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em cana-de-açúcar
Monsanto compra empresas
de base tecnológica da Votorantim Novos
Negócios, por R$ 616 milhões, para entrar no
mercado de cana
A multinacional Monsanto anunciou,
no dia 3 de novembro, a aquisição
das empresas CanaVialis
e Alellyx, ambas pertencentes ao Grupo
Votorantim e controladas pela Aly Participações
Limitada. Segundo comunicado à imprensa
feito pela Monsanto, o negócio foi fechado em
US$ 290 milhões, o que corresponde a
R$ 616 milhões. Trata-se da estréia
da firma dos Estados Unidos — que segue
o exemplo da Syngenta
— no mercado de cana-de-açúcar.
Segundo a Monsanto, CanaVialis e Alellyx serão
gerenciadas de forma independente e manterão
a mesma direção e funções.
Com o investimento, o Brasil vai se tornar o
centro mundial de pesquisa da Monsanto em cana-de-açúcar.
As empresas Alellyx e CanaVialis
são criação da Votorantim
Novos Negócios. Para fundar a Alellyx, a Votorantim
Ventures reuniu pesquisadores de universidades
públicas que haviam participado do seqüenciamento
do genoma da bactéria Xylella fastidiosa
(Alellyx é Xylella escrita ao
contrário). Para fundar a CanaVialis, a Votorantim
buscou pesquisadores com experiência no
melhoramento genético da cana, especialmente
na Rede Interuniversitária para Desenvolvimento
do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa). O portfolio
das empresas, hoje, contém soluções
tecnológicas direcionadas a cana-de-açúcar,
laranja e eucalipto, que poderão ser
aplicadas a outras culturas, como o milho e
a soja.
Entre os pesquisadores da Alellyx
está Paulo Arruda, do Centro
de Biologia Molecular e Engenharia Genética
(CBMEG) da Unicamp, que ocupa
o cargo de diretor científico da empresa. Paulo
também coordenou o programa Sucest, de
seqüenciamento de genes expressos da cana-de-açúcar,
realizado entre 1999 e 2003 com financiamento
da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Ambas as empresas receberam
recentemente recursos públicos para fazer seus
projetos de pesquisa vindos da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep)
e do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES). Segundo
o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio
Rezende, apenas a sua pasta destinou R$ 49,4
milhões, nos últimos três anos,
em subvenção econômica para
as duas companhias. E R$ 6,4 milhões
foram desembolsados no período.
No último edital de subvenção,
por exemplo, a CanaVialis teve um projeto aprovado,
focado no desenvolvimento de kits diagnósticos
com marcadores moleculares para melhoramento
genético da cana e outras culturas. A
lista de quem vai receber subvenção
foi publicada pela Finep dia
30 de outubro. O total de
recursos é de R$ 19,9 milhões,
mas, pela lei, todas as empresas são
obrigadas a dar contrapartida para receber o
dinheiro. A contrapartida varia de acordo com
o porte da empresa: entre 5% e 20% do valor
total do projeto no caso de pequenas empresas,
e entre 100% e 200% para empresas de médio
e grande porte. No resultado divulgado pela
Finep antes da aquisição pela
Monsanto, a CanaVialis foi classificada como
pequena empresa. A Alellyx também conseguiu
R$ 5 milhões em recursos da subvenção,
no edital de 2008, para um projeto de desenvolvimento
de cana geneticamente modificada que inova os
processos de maturação e produtividade.
A Alellyx é classificada como microempresa
pela Finep. Procurada por Inovação,
a agência de fomento disse, por meio de
sua assessoria de imprensa, que ainda não
sabe como ficará a situação das
duas empresas em relação a subvenção
concedida. O edital de subvenção
foi suspenso no dia 10 de novembro pelo Tribunal
de Contas da União (TCU).
Em entrevista ao jornal O
Estado de S. Paulo do dia 5 de novembro,
o ministro Sergio Rezende disse que ficou
"surpreso e decepcionado" com a notícia
da venda. "Não sei quanto a Votorantim
colocou nessas empresas ao longo desses anos,
mas o setor público colocou muito dinheiro",
falou ao jornal paulista. "A venda para
qualquer grupo estrangeiro é decepcionante.
Como é que eles foram vender duas jóias
como essas, tão importantes para o País?"
O ministro considerou ainda que a venda foi
realizada por um "preço módico".
Rezende disse que é a favor dos investimentos
das multinacionais em pesquisa e desenvolvimento
no Brasil, mas que preferiria que as duas empresas
tivessem continuado nacionais.
