Publicado em 15 de Maio 2006







Lasertools e seu coordenador, Spero Morato

Nascida e criada no Ipen, empresa cresce com conhecimento de mercado; "tecnologia não determina sucesso", diz empresário

Quando a Lasertools foi criada em 1998, o físico Spero Morato já sabia que sua vocação seria a prestação de serviço. Oriundo do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), onde se aposentou, Spero planejava atender a um mercado já preparado para uma ferramenta muito especial: o laser. A Lasertools domina o uso do laser como ferramenta para corte, solda e furo de materiais. Mesmo quando se trata, por exemplo, de gravar a laser nomes em canetas, a atividade da empresa não é tão trivial — para desenvolver aplicações comerciais de lasers no processamento de materiais, a empresa recorreu ao Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE). Na época, a Lasertools ainda não andava sobre suas próprias pernas. Estava sediada no Centro de Incubação de Empresas Tecnológicas (Cietec), no Ipen, em São Paulo. Hoje em sede própria, a Lasertools tem o domínio do laser para fazer microcortes e microfuros em materiais como carbono, titânio, aço, tungstênio, alumínio, ligas de cobre, silício e cerâmicas.

Os microfuros que a Lasertools sabe fazer têm diâmetro da ordem de 20 micrômetros — um micrômetro é um metro dividido por um milhão. Esses materiais também podem receber gravações profundas ou superficiais e ser soldados sem propagação de calor. A chave do segredo está no tipo de laser empregado. Desenvolvido pelo Ipen, com ajuda do próprio Morato, o laser de Neodímio YAG que a Lasertools usa emite luz infravermelha, invisível ao olho humano, mas capaz de furar e cortar qualquer metal.

A Lasertools foi uma das 20 empresas do Estado a obter os recursos da Fase III do PIPE, em 2004 — resultado de um convênio, não repetido, com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A agência aprovou um financiamento de R$ 400 mil para a Lasertools fabricar um laser próprio de Neodímio YAG. Ainda hoje, a empresa tem de contratar a máquina do Ipen para atender seus clientes. O equipamento já foi encomendado e está sendo desenvolvido pelas Indústrias Romi S.A. Quando ficar pronta, vai ser a máquina a laser mais veloz e precisa do mercado brasileiro. Em dois anos de funcionamento, diz o plano de negócios aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na Fase III, o novo laser permitirá à empresa faturar R$ 1,2 milhão por ano.

Equipe. A empresa investe 20% do faturamento bruto em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A base teórica da equipe de seus pesquisadores faz a diferença dos negócios da Lasertools. Hoje, de acordo com Morato, existem pelo menos 400 máquinas laser no Brasil empregadas em usinagem. Em geral, são lasers de C02, menos precisos que os de Neodímio. Mas nenhuma empresa ameaça a liderança da Lasertools: todos da equipe de sócios e técnicos da empresa vieram do centro de pesquisa em laser do Ipen. O time formado por Wagner de Rossi, Nílson Dias Vieira Júnior, Gessé Eduardo Calvo Nogueira, José Roberto Berretta, Niklaus Ursus Wetter e José Tort Vidal teve formação acadêmica e profissional na Divisão de Óptica Aplicada do instituto, criada no início dos anos 1980. É uma equipe de engenheiros, pesquisadores e técnicos que acumula duas décadas de pesquisa e desenvolvimento de lasers de estado sólido, como o de Neodímio YAG.

Clientes. A identificação de clientes, um dos objetivos do primeiro projeto aprovado no PIPE, permitiu à Lasertools estabelecer uma carteira de clientes que fabricam de impressoras a satélites. Furos micrométricos foram encomendados pela Eletrotela Tecnologia, fabricante de impressoras de jato de tinta para gigantografia — grandes painéis ou banners de propaganda. Dispositivos com furos tão diminutos servem para a passagem da tinta, o que garante uma impressão de altíssima qualidade e precisão. A Smar Equipamentos obteve com a Lasertools um processo de solda sem propagação de calor para sensores de pressão de ar em máquinas industriais. Para o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), a Lasertools gravou nomes em chips e fez soldas em dispositivos de telefonia celular.

