Femto
Indústria e Comércio de Instrumentos
Em nove anos, quatro projetos
inovadores levam empresa a linha
diversificada de espectrofotômetros e
faturamento de R$ 2 milhões
Davi
Molinari
"A luz interage com a matéria":
o físico (e industrial) Lídio Takayama
persegue esse mote desde 1975, quando apresentou
seu primeiro espectrofotômetro na reunião
anual da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência (SBPC). Em novembro de 2004,
repetiu a frase na epígrafe do projeto
que escreveu para pleitear — e obter —
mais um financiamento da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) para sua empresa. A paixão
de Takayama por desenvolver instrumentos que usem
a luz como princípio de medida o levou
a fundar, em 1989, a Femto Indústria e
Comércio de Instrumentos Ltda, que fabricou
quase um terço dos 600 espectrofotômetros
colocados no mercado doméstico em 2005.
Espectrofotômetros e espectrômetros
são aparelhos óticos que fornecem
informações sobre as características
de um determinado material, fazendo incidir sobre
ele radiação eletromagnética
— como a luz, por exemplo — para,
em seguida, medir os efeitos produzidos na radiação
pela interação com o material.
A inspiração
para o nome da empresa, Takayama teve quando surgiram
trabalhos acadêmicos em ótica sobre
sistemas de rastreamento de mísseis que
operavam em femtossegundos. Femtossegundos são
intervalos de tempo extremamente curtos: duram
um quatrilionésimo de segundo. Ou seja:
um femtossegundo é o tempo que se obtém
quando se divide um segundo por um quatrilhão.
Ou ainda: é o milionésimo de um
bilionésimo de segundo. "A detecção
de míssil tem de ser muito rápida",
lembra Takayama, que também passou pelo
Instituto de Atividades Espaciais do Centro Tecnológico
da Aeronáutica.
Dimensões
femto, nano ou atto — prefixo para um milésimo
de um quatrilionésimo — formam o
ambiente de pesquisa de quem desenvolve ferramentas
de levantamento de dados físico-químicos.
Por meio da transmissão, da absorção
ou reflexão de energia radiante que incide
sobre uma amostra, é possível obter
informações sobre as substâncias
presentes nela — por exemplo, cianeto, em
efluentes industriais; chumbo, no sangue humano;
ou ferro, na água. A menção
a efluentes, à qualidade da água,
a sangue não foi de graça: para
assegurar o cumprimento de normas ambientais e
de vigilância sanitária, nos métodos
de diagnóstico molecular, nas análises
clínicas, os espectrômetros e espectrofotômetros
têm lugar garantido — e aí
está o mercado, crescente, para os sofisticados
aparelhos produzidos pela Femto.
Linha dos
Sonhos
O 800XI é
um dos mais modernos espectrofotômetros
desenvolvidos no Brasil. O equipamento é
uma caixa branca de plástico rígido
de 19 quilos que abriga a tecnologia desenvolvida
em dois anos de pesquisa. Para chegar até
ele, Takayama obteve dois financiamentos da Fapesp,
dentro do Programa
de Inovação Tecnológica em
Pequena Empresa (PIPE). De
acordo com o industrial, com o primeiro financiamento,
em 1997, a empresa aprendeu a lidar com automação
e robótica, ao pesquisar e desenvolver
uma "estação de trabalho espectrofotométrica",
que tinha no centro o "espectrofotômetro
UV-VIS" (como se diz no jargão: UV
é para ultravioleta e VIS é para
visível), antecessor do 800XI. Em 2000,
a Femto voltou à agência de fomento:
decidiu desenvolver o modelo mais sofisticado
que tem à venda, o espectrofotômetro
com "lâmpada pulsada de xenônio
e sensor de imagem linear".
O financiamento
fez a Femto tornar-se a primeira empresa do País
a produzir um espectrofotômetro ultravioleta
e visível com varredura: quer dizer, capaz
de "percorrer" a extensão da
amostra. Em 2002, do R$ 1,6 milhão faturado
pela empresa, R$ 400 mil vieram das vendas do
800XI UV-VIS. Desde então, a Femto produziu
60 espectrofotômetros 800XI UV-VIS, duplo
feixe — que custam R$ 20 mil a unidade.
Para ir mais adiante e atender às necessidades
do mercado nacional, Takayama precisava de financiamento
para transformar o 800XI UV-VIS num equipamento
stand alone — quer dizer, independente
de computador tipo PC e com preço capaz
de competir com equipamentos similares fornecidos
por concorrentes internacionais, como Amershan
Pharmacia, Shimadzu, Spectra-Physics e Varian.
Para isso escreveu o projeto com a epígrafe
citada, um dos 20 selecionados para inaugurar
a chamada Fase III do PIPE: "Desenvolvimento
da linha de sonhos de espectrofotômetros
UV-VIS, para quem vai fabricar, vender ou utilizar".
Fase III
Desde a criação,
em 1997, o Inovação Tecnológica
em Pequena Empresa oferecia aos interessados apenas
financiamento para a fase de pesquisa, até
o protótipo do produto. A empresa interessada
— ainda é assim hoje —, pode
pedir um financiamento de até R$ 100 mil
para estudar a viabilidade de seu projeto; depois,
um de até R$ 400 mil para a pesquisa do
projeto considerado viável. Os dois primeiros
financiamentos da Femto seguiram esse padrão.
