Brats
Em 4 anos, empresa formada
por metalurgistas do IPT e do Ipen centuplica faturamento;
segredo é conhecimento dos pós metálicos
Davi
Molinari
A noção
de oportunidade foi a liga de um grupo de especialistas
em engenharia de materiais. Com mais de 30 anos
de experiência em metalurgia de pós,
Francisco Ambrozio Filho, pós-doutorado
pelo Institut fuer Metalforshun, Universidade
de Münster, Alemanha, em 1980, coordena os
principais projetos de inovação
desenvolvidos pelo grupo de engenheiros que fundou
a Brats. Eles trabalharam, ou ainda trabalham,
no Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT) e no Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen). Conhecem, como poucos, todas
"as rotas", como costumam falar, para
sinterizar pós metálicos.
A sinterização
é o nome que os engenheiros metalúrgicos
dão ao processo por meio do qual um pó
é transformado numa peça metálica.
A vantagem principal de fazer peças usando
metal em pó é a economia de material:
não há sobras. É possível
também misturar materiais e controlar exatamente
a composição do produto final. O
pó é moldado, depois aquecido a
temperaturas altas, mas menores que seu ponto
de fusão. Do processo de sinterização,
resultam peças com propriedades físicas
e químicas as mais adequadas a cada fim.
"A metalurgia
do pó não é segredo",
afirma Ambrozio. Mas encontrar os parâmetros
corretos (a dimensão dos grãos,
a pressão, a temperatura) para obter peças
e produtos aplicados industrialmente requer anos
de experiência. O conhecimento acumulado
dos engenheiros reunidos na Brats é a principal
vantagem competitiva da empresa.
Em 2001, Francisco
Ambrozio e Lúcio Salgado, doutorado pela
Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo (Poli-USP), perceberam que havia no Brasil
uma demanda por tubos e placas porosos feitos
de aço inoxidável — filtros
de aço. Ao contrário do que ocorria
no mercado de filtros de bronze, bem desenvolvido
e com presença de empresas de pequeno porte
atuando, os filtros de aço inox precisavam
ser importados. Com a idéia na cabeça,
o grupo de engenheiros metalurgistas incubou a
empresa no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas
(Cietec) no Ipen. Cinco sócios se cotizaram
para alcançar o valor de R$ 10 mil referente
aos custos iniciais de abertura jurídica
da Brats. Na fase de incubação,
desenvolveram um protótipo do filtro, fizeram
uma sondagem de mercado e apresentaram o primeiro
projeto a ser aprovado pelo Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)
da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp).
O corta-chamas
O objetivo era
produzir peças porosas em ligas de alto
desempenho como aço e titânio. A
porosidade neste ramo de negócios não
é aleatória. Para funcionar como
filtro, os poros devem ter as medidas corretas.
Achar esta medida é quase uma arte. O trabalho
começa na classificação dos
grãos que são separados por tamanho.
Quanto mais finos os pós, mais fechados
são os poros. É necessário
misturar grãos de tamanhos diferentes na
proporção ideal para buscar a porosidade
desejada. Depois, este pó é compactado
por prensas que garantem uma pressão homogênea
por todos os lados. Quando sai do molde, a peça
está pronta para ser aquecida a uma temperatura
de 1.300 graus Celsius. A temperatura é
o parâmetro determinante que controla a
formação da peça: se ficar
aquém do ideal, não liga os pós
e se for além do desejado, pode fundir
a peça e acabar com a sua porosidade.
As Fases I e II
do PIPE foram um sucesso. Com os R$ 860 mil recebidos
da Fapesp, a Brats comprou uma prensa de compactação,
um forno a vácuo e um aparelho chamado
permeâmetro (para medir a permeabilidade).
Com essas máquinas, conseguiu colocar no
mercado um corta-chamas de maçarico que
antes só podia ser importado da Itália
ou dos Estados Unidos. É um pequeno tubo
cilíndrico de pouco mais de um centímetro
de diâmetro por três de comprimento.
Ele fica entre a chama do maçarico e o
tanque de acetileno. A pequena peça porosa
de aço inoxidável serve para dissipar
a chama e impedir que o fogo volte para o tanque,
evitando uma indesejável explosão.
A Thermadyne do
Brasil, multinacional do ramo de fabricação
e comércio de máquinas e equipamentos
de solda (da White Martins Gases Industriais),
compra quatro mil peças por mês.
De acordo com o engenheiro de produtos da empresa,
Ricardo Militerno, a Thermadyne vai seguir comprando
da Brats porque "a qualidade do produto e
excelente". "A Brats é nosso
fornecedor há quase dois anos e nunca tivemos
problemas nem de qualidade nem de prazo de entrega",
afirmou Militerno. Um dos pontos favoráveis
à Brats é que ela não tem
concorrente no mercado nacional. Antes, a Thermadyne
tinha de importar as peças dos Estados
Unidos.