Primeiro stent nacional. Uma possibilidade vislumbrada pelo grupo de P&D foi desenvolver equipamentos médicos. A empresa buscou mais uma vez financiamento do PIPE para aprender a manufaturar a laser dispositivos como stents para coronárias, clipes usados em cirurgias, implantes de coluna — por exemplo. O primeiro projeto foi o stent — poucos países tem a tecnologia. Tratamento comum em cardiologia, os 90 mil stents coronarianos usados por ano no País são importados. Hoje, coelhos e porcos já usam no coração o stent produzido Lasertools. Ainda há um longo caminho para que a microprótese nacional seja usada em seres humanos. A Lasertools tem tecnologia para moldar os pequenos tubos. Cada stent tem 18 milímetros de comprimento por 1,8 milímetro de largura. A espessura de sua parede é de cerca de 100 mícrons — um mícron é a milésima parte do milímetro. São cortes a laser que transformam as paredes do tubo em uma malha de fios metálicos da ordem de 20 mícrons.

Mas para o stent poder ser usado em seres humanos não basta dominar a tecnologia de sua fabricação a laser. É preciso revesti-lo com fármacos para evitar sua rejeição e também que a cicatrização da parede da artéria, onde foi implantado o stent, venha a obstruí-la novamente. O desenvolvimento desse revestimento com fármacos está a cargo do professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp.

O preço do stent nacional deve ficar mais abaixo que o do importado revestido com fármacos, hoje em torno de R$ 15 mil. Uma nova empresa, a Inovatech, vai fabricá-los e comercializá-los. Além dos stents coronarianos, estão sendo desenvolvidos alongadores ósseos, telas de titânio ortopédicas para integração óssea, clipes para aneurismas cerebrais e peças de titânio para implantes de coluna, tudo cortado a laser.

No dia 9 de maio, Spero Penha Morato concedeu na sede da empresa, no bairro do Rio Pequeno, em São Paulo, a seguinte entrevista ao repórter Davi Molinari:

Que importância tiveram para sua empresa os financiamentos dentro do PIPE?
Foram fundamentais: desenvolvemos e transferimos ao mercado uma tecnologia que não havia no País, abrimos mercado, criamos empregos e devolvemos 40% do que já foi aplicado em impostos. Além disso, estes projetos estão propiciando o desenvolvimento de conhecimento que se transforma em patentes e em publicações cientificas.

O senhor se vê mais como pesquisador ou como empreendedor?
O pesquisador é um empreendedor. O físico é um empreendedor pela sua própria natureza, principalmente o físico experimental, como eu. O físico teórico, nem tanto. Já o experimental mexe com as mãos e faz com que mãos transformem as coisas. As mãos são um instrumento por excelência do físico experimental. Claro, ele também tem que usar a cabeça. Ele tem quer fazer arranjos experimentais ou as peças para suas experiências. Este trabalho foi fundamental para desenvolver projetos, peças e produtos. Sou muito de mão na massa. O empreendedorismo é nato — alguns têm mais, outros menos. Há uma parcela de DNA, de criatividade. É criação com arte.

Como foi a transição da academia para o mundo dos negócios?

A transformação de uma tecnologia em negócio é muito interessante. A tecnologia não é determinante no sucesso do negócio. A qualidade de uma tecnologia não garante que ela vá dar muito dinheiro. Essa é uma premissa totalmente errada. Os computadores Macintosh e o software da Apple sempre foram melhores e mais estáveis que os da IBM rodando Windows, mas a Microsoft tornou-se dominante em todo o mundo. Eu tinha o laser, o processo, etc. Mas isso não era determinante. O determinante realmente é o mercado. As leis de mercado determinam o sucesso do negócio.

O senhor surpreendeu-se com as leis do mercado?
A tecnologia, na medida em que é entendida pelo mercado e aceita, vira commodity, produto. Alguém vai copiar esse produto, como nos aconteceu. Fomos precursores da tecnologia de gravação a laser no País. Rapidamente o uso do laser nessa linha de serviços ganhou concorrente. Então, algo que o professor universitário vendia como tecnologia da universidade, de ponta, passou a estar à disposição de qualquer um: quem tem dinheiro, compra uma máquina, aperta um botão e faz a mesma coisa que eu. Não há mais segredo. Quem tem dinheiro vê que a atividade dá mais dinheiro ainda e então aplica. O diferencial, em nosso caso, é o conhecimento. Sabemos fazer pesquisa, podemos fazer muito mais com um laser do que um concorrente que veio de um açougue, por exemplo. Tenho um concorrente açougueiro que parou de cortar carne e começou a cortar metal com laser.

