ProClone
Bióloga cria empresa para
disputar espaço no mercado de flores; apoio da Fapesp
há sete anos permitiu aperfeiçoamento técnico
Davi
Molinari
A bióloga
Monique Inês Segeren reúne capacidade
de inovação tecnológica e
vocação para comercializar. Mestre
e doutora em genética de vegetal, em 1993,
pela Unicamp, Segeren trabalha mais de 14 horas
por dia atrás de uma obsessão: criar
uma rede de produtores de flores reconhecidamente
brasileiras, capazes de competir em pé
de igualdade com os grandes produtores: Holanda,
Japão e Estados Unidos. Uma tarefa ousada.
O mercado de flores
movimenta hoje algo em torno de US$ 64 bilhões
por ano. Dois terços dele pertencem à
Holanda, terra natal dos pais de Segeren. "Com
certeza a minha vocação para o comércio
é de família", afirma a bióloga,
que se dedica desde 1990 a providenciar maneiras
de dar ganhos de qualidade e escala à produção
de flores. Apesar de crescente, a participação
do Brasil no comércio de flores é
incipiente. O Instituto de Economia Agrícola
(IEA) de São Paulo acompanha a evolução
da floricultura nacional; seus dados apontam que,
em 2005, o Brasil exportou US$ 25,8 milhões
— um crescimento de 9,4% em relação
a 2004 —, mas que representam míseros
0,04% do mercado global.
Mas não
foi só o potencial do mercado que chamou
a atenção da bióloga. Ela
também está interessada em combater
a evasão da flora brasileira. Segundo Monique,
a Holanda registrou o germoplasma de 70% das espécies
de flores comercializadas no mundo e recebe royalties
por isso. Germoplasma, na linguagem dos botânicos,
é o nome dado à base genética
de uma planta que reúne os materiais hereditários
da espécie. "Entre esses 70% estão
flores consagradamente brasileiras como a gérbera,
nossa margarida e algumas orquídeas",
reclama Monique.
A fim de enfrentar
a concorrência dos gigantes das flores,
em 1997 Monique Segeren pediu financiamento do
Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) para executar uma estratégia
de entrada no mercado que tinha em mente. Quando
abriu a ProClone Biotecnologia, em 1989, vislumbrou
a criação de infra-estrutura e a
produção de meio de cultura para
clonar e multiplicar mudas de flores com a finalidade
de abastecer outros laboratórios e produtores.
Mas se a técnica de clonagem de flores
já está difundida comercialmente
no mundo há mais de 20 anos, como a ProClone
conseguiria ser competitiva? Segeren tem a resposta
da questão. "A chave está em
programas de produção de muda de
flores em escala", afirma.
A técnica
da micropropagação
A micropropagação
é uma técnica usual na agronomia.
É usada como meio de difundir uma cultura
sem sementes e ajudar a diminuir seu custo de
produção. Ela pode ser in vitro
ou no campo dependendo das facilidades de multiplicação.
"A conveniência do uso da técnica
depende do propósito", explica o agrônomo
Marcos Antonio Machado, doutorado na Alemanha
em 1987 em biologia molecular de plantas. "Os
limites do uso da micropropagação
in vitro advêm da relação
custo-benefício ser economicamente viável
ou não. Por exemplo, a propagação
do eucalipto é feita diretamente no campo.
Não faz sentido econômico fazê-la
em laboratório, já que se pode selecionar
uma planta matriz e usar a técnica da poda
para produzir um broto que, ao ser plantado, vira
um novo eucalipto", conta Machado. Os limites
biológicos da micropropagação
in vitro também dependem das espécies.
A reprodução em ambiente asséptico
é boa para o primeiro ou segundo cultivo.
"Depois disso, a planta perde sua bagagem
genética e gera aberrações",
afirma Machado. Por isso, o ideal é a partir
de uma planta matriz produzir, em laboratório,
mudas que vão crescer no campo, como faz
a ProClone com uma variedade de copo-de-leite
de cor bordô, desenvolvida pela empresa.
A técnica
de clonagem de mudas pode ser observada na rotina
sistemática de quatro das 12 funcionárias
da ProClone. Paramentadas com aventais, luvas
e tocas, sentadas diante de capelas apropriadas,
empregadas de nível técnico manipulam
pedaços minúsculos do broto da flor
copo-de-leite. Cortam-no em pedacinhos e com pinças
os "plantam" num gel, que é um
meio de cultura, dentro de potes de plástico;
cada pedacinho do broto é o meristema,
um aglomerado de células de um milímetro.
Um pedaço de meristema de copo-de-leite
pode render até cinco mil mudinhas no processo
chamado de micropropagação in
vitro. À primeira vista é difícil
perceber como essa manipulação pode
garantir competitividade à ProClone, mas
basta uma visita pelo laboratório para
entender onde está concentrada a capacitação
técnica desenvolvida por Monique Segeren.
