O acidente de Alcântara. O jornal Folha
de S. Paulo foi o primeiro a mostrar que havia
indícios de problemas no VLS antes do incêndio
ocorrido na torre de lançamento da Base de Alcântara,
dia 22 de agosto, que matou 21 técnicos e cientistas
do CTA. Reportagem de Salvador Nogueira, do dia 9 de
setembro, conta que houve uma queima de transdutores
de pressão, aparelhos que medem a pressão
dos motores do VLS, o que seria um indício de
que havia passagem de corrente elétrica pelo
foguete e pela plataforma. Funcionários do Instituto
de Aeronáutica e Espaço (IAE), não
identificados pelo repórter, contaram à
Folha que tanto o foguete quanto a plataforma
estavam dando choque elétrico em quem os tocasse.
Uma das hipóteses para o acidente é que
de uma corrente elétrica acionou os motores do
foguete, provocando o incêndio.
O Estado
de S. Paulo do dia 10, no entanto, diz que a
informação sobre o choque foi negada pelo
ministro da Defesa, José Viegas Filho, em audiência
pública na Câmara dos Deputados, no dia
9 de setembro. O jornal ressaltou a informação
de Viegas sobre a retomada da negociação
com os EUA para uso de Alcântara. Já a
Folha, nesse mesmo dia, destaca que Viegas
não descartou o problema, apesar de ter dito
que não houve relato de que o foguete ou a plataforma
estivessem dando choque.
Na primeira
reportagem sobre o acidente, dia 23 de agosto, a Folha
apontou que 16 pessoas haviam morrido, enquanto O
Estado de S. Paulo já aparecia com uma
manchete com 21 mortos e fez uma cobertura mais extensa,
dando a repercussão do acidente, um histórico
do projeto do VLS e uma reportagem em que três
especialistas apontavam o combustível sólido
como provável causador do fogo. A Folha
também apresentou uma matéria em que se
discutia se era mais seguro usar propelente sólido
ou líquido no VLS.
O presidente
da Agência Espacial Brasileira (AEB), Luiz Bevilacqua,
mereceu uma matéria do Estadão
por conta de sua declaração no dia do
acidente. Ele concedia entrevista coletiva sobre o acordo
firmado entre Brasil e Ucrânia para o uso da Base
de Alcântara quando foi questionado sobre o que
os jornalistas chamaram de explosão do VLS em
um primeiro momento. Bevilacqua respondeu: "só
se for um foguete de São João." Posteriormente,
ele foi comunicado por um assessor que o acidente tinha
acontecido. Já a Folha trouxe,
também no dia 23, a entrevista com o idealizador
do VLS, brigadeiro Hugo Piva, que afirmou: "no
momento, pode parecer uma opinião leviana, mas
acho que certamente houve uma falha humana. Pela experiência
de mais de 30 anos, acredito que houve falha de manuseio.
O acidente não foi no ponto crítico usual,
que é o lançamento."
No dia 24, domingo,
a Folha destacou a reação
do Congresso ao que o jornal chamou de "gafe"
do presidente da AEB. O deputado Courauci Sobrinho (PFL-SP),
presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia
da Câmara, disse à Folha
que a manifestação de Bevilacqua, narrada
pelo Estadão no dia anterior, foi "constrangedora"
e contou que ia requerer explicações sobre
o acidente aos ministros da Defesa e de Ciência
e Tecnologia (respectivamente José Viegas e Roberto
Amaral) e do próprio Bevilacqua.
Na segunda-feira,
os jornais trouxeram as primeiras fotos do incêndio,
divulgadas pela Aeronáutica. O Estadão
ressaltou matérias de apelo emocional, contando
sobre o abraço ao foguete dado pela equipe um
dia antes do acidente, sobre o choro do piloto Luiz
Cláudio de Almeida ao ver o vídeo feito
pelo seu irmão, o cinegrafista José Eduardo
de Almeida, morto no acidente, e sobre a identificação
de três dos 21 mortos. Já a Folha
explicou os procedimentos de investigação
da falha do VLS, comparando-os com os adotados pela
Nasa nos acidentes do Challenger e Columbia. A Folha
criticou o fato de que as investigações
se limitariam ao acidente, sem questionar aspectos estruturais
do projeto, como gerenciamento, orçamento e segurança.
