Unitech
Ponto forte da Unitech é experiência
de seu fundador
com todos os componentes das células a combustível
Mônica
Teixeira
Lá onde
gerar energia é muito caro e muito difícil
é que está a chance da pequena empresa
brasileira interessada em fornecer energia com
base em hidrogênio. A Unitech, uma das 531
pequenas que inovam do PIPE, aposta que ganhará
viabilidade comercial quando for capaz de instalar
suas células a combustível na Amazônia,
por exemplo. Hoje em dia, em localidades remotas
da Região Norte, o fornecimento de energia
depende de geradores movidos a diesel. Diesel
é barato, mas levá-lo até
os geradores é caro — e é
essa condição que forma o nicho
em que as células a combustível
brasileiras têm preço para concorrer
com as formas convencionais de abastecimento de
energia.
Foi essa estratégia
de negócios que Antonio César Ferreira,
o fundador da Unitech, apresentou à comissão
de seleção para a fase III do PIPE,
no final de 2004. O argumento fez sentido —
ele ganhou direito a um financiamento de R$ 500
mil, para desenvolver "protótipos
de células a combustível de polímero
condutor iônico de 2 kW". As células
de polímero condutor iônico são
as mais comuns no mercado — chamadas, no
jargão, de células PEM. PEM para
Proton Exchange Membrane — essa
membrana sendo feita do polímero condutor
iônico do projeto de Ferreira.
Um homem
e sua especialidade
Ferreira trabalha
com células a combustível desde
1991, quando deixou o Brasil para um pós-doutorado
em uma universidade do Texas, nos Estados Unidos.
Voltou só em 1998. Usou o tempo nos EUA
para aprender sobre cada componente importante
das células a combustível. Participou
de projetos de pesquisa no centro de estudos da
Texas A&M para energias renováveis
e na MER Corporation, uma empresa dedicada a desenvolver
materiais especiais — inclusive para células
a combustível. César lembra-se de
que sua intenção era trabalhar para
aprender o máximo — e, quando houvesse
a oportunidade, voltaria ao Brasil para difundir
o que sabia. "Queria fechar a tecnologia",
afirma, "não adianta fazer um componente
só". A oportunidade apareceu em 1997,
quando saiu o primeiro edital para empresas interessadas
em correr o risco de inovar com dinheiro da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). O doutor em química pela
Universidade de São Paulo (USP) de São
Carlos candidatou-se. Pediu os recursos para desenvolver
um material para baratear a célula a combustível.
A Fapesp aprovou seu pedido, e César então
voltou ao Brasil. Recebeu R$ 280 mil nas fases
I e II do programa. Esse projeto foi concluído
com sucesso. Outro financiamento público
que beneficiou a Unitech veio do Fundo Setorial
de Energia (CT-Energ). O projeto, aprovado pelo
Centro Universitário Central Paulista (Unicep),
de São Carlos, levou mais adiante o desenvolvimento
financiado pela Fapesp. No PIPE, a empresa obteve
outro financiamento, para desenvolver baterias
de lítio — como as usadas em computadores
e celulares.
Em Cajobi,
interior de São Paulo
A Unitech tem uma
homônima na Bahia, da área de tecnologia
da informação — que é
a única Unitech com página na Internet.
Ferreira instalou sua empresa em Cajobi, cidade
de 10 mil habitantes no norte do Estado de São
Paulo, porque a irmã tinha ali um imóvel
desocupado quando a empresa foi fundada, em 1996.
Hoje, a Unitech cresceu e funciona em um prédio
de 500 metros quadrados. A empresa mudou-se do
endereço inicial, mas não de Cajobi.
Para César, é vantajoso estar lá:
os custos são baixos e os inconvenientes
da distância são superados pela Internet.
Nove anos depois da fundação, trabalham
na empresa um engenheiro eletrônico, encarregado
dos sistemas de controle da célula; um
químico e um técnico em mecânica,
que faz a usinagem dos protótipos. Contando
com César, são quatro pessoas. Mas
o número chega a sete, segundo ele, quando
se incluem os consultores. "Temos uma estratégia
para fazer as coisas com custo baixo", diz
o especialista.
