Política
Industrial: Quatro textos da
grande imprensa
"Sem
medo de crescer", em Lições Contemporâneas,
Folha de São Paulo, 30 de novembro de
2003. "É mais que devida e oportuna a decisão
do governo Lula de iniciar a implementação
da política industrial e de comércio exterior",
assim começa o artigo de Luciano Coutinho, professor
do Instituto de Economia da Unicamp e ex-secretário
geral do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Em princípio, o economista saúda a política
industrial do governo, ao mesmo tempo em que enumera
algumas preocupações quanto à realização
desse mesmo projeto. Na opinião do professor,
é preciso vencer o medo e apostar no investimento.
Reforçando a competitividade e a eficiência
das cadeias produtivas, dando apoio à exportação
e viabilizando a substituição competitiva
(grifo nosso) de importações, a política
industrial e a de comércio exterior irão
contribuir para assegurar a manutenção
do superávit comercial acima de US$ 20 bilhões
ao ano. A política industrial poderá ser,
afirma o economista, um fator de confiança e
instrumento de fortalecimento da eficácia da
política macroeconômica, "permitindo
que seja mais rápida a convergência da
taxa real de juros e da taxa de risco-país para
níveis de investment grade". A política
industrial deve estar calçada por uma aceleração
concomitante dos investimentos em infra-estrutura especialmente
em logística e em energia, isso para prevenir
a formação de pontos de estrangulamento
da economia. O autor também aponta como necessária
a estruturação de operações
de 'fundings' para os projetos, por via de parcerias
público-privadas ou por meio de outras engenharias
financeiras que possam minimizar o impacto fiscal dos
investimentos. Ainda segundo o professor, a política
industrial não pode estar baseada em renúncias
fiscais adicionais e também não deverá
se intensiva em protecionismo tarifário ou em
incentivos de longa duração sem uma avaliação
de custo-benefício. Por fim, o economista Luciano
Coutinho coloca que a política do governo deverá
se intensiva em coordenação intracadeias
e em ações público-privadas de
apoio à inovação tecnológica
e à conquista de novos mercados externos. Além
de ter também, como outro 'objetivo-chave', a
redução de custos de capital (crédito,
capitalização, desoneração
tributária do investimento fixo) o que será,
conforme coloca o autor, um enorme desafio para o BNDES
e para o sistema financeiro. "Em suma, apesar das
restrições fiscais, é possível
criar condições objetivas para a sustentação
do crescimento, que é, felizmente, a opção
desejada", conclui Luciano Coutinho.
"Política
industrial busca atrair estrangeiros": Mariana
Barbosa para O Estado de São Paulo, domingo,
14 de dezembro de 2003. Segundo apurou a repórter,
a atração de empresas estrangeiras para
o País será um dos principais instrumentos
da política industrial de Lula. Inicialmente,
o governo buscará atrair empresas de ponta nos
setores de bens de capital, medicamentos e semicondutores
- três do quatro setores que o governo pretende
privilegiar. Já a indústria de software
ficará de fora dessa iniciativa pois, para se
tornar um setor de ponta, depende mais de mão-de-obra
qualificada do que de equipamentos. O governo está,
no momento, elaborando uma lista com as empresas que
produzem componentes, máquinas e medicamentos
- que mais pesam na balança - para iniciar as
negociações em atraí-las. Segundo
a notícia, este ano, os setores eleitos pela
política industrial do governo apresentaram um
déficit de cerca de US$ 5 bilhões. O governo,
também nos conta a repórter, está
preparando uma feira para atrair o investimento externo,
O evento será realizado junto com o encontro
da Conferência das Nações Unidas
para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad),
que acontecerá em junho na capital paulista.
Para março de 2004, o governo também está
organizado um workshop interministerial, previsto para
março de 2004, para discutir os detalhes da política
de atração de capital estrangeiro. O BNDES,
informa o texto, reservou R$ 15 bilhões de seu
orçamento - de R$ 47 bilhões em 2004 -
para a indústria; os quatro setores prioritários
serão privilegiados com taxas de juros mais acessíveis.
Apesar de estar anunciado para março o detalhamento
da política industrial, algumas medidas já
estão prontas: na semana passada, o ministro
Antônio Palocci revelou a um grupo de congressistas
que a redução do IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) para o setor de bens de capital será
gradual, com cortes de 20% ao ano até chegar
a zero. Também está pronta a proposta
do "Modermaq", um programa de financiamento
para estimular a modernização de máquinas
e equipamentos nas indústrias. A reportagem cita
dados de estudo inédito elaborado pelo Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada) mostrando que
é positiva a presença, no Pais, de empresas
estrangeiras com conteúdo tecnológico.
"Não dá para substituir importação
com produção doméstica ineficiente",
diz João Alberto De Negri, diretor-adjutno do
Ipea na reportagem do Estadão. Segundo
o estudo, empresas estrangeiras remuneram melhor que
as nacionais (média de R$1.540,00 contra R$ 600,00),
empregam trabalhadores com mais tempo de escolaridade
e os mantém por mais tempo na empresa. Num segundo
momento da reportagem, Mariana Barbosa detêm-se
mais detalhadamente nas condições das
indústrias de bens de capital e de medicamentos
instaladas no País. "O Brasil é o
único entre os 20 países que possuem uma
indústria sólida de máquinas e
equipamentos que cobra impostos sobre bens de capital",
começa a repórter. De fato, a carga tributária
sobre o setor é de 20% a 22%. Além da
demanda pela desoneração, empresários
do setor pleiteiam a adoção de um programa
de financiamento, o já citado Modermaq, para
modernizar o parque produtivo nacional. "Um programa
com juros fixos, com prazo de oito anos, aumentaria
em 140% o investimento no setor, que poderia saltar
para R$ 8 bilhões ao ano", declarou ao jornal
Luiz Carlos Delben Leite, presidente da Abimaq. Sobre
o setor de medicamentos, que viu suas importações
saltarem de US$ 50 milhões para US$ 1,5 bilhão
em 10 anos, a repórter ouve Ciro Mortella, presidente
da Federação Brasileira da Industria Farmacêutica.