"Em programas espaciais estrangeiros, as comissões
investigadoras de acidentes normalmente vão além
dos aspectos técnicos e buscam as causas mais
profundas dos problemas - em especial quando ocorrem
mortes", destaca a reportagem. Em outra matéria,
o jornal conta que a AEB manterá o lançamento
de foguete com experimentos, planejado para ocorrer
entre junho e julho de 2004.
A Folha
trouxe, ainda na edição de 25 de agosto,
um artigo do astronauta brasileiro, o major-aviador
Marcos César Pontes, que participa de um treinamento
na Nasa e pode se tornar o primeiro astronauta do País
a ir para o espaço. No artigo, Pontes ressalta
que é importante continuar com o Programa Espacial
Brasileiro e lembra da sua própria situação
na Nasa. O astronauta não sabe se conseguirá,
de fato, integrar um vôo tripulado para a Estação
Espacial Internacional (ISS), por causa do "baixo
orçamento resultante da baixa prioridade do projeto
(a ISS) no MCT".
No dia 26 de
agosto, os jornais destacaram as imagens obtidas em
Alcântara, cujo acesso havia sido liberado para
a imprensa no dia anterior. A Folha abriu
a página de Ciência falando que a AEB só
tinha recebido 10% do seu orçamento este ano.
Já o Estadão centrou as atenções
nas causas do acidentes., com a confirmação
por parte do ministro da Defesa, José Viegas,
de que a ignição espontânea de um
foguete auxiliar provocou o incêndio no VLS. "Houve
uma ignição que levou a uma explosão
do combustível. Nós não sabemos
qual a causa dessa ignição prematura e
aí se concentram as investigações.
As possibilidades maiores são de que tenha havido
alguma descarga elétrica", disse o ministro,
de acordo com o Estadão.
A Folha
deu as mesmas informações, mas acrescentou:
"há duas hipóteses para explicar
o acionamento da ignição: choque (pancada)
e uma onda eletromagnética.", usando as
palavras do coordenador da Operação São
Luís (nome da operação de lançamento
do VLS), major-brigadeiro Tiago da Silva Ribeiro. Também
ouviu especialistas para explicar como um choque ou
uma onda eletromagnética poderiam provocar a
ignição dos motores do foguete.
Na quarta-feira,
dia 27 de agosto, as manchetes eram todas para a conclusão
das investigações sobre o acidente do
ônibus espacial norte-americano Columbia. Comparações
com os procedimentos brasileiros no caso de Alcântara
com os adotados pelos norte-americanos, que responsabilizaram
a Nasa, foram inevitáveis. "Scott Hubbard,
diretor do Centro de Pesquisa Ames da Nasa e único
membro da comissão de investigação
do acidente do Columbia ligado à agência,
afirma para a Folha que as autoridades
brasileiras deveriam determinar" uma ampla e completa
investigação "no programa de veículos
lançadores de satélites do país,
como a feita nos EUA". Ele defendeu que uma investigação
maior, envolvendo a estrutura e o histórico do
programa, poderia apontar não só problemas
técnicos. "Não basta apenas olhar
para os problemas físicos, para fios e outros
equipamentos. É preciso olhar e investigar todo
o sistema", disse ele, para a Folha.
Já o
Estadão revelou que um rigoroso esquema
de segurança foi montado para essa terceira operação
de lançamento do VLS. "Por suspeitar que
algum tipo de sabotagem teria provocado insucesso nos
lançamentos anteriores e para evitar a possibilidade
de novos incidentes, um rigoroso esquema de proteção,
preparado pela área de inteligência do
Ministério da Defesa, entrou em operação
há pelo menos três meses", escreve
Tânia Monteiro, repórter do Estadão.
