Publicado em 19 de Junho 2006







Proqualit

Proqualit: empresa fornece componentes eletrônicos usados
por operadoras de TV por assinatura e cresce 30% ao ano

Davi Molinari

Na véspera do início da Copa Mundial de Futebol, 120 funcionários organizados por bancadas de produção estão em intensa atividade. Num galpão de 2.500 metros quadrados instalado à margem da Rodovia Presidente Dutra, em Guararema, a 80 quilômetros da capital paulista, os operários montam e despacham, em média, por dia, 3 mil componentes diferentes usados em sistemas de recepção de sinal de TV, principalmente de TV a cabo. Um mercado que não pára de crescer e que ganha fôlego nos grandes eventos esportivos como Copa do Mundo ou Olimpíadas.

Os destinos dos produtos são mais de mil clientes e distribuidores espalhados por todo o País. Os caminhões transportam desde antenas, amplificadores, moduladores, filtros e misturadores de sinal de TV até acessórios como conectores de antena. A Proqualit, fundada em 1991 em São José dos Campos, é líder nacional na fabricação de componentes para recepção de TV paga e concorre de igual para igual com as fornecedoras estrangeiras, principalmente chinesas. "A empresa cresce num ritmo forte de 30% ao ano e vendemos um milhão de itens por ano, cerca de 83 mil por mês e 3.300 por dia", comemora o diretor técnico comercial Alexandre Nunes de Trindade.

"Os projetos financiados pelo PIPE [Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas] nos deram 15% da nossa capacitação técnica", avalia Trindade — e, a partir de dezembro, o produto em que a empresa deposita as maiores esperanças. O diretor e sócio baseia sua conta no número de componentes produzidos a partir do conhecimento tecnológico adquirido com os projetos financiados pelo PIPE. A história da empresa com o programa — e o produto que chegará ao mercado no fim de 2006 — começou há quase dez anos. Em 1997, logo no segundo edital do PIPE, Trindade apresentou um projeto para chegar à especificação completa — como se diz no jargão dos engenheiros — e nacionalizar o "Amplificador de Baixo Ruído com Conversor de Freqüência para Uso em Parabólica", ou LNB. LNB é a sigla em inglês para Low Noise Block — ou, em português, bloco conversor de baixo ruído —; e é o dispositivo fundamental para a recepção via satélite. Até hoje, as antenas parabólicas instaladas por empresas de TV por assinatura têm LNBs importados — esse é o nicho que a Proqualit se preparou para ocupar. Para essa linha de pesquisa industrial, a empresa recebeu US$ 27 mil e R$ 155 mil, nas duas primeiras fases do PIPE. Em dezembro de 2004, candidatou-se a mais R$ 450 mil de financiamento — para avançar até a comercialização. O pedido de apoio foi aprovado na única rodada de fase III oferecida pelo PIPE até hoje: além da Proqualit, outras 19 empresas receberam recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência do governo federal.

A empresa obteve também outro financiamento do programa para as pequenas que inovam: em 1999, recebeu aprovação para estudar a viabilidade comercial de desenvolver e fabricar um microcircuito eletrônico chamado Módulo Híbrido Amplificador (MHA). Esse componente tem duas aplicações: pode ser usado para amplificar o sinal da Internet via TV a cabo ou para amplificar sinais de diferentes sistemas de TV (por exemplo, cabo ou VHF/UHF). O financiamento, dentro da chamada fase I do PIPE, foi de R$ 33 mil reais; e mostrou que a idéia era viável. Por decisão gerencial, os diretores da Proqualit decidiram passar o projeto para outra empresa — hoje sua fornecedora — para concentrar esforços no desenvolvimento do LNB.

Um mercado em expansão

A decisão de concentrar esforços na produção do LNB encontra sustentação nos números e na tendência de crescimento da TV paga no Brasil. Há no país 35 milhões de domicílios com TV. Deles, 12% já têm TV a cabo. Mas as assinaturas do serviço crescem à taxa de 8% ao ano. No final do primeiro trimestre de 2006, já eram 4,3 milhões de assinantes. Nos EUA, a TV paga alcança 67% das casas; na Argentina, 47%. A tendência no Brasil é a expansão para números como esses.

