18/06/2012

Trauma

Desastre de Fukushima reduz P&D nuclear no Japão

Busca por cursos da área e investimentos caem, ameaçando domínio da tecnologia

O Japão deve reduzir a participação da fonte nuclear a 15% de sua capacidade geradora de eletricidade até 2030, um encolhimento significativo em relação aos 26% atualmente ocupados pelo setor. Com isso, a pesquisa e desenvolvimento na área deverá focalizar estudos sobre descontaminação e desativação, e as matrículas em cursos superiores de energia nuclear já caíram 16%, informa reportagem publicada na edição de 8 de junho da revista Science.

O desencanto com a energia nuclear no Japão segue-se ao desastre de Fukushima, em março de 2011, quando uma usina foi atingida por um tsunami, e à divulgação dos erros humanos que foram cometidos logo após o incidente. “Uma investigação independente (...) está produzindo a imagem perturbadora de tropeços, confusão e indecisão”, diz a revista. Ouvido pela publicação, o físico nuclear Hisashi Ninokata, do Instituto de Tecnologia de Tóquio, declarou que Fukushima foi “um desastre causado pelo homem”.

Ainda de acordo com Ninokata, o efeito cumulativo do baixo investimento e da redução na formação de capital humano para o setor vai se refletir numa “defasagem de conhecimento e expertise no futuro”.

Tanto ele quanto outros pesquisadores advertem que a defasagem deixará o Japão despreparado para desenvolver e instalar reatores de tecnologia avançada e para manter a opção nuclear disponível, mas a Science constata que esses cientistas encontram-se, atualmente, “na defensiva”.

Pesquisa de opinião pública indica que, um mês após Fukushima, 10% do japoneses ainda apoiavam um aumento no uso de energia nuclear no país. Essa proporção havia caído a 2%, seis meses mais tarde.

A mudança no humor do público japonês para com a energia nuclear também aparece refletida nas atitudes dos agentes públicos. A legislação local exige que os reatores sejam desativados periodicamente para receber manutenção, e que só sejam religados após autorização formal das administrações locais. Até Fukushima, escreve a Science, essas autorizações eram emitidas rotineiramente, os pedidos de permissão sendo encarados mais como uma tradição. Desde o acidente, no entanto, nenhuma permissão foi concedida. “Como resultado, todos os 50 reatores nucleares funcionais do Japão encontram-se desligados”, diz a reportagem.

“O governo nacional e as companhias de eletricidade advertem que, sem energia nuclear, a nação enfrentará escassez grave no verão. Mas os governos locais continuam a se opor às reativação dos reatores”, descreve o texto.

A revista prossegue destacando que os cientistas japoneses da área nuclear estão, ao menos por enquanto, ocupados com projetos relacionados a Fukushima, por exemplo na busca de meios de recuperar material radioativo do solo contaminado. Mas as perspectivas para estudos com olhos voltados para o futuro da tecnologia nuclear – incluindo para a continuidade do financiamento do reator experimental de Monju – estão cercadas de incerteza.

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