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..Publicada em 1º de dezembro 2008

P&D em cana-de-açúcar
Monsanto compra empresas de base tecnológica da Votorantim Novos
Negócios, por R$ 616 milhões, para entrar no mercado de cana

A multinacional Monsanto anunciou, no dia 3 de novembro, a aquisição das empresas CanaVialis e Alellyx, ambas pertencentes ao Grupo Votorantim e controladas pela Aly Participações Limitada. Segundo comunicado à imprensa feito pela Monsanto, o negócio foi fechado em US$ 290 milhões, o que corresponde a R$ 616 milhões. Trata-se da estréia da firma dos Estados Unidos — que segue o exemplo da Syngenta — no mercado de cana-de-açúcar. Segundo a Monsanto, CanaVialis e Alellyx serão gerenciadas de forma independente e manterão a mesma direção e funções. Com o investimento, o Brasil vai se tornar o centro mundial de pesquisa da Monsanto em cana-de-açúcar.

As empresas Alellyx e CanaVialis são criação da Votorantim Novos Negócios. Para fundar a Alellyx, a Votorantim Ventures reuniu pesquisadores de universidades públicas que haviam participado do seqüenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa (Alellyx é Xylella escrita ao contrário). Para fundar a CanaVialis, a Votorantim buscou pesquisadores com experiência no melhoramento genético da cana, especialmente na Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa). O portfolio das empresas, hoje, contém soluções tecnológicas direcionadas a cana-de-açúcar, laranja e eucalipto, que poderão ser aplicadas a outras culturas, como o milho e a soja.

Entre os pesquisadores da Alellyx está Paulo Arruda, do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) da Unicamp, que ocupa o cargo de diretor científico da empresa. Paulo também coordenou o programa Sucest, de seqüenciamento de genes expressos da cana-de-açúcar, realizado entre 1999 e 2003 com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Ambas as empresas receberam recentemente recursos públicos para fazer seus projetos de pesquisa vindos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, apenas a sua pasta destinou R$ 49,4 milhões, nos últimos três anos, em subvenção econômica para as duas companhias. E R$ 6,4 milhões foram desembolsados no período.

No último edital de subvenção, por exemplo, a CanaVialis teve um projeto aprovado, focado no desenvolvimento de kits diagnósticos com marcadores moleculares para melhoramento genético da cana e outras culturas. A lista de quem vai receber subvenção foi publicada pela Finep dia 30 de outubro. O total de recursos é de R$ 19,9 milhões, mas, pela lei, todas as empresas são obrigadas a dar contrapartida para receber o dinheiro. A contrapartida varia de acordo com o porte da empresa: entre 5% e 20% do valor total do projeto no caso de pequenas empresas, e entre 100% e 200% para empresas de médio e grande porte. No resultado divulgado pela Finep antes da aquisição pela Monsanto, a CanaVialis foi classificada como pequena empresa. A Alellyx também conseguiu R$ 5 milhões em recursos da subvenção, no edital de 2008, para um projeto de desenvolvimento de cana geneticamente modificada que inova os processos de maturação e produtividade. A Alellyx é classificada como microempresa pela Finep. Procurada por Inovação, a agência de fomento disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que ainda não sabe como ficará a situação das duas empresas em relação a subvenção concedida. O edital de subvenção foi suspenso no dia 10 de novembro pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo do dia 5 de novembro, o ministro Sergio Rezende disse que ficou "surpreso e decepcionado" com a notícia da venda. "Não sei quanto a Votorantim colocou nessas empresas ao longo desses anos, mas o setor público colocou muito dinheiro", falou ao jornal paulista. "A venda para qualquer grupo estrangeiro é decepcionante. Como é que eles foram vender duas jóias como essas, tão importantes para o País?"  O ministro considerou ainda que a venda foi realizada por um "preço módico". Rezende disse que é a favor dos investimentos das multinacionais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil, mas que preferiria que as duas empresas tivessem continuado nacionais.