A Proqualit aposta que a popularização da TV paga vai se dar por dois caminhos: pelo sistema Direct to Home (DTH), no qual o assinante instala em casa uma antena parabólica e um receptor/decodificador, chamado Integrated Receiver/Decoder (IRD), e recebe os canais diretamente de um satélite; e pelo Multipoint Multichannel Distribution System (MMDS), no qual os sinais são distribuídos aos assinantes por meio de microondas terrestres, de forma semelhante aos canais da TV aberta. O LNB fabricado pela empresa pretende atender à demanda que se criará com a tendência de expansão.

Trindade — que coordenou os projetos de pesquisa — diz que sua empresa lançará em dezembro o primeiro LNB nacional. O produto não é patenteado, porque seu funcionamento já é de domínio público. Como resultado do esforço de pesquisa industrial, a Proqualit conseguiu atingir as especificações que atendem às operadoras de DTH no mercado nacional, como Sky, TVA e DirecTV. "Nós só temos elogios à Fapesp. Quando os assessores vêm um projeto com viabilidade comercial, que traz benefícios para a sociedade, é muito difícil não o aprovarem", afirma Trindade.

Produto nacional

O ambicioso projeto da Proqualit foi um desafio complexo. Na segunda fase do PIPE, o projeto teórico tinha de propor a solução para identificar e amplificar o sinal do satélite e bloquear os ruídos. Além disso, levar em consideração que o LNB é instalado em antena parabólica, exposta a sol, chuva e variações de temperatura — entre 10 graus e 50 graus Celsius. Os engenheiros envolvidos no projeto eram Trindade e Sérgio Vagner Pretti, o outro sócio da Proqualit. Eles desenvolveram o circuito eletrônico que atendia às necessidades de amplificação do sinal. Depois, para proteger o circuito, criaram a caixa injetada de alumínio à prova d’água. A caixa de alumínio também evita interferências de outros sinais de rádio freqüência. Com os recursos da fase II do PIPE, a empresa comprou medidores de desempenho de circuito e de figura de ruído; e ferramentas de injeção, além de pagar consultoria técnica.

Quando a fase II terminou, a empresa tinha o protótipo do LNB na mão. O desafio seguinte era colocá-lo na linha de produção. Nessa época, em 1999, a empresa ainda estava instalada em São José dos Campos e tinha 40 funcionários. Os estudos financiados pela Fapesp induziram à fabricação de outros componentes, que antes a empresa importava. "Passamos a fazer produtos com maior valor agregado", afirma Trindade. Hoje, o sistema de injeção de alumínio — desenvolvido para fazer a caixa de proteção do circuito do LNB — está presente em boa parte dos produtos da Proqualit.

Entusiasmados com o sucesso do protótipo, os sócios conseguiram recursos da fase III do PIPE para a implantação da linha de montagem. Os recursos financiaram a compra de equipamentos eletrônicos para a produção: analisador de espectro (de comprimento de onda), medidor de circuito eletrônico, semicondutores e placas de circuito impresso para lote-padrão. A empresa ainda não tem certeza do custo final do LNB. Mas sabe que para ser competitivo, seu custo não pode ultrapassar dois terços do valor de mercado, hoje em torno de R$ 45. O desafio, portanto, para vencer a concorrência estrangeira — principalmente chinesa — é fabricar o LNB a R$ 30. "Vamos colocar no mercado um produto competitivo em relação ao importado", assegura Trindade.

A terceira fase do projeto resultou em outro produto, além do LNB: o "Down Converter", já comercializado pela Proqualit. O dispositivo tem o mesmo princípio de funcionamento do LNB, mas é voltado para o sistema MMDS, que opera com recepção de microondas. "Em oito meses de atividade nós já devolvemos aos cofres públicos, por meio de impostos, tudo o que recebemos da Fapesp", afirma Trindade, que deve faturar mais de R$ 3 milhões este ano.

Em maio de 2006, as operadoras SKY e DirecTV obtiveram do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) autorização para se fundirem numa só companhia, a maior do Brasil em TV por assinatura. Sorte da Proqualit: Trindade prevê agora uma substituição em massa de componentes. A empresa estará preparada para concorrer com os importados. "Além de gerar empregos e receitas, nós conseguimos fazer com que o País economize divisas, deixando de importar produtos que já conseguimos fabricar", finaliza.