Empresa
de protótipos
No momento, a Unitech
faz, principalmente, protótipos de células
a combustível — como esses que financiou
pela fase III do PIPE, de 2 kW. "A empresa
domina a tecnologia de fazer protótipo",
diz. Para explicar por que é assim, César
conta que as diferentes necessidades requerem
diferentes desenhos para a célula. Por
exemplo: uma casa precisa de uma célula
de 1 kW de potência para gerar 45 amperes
de corrente elétrica. Mas outra aplicação
pode requerer uma corrente de 200 amperes —
e aí a tecnologia é a mesma, mas
o desenho é outro. Há uma célula
a combustível da Unitech em funcionamento
na Companhia Energética de Minas Gerais
(Cemig) — dentro de um projeto de pesquisa
que tinha o objetivo de desenvolver uma variação
da célula a combustível para que
pudesse ser abastecida com etanol.
Outra "bancada"
da Unitech foi comprada pelo pesquisador Silvio
Almeida, da Engenharia Mecânica da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Uma bancada,
na linguagem dos pesquisadores, é o conjunto
formado por uma célula a combustível
mais sensores que permitam testá-la nas
situações desejadas. Silvio está
interessado em estudar aplicações
das células — inclusive para uso
em automóveis, um assunto muito promissor
que recebe muita atenção das grandes
multinacionais do setor. Como cliente da Unitech,
Silvio teve alguns problemas: o atraso na entrega
obrigou o pesquisador a adiar três vezes
a inauguração do sistema em seu
laboratório; um técnico adoeceu
e ele não pôde ter o atendimento
de que precisava. Mas Silvio ressalta que não
se arrependeu de escolher a Unitech. Outros pesquisadores
da UFRJ, que preferiram importar, ainda esperam
por elas. E ele acha que o preço da Unitech
se torna conveniente pelo fato de a empresa ser
brasileira.
O preço
César diz
que, agora, sua empresa detém a tecnologia
de todos os componentes; e que a tecnologia desenvolvida
com os recursos do PIPE e do CT-Energ permitiu
custos competitivos. "Nós temos um
protótipo todo ele montado aqui",
informa. Perguntado, ele declara que o preço
do quilowatt gerado por suas células é
de US$ 1,5 mil, compatível com o preço
internacional. Mas vai alcançar esse preço
quando tiver escala — o que ele ainda não
tem, pois ainda não chegou lá. Com
esse preço, poderá competir com
a geração de eletricidade por motores
a diesel ou com a energia gerada em termoelétricas.
Ennio Peres da
Silva, pesquisador do Instituto de Física
da Unicamp, onde mantém o Centro Nacional
de Referência em Energia do Hidrogênio
(CENEH), afirma que nenhuma das duas empresas
de células a combustível financiadas
pelo PIPE — a outra é a Electrocell
— chega de fato a alcançar preços
como os internacionais. Nas licitações
que acompanhou, o preço das estrangeiras
foi de três a quatro vezes menor —
e a tecnologia é mais desenvolvida. Cita
como exemplo de empresa vencedora de licitação
a PlugPower, instalada no Estado de Nova Iorque.
Ele concorda com a avaliação de
que a Unitech pode competir naqueles nichos em
que o custo da energia é bem alto. E vê
uma função importante na existência
dessas empresas: elas garantem ao País
um patamar tecnológico que nos permite
negociar com o mercado internacional em bases
mais favoráveis.
Patentes
e Confiança no Futuro
A Unitech —
ao contrário de suas concorrentes internacionais
— não tem patentes depositadas. Sobre
isso, César afirma que não é
hora de patentear, pois isso abriria a possibilidade
de as tecnologias da Unitech para alguns dos componentes
das células serem copiadas por concorrentes.
Ele pensa que o momento de patentes ainda não
chegou para sua empresa: chegará quando
seus produtos estiverem sendo comercializados
em massa, pois então a empresa terá
outros produtos em desenvolvimento, mais avançados
tecnologicamente para ser colocados no mercado.
"Do Texas para baixo, nenhuma outra empresa
tem o conhecimento que temos na Unitech",
completa o empresário-pesquisador.