Geodados
Aprovação de financiamentos
nas várias fases do programa
mostrou à Geodados o valor dos produtos que desenvolveus
Mônica
Teixeira
"Você
decora o número, liga para lá, e
fala: Por favor, liberação de recursos.
'Qual o seu código, professor?' Você
diz o código. 'Quanto, professor?' 'Noventa
mil reais', por exemplo. Aí você
sai por aí, faz pose, compra e paga à
vista. É um momento em que você exercita
um poder." O geólogo Flavio Boscovitz
faz a descrição em tons vívidos
e bem-humorados. "Lá" é
a Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre
2000 e 2006, Flavio exercitou muitas vezes esse
"poder" de receber recursos da Fapesp,
dentro do Programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE). O financiamento concedido
à empresa dele, a Geodados Mapeamento e
Pesquisa, de São José do Rio Preto,
totalizou R$ 750 mil. "Digo sempre: A Fapesp
é sócia da empresa faz tempo",
completa, brincalhão.
Mas o sócio
está falando muito sério. A empresa
não teria chegado a seu produto mais bem-sucedido
— o Programa de Modernização
do Cadastro Imobiliário Municipal (PMCIM)
— se não fossem os projetos apresentados
ao PIPE. "O rigor da Fapesp pautou o desenvolvimento
da empresa", diz. O aplicativo e a forma
de comercializá-lo resultaram do apoio
e das exigências que vieram com ele; e também,
é claro, das idéias sobre geoprocessamento
do mestre em geologia pela Escola de Minas do
Colorado, nos EUA, e da capacidade em informática
do tecnológo Gabriel Moreno, seu sócio.
A prefeitura que compra o PMCIM da Geodados recebe
uma ferramenta informatizada que integra imagens
aéreas da área urbana, fotografias
de cada um dos imóveis de sua cidade, mapas
e o cadastro imobiliário do município.
Na explicação dos sócios,
o que a Geodados faz é a "transcrição
gráfica do cadastro da prefeitura sobre
as imagens". Quer dizer: ao digitar um número
de registro de imóvel no PMCIM, tal como
aparece no cadastro, os funcionários de
uma prefeitura vêem, na tela de seus computadores,
o imóvel em questão. E conferem
as informações fornecidas pelo dono
com o que a imagem mostra. No Estado de São
Paulo, 23 prefeituras já compraram o produto
da Geodados. Com Bagé, no Rio Grande do
Sul, e Lavras, em Minas Gerais, que acabam de
também se tornar clientes de Boscovitz
e Moreno, o número chega a 25. Mas por
que o interesse?
Um entusiasmado
diretor de tributos
A prefeitura de
Santana do Parnaíba, na Grande São
Paulo, é cliente da Geodados. Carlos Fernando,
um economista vindo do setor privado, é
o diretor de tributos do município. Para
explicar o interesse da cidade histórica
à beira do Rio Tietê — fundada
no século XVI, Parnaíba ainda conserva
no centro um bonito casario colonial — pela
ferramenta informatizada, ele explica que, durante
os últimos 15 anos, o mundo da administração
municipal mudou. No passado, os municípios
sobreviviam de transferências de recursos
dos Estados e da União. Por isso, as cidades
não se preocupavam com as receitas próprias
— que, principalmente, poderiam ser obtidas
pela cobrança do Imposto Predial e Territorial
Urbano (IPTU). A falta de atenção
se concretizava, sempre segundo o especialista
Carlos Fernando, em cadastros imobiliários
ou inexistentes ou desatualizados.
Mas a Lei de Responsabilidade
fez o mundo mudar. Já a partir de 1998,
Santana do Parnaíba começou a cuidar
de seu cadastro imobiliário. Nos últimos
15 anos, explica o diretor de tributos, a população
dobrou, da casa de 50 mil habitantes para a casa
dos cem mil habitantes. Mais recentemente, o ritmo
de crescimento é de mil, 1.500 imóveis
novos por ano. Para a fiscalização
do município não ficar para trás,
afirma Carlos Fernando, e manter o cadastro atualizado,
só com geoprocessamento. "Em dois
meses, a Geodados vai fotografar as fachadas de
todos imóveis de Parnaíba. Serão
140 mil fotos. Depois vai integrar essas fotos
com os dados do nosso cadastro e com as fotos
aéreas. Quer dizer: o sistema vai evitar
a intervenção no local, o que torna
mais barata a fiscalização e vai
aumentar nossa arrecadação."