Fabricação
de Pó
Ambrozio confessa-se
um "acadêmico". Prefere as soluções
de pesquisas e experimentos. Já Lúcio
Salgado é o empreendedor. A combinação
da equipe permitiu à Brats vislumbrar a
solução de um problema corriqueiro
afeto à industrialização:
o fornecimento de matéria-prima. Todas
as peças de aço inoxidável
vendidas pela Brats são feitas com pó
de aço importado dos Estados Unidos e Europa
a um custo médio de US$ 25 o quilo, o que
torna a empresa refém de preço e
prazo do fornecedor. Para contornar este problema,
a empresa já traçou um plano e aprovou
outro projeto de inovação tecnológica
na Fapesp. Já em sua Fase II, este projeto,
sob coordenação do engenheiro Nelson
Karsokas Filho, recebeu da Fapesp R$ 500 mil para
desenvolvimento da produção de pós
de aço inoxidável. Karsokas é
responsável pelos protótipos cuja
finalidade é conhecer o tipo de aço
e os melhores parâmetros para transformá-lo
em pó. Ele busca o melhor processo para
que o filete de aço em estado líquido
receba um jato de água. Com o choque de
temperatura, o filete de aço é pulverizado
em milhões de grãos. Quando o objetivo
estiver concluído, a empresa vai conseguir
dominar todas as etapas para produção
de filtro de aço inoxidável, desde
a fabricação da matéria-prima
até o produto final.
Pesquisa
e Desenvolvimento
"O que nós
fazemos não é uma grande revolução",
afirma modestamente Ambrozio, ao reconhecer que
não há como patentear um processo
difundido há muitos anos pelo mundo. Mas
a verticalização da cadeia produtiva
do filtro de aço inoxidável —
da matéria-prima ao produto final —
dá uma dianteira significativa à
Brats. "Quando a concorrência descobrir
o nicho do filtro de aço inox, nós
seremos os únicos produtores de matéria-prima
no Brasil", explica Salgado.
A estratégia
de estar sempre à frente da concorrência
só foi possível com o apoio das
agências financiadoras. Praticamente todo
o dinheiro que entrou na empresa virou pesquisa
em desenvolvimento. Desde a sua fundação,
a Brats conseguiu R$ 1,9 milhão para desenvolver
quatro linhas de projetos. O desenvolvimento da
produção do filtro de aço
inoxidável alcançou a Fase III,
do PIPE-Pappe. "Com os R$ 450 mil da Fase
III nós compramos nosso próprio
forno, que hoje temos que alugar do Ipen",
explica Salgado. A ajuda da terceira fase foi
fundamental para consolidar o projeto, que em
2006 alcançará a marca de 50 mil
filtros de aço inoxidável por ano.
"Nós ganhamos uns cinco anos",
diz.
O conhecimento
empregado no pequeno cilindro de aço foi
transferido para outro projeto também com
financiamento do PIPE: o desenvolvimento de filtros
metálicos sinterizados tipo cartucho. Embora
ainda na fase inicial, o que se busca são
grandes placas planas de aço inoxidável,
com volume de poros de até 40%, que podem
ser usadas como filtros de sólidos na indústria
química e alimentícia.
Por fim, o projeto
de uso de pós de titânio está
na sua segunda fase. Com o investimento do PIPE
de R$ 460 mil, a idéia é produzir
pós de titânio por um método
(ou rota) chamado hidretação/desidretação.
O método consiste em levar hidrogênio
para dentro do titânio a fim de fragilizá-lo
e transformá-lo em pó, para em seguida
retirar o hidrogênio com um forno a vácuo
e aquecido a 800 graus. O titânio, agora
em pó, recupera suas propriedades originais
e pode ser usado, por exemplo, para jateamento
de implantes odontológicos: o pó
de titânio é jateado diretamente
sobre o implante para desbastá-lo. O pó
de titânio com características para
este fim custa R$ 1,5 mil o quilo, e pode transformar-se
numa das principais fontes de renda da Brats no
futuro.
Faturamento
A empresa já
não cabe mais no prédio de três
andares com 150 metros quadrados de área
útil no bairro do Rio Pequeno, na Zona
Oeste da capital paulista. Os sócios investiram
R$ 150 mil de recursos próprios para construir
a nova sede de 250 metros quadrados, em Cajamar,
a 60 quilômetros de São Paulo. Quando
2006 for uma página virada, além
da nova sede, a Brats terá faturado R$
400 mil, cem vezes mais do que faturou no seu
primeiro ano de atividade, em 2002.