Mas, em 2004, a Fapesp e a Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep) financiaram, juntas, a etapa
de desenvolvimento de produto para 20 empresas
que haviam tido projetos aprovados na Fase II
do PIPE. Entre elas, estava a Femto.
Não fosse
a implantação da nova Fase III,
não haveria programa na agência para
financiar a linha dos sonhos de Takayama e dos
clientes da Femto. De acordo com o plano de negócios
apresentado aos avaliadores da Fapesp, esses clientes
querem espectrofotômetros stand alone
com assistência técnica local e de
menor custo — em relação ao
produto das multinacionais.
O conhecimento
para tornar o 800XI independente do PC não
é novidade para a Femto, que já
fabrica outros modelos de espectrofotômetro
stand alone. "Coloquei nesse projeto
todo o conhecimento acumulado ao longo dessas
três décadas", afirma Takayama.
O maior desafio está em tornar o equipamento
competitivo em três campos diferentes: biologia
molecular, indústria farmacêutica
e análises clínicas.
Para cada segmento,
a Femto decidiu desenvolver um protótipo.
Pela primeira vez no Brasil, serão produzidos
espectrofotômetros com gabinete injetado
em ABS antichamas permitindo melhor produtividade
e padronização — de acordo
com normas de países desenvolvidos. Os
espectrofotômetros têm faixa espectral
de emissão, largura da banda, detectores
e softwares apropriados para cada finalidade.
Se alcançar
seus objetivos, a Femto vai fechar 2009 com 50%
do mercado e com 875 equipamentos vendidos. O
preço previsto para cada espectrofotômetro
é de R$ 12,5 mil. Com exceção
do dedicado à análise clínica
— que tem preço alvo menor, de R$
4,5 mil. O faturamento em valores nominais da
empresa chegará a R$ 3,8 milhões.
Mais um
PIPE: agora, absorção atômica
Desde 1997, a Femto
recebeu das agências de apoio à pesquisa,
especialmente da Fapesp, R$ 1,318 milhão.
A cada projeto financiado, Lídio Takayama
pôde desenvolver fundamentos de diferentes
tecnologias dentro da espectrofotometria. Não
foi somente a viabilização comercial
da pesquisa. "Foi possível agregar
conhecimento para desenvolver outros projetos",
afirma Takayama. Ele exemplifica cada "subproduto"
resultante dos projetos de pesquisa que foram
aproveitados em produtos subseqüentes: o
desenvolvimento da estação de trabalho
espectrofotométrica, primeiro projeto aprovado
no PIPE, legou à Femto o conhecimento da
área de automação e robótica;
o espectrofotômetro com lâmpada pulsada
de xenônio permitiu desenvolver sistema
de varredura e amplificador integrador chaveado;
o espectrofotômetro de fluorescência,
desenvolvido com recursos da Finep, descortinou
técnicas mil vezes mais sensíveis
em relação às técnicas
atuais da espectrofotometria.
Ao mesmo tempo
em que trata dos espectrofotômetros da "linha
do sonhos", a Femto prepara outra inovação
na história da empresa: com mais um financiamento
dentro do PIPE — R$ 375 mil —, a Femto
quer agora aprender a fabricar espectrofotômetros
de absorção atômica. Não
há fabricante no Brasil desse produto.
Dois pesquisadores, um do Centro de Energia Nuclear
na Agricultura da Universidade de São Paulo
(Cena-USP), outro do Departamento de Química
da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
juntaram-se à Femto para desenvolver o
projeto.
O funcionamento
do protótipo é o seguinte: coloca-se
uma gota da amostra num filamento de tungstênio
que é aquecido. A pirólise da amostra
vai provocar sua atomização —
ou seja, as moléculas vão se fragmentar
em átomos no estado fundamental. A quebra
produz uma minúscula nuvem atômica
que invade o feixe de radiação de
alta intensidade provocando a queda do sinal.
A medida da queda, através de uma curva
de calibração, vai determinar a
concentração da substância
pesquisada na amostra. O protótipo permite
escolher o tipo de feixe de radiação,
ou seja, o tipo de luz emitida e assim ter um
comprimento da onda de maior resolução.
E como se troca o tipo de luz? Basta trocar a
lâmpada. Se a análise na amostra
é de cobre, usa-se uma lâmpada de
cobre. Ou de chumbo, se a análise for por
traços de chumbo. Ainda vai demandar algum
tempo em pesquisa, para o espectrômetro
de absorção atômica se tornar
comercializável. "A Fapesp tem ajudado
a construir novas áreas de conhecimento
que são as ferramentas básicas para
uma empresa poder competir no mercado atual",
afirma Takayama.
A Femto em obras
Para adaptar-se
aos novos desafios, a Femto vai ter de ampliar
suas instalações. Hoje, acomodando
12 funcionários num sobrado de 200 metros
quadrados no Bosque da Saúde, na Zona Sul
da capital paulista, a empresa aguarda a aprovação
da planta pela prefeitura para a construção
da sede própria: um prédio de 750
metros quadrados com três pavimentos. Nada
mau para uma empresa que começou com R$
70 mil de capital próprio e hoje fatura
aproximadamente R$ 2 milhões por ano. |