Lasertools e seu coordenador, Spero Morato
Nascida e criada no Ipen,
empresa cresce com conhecimento de mercado; "tecnologia
não determina sucesso", diz empresário
Quando a
Lasertools foi criada em 1998, o físico
Spero Morato já sabia que sua vocação
seria a prestação de serviço.
Oriundo do Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen), onde se aposentou, Spero
planejava atender a um mercado já preparado
para uma ferramenta muito especial: o laser.
A Lasertools domina o uso do laser como ferramenta
para corte, solda e furo de materiais. Mesmo
quando se trata, por exemplo, de gravar a laser
nomes em canetas, a atividade da empresa não
é tão trivial — para desenvolver
aplicações comerciais de lasers
no processamento de materiais, a empresa recorreu
ao Programa de Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas (PIPE). Na época,
a Lasertools ainda não andava sobre suas
próprias pernas. Estava sediada no Centro
de Incubação de Empresas Tecnológicas
(Cietec), no Ipen, em São Paulo. Hoje
em sede própria, a Lasertools tem o domínio
do laser para fazer microcortes e microfuros
em materiais como carbono, titânio, aço,
tungstênio, alumínio, ligas de
cobre, silício e cerâmicas.
Os microfuros
que a Lasertools sabe fazer têm diâmetro
da ordem de 20 micrômetros — um
micrômetro é um metro dividido
por um milhão. Esses materiais também
podem receber gravações profundas
ou superficiais e ser soldados sem propagação
de calor. A chave do segredo está no
tipo de laser empregado. Desenvolvido pelo Ipen,
com ajuda do próprio Morato, o laser
de Neodímio YAG que a Lasertools usa
emite luz infravermelha, invisível ao
olho humano, mas capaz de furar e cortar qualquer
metal.
A Lasertools
foi uma das 20 empresas do Estado a obter os
recursos da Fase III do PIPE, em 2004 —
resultado de um convênio, não repetido,
com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
A agência aprovou um financiamento de
R$ 400 mil para a Lasertools fabricar um laser
próprio de Neodímio YAG. Ainda
hoje, a empresa tem de contratar a máquina
do Ipen para atender seus clientes. O equipamento
já foi encomendado e está sendo
desenvolvido pelas Indústrias Romi S.A.
Quando ficar pronta, vai ser a máquina
a laser mais veloz e precisa do mercado brasileiro.
Em dois anos de funcionamento, diz o plano de
negócios aprovado pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) na Fase III, o novo laser permitirá
à empresa faturar R$ 1,2 milhão
por ano.
Equipe.
A empresa investe 20% do faturamento bruto em
pesquisa e desenvolvimento (P&D). A base
teórica da equipe de seus pesquisadores
faz a diferença dos negócios da
Lasertools. Hoje, de acordo com Morato, existem
pelo menos 400 máquinas laser no Brasil
empregadas em usinagem. Em geral, são
lasers de C02, menos precisos que os de Neodímio.
Mas nenhuma empresa ameaça a liderança
da Lasertools: todos da equipe de sócios
e técnicos da empresa vieram do centro
de pesquisa em laser do Ipen. O time formado
por Wagner de Rossi, Nílson Dias Vieira
Júnior, Gessé Eduardo Calvo Nogueira,
José Roberto Berretta, Niklaus Ursus
Wetter e José Tort Vidal teve formação
acadêmica e profissional na Divisão
de Óptica Aplicada do instituto, criada
no início dos anos 1980. É uma
equipe de engenheiros, pesquisadores e técnicos
que acumula duas décadas de pesquisa
e desenvolvimento de lasers de estado sólido,
como o de Neodímio YAG.
Clientes.
A identificação de clientes, um
dos objetivos do primeiro projeto aprovado no
PIPE, permitiu à Lasertools estabelecer
uma carteira de clientes que fabricam de impressoras
a satélites. Furos micrométricos
foram encomendados pela Eletrotela Tecnologia,
fabricante de impressoras de jato de tinta para
gigantografia — grandes painéis
ou banners de propaganda. Dispositivos com furos
tão diminutos servem para a passagem
da tinta, o que garante uma impressão
de altíssima qualidade e precisão.
A Smar Equipamentos obteve com a Lasertools
um processo de solda sem propagação
de calor para sensores de pressão de
ar em máquinas industriais. Para o Centro
de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações
(CPqD), a Lasertools gravou nomes em chips e
fez soldas em dispositivos de telefonia celular.
Primeiro
stent nacional. Uma possibilidade vislumbrada
pelo grupo de P&D foi desenvolver equipamentos
médicos. A empresa buscou mais uma vez
financiamento do PIPE para aprender a manufaturar
a laser dispositivos como stents para coronárias,
clipes usados em cirurgias, implantes de coluna
— por exemplo. O primeiro projeto foi
o stent — poucos países tem a tecnologia.
