Publicado em 2 de Maio 2006






Femto Indústria e Comércio de Instrumentos
Em nove anos, quatro projetos inovadores levam empresa a linha
diversificada de espectrofotômetros e faturamento de R$ 2 milhões

Davi Molinari

"A luz interage com a matéria": o físico (e industrial) Lídio Takayama persegue esse mote desde 1975, quando apresentou seu primeiro espectrofotômetro na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em novembro de 2004, repetiu a frase na epígrafe do projeto que escreveu para pleitear — e obter — mais um financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para sua empresa. A paixão de Takayama por desenvolver instrumentos que usem a luz como princípio de medida o levou a fundar, em 1989, a Femto Indústria e Comércio de Instrumentos Ltda, que fabricou quase um terço dos 600 espectrofotômetros colocados no mercado doméstico em 2005. Espectrofotômetros e espectrômetros são aparelhos óticos que fornecem informações sobre as características de um determinado material, fazendo incidir sobre ele radiação eletromagnética — como a luz, por exemplo — para, em seguida, medir os efeitos produzidos na radiação pela interação com o material.

A inspiração para o nome da empresa, Takayama teve quando surgiram trabalhos acadêmicos em ótica sobre sistemas de rastreamento de mísseis que operavam em femtossegundos. Femtossegundos são intervalos de tempo extremamente curtos: duram um quatrilionésimo de segundo. Ou seja: um femtossegundo é o tempo que se obtém quando se divide um segundo por um quatrilhão. Ou ainda: é o milionésimo de um bilionésimo de segundo. "A detecção de míssil tem de ser muito rápida", lembra Takayama, que também passou pelo Instituto de Atividades Espaciais do Centro Tecnológico da Aeronáutica.

Dimensões femto, nano ou atto — prefixo para um milésimo de um quatrilionésimo — formam o ambiente de pesquisa de quem desenvolve ferramentas de levantamento de dados físico-químicos. Por meio da transmissão, da absorção ou reflexão de energia radiante que incide sobre uma amostra, é possível obter informações sobre as substâncias presentes nela — por exemplo, cianeto, em efluentes industriais; chumbo, no sangue humano; ou ferro, na água. A menção a efluentes, à qualidade da água, a sangue não foi de graça: para assegurar o cumprimento de normas ambientais e de vigilância sanitária, nos métodos de diagnóstico molecular, nas análises clínicas, os espectrômetros e espectrofotômetros têm lugar garantido — e aí está o mercado, crescente, para os sofisticados aparelhos produzidos pela Femto.

Linha dos Sonhos

O 800XI é um dos mais modernos espectrofotômetros desenvolvidos no Brasil. O equipamento é uma caixa branca de plástico rígido de 19 quilos que abriga a tecnologia desenvolvida em dois anos de pesquisa. Para chegar até ele, Takayama obteve dois financiamentos da Fapesp, dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequena Empresa (PIPE). De acordo com o industrial, com o primeiro financiamento, em 1997, a empresa aprendeu a lidar com automação e robótica, ao pesquisar e desenvolver uma "estação de trabalho espectrofotométrica", que tinha no centro o "espectrofotômetro UV-VIS" (como se diz no jargão: UV é para ultravioleta e VIS é para visível), antecessor do 800XI. Em 2000, a Femto voltou à agência de fomento: decidiu desenvolver o modelo mais sofisticado que tem à venda, o espectrofotômetro com "lâmpada pulsada de xenônio e sensor de imagem linear".

O financiamento fez a Femto tornar-se a primeira empresa do País a produzir um espectrofotômetro ultravioleta e visível com varredura: quer dizer, capaz de "percorrer" a extensão da amostra. Em 2002, do R$ 1,6 milhão faturado pela empresa, R$ 400 mil vieram das vendas do 800XI UV-VIS. Desde então, a Femto produziu 60 espectrofotômetros 800XI UV-VIS, duplo feixe — que custam R$ 20 mil a unidade.

Para ir mais adiante e atender às necessidades do mercado nacional, Takayama precisava de financiamento para transformar o 800XI UV-VIS num equipamento stand alone — quer dizer, independente de computador tipo PC e com preço capaz de competir com equipamentos similares fornecidos por concorrentes internacionais, como Amershan Pharmacia, Shimadzu, Spectra-Physics e Varian. Para isso escreveu o projeto com a epígrafe citada, um dos 20 selecionados para inaugurar a chamada Fase III do PIPE: "Desenvolvimento da linha de sonhos de espectrofotômetros UV-VIS, para quem vai fabricar, vender ou utilizar".

Fase III

Desde a criação, em 1997, o Inovação Tecnológica em Pequena Empresa oferecia aos interessados apenas financiamento para a fase de pesquisa, até o protótipo do produto. A empresa interessada — ainda é assim hoje —, pode pedir um financiamento de até R$ 100 mil para estudar a viabilidade de seu projeto; depois, um de até R$ 400 mil para a pesquisa do projeto considerado viável. Os dois primeiros financiamentos da Femto seguiram esse padrão. Mas, em 2004, a Fapesp e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) financiaram, juntas, a etapa de desenvolvimento de produto para 20 empresas que haviam tido projetos aprovados na Fase II do PIPE. Entre elas, estava a Femto.