Os dois jornais mencionaram o pedido da SPBC de se fazer
uma investigação independente.
No dia 28, os
jornais deram destaque para a presença do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva no velório,
ocorrido em São José dos Campos, de 19
das 21 vítimas do acidente. O presidente prometeu
enviar ao Congresso um projeto de lei para indenização
dos familiares. A Folha deu como matéria
principal que a reconstrução da plataforma
do foguete custará R$ 10 milhões. O Estadão
destacou que o ministro Viegas Filho descartou a possibilidade
de nomeação de uma comissão independente
para investigar a explosão do foguete em Alcântara,
como pediu a SBPC. "É responsabilidade do
governo fazer a investigação sobre as
causas que motivaram o colapso do foguete e essa investigação
será feita com transparência", declarou
o ministro para o jornal.
No dia seguinte,
a Folha contou que o coronel-aviador Antonio
Carlos Cerri saiu do comando das investigações.
Assumiu o posto o brigadeiro-do-ar Marco Antonio Couto
do Nascimento, vice-diretor do CTA. De acordo com o
jornal, a substituição tem como justificativa
o desnível hierárquico. "Como o inquérito
policial-militar está sendo chefiado pelo brigadeiro
José Monteiro Guimarães, a Aeronáutica
julgou que seria apropriado ter alguém de mesma
patente na comissão investigadora." O jornal
também mostrou fotos aéreas feitas do
momento do incêndio do VLS que são da Space
Imaging, que comercializa as imagens do satélite
Ikonos.
Já o
Estadão chamou a atenção
do leitor para as imagens inéditas do incêndio,
momentos antes e na hora do acidente, divulgadas pela
Rede Globo na noite anterior. Foram captadas pelo circuito
interno de TV da base, que tinha uma câmera para
monitorar cada um dos quatro estágios do VLS.
De acordo com o jornal, "as imagens confirmam a
versão de que a causa do acidente foi a combustão
espontânea ocorrida na base de um foguete auxiliar
do protótipo." O Estadão também
apurou que a proposta orçamentária para
o VLS era de R$ 4,3 milhões em 2004 e que o valor
deverá ser revisto.
No dia 31 de
agosto, domingo, o Estadão trouxe uma
extensa reportagem em que discutia porquê o Brasil
precisava investir em pesquisa espacial, mostrando um
histórico do Programa Espacial Brasileiro e analisando,
com gráfico, o orçamento de 1985 a 2003,
mostrando a queda nos investimentos. A Folha,
em sua revista dominical, apresentou a entrevista de
duas mulheres cujos maridos estavam trabalhando no VLS.
Ambas são amigas e chamadas de Cida. Aparecida
Fernandes de Lima Garcia era mulher do engenheiro Gines
Ananias Garcia, morto no incêndio. Maria Aparecida
Lemos é casada com o cinegrafista José
dos Santos Ferreira, que não estava na torre
na hora do acidente.
O Estadão
antecipou, em 1º de setembro, que especialistas
russos iriam auxiliar a comissão formada pelo
governo nas investigações do acidente.
Também nesse dia O Globo publicou um artigo do
ministro Amaral em que ele defende a continuidade do
programa espacial, dando exemplos de benefícios
advindos do desenvolvimento de tecnologias espaciais
e ressaltando a importância estratégica
de se investir nesse prosseguimento. Dia 3 de setembro,
a Folha elogia, em editorial, a decisão
do governo de incluir quatro pessoas na comissão
de investigação sobre o VLS que não
são ligadas à Aeronáutica, mas
faz uma ressalva: "o ponto central agora é
cuidar para que a comissão tenha mandato não
só para investigar as causas imediatas do acidente
como também para fazer recomendações
que melhorem a segurança das equipes envolvidas
no projeto espacial."