Tratamento comum em cardiologia, os 90 mil stents
coronarianos usados por ano no País são
importados. Hoje, coelhos e porcos já
usam no coração o stent produzido
Lasertools. Ainda há um longo caminho
para que a microprótese nacional seja
usada em seres humanos. A Lasertools tem tecnologia
para moldar os pequenos tubos. Cada stent tem
18 milímetros de comprimento por 1,8
milímetro de largura. A espessura de
sua parede é de cerca de 100 mícrons
— um mícron é a milésima
parte do milímetro. São cortes
a laser que transformam as paredes do tubo em
uma malha de fios metálicos da ordem
de 20 mícrons.
Mas para
o stent poder ser usado em seres humanos não
basta dominar a tecnologia de sua fabricação
a laser. É preciso revesti-lo com fármacos
para evitar sua rejeição e também
que a cicatrização da parede da
artéria, onde foi implantado o stent,
venha a obstruí-la novamente. O desenvolvimento
desse revestimento com fármacos está
a cargo do professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira,
do Instituto de Química (IQ) da Unicamp.
O preço
do stent nacional deve ficar mais abaixo que
o do importado revestido com fármacos,
hoje em torno de R$ 15 mil. Uma nova empresa,
a Inovatech, vai fabricá-los e comercializá-los.
Além dos stents coronarianos, estão
sendo desenvolvidos alongadores ósseos,
telas de titânio ortopédicas para
integração óssea, clipes
para aneurismas cerebrais e peças de
titânio para implantes de coluna, tudo
cortado a laser.
No dia 9
de maio, Spero Penha Morato concedeu na sede
da empresa, no bairro do Rio Pequeno, em São
Paulo, a seguinte entrevista ao repórter
Davi
Molinari:
Que
importância tiveram para sua empresa os
financiamentos dentro do PIPE?
Foram fundamentais: desenvolvemos e transferimos
ao mercado uma tecnologia que não havia
no País, abrimos mercado, criamos empregos
e devolvemos 40% do que já foi aplicado
em impostos. Além disso, estes projetos
estão propiciando o desenvolvimento de
conhecimento que se transforma em patentes e em
publicações cientificas.
O senhor
se vê mais como pesquisador ou como empreendedor?
O pesquisador é um empreendedor. O físico
é um empreendedor pela sua própria
natureza, principalmente o físico experimental,
como eu. O físico teórico, nem tanto.
Já o experimental mexe com as mãos
e faz com que mãos transformem as coisas.
As mãos são um instrumento por excelência
do físico experimental. Claro, ele também
tem que usar a cabeça. Ele tem quer fazer
arranjos experimentais ou as peças para
suas experiências. Este trabalho foi fundamental
para desenvolver projetos, peças e produtos.
Sou muito de mão na massa. O empreendedorismo
é nato — alguns têm mais, outros
menos. Há uma parcela de DNA, de criatividade.
É criação com arte.
Como foi a transição da academia
para o mundo dos negócios?
A transformação de uma tecnologia
em negócio é muito interessante.
A tecnologia não é determinante
no sucesso do negócio. A qualidade de uma
tecnologia não garante que ela vá
dar muito dinheiro. Essa é uma premissa
totalmente errada. Os computadores Macintosh e
o software da Apple sempre foram melhores
e mais estáveis que os da IBM rodando Windows,
mas a Microsoft tornou-se dominante em todo o
mundo. Eu tinha o laser, o processo,
etc. Mas isso não era determinante. O determinante
realmente é o mercado. As leis de mercado
determinam o sucesso do negócio.
O senhor surpreendeu-se com as leis do mercado?
A tecnologia, na medida em que é entendida
pelo mercado e aceita, vira commodity,
produto. Alguém vai copiar esse produto,
como nos aconteceu. Fomos precursores da tecnologia
de gravação a laser no País.
Rapidamente o uso do laser nessa linha
de serviços ganhou concorrente. Então,
algo que o professor universitário vendia
como tecnologia da universidade, de ponta, passou
a estar à disposição de qualquer
um: quem tem dinheiro, compra uma máquina,
aperta um botão e faz a mesma coisa que
eu. Não há mais segredo. Quem tem
dinheiro vê que a atividade dá mais
dinheiro ainda e então aplica. O diferencial,
em nosso caso, é o conhecimento. Sabemos
fazer pesquisa, podemos fazer muito mais com um
laser do que um concorrente que veio
de um açougue, por exemplo. Tenho um concorrente
açougueiro que parou de cortar carne e
começou a cortar metal com laser.