Investimento de longo
prazo
"Estamos entrando em uma
cultura e um mercado importantíssimos, e nada
melhor do que comprar a líder mundial em pesquisa
privada com cana", destacou André
Dias, que há dois meses preside a Monsanto do
Brasil, em declaração publicada
nos jornais do dia 4 de novembro, referindo-se
à CanaVialis. Ele explicou que o investimento
é para o longo prazo. "Não
prevemos um aumento no faturamento até
metade da próxima década", acrescentou.
A Monsanto investe US$ 800 milhões em
pesquisa e desenvolvimento anualmente, e não
disse, ainda, quanto pretende destinar desse
volume para pesquisa em cana-de-açúcar.
No comunicado divulgado à
imprensa, Dias afirmou: "Da mesma forma
que ocorre com nossas parcerias em tecnologia,
esperamos que a aquisição da CanaVialis
e Alellyx nos permita combinar nossos conhecimentos
em melhoramento de lavouras de soja, milho e
algodão ao melhoramento da cana-de-açúcar.
Nosso objetivo é aumentar a produtividade
desta cultura e, ao mesmo tempo, reduzir a quantidade
de recursos necessários para sua produção,
como já fazemos com as plantas com que trabalhamos.
Vemos isso como uma oportunidade significativa
a longo prazo para diversificar o portfolio
de culturas para as quais desenvolvemos tecnologias,
e oferecer inovações para uma
cultura essencial como a cana-de-açúcar".
Fernando Reinach, diretor-executivo
da Votorantim Novos Negócios, afirmou estar
triste por ver "um filho ir embora",
mas destacou que a aquisição permitirá
que as duas empresas cresçam mais rapidamente.
"A gente sempre soube que, em algum momento,
a CanaVialis e a Alellyx teriam de se associar
a alguma empresa poderosa de biotecnologia",
completou. Ele lembrou que faz parte do negócio
do capital de risco comprar barato e vender
bem uma empresa. "A experiência da
Monsanto em melhoramento genético avançado
e biotecnologia, combinada com o conhecimento
em genética de cana-de-açúcar
por parte de CanaVialis e Alellyx, ajudará os
agricultores a aumentar substancialmente sua
produtividade em um curto período de tempo",
explicou Reinach, no texto divulgado pela Monsanto
para a imprensa.
Ricardo Madureira, presidente
da CanaVialis, comentou que a aquisição
da empresa pela Monsanto só vai acelerar o que
já vinha sendo feito por sua companhia. Em 2009,
a CanaVialis prevê apresentar uma cana
de ciclo precoce, resultado de um projeto de
pesquisa envolvendo melhoramento genético
clássico, em que se cruzam variedades para obter
a de melhor rendimento. A empresa também
pesquisa variedades transgênicas.
Reinach explicou ainda que
a venda das duas companhias não tem relação
com as perdas recentes de R$ 2,2 bilhões
do Grupo Votorantim no mercado de derivativos.
Segundo ele, a operação de venda
está sendo discutida pelo grupo há oito meses
e outras empresas do setor estavam interessadas,
mas a Monsanto fez a melhor proposta. "Todas
as grandes estavam atrás, mas a Monsanto foi
quem pagou mais", afirmou ele. Além
disso, a Monsanto já tinha parceria em projetos
de pesquisa com as companhias financiadas pela
Votorantim Ventures. Reinach já tinha mencionado
estar negociando com outras empresas tecnologias
desenvolvidas pelas firmas nacionais. Em setembro
de 2006, ao falar sobre marcos regulatórios
para pesquisa em biotecnologia no Brasil em
palestra
no Instituto Fernando Henrique Cardoso,
o executivo comentou o interesse de uma empresa
norte-americana pela variedade de cana transgênica
que estava sendo desenvolvida pelas empresas
da Votorantim.
Em 29 de maio do ano passado,
a Votorantim anunciou uma parceria tecnológica
entre a Alellyx, a CanaVialis e a Monsanto,
em que seriam oferecidas para o setor sucroalcooleiro
tecnologias desenvolvidas pela multinacional.
A parceria também daria possibilidade
à empresa norte-americana de utilizar
tecnologias desenvolvidas pelas duas empresas
brasileiras. Na época, previa-se que
os primeiros produtos resultantes do acordo
seriam variedades de cana-de-açúcar resistentes
ao ataque de insetos e variedades tolerantes
a herbicidas, o que permitiria aumentar a produtividade
dos canaviais e diminuir seus custos de produção.
(J.S.)
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