O IPTU, prevê-se, responderá por
R$ 42 milhões do orçamento de R$
200 milhões da prefeitura.
Mas Carlos Fernando
elogia a ferramenta da Geodados ainda por outro
motivo: ela pode integrar-se a outros bancos de
dados. Por exemplo: ao do cadastro do Imposto
sobre Serviços (ISS). Comparando as fotos
frontais com os dados do cadastro, imóveis
com evidente utilização comercial
passarão a recolher também o ISS
da empresa instalada ali. A prefeitura de Santana
do Parnaíba é pioneira da modernização
de gestão no Brasil. Portanto, seus cadastros
quase refletem a realidade do município.
Quer dizer: o espaço para a arrecadação
aumentar com novas ferramentas não é
grande. Mesmo assim, espera-se um incremento imediato
de R$ 2 milhões no IPTU — entre 5%
e 7% do previsto para este ano. Tudo isso por
R$ 140 mil, em valores fixos ao longo de três
anos — "sendo que no primeiro ano já
temos o potencial de mais R$ 2 milhões,
e que irá aumentando ano a ano". Aqui,
Carlos Fernando se entusiasma: para ele, Santana
do Parnaíba fez um "excelente negócio"
ao adquirir "uma ferramenta poderosa",
que pode realizar o sonho dos gestores municipais
— o banco de dados único.
Para trás
na história da Geodados
Um banco de dados
único serviria ao setor de saúde,
à educação e também
à segurança pública. O gestor
de Parnaíba deve ter ficado impressionado
com um outro produto da Geodados, o Geofone, que
georreferencia a origem de qualquer chamada telefônica
de emergência, de dentro do município,
feita à Polícia ou ao Corpo de Bombeiros,
por exemplo. Foi com o Geofone que começou
a "sociedade" da Geodados com a Fapesp.
Os sócios
consideram o Geofone o produto mais inovador da
empresa. Foi para seu aperfeiçoamento que
receberam R$ 261 mil da "sócia"
Fapesp. O projeto aprovado pelos avaliadores escolhidos
pela Diretoria Científica da entidade explica
assim o que é o Geofone:
"...um
sistema integrado de informação
georreferenciada capaz de, instantaneamente, localizar
no mapa digital da cidade a origem da chamada
telefônica, realizar análise espacial
para criar dados de distância do ponto de
origem da chamada telefônica aos aspectos
de interesse (hidrantes, delegacias, escolas,
hospitais, etc.... ), melhor rota de ponto a ponto,
buscar dados tabulares relativos ao imóvel
de origem e, finalmente, gerar, armazenar e imprimir,
relatório contendo essas informações."
Era essa a idéia
principal que originou a Geodados, em 1999. Flavio
lembra-se de ler no Diário da Região
uma reportagem sobre o programa de financiamento
das pequenas que inovam logo nos dias subseqüentes
à criação da empresa. "Quando
li aquilo, pensei que alguém que me conhecia
tinha escrito", relembra. As palavras que
atraíram os empresários iniciantes
— Flavio estava com 35 anos, e Gabriel,
com 19 — foram "recursos não
reembolsáveis".
Quando o projeto
de desenvolvimento do Geofone foi aprovado na
Fase I, no começo de 2000, a Geodados nunca
tinha visto, na vida, tanto dinheiro: R$ 50 mil
reais (o faturamento em 2005 foi de R$ 3 milhões).
Nessa época, a empresa ocupava uma sala
no mesmo prédio em que, hoje, ocupa três
andares. Antes da Fase I, era a sala e um frigobar.
