Electrocell
Electrocell pesquisa para
diminuir tamanho e preço das células
a combustível, para concorrer na futura economia
do hidrogênio
Davi
Molinari
Um dos prédios
do Instituto de Pesquisas Energéticas e
Nucleares (Ipen) da Universidade de São
Paulo (USP) tem sua própria fonte de energia
elétrica. Desligado da rede elétrica,
o prédio sede do Centro Incubador de Empresas
Tecnológicas (Cietec) supre suas necessidades
de iluminação e de alimentação
de centenas de máquinas e equipamentos
por meio de uma célula a hidrogênio
de 50 kW, suficiente para manter acesas 1.250
lâmpadas fluorescentes de 40 W.
A célula
experimental funciona desde agosto de 2004 no
andar térreo do edifício, dentro
das instalações da Electrocell.
Uma espécie de "show room"
permanente da empresa. Revestida por uma estrutura
metálica que lembra um armário de
seis portas, a célula levou cinco anos
para ficar pronta. Para isso, a empresa aprovou
projetos dentro do programa de apoio à
pequena empresa inovadora da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). E também da distribuidora
de energia AES Eletropaulo, que investiu R$ 1,7
milhão no projeto em parceria com o Instituto
de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP.
O silêncio
durante a produção de energia chama
a atenção. É a antítese
dos barulhentos e poluidores geradores a diesel.
Alimentada com cilindros de hidrogênio gasoso,
a célula a combustível é
um conversor eletroquímico que transforma
a energia química da quebra de moléculas
de hidrogênio em energia elétrica.
Como resultado final, a célula a combustível
gera eletricidade, calor e água —
nenhum outro resíduo.
Ainda
sem aplicação comercial
Apesar das vantagens
ambientais, o atual custo da célula de
combustível e a ausência de uma rede
de distribuição de hidrogênio
são obstáculos que colocam à
prova o empreendimento empresarial da Electrocell.
"Nós acreditamos que o preço
e as dimensões de uma célula de
combustível vão cair bastante nos
próximos anos", afirma Gerhard Ett,
engenheiro químico por formação,
doutor em eletroquímica pela USP e diretor
da empresa. Em cinco anos de existência,
a Electrocell vendeu 30 células —
principalmente para universidade e institutos
de pesquisa. Nenhuma com aplicação
comercial. "Nós conseguimos vender
duas células para a Alemanha a um terço
do que eles gastariam se comprassem um equipamento
alemão", afirma Ett.
As células
da Electrocell têm sido usadas em bancadas
de teste, como a de 5 kW comprada pelo Centro
de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel)
da Eletrobrás. O equipamento foi financiado
pela Companhia Hidro Elétrica do São
Francisco (Chesf), usando o porcentual obrigatório
de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento
(P&D) previsto na legislação
do setor elétrico. O módulo, instalado
no Rio de Janeiro, é o mais avançado
já construído pela Electrocell.
Ele foi beneficiado pelos avanços tecnológicos
obtidos durante a produção da célula
da Eletropaulo. Com o equipamento, o Cepel quer
investigar a implantação, instalação
e a viabilidade técnico-empresarial das
células de combustível. São
testados os limites de potência, carga,
capacidade de uso em sistemas no-break
e os limites de durabilidade. "Estamos muito
satisfeitos com o equipamento e com a assistência
técnica da Electrocell", afirma Eduardo
Serra, diretor do Cepel, que admite que o uso
de células a hidrogênio no Brasil
ainda é uma realidade distante. O País
pode explorar outras fontes primárias de
energia alternativas ao petróleo: álcool,
hidráulica, solar e eólica, além
da possibilidade de desenvolver a nuclear.
Concorrência
já estabelecida; mercado, nem tanto
O mercado, portanto,
apenas começa a se estabelecer no Brasil.
No entanto, já há sete fornecedores
de células a combustível —
inclusive a Unitech, outra empresa financiada
pelo Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE) da Fapesp. Para manter-se
à frente, a Electrocell traçou os
seguintes objetivos: produzir em escala células
compactas e mais eficientes, dar garantias de
funcionamento e durabilidade. E por meio de parcerias
participa no desenvolvimento dos sistemas de armazenagem,
distribuição e produção
de hidrogênio.
Para atender a
esses objetivos, mantém três linhas
de pesquisa, cada uma com projetos financiados
pela Fapesp, e que se integram em diferentes níveis.
O mais importante entre eles pretende desenvolver
uma linha de montagem semi-automática para
células de combustível. Para isso,
a Electrocell obteve R$ 450 mil para a compra
de máquinas para a produção
em linha, na única vez em que a agência
de fomento financiou a fase III do PIPE. Antes,
a Fapesp financiou os protótipos de 1 kW
e um de 10 kW — que serviu de base para
a construção dos cinco módulos
de 10 kW que formam a célula a combustível
de 50 kW da Eletropaulo. Todo o sistema de potência,
eletrônica de controle e monitoração
da célula foi desenvolvido pela empresa.
A segunda linha
de pesquisa, já na fase II do PIPE, aprimora
o sistema de umidificação das células
a combustível. A eficiência na condução
da eletricidade através do eletrólito
depende do índice de umidificação.
"O ponto de operação ótimo
da célula ocorre quando o índice
de umidificação chega a 60%. Abaixo
disso, perde rendimento", explica Ângelo
Massatoshi Ebesui, engenheiro eletrônico
da Electrocell, responsável pelo projeto.
E, por fim, a terceira linha — o pedido
para isso, na fase II, ainda está em exame
pelos assessores da Fapesp — pretende aperfeiçoar
as placas bipolares das células de combustível
já produzidas. Como? Desenvolvendo compósitos
feitos de nanotubos de carbono, grafite, fibra
e polímero, aproveitando a altíssima
resistência do novo material. A vantagem
será a redução ainda maior
do tamanho da célula. As primeiras pastilhas
da Electrocell, em 2000, tinham 8 milímetros
de espessura. Hoje, a Electrocell fabrica e detém
a patente de placas de 1 milímetro. Neste
ritmo, logo, logo o sonho de Gerhard Ett poderá
ser concretizado: produzir uma célula de
50 kW (que hoje tem dimensões de um guarda-roupa)
no tamanho de uma geladeira de isopor.
Com essas inovações,
os empresários querem capacitar a Electrocell
a competir com a concorrência interna e
externa. Ebesui trabalha há 25 anos na
área e participou do projeto da Usina Angra
1. Gerhard Ett tem 20 anos de experiência
no desenvolvimento de processos eletroquímicos
e já publicou 35 artigos sobre o assunto
em revistas especializadas. Gilberto Janólio,
também, engenheiro elétrico, trabalha
há 25 anos com baterias especiais e é
pós-graduado em dimensionamento de baterias
pela Escola Politécnica da USP. A equipe
conta, por fim, com a experiência sênior
de Volkmar Ett, há 45 anos no ramo de tratamento
de superfícies — um doutor honoris
causa nessa área, que presidiu o International
Union for Surface Fiinishing (Interfinish) e é
fellow do Institute of Metal Finishing.