Sivam garante
soberania e favorece o desenvolvimento de políticas
públicas. - O sistema de Vigilância
da Amazônia (Sivam), que acaba de completar um
ano de operação, representa um novo paradigma
de segurança e defesa para o Brasil. A conclusão
é do professor Humberto José Lourenção,
autor da dissertação de mestrado "A
Defesa Nacional e a Amazônia: O Sistema de Vigilância
da Amazônia", defendida em julho
junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
(IFCH) da Unicamp. De acordo com o estudo, o projeto
foi concebido para assegurar a soberania brasileira
na Amazônia não apenas por meio de ações
estratégicas e militares, como se fazia convencionalmente
até então, mas também pela implantação
de um sistema capaz de gerar informações
que favoreçam a formulação de políticas
públicas voltadas ao crescimento econômico,
desenvolvimento social e preservação ambiental.
Para Lourenção,
o Sivam é conseqüência de um novo
enfoque acerca da salvaguarda da soberania nacional,
que veio substituir a doutrina de segurança nacional
dos anos de 1960 e 1970. O projeto, afirma o pesquisador,
parece ser fruto de uma percepção governamental
bastante clara dos problemas amazônicos, tendo
por base as experiências anteriores que não
obtiveram sucesso. "O que se viu, no passado, foi
uma desarticulação muito grande entre
os organismos que atuavam na região, o que se
refletiu diretamente nos programas levados a cabo. Foram
desperdiçados muito tempo, energia e recursos",
analisa.
A proposta do
Sivam, explica o autor da dissertação,
é construir instrumentos que forneçam
informações detalhadas e integradas sobre
os vários aspectos da realidade amazônica,
para que esses dados subsidiem ações de
defesa, de combate a atos ilícitos e de políticas
públicas mais eficazes. Na opinião de
Lourenção, o sistema contempla, ainda,
direta ou indiretamente, as demandas de ordem ecológica,
econômica, política, antropológica
e social surgidas no contexto internacional no período
posterior à guerra fria. Segundo ele, mesmo antes
do advento do projeto, já havia o entendimento
por parte das Forças Armadas de que a defesa
da Amazônia precisava ir além da simples
presença militar na região.
Era necessário
que o Brasil demonstrasse, de forma inequívoca,
competência e responsabilidade para com o desenvolvimento
amazônico. De acordo com essa visão, por
intermédio de uma ocupação ética
e racional, o País estaria respondendo às
críticas externas, sem se render ao preservacionismo
absoluto. Ou seja, a integração da região,
por meio de ações planejadas, constituiria
a melhor estratégia de defesa. "A proposta
do Sivam vem ao encontro dessa nova mentalidade. É,
de fato, um novo paradigma no que diz respeito à
segurança e defesa da Amazônia", sustenta
Lourenção.
Estrutura
- O Sivam custará ao Brasil, até o final
da sua implantação, em 2004, US$ 1,395
bilhão. Deste total, US$ 1,285 bilhão
destina-se a equipamentos e serviços e US$ 110
milhões a obras civis. A maior parte desses recursos
foi financiada pelo Eximbank, banco de fomento dos Estados
Unidos. O empréstimo será pago num prazo
de 10 anos, com juros de 8,5% ao ano. Segundo Lourenção,
compõem o sistema diversos equipamentos de vigilância,
como radares primários e secundários.
Eles promovem o controle do tráfego aéreo
na região, identificando, respectivamente, os
aviões que querem e os que não querem
ser localizados. São aparelhos fixos, transportáveis
e aerotransportáveis.
Conta, ainda,
com sensores de vigilância ambiental, capazes
de analisar a qualidade da água e do ar, bem
como com três aviões de sensoriamento remoto.
Por meio da refração da luz, essas aeronaves
têm a capacidade de identificar, a uma distância
de até 300 quilômetros e com o tempo nublado,
se uma determinada área está sendo usada
para o cultivo de maconha ou de qualquer outra cultura.
Os aparelhos também ajudam a descobrir, por exemplo,
a ação de madeireiras clandestinas. "Esses
dados, somados a outros que o Sivam já está
gerando e ainda vai gerar, permitirão que o governo
brasileiro trace o zoneamento econômico da região",
afirma o autor da dissertação.
Um esquadrão
formado por 99 aviões ALX, que ainda estão
em fase de aquisição, também faz
parte do Sivam. Armados com canhões e metralhadoras,
eles farão o patrulhamento da Amazônia.
Uma medida adicional em favor da defesa da região
é a chamada Lei do Abate, que está em
tramitação no Congresso. Ela estabelecerá
um conjunto de critérios que permita a derrubada
de uma eventual aeronave inimiga ou a serviço
do narcotráfico. Atualmente, o máximo
que a Força Aérea pode fazer é
abordar o aparelho e pedir para que o piloto pouse.