Depois da Fase I, a empresa comprou dois computadores,
mesas, a máquina fotográfica e um
software. Com os equipamentos, a empresa
fotografou a cidade de São José,
mapeou-a e desenvolveu a ferramenta para a Polícia
Militar local. No dia da implementação
da ferramenta, 31 de outubro de 2000, a Geodados
foi notícia de um minuto e meio no Jornal
Nacional. Na manhã seguinte, na primeira
página do Diário da Região.
Foi uma injeção
de ânimo, mas o negócio não
prosperou em torno da ferramenta. Os sócios
imaginavam vender o serviço do geofone
para todo mundo em Rio Preto: farmácias,
padarias, casas... Não deu certo: pouca
gente comprou o serviço. Corrigiram então
o rumo, e com o mesmo conhecimento criaram uma
outra ferramenta, voltada para imobiliárias:
"A pessoa clica num imóvel, já
vê o CEP, o telefone, área construída,
área do terreno, distância, economiza
tempo e dinheiro", diz Flavio. O programa
foi batizado de GeoImob. Lançado em 2001,
o GeoImob foi o embrião do PMCIM.
Potirendaba,
Badi-Bascite (ex-Borboleta), Neves Paulista
Essas três
prefeituras, todas do entorno de Rio Preto, foram
as primeiras a comprar o futuro PMCIM, no começo
de 2000. O valor dos contratos acompanhava a ordem
de grandeza do financiamento do PIPE, primeira
fase: ficavam em torno de R$ 20 mil. Passou um
pouco de tempo, e a empresa fez com outra cidade,
um pouco maior, um contrato de R$ 55 mil.
"Com o tempo,
percebemos que os valores da Fapesp davam uma
noção de dinheiro, encorajaram-nos
a cobrar mais", lembra-se Flavio. "Quando
veio a segunda fase, e recebemos R$ 207 mil, pensamos:
Parece que valemos mais."
Os recursos, agora,
vieram para o aperfeiçoamento do Geofone,
a menina dos olhos da Geodados. Casado ao programa
dos cadastros imobiliários, permitiu contratos
maiores — Botucatu, por exemplo, fez um
contrato com a empresa de R$ 250 mil, mais que
o valor do financiamento da Fase II do PIPE.
Explosão
e consolidação
Em 2004, apareceu
mais uma oportunidade para a Geodados: disputar
um financiamento extraordinário, resultado
de uma parceria entre a Fapesp e a Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), ao qual poderiam
se candidatar empresas que tivessem encerrado
seus projetos de Fase II. Essa "Fase III"
poderia aprovar projeto de pesquisa, de empresas
que apresentassem planos de negócios consistentes,
até R$ 500 mil. A empresa se candidatou.
A noticia da aprovação saiu em 24
de dezembro de 2004.
De fevereiro —
quando os recursos começaram a sair —
até outubro de 2005, Flavio, o encarregado
de vender o produto para as prefeituras, andou
60 mil quilômetros dentro do Estado de São
Paulo, de cidade em cidade. O número de
funcionários chegou a 482. Os sócios
perceberam que estavam perdendo o controle da
situação. Contrataram um diretor
financeiro, pisaram no freio, pagaram dívidas,
e a empresa se equilibrou.
Hoje, estão
com 60 funcionários, encontraram uma maneira
de atender as prefeituras e às necessidades
econômicas e financeiras da empresa parcelando
o pagamento do sistema que vendem. Voltaram a
procurar as prefeituras neste começo de
ano e já venderam, para as duas cidades
fora do Estado, uma versão aperfeiçoada
do PMCIM.
Em maio de 2006,
a Geodados se preparava para apresentar os relatórios
finais da Fase III. "Prometemos no plano
de negócios da Fase III faturar R$ 1,8
milhão. Faturamos R$ 3 milhões",
orgulha-se Flavio. "Para nós, o programa
da Fapesp foi como uma argola que nos puxou para
cima, em busca de qualidade, de fazer alguma coisa
diferenciada." Agora, completa, a Geodados
começa a ser de verdade uma empresa.