Licenciamento nas universidades
e a Lei Bayh-Dole Jerry G. Thursby
e Marie C. Thursby*
A Lei Bayh-Dole,
de 1980, permite às universidades patentear e
licenciar, com exclusividade, invenções
financiadas por fundos federais. Devido ao grande aumento
de licenciamentos por universidades, a Lei tornou-se
controversa e objeto de debate enquanto política
pública. Para as 84 instituições
dos EUA que responderam às pesquisas de 1991
e 2000, da Association of University Tecnology Managers´
(AUTM), o número de invenções cresceu
84%, a solicitação de novas patentes em
238%, os acordos de licenciamento em 161%, e os royalties
em mais de 520%. Os defensores da Lei Bayh-Dole argumentam
que, sem ela, muitos resultados de pesquisas feitas
com fundos federais permaneceriam nos laboratórios;
os críticos dizem que as licenças exclusivas
não são necessárias para transferência
de tecnologia, e que as universidades estão buscando
lucros. No centro dessa retórica, quais os problemas
e quais as evidências?
As tecnologias
seriam transferidas se não existisse a Lei Bayh-Dole?
A tecnologia pode ser, e obviamente é, transferida
para a indústria sem patentes ou licenças.
Historicamente, publicações, reuniões,
e consultorias foram os principais caminhos para a indústria
tomar conhecimento da pesquisa acadêmica, e dados
recentes sugerem que assim continua a ser.
Fato importante
é se, e quando, o licenciamento exclusivo se
faz necessário para aumentar esses canais. O
licenciamento exclusivo pode ser necessário quando
as invenções precisam de mais desenvolvimento
antes do uso. Uma pesquisa feita em 62 universidades
americanas mostra que muitas pesquisas universitárias
encaixam-se neste perfil, com 45% das invenções
nada mais sendo do que "prova de conceito"
("proof of concept") e somente 12% "prontas
para uso prático" ("ready for pratical
use"), no momento do licenciamento. A taxa de fracasso
dessas invenções é alta; 46% para
todas as invenções e 72% para as que são
apenas "prova de conceito". Direitos exclusivos
de patente incentivam as empresas a investir em desenvolvimentos
caros, mas somente até o ponto em que as patentes
efetivamente protegem a propriedade intelectual (PI),
o que varia de acordo com a indústria.
Muitas invenções
realizadas em universidades são ferramentas de
pesquisa cuja exclusividade pode limitar seu uso por
futuros pesquisadores. Apesar da Lei Bayh-Dole permitir
licença exclusiva, ela não a exige, e
os levantamentos feitos mostram que muitas licenças
são não-exclusivas (metade, informa a
AUTM). Não se sabe com que freqüência
as ferramentas de pesquisa são licenciadas com
exclusividade, mas exemplos conhecidos, como o OncoMouse,
fazem crescer a controvérsia. O uso restrito
de tais ferramentas é mais danoso quanto mais
amplas forem as reivindicações da patente.
Não obstante, as diretrizes do National Institutes
of Health, para o uso comum de ferramentas de pesquisa,
são úteis.
Escritórios
de transferência de tecnologia são "centros
de lucro"?
Na pesquisa feita pela AUTM, em 2000, os 156 consultados
dos EUA declararam uma receita de US$ 1.24 bilhão,
resultante de royalties e participação
em "dinheiro vivo" livre de taxas legais não
reembolsadas. Este valor representa cerca de 4,7% das
despesas com a pesquisa. Para cada dólar de receita,
há cerca de US$ 0,20 de pesquisa patrocinada
ligada a uma licença. A receita média
por licença ativa é de US$ 66.465, mas
somente 43% receberam royalties e 0,56% ganhou mais
de US$ 1 milhão em 2000.
Apesar da média
de receita por órgão consultado ter sido
de US$ 8 milhões, 79% ganhou menos de US$ 5 milhões,
e a metade acusou uma receita inferior a US$ 824.000.
No geral, os escritórios de transferência
de tecnologia, abaixo da mediana, tinham quatro funcionários,
o que faz parecer que muitos gastaram mais do que a
receita recebida. Enquanto, com o passar do tempo, mais
escritórios tornaram-se lucrativos - e essa tendência
deve continuar - o quadro atual mostra que os lucros
não são o único objetivo do licenciamento.
Os estudos realçam a complexidade dos objetivos
das universidades que também inclui a pesquisa
patrocinada e o cumprimento da exigência contida
na Lei Bayh-Dole, que manda comercializar a pesquisa
feita com fundos federais. Além disso, muitos,
na comunidade universitária, reconhecem a necessidade
do equilíbrio de direitos de PI e do bem público.
O licenciamento
restringe a disseminação da pesquisa acadêmica?
Um levantamento feito junto a executivos de licenciamento
nas indústrias mostra que 27% de suas licenças
de universidades incluem cláusulas que permitem
excluir informações em documentos, antes
de serem submetidos à apresentação;
e 44% solicitam prorrogação de prazo de
publicação (média de 3,9 meses).
Os docentes em biociências, envolvidos em atividade
comercial, freqüentemente negam pedidos de informações
de resultados de pesquisa, feitos por outros cientistas,
embora múltiplos fatores estejam envolvidos.
Este problema está mais relacionado à
pesquisa patrocinada por empresas, do que àquela
que recebe fundos governamentais, porque essas empresas
podem manter sigilo, protegendo a PI, enquanto a Lei
Bayh-Dole exige sua divulgação através
de patentes.
Incentivos
financeiros de licenciamento têm afastado os docentes
da pesquisa básica em favor da pesquisa mais
aplicada?
Os dados referentes à direção na
pesquisa de docentes são limitados, mas levam
a crer que a resposta é não. Uma pesquisa
das empresas que licenciaram patentes das universidades
indica que o primeiro motivo para aumentar sua colaboração
com as universidades foi a receptividade para o licenciamento,
mais do que a uma mudança da pesquisa pelos docentes.
Estudos sobre transferência de tecnologia na universidade
da Califórnia, Stanford, Columbia mostraram poucas
evidências de que as mudanças de direção
da pesquisa ou a preocupação com o retorno
financeiro fossem um motivo importante para a pesquisa.
Nosso estudo, com mais de 3.400 docentes, em seis universidades
de pesquisa, feito de 1993 a 1999, sugere que a parte
da pesquisa básica não mudou, apesar do
licenciamento ter aumentado em um fator maior do que
10.
Os dados dizem
que o licenciamento em universidades facilita a transferência
de tecnologia, tendo efeito mínimo sobre o ambiente
da pesquisa, mas os fatos são complexos e há
pontos desconhecidos. Mais estudos são necessários,
particularmente sobre se o envolvimento dos docentes
no licenciamento complementa ou substitui a publicação
aberta. O ambiente está, também, evoluindo.
O crescimento explosivo do licenciamento não
pode continuar indefinidamente - o equilíbrio
final, no entanto, está ainda para ser visto.
*Os autores
são pesquisadores da Emory University, Atlanta
e do Georgia Institute of Technology, Atlanta; EUA.
Publicado originalmente
pela revista Science (2003 August 22; 301: 1052),
seção Policy Forum, sob o título:
University Licensing and the Bayh-Dole Act
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