Publicado em 2 de Maio 2006


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Omnisys Engenharia
Desenvolvimento de radar meteorológico financiado pelo PIPE
deu credibilidade ŕ Omnisys, comprada em 2006 pela Thales

Mônica Teixeira

O negócio foi anunciado em fevereiro: a Thales International, francesa, responsável pelos radares e centros de controle de tráfego aéreo que operam na maior parte do território brasileiro, comprou 51% da Omnisys Engenharia, empresa brasileira que atua na mesma área. A Omnisys, fundada e gerida por três engenheiros egressos da Elebra Defesa, é conhecida no mercado pelo fato de ter desenvolvido e construído um radar meteorológico, em parceria com a Atech; e como fornecedora de equipamentos e componentes eletrônicos para a Aeronáutica, para os satélites sino-brasileiros CBERS e para os sistemas de defesa de navios da Marinha. O acordo entre as empresas prevê que a direção da Omnisys permanece com seus fundadores, sob a supervisão de um Conselho de Administração; e que a empresa sediada em São Caetano do Sul se transformará na plataforma mundial de exportação de radares de longo alcance para controle de tráfego aéreo.

"A Omnisys gosta de desenvolver", afirma o exultante Luiz Henriques, presidente da empresa. O interesse da Thales é o reconhecimento do bom trabalho realizado pelos sócios: da fundação, em 1997, até a venda do controle, em 2006, a Omnisys saiu do zero para um faturamento de R$ 21 milhões e de três para 186 funcionários, 40 dos quais são engenheiros elétricos ou eletrônicos. Esse gosto mencionado por Henriques impulsionou a empresa em direção a uma decisão marcante na sua história: a de desenvolver um radar meteorológico.

Financiamento na hora certa

Foram os radares que me levaram à Omnisys. Desde que obteve o primeiro contrato, a empresa se instalou em São Caetano do Sul, no Grande ABC, e continua até hoje lá, agora em dois prédios na rua Lourdes. A Omnisys começou a ser a empresa que faz radares meteorológicos em 2002. Trabalhando em parceria com a Atech no projeto Sivam, ambas as empresas perceberam que havia um espaço no mercado para radares meteorológicos feitos no Brasil. Sem comprador e sem financiamento externo, dado o já citado gosto por desenvolver, Atech e Omnisys começaram a investir recursos próprios no projeto — de acordo com Luiz Henriques, no ritmo da disponibilidade de recursos no caixa. Ou seja: às vezes mais depressa, às vezes mais devagar...

Mas acontece que a empresa de São Caetano tinha um contrato de cooperação técnica com a Unicamp, por meio do qual um mestrando da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) trabalhava num problema de interesse da Omnisys, recebendo para isso uma bolsa. Na lembrança de Jorge Ohashi, outro sócio da empresa, foi Bruno Rondani, esse mestrando, quem trouxe a notícia de que havia um programa na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) — o Programa de Inovação Tecnológica em Pequena Empresa (PIPE) — que poderia financiar o desenvolvimento do radar. E o melhor: o financiamento do PIPE é a fundo perdido — a Fapesp só quer, em retorno, que o projeto seja bem sucedido.

A empresa dividiu o "problema" radar meteorológico em três partes fundamentais — pesquisa e desenvolvimento para aprender a fazer o transmissor, o receptor e a antena —, e apresentou três projetos aos avaliadores do PIPE. Jorge coordenou o projeto do receptor; Luis Henriques, o da antena, e outro engenheiro da empresa, Jean Claude Lamarche, o do transmissor. Na primeira tentativa, a Fapesp rejeitou os três. "Uma das razões para a recusa foi termos cometido alguns erros no preenchimento dos formulários", conta Jorge. "Mas reuni a equipe e disse a eles: vamos persistir até conseguir."

Na segunda vez, a Fapesp aprovou os três projetos, já no ano de 2003. No total, o financiamento chegou a R$ 700 mil. "Foi a maior festa", lembra Jorge.

