Novo dispositivo multiplica
eficiência da fibra óptica
Valescas Dios
Uma nova geração
de amplificadores ópticos está sendo desenvolvida
na Unicamp. Amplificador e óptico - as palavras
levam ao Laboratório de Comunicações
Ópticas do CePOF, Centro de Pesquisa em Óptica
e Fotônica -, no Instituto de Física. O
Fopa - Fiber Optic Parametric Amplifier (amplificador
paramétrico de fibra óptica), como é
chamado, promete ampliar, em no mínimo 300 vezes,
a capacidade de transmissão de telefonia e Internet
por fibra óptica.
Cientistas,
de quatro grandes laboratórios no mundo, debruçam-se
sobre esse novo sistema de amplificador: além
da Unicamp; o Bell Labs - da Lucent Technologies -;
a Universidade de Stanford, ambos nos Estados Unidos;
e a Universidade de Chalmers, na Suécia. Na comunicação
por fibra óptica, as informações
são decodificadas em sinais de luz e propagadas,
em forma de laser, pelos cabos de fibra óptica.
Um problema é que, no decorrer da transmissão,
o laser vai, pouco a pouco, perdendo potência;
necessita, portanto, ser revitalizado - trabalho para
os amplificadores. "A cada 15 quilômetros,
a potência do laser cai pela metade. Quando cai
muito abaixo disso, deve-se reamplificar. Por isso,
a cada 50 quilômetros de fibra óptica coloca-se
um amplificador", quem explica é professor
Hugo Luis Fragnito, responsável pelo Laboratório
de Comunicações Ópticas e coordenador
da pesquisa sobre o Fopa. Hugo é físico
- nascido e graduado na Argentina - e PhD em Física
pela Unicamp.
Até o
final dos anos 1980, para recuperar a perda de potência
do laser nas fibras óticas, usava-se o chamado
amplificador 3R: 'R' de regenerador, retemporizador
e reformatador. Ele amplificava os sinais transmitidos,
ordenava a transmissão dos bits e corrigia possíveis
distorções causadas pelo sistema. A tecnologia,
porém, apresentava desvantagens. Entre elas,
o fato de os amplificadores serem eletrônicos,
isto é, antes de recuperar a potência do
laser eles transformam o sinal luminoso em sinais elétricos
que depois são reconvertidos em luz. "Cada
vez que você introduz eletrônica (no lugar
de ótica), você introduz insegurança
na rede; qualquer coisa que se possa fazer, portanto,
para eliminar eletrônica e substituir por fotônica
é sempre vantagem", afirma o físico.
Os amplificadores
ópticos chegaram ao mercado em 1989. "Foi
um sucesso tremendo que revolucionou as telecomunicações",
lembra Hugo. Esta segunda geração de amplificadores
trouxe um aumento de 4 mil vezes à capacidade
do sistema 3R: de 1 gigabit, passou para 4 terabits.
O Amplificador a Fibra Dopada com Érbio registrou
um recorde na transferência de tecnologia do laboratório
de pesquisa para a sociedade. Em 1986, foram concluídos
os estudos científicos, nos Estados Unidos, e
em três anos, já era comercializado. "Depois
do érbio, o investimento em tecnologia nessa
área foi enorme". O amplificador a érbio
respondia à demanda crescente do mercado de telecomunicações
causada pela chegada da Internet, na metade dos anos
1980.
Além
de ser óptico e não eletrônico,
os amplificadores a érbio são transparentes
à taxa de transmissão em bit/s e atendem
a todos os protocolos de comunicação (Sonet,
SDH, ATM). O padrão SDH, Hierarquia Digital Síncrona,
é usado para a telefonia; já para vídeo,
o melhor protocolo é o ATM, Modo de Transferência
Assíncronon; a Internet, no entanto, exige outro
padrão. O 3R por sua vez, era opaco ao protocolo:
"não adianta colocar os bits em formato
Sonet num circuito que não é para Sonet.
É como colocar sinal de telefone num aparelho
de televisão, ele não entende", explica
Hugo. Outra desvantagem do sistema 3R era o aumento
do volume de bits nas transmissões. "Você
tinha um sistema que era projetado para 155 Mb/s, se
a operadora ganhasse mais clientes e precisasse aumentar
para 622Mb/s, necessitaria trocar não apenas
transmissor e receptor, mas todos os amplificadores
3R instalados no percurso." Levando mais água
ao moinho dos amplificadores ópticos, o fator
custo: em 1990, o amplificador a érbio custava
em torno de US$ 30 milhões; e o 3R, US$ 200 milhões.
Além de amplificar qualquer padrão, o
érbio possibilitou a amplificação
de vários sinais na mesma fibra óptica.
Isto é, ao invés de utilizar um cabo de
fibra óptica para acender cada laser, possibilita
que se acendam vários numa mesma fibra.
