantes produtores da rede formada pela ProClone é Lewingston Luiz Pedroso, médio cafeicultor e floricultor, fazendeiro da região de Águas da Prata, interior paulista. Ele recebeu 70 mil bulbos de copos-de-leite. Parte já deu flores e foi comercializada. Ele acredita que se o inverno de 2006 não for úmido e quente poderá colher, pelo menos, 25 mil flores. "Se chover muito ou esquentar aparece uma bactéria chamada 'ervinha' que mata os bulbos", explica Pedroso. O melhor clima é frio sem geada. De todo modo, o ganho de produção depende de um protocolo científico que é feito pelo agrônomo Barreto Pires Filho. "Faço uma espécie de pós-venda, visito os floricultores e indico a melhor quantidade de adubo e defensivo para cada caso", explica Pires Filho. De todo modo, Lewingston Luiz Pedroso ainda não tem certeza do que irá colher. "Hoje ainda não estou ganhando muito, estou pegando experiência", afirma. O sucesso dele é fundamental para a ProClone. O faturamento deste ano da empresa vai depender da comercialização das mudas de copos-de-leite; em junho, a cotação da flor era de R$ 1,50 cada. "Esperamos vender pelo menos 200 mil flores em 2006 e dobrar este número em 2007", acredita Monique. Se a empresa alcançar a meta, o faturamento bruto chegará perto de meio milhão de reais. "O retorno é mesmo de longo prazo", finaliza Monique Segeren.