Publicado em 26 de Junho 2006







Unitech

Ponto forte da Unitech é experiência de seu fundador
com todos os componentes das células a combustível

Mônica Teixeira

Lá onde gerar energia é muito caro e muito difícil é que está a chance da pequena empresa brasileira interessada em fornecer energia com base em hidrogênio. A Unitech, uma das 531 pequenas que inovam do PIPE, aposta que ganhará viabilidade comercial quando for capaz de instalar suas células a combustível na Amazônia, por exemplo. Hoje em dia, em localidades remotas da Região Norte, o fornecimento de energia depende de geradores movidos a diesel. Diesel é barato, mas levá-lo até os geradores é caro — e é essa condição que forma o nicho em que as células a combustível brasileiras têm preço para concorrer com as formas convencionais de abastecimento de energia.

Foi essa estratégia de negócios que Antonio César Ferreira, o fundador da Unitech, apresentou à comissão de seleção para a fase III do PIPE, no final de 2004. O argumento fez sentido — ele ganhou direito a um financiamento de R$ 500 mil, para desenvolver "protótipos de células a combustível de polímero condutor iônico de 2 kW". As células de polímero condutor iônico são as mais comuns no mercado — chamadas, no jargão, de células PEM. PEM para Proton Exchange Membrane — essa membrana sendo feita do polímero condutor iônico do projeto de Ferreira.

Um homem e sua especialidade

Ferreira trabalha com células a combustível desde 1991, quando deixou o Brasil para um pós-doutorado em uma universidade do Texas, nos Estados Unidos. Voltou só em 1998. Usou o tempo nos EUA para aprender sobre cada componente importante das células a combustível. Participou de projetos de pesquisa no centro de estudos da Texas A&M para energias renováveis e na MER Corporation, uma empresa dedicada a desenvolver materiais especiais — inclusive para células a combustível. César lembra-se de que sua intenção era trabalhar para aprender o máximo — e, quando houvesse a oportunidade, voltaria ao Brasil para difundir o que sabia. "Queria fechar a tecnologia", afirma, "não adianta fazer um componente só". A oportunidade apareceu em 1997, quando saiu o primeiro edital para empresas interessadas em correr o risco de inovar com dinheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O doutor em química pela Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos candidatou-se. Pediu os recursos para desenvolver um material para baratear a célula a combustível. A Fapesp aprovou seu pedido, e César então voltou ao Brasil. Recebeu R$ 280 mil nas fases I e II do programa. Esse projeto foi concluído com sucesso. Outro financiamento público que beneficiou a Unitech veio do Fundo Setorial de Energia (CT-Energ). O projeto, aprovado pelo Centro Universitário Central Paulista (Unicep), de São Carlos, levou mais adiante o desenvolvimento financiado pela Fapesp. No PIPE, a empresa obteve outro financiamento, para desenvolver baterias de lítio — como as usadas em computadores e celulares.

Em Cajobi, interior de São Paulo

A Unitech tem uma homônima na Bahia, da área de tecnologia da informação — que é a única Unitech com página na Internet. Ferreira instalou sua empresa em Cajobi, cidade de 10 mil habitantes no norte do Estado de São Paulo, porque a irmã tinha ali um imóvel desocupado quando a empresa foi fundada, em 1996. Hoje, a Unitech cresceu e funciona em um prédio de 500 metros quadrados. A empresa mudou-se do endereço inicial, mas não de Cajobi. Para César, é vantajoso estar lá: os custos são baixos e os inconvenientes da distância são superados pela Internet. Nove anos depois da fundação, trabalham na empresa um engenheiro eletrônico, encarregado dos sistemas de controle da célula; um químico e um técnico em mecânica, que faz a usinagem dos protótipos. Contando com César, são quatro pessoas. Mas o número chega a sete, segundo ele, quando se incluem os consultores. "Temos uma estratégia para fazer as coisas com custo baixo", diz o especialista.

Empresa de protótipos

No momento, a Unitech faz, principalmente, protótipos de células a combustível — como esses que financiou pela fase III do PIPE, de 2 kW. "A empresa domina a tecnologia de fazer protótipo", diz. Para explicar por que é assim, César conta que as diferentes necessidades requerem diferentes desenhos para a célula. Por exemplo: uma casa precisa de uma célula de 1 kW de potência para gerar 45 amperes de corrente elétrica. Mas outra aplicação pode requerer uma corrente de 200 amperes — e aí a tecnologia é a mesma, mas o desenho é outro. Há uma célula a combustível da Unitech em funcionamento na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) — dentro de um projeto de pesquisa que tinha o objetivo de desenvolver uma variação da célula a combustível para que pudesse ser abastecida com etanol.

Outra "bancada" da Unitech foi comprada pelo pesquisador Silvio Almeida, da Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Uma bancada, na linguagem dos pesquisadores, é o conjunto formado por uma célula a combustível mais sensores que permitam testá-la nas situações desejadas. Silvio está interessado em estudar aplicações das células — inclusive para uso em automóveis, um assunto muito promissor que recebe muita atenção das grandes multinacionais do setor. Como cliente da Unitech, Silvio teve alguns problemas: o atraso na entrega obrigou o pesquisador a adiar três vezes a inauguração do sistema em seu laboratório; um técnico adoeceu e ele não pôde ter o atendimento de que precisava. Mas Silvio ressalta que não se arrependeu de escolher a Unitech. Outros pesquisadores da UFRJ, que preferiram importar, ainda esperam por elas. E ele acha que o preço da Unitech se torna conveniente pelo fato de a empresa ser brasileira.

O preço

César diz que, agora, sua empresa detém a tecnologia de todos os componentes; e que a tecnologia desenvolvida com os recursos do PIPE e do CT-Energ permitiu custos competitivos. "Nós temos um protótipo todo ele montado aqui", informa. Perguntado, ele declara que o preço do quilowatt gerado por suas células é de US$ 1,5 mil, compatível com o preço internacional. Mas vai alcançar esse preço quando tiver escala — o que ele ainda não tem, pois ainda não chegou lá. Com esse preço, poderá competir com a geração de eletricidade por motores a diesel ou com a energia gerada em termoelétricas.

Ennio Peres da Silva, pesquisador do Instituto de Física da Unicamp, onde mantém o Centro Nacional de Referência em Energia do Hidrogênio (CENEH), afirma que nenhuma das duas empresas de células a combustível financiadas pelo PIPE — a outra é a Electrocell — chega de fato a alcançar preços como os internacionais. Nas licitações que acompanhou, o preço das estrangeiras foi de três a quatro vezes menor — e a tecnologia é mais desenvolvida. Cita como exemplo de empresa vencedora de licitação a PlugPower, instalada no Estado de Nova Iorque. Ele concorda com a avaliação de que a Unitech pode competir naqueles nichos em que o custo da energia é bem alto. E vê uma função importante na existência dessas empresas: elas garantem ao País um patamar tecnológico que nos permite negociar com o mercado internacional em bases mais favoráveis.

Patentes e Confiança no Futuro

A Unitech — ao contrário de suas concorrentes internacionais — não tem patentes depositadas. Sobre isso, César afirma que não é hora de patentear, pois isso abriria a possibilidade de as tecnologias da Unitech para alguns dos componentes das células serem copiadas por concorrentes. Ele pensa que o momento de patentes ainda não chegou para sua empresa: chegará quando seus produtos estiverem sendo comercializados em massa, pois então a empresa terá outros produtos em desenvolvimento, mais avançados tecnologicamente para ser colocados no mercado. "Do Texas para baixo, nenhuma outra empresa tem o conhecimento que temos na Unitech", completa o empresário-pesquisador.