Como o conhecimento diferencia seu produto?
Mantendo a Lasertools na frente. O conhecimento nos tira do mar de concorrentes que fazem todos a mesma coisa. Nesse mar, a briga é por preço — não por tecnologia.

Por exemplo?
Posso fazer uma gravação a laser em uma caneta; a concorrência também. Mas sei que numa peça de metal sólido, quanto maior o tempo de gravação, mais eu aprofundo a gravação até criar uma figura tridimensional. Algo tridimensional pode ser um molde em injeção de plástico ou um eletrodo para eletroerosão. O concorrente pode fazer isso? Até pode. Qual é então o diferencial de conhecimento? O diferencial é o fato de eu usar conhecimento computacional, de física dos materiais para gerar a figura tridimensional. Sou capaz de desenvolver um programa — o concorrente, não. Ele terá de comprar um programa ou testar os materiais. Eu tenho a ferramenta de toda uma vida. Esse é o diferencial.

Sobre a sua vida: o senhor veio da Universidade de São Paulo (USP)?
Fiz a graduação e o mestrado na Física da USP; o doutorado, nos Estados Unidos. Os doutorados experimentais norte-americanos são muito práticos. Fiz curso de fresa, torno e de solda. As peças de que eu precisava para aquilo que queria investigar, eu mesmo desenvolvi na oficina mecânica do departamento. Aprendi as práticas de oficinas mecânicas como um técnico de nível médio como eles. Quando voltei para o Brasil, entrei no Ipen. Lá, fiz minha carreira. Na década de 1980, desenvolvi vários lasers, vários protótipos de lasers. Sempre ia a feiras expor os lasers que construía, mas não conseguíamos vender nada, porque a inflação fazia com que os empresários preferissem a aplicação overnight [remuneração diária da inflação mais correção monetária. Nota do E.] a comprar alta tecnologia. Resolvemos passar a desenvolver serviços, em lugar de equipamentos. A abertura de mercado coincidiu com minha aposentadoria. Saí do Ipen — onde fui superintendente de 1990 a 1995 para ser consultor da ONU na área de lasers e promover cursos para países em desenvolvimento — um consultor da ONU na área de aplicações de lasers desenvolve cursos para países em desenvolvimento. Tive muitos alunos de mestrado e doutorado e muitas publicações, de cinco a seis por ano. Era 1992; eu achava importante misturar o público e o privado, por meio de parcerias. Queria trazer empresas para um órgão público, o que era considerado uma heresia na época, pelas associações de professores e funcionários, por exemplo, e ainda é. O dinheiro aplicado em tecnologia movimenta o mercado e retorna várias vezes mais forte — veja os Estados Unidos. Infelizmente, o Brasil é um país católico cheio de restrições contra lucro.

Que resistências o senhor enfrentou?

Tive resistência, principalmente das associações de esquerda. Também vim da esquerda. Mas como usar o público juntamente com o privado? Eu me perguntava. O dinheiro público, colocado no privado, volta para o público multiplicado por sete ou oito. Por isso ajudei a criar o Cietec, o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas da USP. Uma das primeiras empresas incubadas no Cietec foi a Lasertools, em 1999. Foi aí que começou a briga com o mercado. A incubação é importante porque ela protege uma idéia. Se a empresa der certo, seu criador vai para a vida empresarial; se não der, ele não perde muito.

O senhor tem patentes?
Sim. As patentes são pessoais. Uma com um pesquisador do CTA [Centro Técnico Aeroespacial], de processo, para endurecer a superfície de uma peça por meio de tratamento com laser. É um processo usado em ferramentas: brocas ou pontas, submetidas a essa técnica, têm sua face de contato enrijecida para maior durabilidade. Vou apresentar um pedido de patente do processo de criação de figuras tridimensionais para injeção ou para cunhagem de moedas. A Alemanha é um dos países que já dominam essa técnica: desenvolvemos um software que, associado ao laser, gera a superfície com o relevo desejado. Com base nesse trabalho estamos desenvolvendo um sensor de movimento que diferencia a massa de uma pessoa da massa, por exemplo, de um cachorro. Isso vai ajudar a definir com precisão que movimento deve disparar um alarme. O sensor resulta de física bem sofisticada, com uma composição entre lentes de Fresnel e a injeção de um molde gravado com uma superfície tridimensional. Esse é um resultado comercial da patente — e também acadêmico: apresentamos o trabalho no Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada, em São Lourenço, em maio de 2006. Por fim, tenho uma patente com o professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, em stents. Essa patente protege uma tecnologia desenvolvida em conjunto com ele que trata de depositar um polímero liberador de fármacos para evitar a reestenose — obstrução por cicatrização — causada por stents.

