Proqualit
Proqualit: empresa fornece
componentes eletrônicos usados
por operadoras de TV por assinatura e cresce 30%
ao ano
Davi
Molinari
Na véspera
do início da Copa Mundial de Futebol, 120
funcionários organizados por bancadas de
produção estão em intensa
atividade. Num galpão de 2.500 metros quadrados
instalado à margem da Rodovia Presidente
Dutra, em Guararema, a 80 quilômetros da
capital paulista, os operários montam e
despacham, em média, por dia, 3 mil componentes
diferentes usados em sistemas de recepção
de sinal de TV, principalmente de TV a cabo. Um
mercado que não pára de crescer
e que ganha fôlego nos grandes eventos esportivos
como Copa do Mundo ou Olimpíadas.
Os destinos dos
produtos são mais de mil clientes e distribuidores
espalhados por todo o País. Os caminhões
transportam desde antenas, amplificadores, moduladores,
filtros e misturadores de sinal de TV até
acessórios como conectores de antena. A
Proqualit, fundada em 1991 em São José
dos Campos, é líder nacional na
fabricação de componentes para recepção
de TV paga e concorre de igual para igual com
as fornecedoras estrangeiras, principalmente chinesas.
"A empresa cresce num ritmo forte de 30%
ao ano e vendemos um milhão de itens por ano,
cerca de 83 mil por mês e 3.300 por dia", comemora
o diretor técnico comercial Alexandre Nunes de
Trindade.
"Os projetos
financiados pelo PIPE [Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas] nos deram
15% da nossa capacitação técnica",
avalia Trindade — e, a partir de dezembro,
o produto em que a empresa deposita as maiores
esperanças. O diretor e sócio baseia
sua conta no número de componentes produzidos
a partir do conhecimento tecnológico adquirido
com os projetos financiados pelo PIPE. A história
da empresa com o programa — e o produto
que chegará ao mercado no fim de 2006 —
começou há quase dez anos. Em 1997,
logo no segundo edital do PIPE, Trindade apresentou
um projeto para chegar à especificação
completa — como se diz no jargão
dos engenheiros — e nacionalizar o "Amplificador
de Baixo Ruído com Conversor de Freqüência
para Uso em Parabólica", ou LNB. LNB
é a sigla em inglês para Low
Noise Block — ou, em português,
bloco conversor de baixo ruído —;
e é o dispositivo fundamental para a recepção
via satélite. Até hoje, as antenas
parabólicas instaladas por empresas de
TV por assinatura têm LNBs importados —
esse é o nicho que a Proqualit se preparou
para ocupar. Para essa linha de pesquisa industrial,
a empresa recebeu US$ 27 mil e R$ 155 mil, nas
duas primeiras fases do PIPE. Em dezembro de 2004,
candidatou-se a mais R$ 450 mil de financiamento
— para avançar até a comercialização.
O pedido de apoio foi aprovado na única
rodada de fase III oferecida pelo PIPE até
hoje: além da Proqualit, outras 19 empresas
receberam recursos da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) e da Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep), agência do governo federal.
A empresa obteve
também outro financiamento do programa
para as pequenas que inovam: em 1999, recebeu
aprovação para estudar a viabilidade
comercial de desenvolver e fabricar um microcircuito
eletrônico chamado Módulo Híbrido
Amplificador (MHA). Esse componente tem duas aplicações:
pode ser usado para amplificar o sinal da Internet
via TV a cabo ou para amplificar sinais de diferentes
sistemas de TV (por exemplo, cabo ou VHF/UHF).
O financiamento,
dentro da chamada fase I do PIPE, foi de R$ 33
mil reais; e mostrou que a idéia era viável.
Por decisão gerencial, os diretores da
Proqualit decidiram passar o projeto para outra
empresa — hoje sua fornecedora — para
concentrar esforços no desenvolvimento
do LNB.
Um mercado
em expansão
A decisão
de concentrar esforços na produção
do LNB encontra sustentação nos
números e na tendência de crescimento
da TV paga no Brasil. Há no país
35 milhões de domicílios com TV.
Deles, 12% já têm TV a cabo. Mas
as assinaturas do serviço crescem à
taxa de 8% ao ano. No final do primeiro trimestre
de 2006, já eram 4,3 milhões de
assinantes. Nos EUA, a TV paga alcança
67% das casas; na Argentina, 47%. A tendência
no Brasil é a expansão para números
como esses.