Segundo o entrevistado, o Brasil tem capacidade instalada
para se tornar um grande produtor, abastecer o mercado
interno e ainda exportar. Para tanto, não precisa
mais de fábricas e sim de investimento em pesquisa
e tecnologia: "temos pesquisadores competentes,
mas precisamos criar condições para as
empresas investirem em tecnologia". Uma forma de
reduzir o déficit, diz a reportagem, seria o
estímulo à exportação de
genéricos.
"Política
industrial prevê redução de tributos":
Lu Aiko Otta para o jornal O Estado de São
Paulo, dia 8 de dezembro de 2003. A reportagem sobre
política industrial publicada no Estadão
traz como fonte principal o secretário de Política
de Informática e Tecnologia do MCT, Francelino
Grando. Conforme a repórter, que vem acompanhando
o assunto política industrial para o caderno
de economia do jornal, Grando é um dos principais
articuladores da política industrial, quando
se trata da inovação tecnológica.
Segundo a reportagem, a política industrial do
governo Lula prevê facilidades tributárias
para empresas dos quatro setores que foram escolhidos
como prioritários: software, semicondutores,
fármacos e medicamentos e bens de capital. As
propostas apresentadas no documento "Diretrizes
de Política Industrial, Tecnológica e
de Comércio Exterior" (leia em Íntegras)
deverão, ainda, ser avaliadas pelos ministros
envolvidos e o prazo para a conclusão dos relatórios
é março de 2004. Mas, segundo afirmação
atribuída a Francelino Grando, existe a possibilidade
de os documentos estarem prontos antes de março.
A repórter ressalva que a nova política
industrial terá "de lidar com um obstáculo
comum a todas as ações do governo: as
restrições fiscais. Elas serão
o principal limitador das facilidades tributárias
que se pretende conceder aos quatro setores". Lu
Aiko escreve, no entanto, que tais restrições
vem sendo estudas pelos técnicos da área
econômica. Uma solução possível
discutida na Receita Federal é a de promover
ajustes na alíquota da nova Cofins (Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social) - "que
efetivamente aumentará o custo de setores que
utilizam insumos importados, de acordo com as prioridades
da política industrial". O texto fala ainda
do contingenciamento dos fundos setoriais, que tanto
abalaram a política científica do País;
cita os dados do Orçamento 2004, com uma pequena
troca de números: a previsão de gastos
para o próximo ano é de R$ 600 milhões
e a reserva de contingência R$ 850 milhões,
e não o contrário, como diz o texto da
reportagem.
"Palocci:
adeus à macroeconomia": Eliane Oliveira
escreve para O Globo, 11 de dezembro de 2003, reportagem
com o título acima, acompanhado pelo subtítulo
"Ministro diz que chegou a hora do desenvolvimento
e de questões de política industrial".
As declarações do ministro Antonio Palocci
ocorrreram durante reunião fechada do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES),
à qual a repórter teve acesso. Segundo
o texto, o ministro, depois de afirmar que 2004 será
ano de crescimento, disse aos conselheiros que o governo
quer retirar temas macroeconômicos da agenda do
País de maneira a permitir a empresários
e trabalhadores pensar só em assuntos microeconômicos:
"agora é só desenvolvimento, chega
de pensar em como será a taxa de juros no ano
que vem". O ministro reforçou o compromisso
do governo em não aumentar a carga tributária
(segundo ele, a carga de 2003 está 1,3% do PIB
menor que a de 2002). O texto reporta que Palocci divulgou
estudo ('pedindo discrição aos participantes
da reunião'), ainda em fase de elaboração
pela área econômica, sobre crescimento
sustentado. Haverá medidas para "facilitar
o microcrédito, o setor de seguros e os investimentos".
O governo, segundo o ministro. pretende isentar as transferências
entre aplicações da CPMF. E que, na reforma
tributaria, haverá desoneração
da folha de salários e redução
dos tributos sobre bens de capital. A reunião
teve também a participação do ministro
Tarso Genro, secretário-executivo do CDES - que
enfatizou a importância de se passar, a partir
de agora, às questões relativas à
política industrial, e do ministro interino do
Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior,
Márcio Fortes, que pediu aos empresários
para ajudarem o governo na política industrial:
"para estimular os investimentos, o governo vai
desenvolver políticas aprimorando os marcos regulatórios,
desonerando as exportações, reduzindo
os custos dos investimentos e ampliando o acesso ao
crédito". Márcio Fortes disse ainda
que um dos desafios do governo é aumentar as
exportações de software dos atuais US$
100 milhões para US$ 2 bilhões. O presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles, segundo a notícia,
deu uma alfinetada no governo anterior ao comentar a
crise de confiança que abalou o Brasil entre
o final de 2002 e início de 2003: "não
podemos subestimar o risco que o Brasil correu nos últimos
oito meses, a desorganização financeira
do setor público está sendo resolvida
pela primeira vez este ano." Na mesma reunião,
um grupo de empresários entregou a Tarso Genro
um documento pedindo compensações para
o aumento da alíquota da Cofins. No final do
encontro, o ministro do Planejamento, Guido Mantega,
disse que espera um crescimento da economia, no último
trimestre de 2003, entre 2,5% e 3%.