Como
o conhecimento diferencia seu produto?
Mantendo a Lasertools na frente. O conhecimento
nos tira do mar de concorrentes que fazem todos
a mesma coisa. Nesse mar, a briga é por
preço — não por tecnologia.
Por
exemplo?
Posso fazer uma gravação a laser
em uma caneta; a concorrência também.
Mas sei que numa peça de metal sólido,
quanto maior o tempo de gravação,
mais eu aprofundo a gravação até
criar uma figura tridimensional. Algo tridimensional
pode ser um molde em injeção de
plástico ou um eletrodo para eletroerosão.
O concorrente pode fazer isso? Até pode.
Qual é então o diferencial de conhecimento?
O diferencial é o fato de eu usar conhecimento
computacional, de física dos materiais
para gerar a figura tridimensional. Sou capaz
de desenvolver um programa — o concorrente,
não. Ele terá de comprar um programa
ou testar os materiais. Eu tenho a ferramenta
de toda uma vida. Esse é o diferencial.
Sobre
a sua vida: o senhor veio da Universidade de São
Paulo (USP)?
Fiz a graduação e o mestrado na
Física da USP; o doutorado, nos Estados
Unidos. Os doutorados experimentais norte-americanos
são muito práticos. Fiz curso de
fresa, torno e de solda. As peças de que
eu precisava para aquilo que queria investigar,
eu mesmo desenvolvi na oficina mecânica
do departamento. Aprendi as práticas de
oficinas mecânicas como um técnico
de nível médio como eles. Quando
voltei para o Brasil, entrei no Ipen. Lá,
fiz minha carreira. Na década de 1980,
desenvolvi vários lasers, vários
protótipos de lasers. Sempre ia
a feiras expor os lasers que construía,
mas não conseguíamos vender nada,
porque a inflação fazia com que
os empresários preferissem a aplicação
overnight [remuneração
diária da inflação mais correção
monetária. Nota do E.] a comprar alta
tecnologia. Resolvemos passar a desenvolver serviços,
em lugar de equipamentos. A abertura de mercado
coincidiu com minha aposentadoria. Saí
do Ipen — onde fui superintendente de 1990
a 1995 para ser consultor da ONU na área
de lasers e promover cursos para países
em desenvolvimento — um consultor da ONU
na área de aplicações de
lasers desenvolve cursos para países
em desenvolvimento. Tive muitos alunos de mestrado
e doutorado e muitas publicações,
de cinco a seis por ano. Era 1992; eu achava importante
misturar o público e o privado, por meio
de parcerias. Queria trazer empresas para um órgão
público, o que era considerado uma heresia
na época, pelas associações
de professores e funcionários, por exemplo,
e ainda é. O dinheiro aplicado em tecnologia
movimenta o mercado e retorna várias vezes
mais forte — veja os Estados Unidos. Infelizmente,
o Brasil é um país católico
cheio de restrições contra lucro.
Que resistências o senhor enfrentou?
Tive resistência, principalmente das associações
de esquerda. Também vim da esquerda. Mas
como usar o público juntamente com o privado?
Eu me perguntava. O dinheiro público, colocado
no privado, volta para o público multiplicado
por sete ou oito. Por isso ajudei a criar o Cietec,
o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas
da USP. Uma das primeiras empresas incubadas no
Cietec foi a Lasertools, em 1999. Foi aí
que começou a briga com o mercado. A incubação
é importante porque ela protege uma idéia.
Se a empresa der certo, seu criador vai para a
vida empresarial; se não der, ele não
perde muito.
O senhor
tem patentes?
Sim. As patentes são pessoais. Uma com
um pesquisador do CTA [Centro Técnico Aeroespacial],
de processo, para endurecer a superfície
de uma peça por meio de tratamento com
laser. É um processo usado em
ferramentas: brocas ou pontas, submetidas a essa
técnica, têm sua face de contato
enrijecida para maior durabilidade. Vou apresentar
um pedido de patente do processo de criação
de figuras tridimensionais para injeção
ou para cunhagem de moedas. A Alemanha é
um dos países que já dominam essa
técnica: desenvolvemos um software
que, associado ao laser, gera a superfície
com o relevo desejado. Com base nesse trabalho
estamos desenvolvendo um sensor de movimento que
diferencia a massa de uma pessoa da massa, por
exemplo, de um cachorro. Isso vai ajudar a definir
com precisão que movimento deve disparar
um alarme. O sensor resulta de física bem
sofisticada, com uma composição
entre lentes de Fresnel e a injeção
de um molde gravado com uma superfície
tridimensional. Esse é um resultado comercial
da patente — e também acadêmico:
apresentamos o trabalho no Encontro Nacional de
Física da Matéria Condensada, em
São Lourenço, em maio de 2006. Por
fim, tenho uma patente com o professor Marcelo
Ganzarolli de Oliveira, do Instituto de Química
(IQ) da Unicamp, em stents. Essa patente protege
uma tecnologia desenvolvida em conjunto com ele
que trata de depositar um polímero liberador
de fármacos para evitar a reestenose —
obstrução por cicatrização
— causada por stents.