Se ele não atende à solicitação
e deixa o espaço aéreo brasileiro, o avião
não tem como ser interceptado.
Riscos
- A adoção por parte do governo brasileiro
de um sistema de defesa da Amazônia, nos moldes
ou não do Sivam, era de fato necessária,
na avaliação de Lourenção.
Ele destaca que, embora não haja qualquer indicativo
de que a região corra o efetivo risco de uma
invasão por forças estrangeiras, a medida
tem um indiscutível poder dissuasório.
O pesquisador esclarece que, no contexto amazônico,
um controle do território teria que se dar pelo
domínio dos núcleos populacionais e de
suas vias de acesso, uma vez que a mobilização
e articulação das forças só
seria viável através dos rios ou pelo
ar, fator que restringe a logística de grandes
unidades.
"Levando
em consideração as características
inóspitas do terreno, de dimensões continentais,
e as condições climáticas e sanitárias
desfavoráveis, a Amazônia seria um típico
cenário de guerra prolongada, demandando recursos
de tal magnitude que mesmo uma grande potência
não teria certeza de alcançar resultados
compensadores", diz o autor da dissertação.
Em outras palavras, atualmente apenas uma nação
teria condições de patrocinar uma intervenção
unilateral dessa natureza na Amazônia: os Estados
Unidos. Ainda assim, essa ação só
teria sentido se algum interesse vital norte-americano
fosse violado, o que asseguraria o indispensável
apoio da opinião pública local e internacional.
"Depois da experiência negativa da Guerra
do Vietnã, qualquer envolvimento militar norte-americano
numa guerra prolongada só se viabilizaria nessas
condições. Numa ótica realista,
não há qualquer indício de que
isso possa ocorrer", acrescenta.
Polêmicas
cercaram implantação do projeto
As discussões
em torno da implantação do Sivam remontam
ao início da década de 1990, ainda por
ocasião do governo Fernando Collor de Mello.
O presidente deu, então, o aval para que um grupo
de pesquisa da Aeronáutica iniciasse os estudos
para a concepção de um sistema de vigilância
e defesa da Amazônia. Dois anos depois, o projeto
foi anunciado oficialmente durante a Eco-92, realizada
no Rio de Janeiro. Em 1994, o processo de licitação
já estava aberto.
O governo brasileiro
encaminhou cópias do edital a 16 embaixadas no
País, para verificar quem estava interessado
em fornecer o aparato tecnológico. Na prática,
conforme Humberto José Lourenção,
foi um projeto concebido em gabinete pela Secretaria
de Assuntos Estratégicos da Presidência
da República (SAE-PR). Não contou para
a sua formulação, portanto, com contribuições
vindas da sociedade civil, dos meios políticos
e da comunidade científica. "Isso, todavia,
não o tornou menos legítimo em relação
aos seus objetivos", avalia o pesquisador. À
época, porém, o Sivam gerou intensa polêmica.
Durante a sua votação no Congresso, parlamentares
levantaram suspeitas sobre a ocorrência de corrupção
durante o processo de escolha do fornecedor dos equipamentos.
O Sivam também foi revestido de conflito político
e de significativa polêmica com o Legislativo
por ter sido tratado administrativamente como "projeto
estratégico", com dispensa de licitação
amparada na legislação que regulamenta
os programas sigilosos.
As críticas
mais ácidas partiram da comunidade científica
e acadêmica brasileira, formuladas principalmente
pelo físico e professor emérito da Unicamp,
Rogério César Cerqueira Leite. O especialista
apontou para o risco de vulnerabilidade do sistema.
De acordo com ele, informações sigilosas
e estratégicas poderiam vazar, dado que o governo
brasileiro decidira comprar uma tecnologia estrangeira,
da qual não teria pleno domínio. Cerqueira
Leite também não poupou as autoridades
por terem desconsiderado a opinião dos cientistas
brasileiros.
Ao final do
processo de licitação, o vencedor foi
o grupo Raytheon, dos Estados Unidos. Em 25 de julho
de 1997, o contrato do Sivam entrou efetivamente em
vigor. Exatamente cinco anos depois, em 25 de julho
de 2002, o projeto iniciou a operação.
Segundo Lourenção, embora a sociedade
e a comunidade científica não tenham tido
a oportunidade de contribuir para a concepção
do sistema, essa participação pode se
dar a partir de agora. A maioria dos dados gerados pelo
Sivam, afirma, será colocada à disposição
de entidades e pesquisadores, a partir do devido cadastro.
Uma vez implantado, ressalta o pesquisador, o Sivam
admite e requer ampla e intensa participação
da ciência brasileira, o que se daria por meio
do desenvolvimento de seu órgão gestor,
o Sistema de Proteção da Amazônia
(Sipam). A dissertação de Lourenção,
que é professor de Ciências Sociais da
Academia da Força Aérea em Pirassununga,
foi orientada pelo professor Eliézer Rizzo de
Oliveira.