Máquinas
de assepsia
O laboratório
de micropropagação, não por
coincidência, foi instalado na cidade de
Holambra, região de Campinas, a 155 quilômetros
de São Paulo, onde o leilão Veiling,
reconhecido pelo mercado de flores, é responsável
hoje pela metade da comercialização
de flores do País. O laboratório
é dividido entre uma sala de cem metros
quadrados com pressão de ar positiva (ou
seja, onde é insuflado mais ar internamente
do que a possibilidade de saída, o que
evita a entrada de poeira) para o crescimento
das mudas e outra para a sua manipulação.
Ele abriga as máquinas que dão à
ProClone condições de produção
em escala: um esterilizador a plasma (quarto estado
da matéria) e uma caldeira de autoclavagem
com distribuição semi-automática
de solução de cultura.
As máquinas
foram desenvolvidas especialmente para a ProClone
nas fases I e II do primeiro PIPE, aprovado em
1999. "Desenvolvimento de controle de qualidade
de mudas em laboratórios coligados de biotecnologia"
— esse era o nome do projeto. Segeren sabe
que o ganho de escala na reprodução
in vitro de matrizes só pode ser
viabilizado com um controle rígido nas
fases iniciais do processo: a contaminação
por bactérias ou vírus mata as mudas
antes mesmo da formação dos bulbos.
O desafio estava
em criar ambientes extremamente seguros para a
sanidade dos pedacinhos do broto até que
se desenvolvessem em bulbos — ou batatas
— das plantas. Depois de investir R$ 700
mil de capital próprio, "uma herança
de família", para montar o laboratório,
Monique foi buscar os recursos na Fapesp para
evitar a contaminação das plantas.
A missão estava em garantir a assepsia
de tudo que tivesse contato com as plantas, principalmente
o meio de cultura, incluindo os potes de plástico
onde as mudas crescem; tudo em escala de centenas
de milhares. A própria matriz da planta
não entra em multiplicação
se não tiver passado antes por um teste
Elisa para identificar eventuais vírus.
Com os R$ 310 mil
e os US$ 3 mil das fases I e II, a ProClone, em
uma joint venture com a empresa Ceres
Vitro — incubada na Companhia de Desenvolvimento
do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas
(Ciatec) —, conseguiu patentear uma autoclave
sem similar nacional. O equipamento lembra uma
enorme caldeira industrial. Projetada pelo engenheiro
Sérgio Koseki, que trabalha há 22
anos na Baumer, empresa especializada em equipamentos
hospitalares, a autoclave garante a pureza e a
assepsia do meio de cultura que será o
primeiro "nutriente" dos pedacinhos
de broto. Composto por uma receita mantida secreta
pela dona da ProClone, ele leva sais minerais,
potássio e até açúcar.
Uma hélice no interior da autoclave torna
os líquidos mais homogêneos e melhora
a esterilização. Ainda nesse projeto
do PIPE, Monique precisava dar cabo da contaminação
dos potes plásticos. Com ajuda de outra
empresa também incubada na Ciatec, a Valitech,
desenvolveu o esterilizador a plasma. O equipamento
usa peróxido de hidrogênio —
água oxigenada — na esterilização
dos potes, o que permite a esterilização
a frio. A máquina pode esterilizar até
dois mil potes plásticos em uma hora. Hoje,
a perda por contaminação não
chega a 2% da produção in vitro.
Pipe III
— A Estufa
Com a infra-estrutura
montada, Monique conseguiu o que buscava: escala.
Sempre segundo a bióloga, apenas o laboratório
da multinacional holandesa SBW, instalado recentemente
em Holambra, tem condições de produção
numa escala semelhante à da ProClone. Nenhum
entre os 20 concorrentes brasileiros tem condições
de produzir até 500 mil brotos de flores
por estação. Mas quando a ProClone
passou a vender suas mudas para os produtores
de flores, outro problema se apresentou: a falta
de conhecimento técnico dos compradores
e a ação das intempéries
causavam perdas consideráveis na plantação.
Excesso de calor ou chuva, falta de nutrientes
ou ataque de pragas justamente na fase em que
o broto deveria formar o bulbo colocavam toda
a produção em risco. Cada bulbo
resulta em uma flor. Para garantir a florada,
Monique projetou uma estufa capaz de resguardar
as mudas até o crescimento do bulbo. Para
construí-la, pediu mais R$ 477 mil à
Fapesp dentro da Fase III do PIPE.
Em 2003, a ProClone
teve mais um projeto aprovado no programa que
apóia a inovação na pequena
empresa — para otimizar o processo de gerenciamento
e automatizar a máquina de enchimento de
meio de cultura. Um software de gerenciamento
está sendo desenvolvido — cada pote
com muda terá um código de barra.
Isso permitirá à empresa acompanhar
cada clone multiplicado de suas matrizes.
O cartel
holandês
Mas nem tudo são
flores no caminho da bióloga-empreendedora.