Sua
empresa é formada por pesquisadores? Como
ela é composta?
São seis sócios: quatro pesquisadores
e dois técnicos. São pessoas que
estão comigo desde a época do Ipen.
Qual
é o quadro de funcionários?
Hoje, a Lasertools tem vinte empregados. Começamos
em uma salinha de 40 metros quadrados, fomos adquirindo
mais equipamentos de laser e agora ocupamos
900 metros quadrados num galpão fora da
incubadora.
Como
você define este investimento do Programa
de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe)?
É um investimento para o aumento da capacidade
produtiva. Nosso primeiro investimento da Fapesp
foi um capital semente que nos ajudou a definir
o mercado e a clientela. Mas agora precisamos
ampliar a instalação e o Pappe vai
realmente fazer a diferença. Vamos dar
um salto com esses R$ 400 mil financiados pelo
Pappe. Em dois ou três anos será
possível faturar R$ 1,2 milhão por
ano só com essa máquina.
Quais
são as aplicações do laser
hoje na sua empresa?
Podemos furar, cortar e soldar com lasers.
Usamos um laser de Neodímio YAG
de estado sólido. Já existem de
400 a 500 máquinas de corte a laser
no Brasil — só que não usam
o Neodímio YAG. São máquinas
para grandes chapas. No Brasil, laser
ainda é de uso da indústria pesada.
Nosso laser é de penúltima tecnologia.
O laser de antepenúltima tecnologia seria
o laser de CO2. O laser de YAG faz um corte mais
fino, mas preciso e mais bem acabado. Há
uma questão interessante: o Brasil precisa
de corte fino, bem acabado, mas precisa já
de nanotecnologia? A resposta está no equilíbrio
entre oferta e procura. No futuro, sim; agora,
ainda não. No estágio em que está
a indústria brasileira ainda não
precisa de nanofuros. Mas a equipe da Lasertools
está preparada para este futuro.
Como
a indústria usará nanofuros?
Os nanofuros vão ser utilizados realmente
em biologia, no meu entender. O Ipen já
trabalha com laser de femtosegundos para
produzir nanofuros industriais, tem sua equipe
preparada. Nanofuros são utilizados para
peneiras moleculares e para separação
de células e bactérias. Quem poderia
imaginar que há dez anos um dentista ou
um cardiologista dependeriam de peças cortadas
a laser? A indústria precisa de
microfuros? Na verdade, já precisa. Você
pode observar nas ruas aqueles imensos painéis
de alta definição. Essas imagens
resultam de impressoras de jato de tinta com bicos
de injeção de microfuros. Cinco
anos atrás, não havia essa impressora
no Brasil. A Lasertools desenvolveu os microfuros
para a Eletrotela, que hoje faz essa impressora.
Não fossemos nós, não seria
possível produzir essas impressões
no Brasil. O furo dá uma tese. Por exemplo,
o microfuro pode custar US$ 200.
A demanda
é maior para o furo?
Não. A demanda maior está no corte
com alta qualidade com laser de Neodímio
YAG utilizando argônio ou nitrogênio,
usado para fazer peças de titânio,
que serão colocadas em ossos do corpo —
no maxilar ou na coluna, por exemplo. Nesse segmento,
não temos concorrência. Também
fazemos solda a laser, que é usada,
por exemplo, pelo projeto espacial brasileiro.
Soldamos as partes dos jatos propulsores de satélites
brasileiros: por serem feitos de materiais refratários
e ligas diferentes, submetidos a temperaturas
diferentes, só podem ser soldados a laser.
O setor aeroespacial gera necessidade de técnicas
próprias para atendê-lo. Também
fazemos os microfuros para os bicos injetores
de foguetes que posicionam o satélite no
espaço e para foguetes do CTA.
Para
este serviço não há concorrente?
Não; mas se dependêssemos só
deste serviço, quebraríamos. Não
há todo dia. Por isso precisamos abrir
um leque de clientes e serviços.
Qual
a grande lição que o senhor aprendeu
quando saiu da academia e entrou no mercado?
Aquilo que falei no começo: a tecnologia
não é determinante para o sucesso
do negócio. O mercado tem leis próprias,
diferentes das leis da física. Quem diz
quanto vale um produto é o mercado. Apanhei
muito em relação a isso.