Publicado em 29 de Maio 2006







Geodados

Aprovação de financiamentos nas várias fases do programa
mostrou à Geodados o valor dos produtos que desenvolveus

Mônica Teixeira

"Você decora o número, liga para lá, e fala: Por favor, liberação de recursos. 'Qual o seu código, professor?' Você diz o código. 'Quanto, professor?' 'Noventa mil reais', por exemplo. Aí você sai por aí, faz pose, compra e paga à vista. É um momento em que você exercita um poder." O geólogo Flavio Boscovitz faz a descrição em tons vívidos e bem-humorados. "Lá" é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre 2000 e 2006, Flavio exercitou muitas vezes esse "poder" de receber recursos da Fapesp, dentro do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE). O financiamento concedido à empresa dele, a Geodados Mapeamento e Pesquisa, de São José do Rio Preto, totalizou R$ 750 mil. "Digo sempre: A Fapesp é sócia da empresa faz tempo", completa, brincalhão.

Mas o sócio está falando muito sério. A empresa não teria chegado a seu produto mais bem-sucedido — o Programa de Modernização do Cadastro Imobiliário Municipal (PMCIM) — se não fossem os projetos apresentados ao PIPE. "O rigor da Fapesp pautou o desenvolvimento da empresa", diz. O aplicativo e a forma de comercializá-lo resultaram do apoio e das exigências que vieram com ele; e também, é claro, das idéias sobre geoprocessamento do mestre em geologia pela Escola de Minas do Colorado, nos EUA, e da capacidade em informática do tecnológo Gabriel Moreno, seu sócio. A prefeitura que compra o PMCIM da Geodados recebe uma ferramenta informatizada que integra imagens aéreas da área urbana, fotografias de cada um dos imóveis de sua cidade, mapas e o cadastro imobiliário do município. Na explicação dos sócios, o que a Geodados faz é a "transcrição gráfica do cadastro da prefeitura sobre as imagens". Quer dizer: ao digitar um número de registro de imóvel no PMCIM, tal como aparece no cadastro, os funcionários de uma prefeitura vêem, na tela de seus computadores, o imóvel em questão. E conferem as informações fornecidas pelo dono com o que a imagem mostra. No Estado de São Paulo, 23 prefeituras já compraram o produto da Geodados. Com Bagé, no Rio Grande do Sul, e Lavras, em Minas Gerais, que acabam de também se tornar clientes de Boscovitz e Moreno, o número chega a 25. Mas por que o interesse?

Um entusiasmado diretor de tributos

A prefeitura de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, é cliente da Geodados. Carlos Fernando, um economista vindo do setor privado, é o diretor de tributos do município. Para explicar o interesse da cidade histórica à beira do Rio Tietê — fundada no século XVI, Parnaíba ainda conserva no centro um bonito casario colonial — pela ferramenta informatizada, ele explica que, durante os últimos 15 anos, o mundo da administração municipal mudou. No passado, os municípios sobreviviam de transferências de recursos dos Estados e da União. Por isso, as cidades não se preocupavam com as receitas próprias — que, principalmente, poderiam ser obtidas pela cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). A falta de atenção se concretizava, sempre segundo o especialista Carlos Fernando, em cadastros imobiliários ou inexistentes ou desatualizados.

Mas a Lei de Responsabilidade fez o mundo mudar. Já a partir de 1998, Santana do Parnaíba começou a cuidar de seu cadastro imobiliário. Nos últimos 15 anos, explica o diretor de tributos, a população dobrou, da casa de 50 mil habitantes para a casa dos cem mil habitantes. Mais recentemente, o ritmo de crescimento é de mil, 1.500 imóveis novos por ano. Para a fiscalização do município não ficar para trás, afirma Carlos Fernando, e manter o cadastro atualizado, só com geoprocessamento. "Em dois meses, a Geodados vai fotografar as fachadas de todos imóveis de Parnaíba. Serão 140 mil fotos. Depois vai integrar essas fotos com os dados do nosso cadastro e com as fotos aéreas. Quer dizer: o sistema vai evitar a intervenção no local, o que torna mais barata a fiscalização e vai aumentar nossa arrecadação." O IPTU, prevê-se, responderá por R$ 42 milhões do orçamento de R$ 200 milhões da prefeitura.

Mas Carlos Fernando elogia a ferramenta da Geodados ainda por outro motivo: ela pode integrar-se a outros bancos de dados. Por exemplo: ao do cadastro do Imposto sobre Serviços (ISS). Comparando as fotos frontais com os dados do cadastro, imóveis com evidente utilização comercial passarão a recolher também o ISS da empresa instalada ali. A prefeitura de Santana do Parnaíba é pioneira da modernização de gestão no Brasil. Portanto, seus cadastros quase refletem a realidade do município. Quer dizer: o espaço para a arrecadação aumentar com novas ferramentas não é grande. Mesmo assim, espera-se um incremento imediato de R$ 2 milhões no IPTU — entre 5% e 7% do previsto para este ano. Tudo isso por R$ 140 mil, em valores fixos ao longo de três anos — "sendo que no primeiro ano já temos o potencial de mais R$ 2 milhões, e que irá aumentando ano a ano". Aqui, Carlos Fernando se entusiasma: para ele, Santana do Parnaíba fez um "excelente negócio" ao adquirir "uma ferramenta poderosa", que pode realizar o sonho dos gestores municipais — o banco de dados único.

Para trás na história da Geodados

Um banco de dados único serviria ao setor de saúde, à educação e também à segurança pública. O gestor de Parnaíba deve ter ficado impressionado com um outro produto da Geodados, o Geofone, que georreferencia a origem de qualquer chamada telefônica de emergência, de dentro do município, feita à Polícia ou ao Corpo de Bombeiros, por exemplo. Foi com o Geofone que começou a "sociedade" da Geodados com a Fapesp.