"Sinto-me desprotegida, não tenho
capital de giro e sempre falta dinheiro. Por isso,
nada pode dar nada errado", afirma. Não
é para menos. Apesar de a estufa estar
cheia com 500 mil mudas de copos-de-leite prontinhas
para ser plantadas no inverno de 2006, Monique
pouco esconde a ansiedade de ter de enfrentar
o cartel holandês das flores. "Procuro
registrar minhas espécies, mas o custo
é muito alto e ainda assim não me
livra do risco de ser acusada de pirataria",
afirma. A lei brasileira de proteção
de cultivares admite o registro e o pedido de
proteção na nova espécie,
mas não existe patente de plantas no Brasil,
como na Europa. Deste modo, empresas de má
fé podem requerer patentes de plantas registradas
aqui no Brasil e levar as divergências comerciais
para o âmbito jurídico.
De lavra própria,
com o cruzamento de espécies silvestres,
a ProClone criou 12 variedades de antúrios,
quatro de copos-de-leite e uma de gérbera.
Mas os trâmites para pedir o reconhecimento
internacional de dono do germoplasma são
caros e demorados. O custo de preparação
para registro e pedido de proteção
no Ministério da Agricultura do Brasil
está estimado em R$ 5 mil por espécie.
O engenheiro agrônomo Roberto Barreto Pires
Filho é o responsável na empresa
pela classificação morfológica
das flores de que a ProClone pediu registro. Ele
reúne o registro legal de provas de criação
de espécie nova e encaminha a documentação
para os órgãos oficiais como o Ministério
da Agricultura e a Associação Brasileira
de Flores e Plantas Ornamentais. "Apesar
de todos os cuidados técnicos e científicos,
depois que uma espécie é registrada
a empresa tem de se preparar para se proteger.
Se começar a incomodar, a concorrência
vai questionar legalmente sua espécie",
explica Pires Filho.
A sagacidade holandesa, contudo, também
corre nas veias de Monique. A filha de holandeses
tem tino para o negócio. Baseada no ciclo
de multiplicação das flores, ela
estruturou uma estratégia de entrada no
mercado que torna a ProClone menos vulnerável.
As mudas geradas in vitro da flor matriz
podem ser multiplicadas no campo até por
três vezes antes de perderem a força
e a consistência genética. Além
disso, as flores ornamentais têm potencial
de comercialização quando são
novidades. "Montei uma parceria com uma rede
de produtores e levantei um bom estoque de mudas.
Em três anos, fecho o ciclo desta espécie
de copo-de-leite. Depois que ela deixar de ser
novidade, faço outra espécie",
explica Segeren. Quer dizer: quando a concorrência
acordar para o copo-de-leite bordô da ProClone,
ela estará com outra variedade na praça.
"Esta é
uma estratégia de comercialização
interessante. Se o laboratório não
estiver inserido na cadeia de produção
e venda, ele não lucra e não sobrevive.
No fundo, ninguém está interessado
nas mudas, as pessoas querem colher os fruto ou
as flores. Ou seja, só fazer a micropropagação
in vitro não garante o sucesso da
empresa", afirma o agrônomo Marcos
Antonio Machado.
Campo de
teste
A ProClone tem
hoje quatro floricultores "coligados":
o laboratório inventa, clona, multiplica
a espécie e cuida das mudas até
elas formarem os bulbos. Neste estado, as flores
são transportadas para as fazendas, onde
serão plantadas e colhidas pelos coligados.
Depois de nascidas, as flores voltam para Holambra,
onde a própria ProClone as leva a leilão.
Sessenta por cento dos ganhos ficam com o laboratório
e 40% com os produtores. Um dos mais antigos e
atuantes produtores da rede formada pela ProClone
é Lewingston Luiz Pedroso, médio
cafeicultor e floricultor, fazendeiro da região
de Águas da Prata, interior paulista. Ele
recebeu 70 mil bulbos de copos-de-leite. Parte
já deu flores e foi comercializada. Ele
acredita que se o inverno de 2006 não for
úmido e quente poderá colher, pelo
menos, 25 mil flores. "Se chover muito ou
esquentar aparece uma bactéria chamada
'ervinha' que mata os bulbos", explica Pedroso.
O melhor clima é frio sem geada. De todo
modo, o ganho de produção depende
de um protocolo científico que é
feito pelo agrônomo Barreto Pires Filho.
"Faço uma espécie de pós-venda,
visito os floricultores e indico a melhor quantidade
de adubo e defensivo para cada caso", explica
Pires Filho. De todo modo, Lewingston Luiz Pedroso
ainda não tem certeza do que irá
colher. "Hoje ainda não estou ganhando
muito, estou pegando experiência",
afirma. O sucesso dele é fundamental para
a ProClone. O faturamento deste ano da empresa
vai depender da comercialização
das mudas de copos-de-leite; em junho, a cotação
da flor era de R$ 1,50 cada. "Esperamos vender
pelo menos 200 mil flores em 2006 e dobrar este
número em 2007", acredita Monique.
Se a empresa alcançar a meta, o faturamento
bruto chegará perto de meio milhão
de reais. "O retorno é mesmo de longo
prazo", finaliza Monique Segeren.