Não fosse a implantação da nova Fase III, não haveria programa na agência para financiar a linha dos sonhos de Takayama e dos clientes da Femto. De acordo com o plano de negócios apresentado aos avaliadores da Fapesp, esses clientes querem espectrofotômetros stand alone com assistência técnica local e de menor custo — em relação ao produto das multinacionais.

O conhecimento para tornar o 800XI independente do PC não é novidade para a Femto, que já fabrica outros modelos de espectrofotômetro stand alone. "Coloquei nesse projeto todo o conhecimento acumulado ao longo dessas três décadas", afirma Takayama. O maior desafio está em tornar o equipamento competitivo em três campos diferentes: biologia molecular, indústria farmacêutica e análises clínicas.

Para cada segmento, a Femto decidiu desenvolver um protótipo. Pela primeira vez no Brasil, serão produzidos espectrofotômetros com gabinete injetado em ABS antichamas permitindo melhor produtividade e padronização — de acordo com normas de países desenvolvidos. Os espectrofotômetros têm faixa espectral de emissão, largura da banda, detectores e softwares apropriados para cada finalidade.

Se alcançar seus objetivos, a Femto vai fechar 2009 com 50% do mercado e com 875 equipamentos vendidos. O preço previsto para cada espectrofotômetro é de R$ 12,5 mil. Com exceção do dedicado à análise clínica — que tem preço alvo menor, de R$ 4,5 mil. O faturamento em valores nominais da empresa chegará a R$ 3,8 milhões.

Mais um PIPE: agora, absorção atômica

Desde 1997, a Femto recebeu das agências de apoio à pesquisa, especialmente da Fapesp, R$ 1,318 milhão. A cada projeto financiado, Lídio Takayama pôde desenvolver fundamentos de diferentes tecnologias dentro da espectrofotometria. Não foi somente a viabilização comercial da pesquisa. "Foi possível agregar conhecimento para desenvolver outros projetos", afirma Takayama. Ele exemplifica cada "subproduto" resultante dos projetos de pesquisa que foram aproveitados em produtos subseqüentes: o desenvolvimento da estação de trabalho espectrofotométrica, primeiro projeto aprovado no PIPE, legou à Femto o conhecimento da área de automação e robótica; o espectrofotômetro com lâmpada pulsada de xenônio permitiu desenvolver sistema de varredura e amplificador integrador chaveado; o espectrofotômetro de fluorescência, desenvolvido com recursos da Finep, descortinou técnicas mil vezes mais sensíveis em relação às técnicas atuais da espectrofotometria.

Ao mesmo tempo em que trata dos espectrofotômetros da "linha do sonhos", a Femto prepara outra inovação na história da empresa: com mais um financiamento dentro do PIPE — R$ 375 mil —, a Femto quer agora aprender a fabricar espectrofotômetros de absorção atômica. Não há fabricante no Brasil desse produto. Dois pesquisadores, um do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), outro do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) juntaram-se à Femto para desenvolver o projeto.

O funcionamento do protótipo é o seguinte: coloca-se uma gota da amostra num filamento de tungstênio que é aquecido. A pirólise da amostra vai provocar sua atomização — ou seja, as moléculas vão se fragmentar em átomos no estado fundamental. A quebra produz uma minúscula nuvem atômica que invade o feixe de radiação de alta intensidade provocando a queda do sinal. A medida da queda, através de uma curva de calibração, vai determinar a concentração da substância pesquisada na amostra. O protótipo permite escolher o tipo de feixe de radiação, ou seja, o tipo de luz emitida e assim ter um comprimento da onda de maior resolução. E como se troca o tipo de luz? Basta trocar a lâmpada. Se a análise na amostra é de cobre, usa-se uma lâmpada de cobre. Ou de chumbo, se a análise for por traços de chumbo. Ainda vai demandar algum tempo em pesquisa, para o espectrômetro de absorção atômica se tornar comercializável. "A Fapesp tem ajudado a construir novas áreas de conhecimento que são as ferramentas básicas para uma empresa poder competir no mercado atual", afirma Takayama.

A Femto em obras

Para adaptar-se aos novos desafios, a Femto vai ter de ampliar suas instalações. Hoje, acomodando 12 funcionários num sobrado de 200 metros quadrados no Bosque da Saúde, na Zona Sul da capital paulista, a empresa aguarda a aprovação da planta pela prefeitura para a construção da sede própria: um prédio de 750 metros quadrados com três pavimentos. Nada mau para uma empresa que começou com R$ 70 mil de capital próprio e hoje fatura aproximadamente R$ 2 milhões por ano.