Os sócios consideram o Geofone o produto mais inovador da empresa. Foi para seu aperfeiçoamento que receberam R$ 261 mil da "sócia" Fapesp. O projeto aprovado pelos avaliadores escolhidos pela Diretoria Científica da entidade explica assim o que é o Geofone:

"...um sistema integrado de informação georreferenciada capaz de, instantaneamente, localizar no mapa digital da cidade a origem da chamada telefônica, realizar análise espacial para criar dados de distância do ponto de origem da chamada telefônica aos aspectos de interesse (hidrantes, delegacias, escolas, hospitais, etc.... ), melhor rota de ponto a ponto, buscar dados tabulares relativos ao imóvel de origem e, finalmente, gerar, armazenar e imprimir, relatório contendo essas informações."

Era essa a idéia principal que originou a Geodados, em 1999. Flavio lembra-se de ler no Diário da Região uma reportagem sobre o programa de financiamento das pequenas que inovam logo nos dias subseqüentes à criação da empresa. "Quando li aquilo, pensei que alguém que me conhecia tinha escrito", relembra. As palavras que atraíram os empresários iniciantes — Flavio estava com 35 anos, e Gabriel, com 19 — foram "recursos não reembolsáveis".

Quando o projeto de desenvolvimento do Geofone foi aprovado na Fase I, no começo de 2000, a Geodados nunca tinha visto, na vida, tanto dinheiro: R$ 50 mil reais (o faturamento em 2005 foi de R$ 3 milhões). Nessa época, a empresa ocupava uma sala no mesmo prédio em que, hoje, ocupa três andares. Antes da Fase I, era a sala e um frigobar. Depois da Fase I, a empresa comprou dois computadores, mesas, a máquina fotográfica e um software. Com os equipamentos, a empresa fotografou a cidade de São José, mapeou-a e desenvolveu a ferramenta para a Polícia Militar local. No dia da implementação da ferramenta, 31 de outubro de 2000, a Geodados foi notícia de um minuto e meio no Jornal Nacional. Na manhã seguinte, na primeira página do Diário da Região.

Foi uma injeção de ânimo, mas o negócio não prosperou em torno da ferramenta. Os sócios imaginavam vender o serviço do geofone para todo mundo em Rio Preto: farmácias, padarias, casas... Não deu certo: pouca gente comprou o serviço. Corrigiram então o rumo, e com o mesmo conhecimento criaram uma outra ferramenta, voltada para imobiliárias: "A pessoa clica num imóvel, já vê o CEP, o telefone, área construída, área do terreno, distância, economiza tempo e dinheiro", diz Flavio. O programa foi batizado de GeoImob. Lançado em 2001, o GeoImob foi o embrião do PMCIM.

Potirendaba, Badi-Bascite (ex-Borboleta), Neves Paulista

Essas três prefeituras, todas do entorno de Rio Preto, foram as primeiras a comprar o futuro PMCIM, no começo de 2000. O valor dos contratos acompanhava a ordem de grandeza do financiamento do PIPE, primeira fase: ficavam em torno de R$ 20 mil. Passou um pouco de tempo, e a empresa fez com outra cidade, um pouco maior, um contrato de R$ 55 mil.

"Com o tempo, percebemos que os valores da Fapesp davam uma noção de dinheiro, encorajaram-nos a cobrar mais", lembra-se Flavio. "Quando veio a segunda fase, e recebemos R$ 207 mil, pensamos: Parece que valemos mais."

Os recursos, agora, vieram para o aperfeiçoamento do Geofone, a menina dos olhos da Geodados. Casado ao programa dos cadastros imobiliários, permitiu contratos maiores — Botucatu, por exemplo, fez um contrato com a empresa de R$ 250 mil, mais que o valor do financiamento da Fase II do PIPE.

Explosão e consolidação

Em 2004, apareceu mais uma oportunidade para a Geodados: disputar um financiamento extraordinário, resultado de uma parceria entre a Fapesp e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ao qual poderiam se candidatar empresas que tivessem encerrado seus projetos de Fase II. Essa "Fase III" poderia aprovar projeto de pesquisa, de empresas que apresentassem planos de negócios consistentes, até R$ 500 mil. A empresa se candidatou. A noticia da aprovação saiu em 24 de dezembro de 2004.

De fevereiro — quando os recursos começaram a sair — até outubro de 2005, Flavio, o encarregado de vender o produto para as prefeituras, andou 60 mil quilômetros dentro do Estado de São Paulo, de cidade em cidade. O número de funcionários chegou a 482. Os sócios perceberam que estavam perdendo o controle da situação. Contrataram um diretor financeiro, pisaram no freio, pagaram dívidas, e a empresa se equilibrou.

Hoje, estão com 60 funcionários, encontraram uma maneira de atender as prefeituras e às necessidades econômicas e financeiras da empresa parcelando o pagamento do sistema que vendem. Voltaram a procurar as prefeituras neste começo de ano e já venderam, para as duas cidades fora do Estado, uma versão aperfeiçoada do PMCIM.

Em maio de 2006, a Geodados se preparava para apresentar os relatórios finais da Fase III. "Prometemos no plano de negócios da Fase III faturar R$ 1,8 milhão. Faturamos R$ 3 milhões", orgulha-se Flavio. "Para nós, o programa da Fapesp foi como uma argola que nos puxou para cima, em busca de qualidade, de fazer alguma coisa diferenciada." Agora, completa, a Geodados começa a ser de verdade uma empresa.