Mesmo com o amplificador dopado com érbio e com
a tecnologia WDM (Wavelength Division Multiplexing),
que possibilita acender vários lasers numa mesma
fibra, o aumento da demanda e do leque de possibilidades
criados com a Rede Internacional de Computadores traz
ao sistema óptico o risco de um grande congestionamento.
Daí a movimentação da indústria
e da academia em encontrar novas possibilidades para
a transmissão de bits. Os amplificadores Raman
são um exemplo dessa corrida. "Estes amplificadores
já estão no mercado", diz Hugo. (No
Brasil, eles são fabricados e vendidos pela Padtec,
em Campinas).
O amplificador
paramétrico Fopa, desenvolvido no laboratório
da Unicamp, também promete revolucionar o sistema
propondo o aproveitamento quase total da fibra óptica,
podendo chegar a velocidades de até 100 terabits.
O nome paramétrico refere-se a um dos fenômenos
não-lineares que acontecem na fibra óptica.
Um deles, o processo paramétrico, é o
que possibilita o funcionamento do amplificador. "O
Fopa não é apenas um amplificador paramétrico.
Ele faz também outras operações:
é conversor de comprimento de onda, trocador
de comprimento de onda, conjugador de fase, equalizador
de potência e redutor de ruído", anima-se
Hugo. Isto é, o Fopa possibilita uma série
de vantagens que facilitam a comunicação
na rede de fibra óptica.
O conversor
de comprimento de onda permite que uma informação
saia de Campinas para o Rio, sem precisar, por exemplo,
passar por São Paulo. Explicando: cada caminho
percorrido por uma informação dentro da
rede de fibra óptica tem um comprimento de onda
diferente. O trajeto Campinas - São Paulo, digamos,
tem o comprimento de onda 1 e o trajeto São Paulo
- Rio, comprimento de onda 2. Uma informação
que sai de Campinas, em direção ao Rio,
precisa sempre passar por São Paulo para, na
operadora dessa cidade, ter seu comprimento de onda
convertido para chegar ao seu destino no Rio. Essa interrupção,
no meio do caminho, seria desnecessária se Campinas
trabalhasse com um amplificador Fopa, que imediatamente
faria a conversão do comprimento de onda 1 para
o 2. No caso do trocador de onda, o processo é
semelhante: vamos supor que, ao mesmo tempo em que São
Paulo está convertendo o comprimento de onda
da informação que saiu de Campinas rumo
ao Rio de Janeiro, tem outra informação
saindo de Curitiba, também passando por São
Paulo, com destino ao Rio e, portanto, precisando ocupar
o mesmo caminho. O trocador irá possibilitar
que ambas as informações cheguem ao seu
destino disponibilizando um outro caminho para a informação
que saiu de Curitiba. Hoje em dia, diz Hugo, essas operações,
são todas eletrônicas e o Fopa propõe,
justamente, transformar esses processos em ópticos:
"a fotônica, além de deixar a rede
mais rápida e mais segura, possibilita expansões
maiores e exige menos manutenção".
Tradição em
inovação
Provavelmente
em janeiro de 2004, o Fopa começará a
ser testado fora das paredes do Laboratório de
Comunicações Ópticas da Unicamp.
Os testes em campo serão possíveis graças
ao KyaTera, um sub-projeto do Tidia (Tecnologia da Informação
no Desenvolvimento da Internet Avançada), programa
lançado pela Fapesp no dia 27 de junho de 2003
que pretende disponibilizar uma rede de alta velocidade
para universidades e laboratórios de pesquisa
do País. O KyaTera irá desenvolver uma
grande rede de fibra óptica experimental, chegando
diretamente aos laboratórios de pesquisa, para
o desenvolvimento e demonstração de novas
tecnologias. A Fapesp quer com o KyaTera encontrar parceiros
no setor privado, para financiar essa nova estrutura
de rede. Segundo Hugo, que é também membro
da comissão de coordenação do Tidia,
praticamente todas as empresas que têm fibra óptica
no Brasil foram receptivas à proposta da Fapesp.
O CePOF foi
montado no ano 2000, quando a Fapesp criou os primeiros
Cepids, Centros de Pesquisa, Inovação
e Difusão. O Centro da Unicamp, recebe cerca
de US$ 1 milhão por ano e desse valor, algo em
torno de 10% é direcionado para o projeto do
Fopa. Os laboratórios de óptica da Unicamp
viraram Cepid justamente por sua tradição
em pesquisa e inovação tecnológica.
Saiu de lá, em 1976, o projeto da primeira fibra
óptica fabricada ao sul do equador: "desenvolvemos
a tecnologia aqui e depois a transferimos para a Telebrás
em 1976", conclui Hugo.
2
X Política Industrial "Diretrizes",
o documento divulgado
pelo governo "Crescimento
econômico", o
documento da Fiesp Lei
de Inovação Novo
Projeto da Lei
de Inovação Patentes Licenciamento
de patentes na
Universidade dos EUA Nanotecnologia: Stanley
Williams fala ao
Senado dos EUA Andifes Proposta
de expansão para
o Ensino Superior