Sua empresa é formada por pesquisadores? Como ela é composta?
São seis sócios: quatro pesquisadores e dois técnicos. São pessoas que estão comigo desde a época do Ipen.

Qual é o quadro de funcionários?
Hoje, a Lasertools tem vinte empregados. Começamos em uma salinha de 40 metros quadrados, fomos adquirindo mais equipamentos de laser e agora ocupamos 900 metros quadrados num galpão fora da incubadora.

Como você define este investimento do Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe)?
É um investimento para o aumento da capacidade produtiva. Nosso primeiro investimento da Fapesp foi um capital semente que nos ajudou a definir o mercado e a clientela. Mas agora precisamos ampliar a instalação e o Pappe vai realmente fazer a diferença. Vamos dar um salto com esses R$ 400 mil financiados pelo Pappe. Em dois ou três anos será possível faturar R$ 1,2 milhão por ano só com essa máquina.

Quais são as aplicações do laser hoje na sua empresa?
Podemos furar, cortar e soldar com lasers. Usamos um laser de Neodímio YAG de estado sólido. Já existem de 400 a 500 máquinas de corte a laser no Brasil — só que não usam o Neodímio YAG. São máquinas para grandes chapas. No Brasil, laser ainda é de uso da indústria pesada. Nosso laser é de penúltima tecnologia. O laser de antepenúltima tecnologia seria o laser de CO2. O laser de YAG faz um corte mais fino, mas preciso e mais bem acabado. Há uma questão interessante: o Brasil precisa de corte fino, bem acabado, mas precisa já de nanotecnologia? A resposta está no equilíbrio entre oferta e procura. No futuro, sim; agora, ainda não. No estágio em que está a indústria brasileira ainda não precisa de nanofuros. Mas a equipe da Lasertools está preparada para este futuro.

Como a indústria usará nanofuros?
Os nanofuros vão ser utilizados realmente em biologia, no meu entender. O Ipen já trabalha com laser de femtosegundos para produzir nanofuros industriais, tem sua equipe preparada. Nanofuros são utilizados para peneiras moleculares e para separação de células e bactérias. Quem poderia imaginar que há dez anos um dentista ou um cardiologista dependeriam de peças cortadas a laser? A indústria precisa de microfuros? Na verdade, já precisa. Você pode observar nas ruas aqueles imensos painéis de alta definição. Essas imagens resultam de impressoras de jato de tinta com bicos de injeção de microfuros. Cinco anos atrás, não havia essa impressora no Brasil. A Lasertools desenvolveu os microfuros para a Eletrotela, que hoje faz essa impressora. Não fossemos nós, não seria possível produzir essas impressões no Brasil. O furo dá uma tese. Por exemplo, o microfuro pode custar US$ 200.

A demanda é maior para o furo?
Não. A demanda maior está no corte com alta qualidade com laser de Neodímio YAG utilizando argônio ou nitrogênio, usado para fazer peças de titânio, que serão colocadas em ossos do corpo — no maxilar ou na coluna, por exemplo. Nesse segmento, não temos concorrência. Também fazemos solda a laser, que é usada, por exemplo, pelo projeto espacial brasileiro. Soldamos as partes dos jatos propulsores de satélites brasileiros: por serem feitos de materiais refratários e ligas diferentes, submetidos a temperaturas diferentes, só podem ser soldados a laser. O setor aeroespacial gera necessidade de técnicas próprias para atendê-lo. Também fazemos os microfuros para os bicos injetores de foguetes que posicionam o satélite no espaço e para foguetes do CTA.

Para este serviço não há concorrente?
Não; mas se dependêssemos só deste serviço, quebraríamos. Não há todo dia. Por isso precisamos abrir um leque de clientes e serviços.

Qual a grande lição que o senhor aprendeu quando saiu da academia e entrou no mercado?
Aquilo que falei no começo: a tecnologia não é determinante para o sucesso do negócio. O mercado tem leis próprias, diferentes das leis da física. Quem diz quanto vale um produto é o mercado. Apanhei muito em relação a isso.