Investimento de longo prazo

"Estamos entrando em uma cultura e um mercado importantíssimos, e nada melhor do que comprar a líder mundial em pesquisa privada com cana", destacou André Dias, que há dois meses preside a Monsanto do Brasil, em declaração publicada nos jornais do dia 4 de novembro, referindo-se à CanaVialis. Ele explicou que o investimento é para o longo prazo. "Não prevemos um aumento no faturamento até metade da próxima década", acrescentou. A Monsanto investe US$ 800 milhões em pesquisa e desenvolvimento anualmente, e não disse, ainda, quanto pretende destinar desse volume para pesquisa em cana-de-açúcar.

No comunicado divulgado à imprensa, Dias afirmou: "Da mesma forma que ocorre com nossas parcerias em tecnologia, esperamos que a aquisição da CanaVialis e Alellyx nos permita combinar nossos conhecimentos em melhoramento de lavouras de soja, milho e algodão ao melhoramento da cana-de-açúcar. Nosso objetivo é aumentar a produtividade desta cultura e, ao mesmo tempo, reduzir a quantidade de recursos necessários para sua produção, como já fazemos com as plantas com que trabalhamos. Vemos isso como uma oportunidade significativa a longo prazo para diversificar o portfolio de culturas para as quais desenvolvemos tecnologias, e oferecer inovações para uma cultura essencial como a cana-de-açúcar".

Fernando Reinach, diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, afirmou estar triste por ver "um filho ir embora", mas destacou que a aquisição permitirá que as duas empresas cresçam mais rapidamente. "A gente sempre soube que, em algum momento, a CanaVialis e a Alellyx teriam de se associar a alguma empresa poderosa de biotecnologia", completou. Ele lembrou que faz parte do negócio do capital de risco comprar barato e vender bem uma empresa. "A experiência da Monsanto em melhoramento genético avançado e biotecnologia, combinada com o conhecimento em genética de cana-de-açúcar por parte de CanaVialis e Alellyx, ajudará os agricultores a aumentar substancialmente sua produtividade em um curto período de tempo", explicou Reinach, no texto divulgado pela Monsanto para a imprensa.

Ricardo Madureira, presidente da CanaVialis, comentou que a aquisição da empresa pela Monsanto só vai acelerar o que já vinha sendo feito por sua companhia. Em 2009, a CanaVialis prevê apresentar uma cana de ciclo precoce, resultado de um projeto de pesquisa envolvendo melhoramento genético clássico, em que se cruzam variedades para obter a de melhor rendimento. A empresa também pesquisa variedades transgênicas.

Reinach explicou ainda que a venda das duas companhias não tem relação com as perdas recentes de R$ 2,2 bilhões do Grupo Votorantim no mercado de derivativos. Segundo ele, a operação de venda está sendo discutida pelo grupo há oito meses e outras empresas do setor estavam interessadas, mas a Monsanto fez a melhor proposta. "Todas as grandes estavam atrás, mas a Monsanto foi quem pagou mais", afirmou ele. Além disso, a Monsanto já tinha parceria em projetos de pesquisa com as companhias financiadas pela Votorantim Ventures. Reinach já tinha mencionado estar negociando com outras empresas tecnologias desenvolvidas pelas firmas nacionais. Em setembro de 2006, ao falar sobre marcos regulatórios para pesquisa em biotecnologia no Brasil em palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso, o executivo comentou o interesse de uma empresa norte-americana pela variedade de cana transgênica que estava sendo desenvolvida pelas empresas da Votorantim.

Em 29 de maio do ano passado, a Votorantim anunciou uma parceria tecnológica entre a Alellyx, a CanaVialis e a Monsanto, em que seriam oferecidas para o setor sucroalcooleiro tecnologias desenvolvidas pela multinacional. A parceria também daria possibilidade à empresa norte-americana de utilizar tecnologias desenvolvidas pelas duas empresas brasileiras. Na época, previa-se que os primeiros produtos resultantes do acordo seriam variedades de cana-de-açúcar resistentes ao ataque de insetos e variedades tolerantes a herbicidas, o que permitiria aumentar a produtividade dos canaviais e diminuir seus custos de produção. (J.S.)


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