As conseqüências

"Passamos de empresa que fazia partes de um sistema para empresa que desenvolve e fornece um sistema integrado completo", resume Henriques, sobre a importância do financiamento para a história da Omnisys. "O mercado passou a nos ver como capazes de desenvolvimentos de outro porte", afirma Ohashi. "A aprovação pela Fapesp foi, e ainda é, uma marca de credibilidade para a empresa", completam ambos os sócios. Henriques observa que, perante a Thales, o radar meteorológico foi distintivo, em primeiro lugar, de ousadia comercial — pois o radar foi desenvolvido sem cliente previamente contratado —; e também da capacidade tecnológica da Omnisys, o que contribuiu para valorizá-la no negócio.

A aquisição do controle acionário, no entanto, acabou com a parceria entre Atech e Omnisys. Em 2004, para sacramentar o trabalho conjunto — coube à Atech desenvolver o sistema de processamento do radar —, foi fundada a Atmos, "filha" de ambas, para fabricar e comercializar os radares. O primeiro deles está instalado e operante em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Outro está encomendado pela Aeronáutica e será instalado na base de Alcântara, em São Luis do Maranhão. A Atech, no entanto, preferiu não ter a Thales, uma concorrente, como sócia — e comprou a parte da Omnisys.

Os sócios identificam mais dois benefícios que vieram da participação no PIPE: a aplicação do conhecimento adquirido pelos 30 engenheiros e técnicos que se envolveram nos projetos a outros negócios da empresa — Ohashi cita especificamente um contrato para modernização de radares de controle de tráfego aéreo — e um contato maior e mais próximo com universidades. Agora, a empresa se prepara para pedir outro financiamento — à Fapesp ou à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) —, já não mais como pequena empresa, em cooperação com uma universidade.

Mas por que vender?

O gosto por desenvolver também impulsionou os sócios rumo à decisão de aceitar a proposta da Thales. Além de uma quantia de dinheiro sobre a qual nenhum dos lados diz nem uma palavra, houve outro atrativo para o negócio: a promessa de desenvolvimento conjunto, Thales-Omnisys, de um radar de longo alcance para controle de tráfego aéreo. Uma vez feito o desenvolvimento, a empresa de São Caetano será a fabricante dele para os clientes da Thales, em qualquer parte do mundo.

O radar a ser desenvolvido em conjunto é baseado em semicondutores. Um dos componentes mais importantes dos radares tradicionais é a válvula magnetron. Esse dispositivo gera os sinais de alta freqüência que, emitidos, e depois captados novamente pelo radar, permitem a localização de objetos à distância. A tendência da tecnologia é substituir a válvula magnetron por semicondutores. A Thales ainda não domina a tecnologia para fabricar radares de longo alcance — que, nos sistemas de tráfego aéreo, acompanham os aviões quando eles deixam a área dos aeroportos — baseados em semicondutores. A operação começará, dizem os sócios brasileiros, quando o cliente potencial encomendar o equipamento.

A presença da Thales

Durante o passeio pelos prédios da empresa, o visitante pode ir entendendo melhor qual é a expertise da Omnisys. No andar de cima do prédio principal, salas de trabalho de engenheiros, um laboratório cheio de instrumentos de medida úteis para testar circuitos eletrônicos e uma sala limpa para montagem de componentes. Ao lado dela, uma câmara que produz temperaturas muito baixas. Essas novas salas são o resultado de cinco contratos com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para fornecer equipamentos a ser embarcados nos satélites CBERS 3 e 4. Embarcados nos satélites quer dizer: o equipamento tem de ser leve, ao mesmo tempo resistente a temperaturas que variam de cinco graus negativos a 50 positivos, e ainda ocupar o menor espaço possível. Tudo exige soluções especiais dos engenheiros.