A Proqualit aposta
que a popularização da TV paga vai
se dar por dois caminhos: pelo sistema Direct
to Home (DTH), no qual o assinante instala
em casa uma antena parabólica e um receptor/decodificador,
chamado Integrated Receiver/Decoder (IRD),
e recebe os canais diretamente de um satélite;
e pelo Multipoint Multichannel Distribution
System (MMDS), no qual os sinais são
distribuídos aos assinantes por meio de
microondas terrestres, de forma semelhante aos
canais da TV aberta. O LNB fabricado pela empresa
pretende atender à demanda que se criará
com a tendência de expansão.
Trindade —
que coordenou os projetos de pesquisa —
diz que sua empresa lançará em dezembro
o primeiro LNB nacional. O produto não
é patenteado, porque seu funcionamento
já é de domínio público.
Como resultado do esforço de pesquisa industrial,
a Proqualit conseguiu atingir as especificações
que atendem às operadoras de DTH no mercado
nacional, como Sky, TVA e DirecTV. "Nós
só temos elogios à Fapesp. Quando
os assessores vêm um projeto com viabilidade
comercial, que traz benefícios para a sociedade,
é muito difícil não o aprovarem",
afirma Trindade.
Produto nacional
O ambicioso projeto
da Proqualit foi um desafio complexo. Na segunda
fase do PIPE, o projeto teórico tinha de
propor a solução para identificar
e amplificar o sinal do satélite e bloquear
os ruídos. Além disso, levar em
consideração que o LNB é
instalado em antena parabólica, exposta
a sol, chuva e variações de temperatura
— entre 10 graus e 50 graus Celsius. Os
engenheiros envolvidos no projeto eram Trindade
e Sérgio Vagner Pretti, o outro sócio
da Proqualit. Eles desenvolveram o circuito eletrônico
que atendia às necessidades de amplificação
do sinal. Depois, para proteger o circuito, criaram
a caixa injetada de alumínio à prova
d’água. A caixa de alumínio
também evita interferências de outros
sinais de rádio freqüência.
Com os recursos da fase II do PIPE, a empresa
comprou medidores de desempenho de circuito e
de figura de ruído; e ferramentas de injeção,
além de pagar consultoria técnica.
Quando a fase II
terminou, a empresa tinha o protótipo do
LNB na mão. O desafio seguinte era colocá-lo
na linha de produção. Nessa época,
em 1999, a empresa ainda estava instalada em São
José dos Campos e tinha 40 funcionários.
Os estudos financiados pela Fapesp induziram à
fabricação de outros componentes,
que antes a empresa importava. "Passamos
a fazer produtos com maior valor agregado",
afirma Trindade. Hoje, o sistema de injeção
de alumínio — desenvolvido para fazer
a caixa de proteção do circuito
do LNB — está presente em boa parte
dos produtos da Proqualit.
Entusiasmados com
o sucesso do protótipo, os sócios
conseguiram recursos da fase III do PIPE para
a implantação da linha de montagem.
Os recursos financiaram a compra de equipamentos
eletrônicos para a produção:
analisador de espectro (de comprimento de onda),
medidor de circuito eletrônico, semicondutores
e placas de circuito impresso para lote-padrão.
A empresa ainda não tem certeza do custo
final do LNB. Mas sabe que para ser competitivo,
seu custo não pode ultrapassar dois terços
do valor de mercado, hoje em torno de R$ 45. O
desafio, portanto, para vencer a concorrência
estrangeira — principalmente chinesa —
é fabricar o LNB a R$ 30. "Vamos colocar
no mercado um produto competitivo em relação
ao importado", assegura Trindade.
A terceira fase
do projeto resultou em outro produto, além
do LNB: o "Down Converter",
já comercializado pela Proqualit. O dispositivo
tem o mesmo princípio de funcionamento
do LNB, mas é voltado para o sistema MMDS,
que opera com recepção de microondas.
"Em oito meses de atividade nós já
devolvemos aos cofres públicos, por meio
de impostos, tudo o que recebemos da Fapesp",
afirma Trindade, que deve faturar mais de R$ 3
milhões este ano.
Em maio de 2006,
as operadoras SKY e DirecTV obtiveram do Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade)
autorização para se fundirem numa
só companhia, a maior do Brasil em TV por
assinatura. Sorte da Proqualit: Trindade prevê
agora uma substituição em massa
de componentes. A empresa estará preparada
para concorrer com os importados. "Além
de gerar empregos e receitas, nós conseguimos
fazer com que o País economize divisas,
deixando de importar produtos que já conseguimos
fabricar", finaliza.