Noutro andar, estão equipamentos de guerra eletrônica da Marinha — isto é, equipamentos que vigiam o espaço aéreo em torno dos navios de guerra para protegê-los, por exemplo, da aproximação de mísseis. Além da Marinha, outro grande cliente da empresa é a Aeronáutica — há equipamentos marca Omnisys na Barreira do Inferno e em Alcântara, por exemplo. Mais adiante no mesmo pavimento, um radar de um aeroporto de Cingapura funciona em regime de testes. O radar é Thales e foi modernizado pela Omnisys — por isso está "em observação".

Fora da área estritamente pública — Marinha, Aeronáutica, Inpe —, a Thales foi sempre uma grande cliente da Omnisys. Na década de 1970, o governo brasileiro contratou com a multinacional francesa o fornecimento dos radares que, até hoje, controlam o tráfego aéreo no País — mesmo na Amazônia, em que se instalou o Sivam, com equipamentos da Raytheon, norte-americana, há radares da Thales. Em 2001, a francesa acertou um contrato de US$ 120 milhões para modernizar os radares do sistema de controle de tráfego aéreo fornecidos há 30 anos. Esta, por sua vez, contratou a Omnisys para instalar os radares modernizados — uma indicação feita pela cliente comum Aeronáutica.

"Éramos da Elebra Defesa", lembra Luiz Henriques, para explicar a forte participação dos militares entre os clientes da empresa; e de atividades da iniciativa do setor público. Pergunto se, nas mudanças de governo, a empresa não sofreu com a parada típica das trocas de administração. Ele diz que não: esses setores, de interesse do Estado, têm mais estabilidade. Se não fosse verdade, não haveria explicação para o crescimento constante da empresa. Subindo a rua Lourdes, chega-se ao segundo prédio. Para lá se mudou recentemente a parte administrativa; no térreo, funciona a parte de mecânica — que faz os consoles e caixas em que são acondicionados os equipamentos eletrônicos. Está lá também o espaço para as ampliações — que a associação com a Thales deverá trazer.

Como vai ser a associação

A Thales é uma gigante multinacional: 60 mil empregados em 50 países, vendas de 100 bilhões de euros em 2004, em três áreas principais — aeroespacial, defesa e soluções e serviços de tecnologia da informação. A companhia resultou da privatização da Thomson-CSF pelo governo francês em 1999, seguida e antecedida pela aquisição e fusão com outras companhias. O nome homenageia o matemático grego do Teorema de Thales (aquele sobre os ângulos entre retas paralelas cortadas por uma reta concorrente) e quis enfatizar o compromisso da nova empresa com a inovação. A Thales declara investir 18% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento; emprega 18,5 mil pessoas nessas atividades, 70% das quais são engenheiros. Sempre segundo seu site, o portfólio tem 15 mil patentes, às quais se acrescentam 1.800 por ano. Por que essa empresa — que faz pesquisa na fronteira do conhecimento, com 148 publicações em 2004 — vai desenvolver radar de longo alcance, estado sólido, aqui no Brasil, com a Omnisys, que em 2006 pretende faturar R$ 30 milhões e ainda não chegou a 200 funcionários?

"O Brasil é o grande cliente da Thales para radares de rota", argumenta Henriques. "Além disso, é mais barato fabricar aqui, e a política é descentralizar e fazer outsourcing." O presidente confia no acordo, que prevê o desenvolvimento compartilhado do novo radar, lá e aqui. "Vamos atuar juntos em todas as etapas", reafirma. Para financiar o investimento, Luiz pensa em buscar as novas linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas não tem ainda idéia de valores.

Ele não tem dúvida de que a associação com a gigante será boa para a empresa de desenvolvimento que fundou. Será que a Thales não vai demitir os engenheiros e deixar aqui só a fabricação e a engenharia mais rotineira? Não vai acontecer, garantem Henriques e Ohashi. Tomara: a Omnisys é uma ex-pequena empresa brasileira muito valente, aguerrida e competente.