| Do
Jornal da Unicamp
Colhedora de cana preserva
empregos e reduz desperdício
Manuel
Alves Filho
Por força de diferentes
legislações, a colheita da cana-de-açúcar
no Brasil está migrando progressivamente
do padrão manual para o mecânico.
Tal mudança contribui para o aumento
da produtividade e traz benefícios ao
ambiente, visto que dispensa a queima prévia
da palha. Entretanto, também gera efeitos
negativos, como a redução do nível
de emprego no campo. Uma alternativa aos dois
modelos é uma tecnologia que vem sendo
desenvolvida por pesquisadores da Faculdade
de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp,
com a colaboração de outras instituições.
Batizada de Unidade Móvel de Auxílio
à Colheita (Unimac), ela substitui apenas
parcialmente a mão-de-obra humana, conferindo
maior segurança e conforto aos trabalhadores
remanescentes. Como se não bastasse,
o equipamento ainda promete ser mais leve e
barato que as colhedoras convencionais, além
de operar em terrenos onde estas últimas
não conseguem atuar. A Unimac já
teve o seu pedido de registro de patente depositado
pela universidade.
As pesquisas realizadas pela
equipe da Feagri são coordenadas pelo
professor Oscar Antonio Braunbeck e integram
um projeto temático financiado pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp). Desde 1992, o grupo vem se dedicando
ao desenvolvimento de equipamentos que auxiliem
na colheita de culturas como frutas, hortaliças
e cana-de-açúcar. Em dezembro
de 2006, por exemplo, os pesquisadores apresentaram
o protótipo de uma colhedora para tomates
de mesa, seguindo o conceito que associa otimização
do trabalho com preservação de
mão-de-obra e garantia de segurança
e conforto aos trabalhadores. No caso da Unimac
destinada à colheita da cana, o protótipo
começou a ser construído em 2003.
Atualmente, está em fase de finalização.
De acordo com o professor
Oscar, a maioria dos componentes da colhedora
já foi projetada e construída.
"Estamos dependendo apenas da liberação
de alguns recursos para que possamos concluir
o equipamento. Nossa expectativa é que
ele possa estar pronto para operar em caráter
experimental ainda este ano", prevê.
O professor da Feagri considera que a Unimac
deverá promover mudanças no padrão
de mecanização da colheita da
cana-de-açúcar. Ele explica que
as máquinas atuais são caras e
de grande porte. Ademais, não conseguem
operar em terrenos que apresentem mais do que
12% de declividade. Por fim, têm dificuldade
de colher as canas que não estão
em pé.
A proposta dos pesquisadores
da Feagri é que a Unimac seja mais compacta
e barata. As projeções indicam
que o equipamento, que pesará aproximadamente
quatro toneladas, deverá chegar ao mercado
a um preço próximo de R$ 250 mil.
As colhedoras atuais custam cerca de R$ 850
mil e pesam de três a quatro vezes mais.
Outra vantagem que a nova tecnologia deverá
apresentar em relação aos modelos
convencionais é que ela poderá
operar em terrenos com declividade acentuada,
visto que será dotada de tração
e direção nas quatro rodas. Como
a operação contará com
o apoio de dez trabalhadores — um conduzindo
a colhedora e outros nove atuando nas etapas
de ordenamento, alimentação e
recolhimento das canas não-capturadas,
a tendência é que haja redução
do desperdício, que atualmente está
entre 5% e 10%, variando conforme a lavoura.
Mais um aspecto positivo da
Unimac é que a colhedora foi projetada
de modo a garantir aos trabalhadores maior conforto
e segurança durante o cumprimento das
tarefas. Os componentes seguem, por exemplo,
princípios ergonômicos. "Com
a Unimac, os funcionárias das fazendas
ou usinas não terão mais que trabalhar
em posições desconfortáveis
e inadequadas ou realizar movimentos repetitivos
de forma exaustiva", afirma o professor
Oscar. Ele aponta mais uma vantagem da tecnologia
desenvolvida pela sua equipe. O equipamento
será acionado à eletricidade em
substituição aos acionamentos
hidráulicos.
Pelos cálculos feitos
pelos pesquisadores, a Unimac terá capacidade
para coletar até 200 toneladas de cana
por dia, considerando um período de dez
horas de trabalho. "Nada impede, entretanto,
que o equipamento opere durante 24 horas, por
meio de turnos", explica o docente da Feagri.
Para se ter uma idéia do que essa produtividade
representa, basta compará-la com o desempenho
de um cortador de cana. Atualmente, os mais
produtivos conseguem cortar, em média,
dez toneladas por dia. "Pelas nossas estimativas,
o custo da colheita com o uso da Unimac será
de R$ 4,00 por tonelada, o que o torna altamente
competitivo", analisa o professor Oscar.
O preço comercial projetado
para a tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores
da Unicamp possivelmente não será
acessível a boa parte dos pequenos e
médios produtores, como reconhece o coordenador
dos estudos. Ele considera, porém, que
a colhedora poderá ser adquirida por
cooperativas agrícolas ou mesmo por empresas
prestadoras de serviços, que seriam contratadas
por esses agricultores para realizar a colheita
da cana. "Sem essa opção,
eles dificilmente terão condições
financeiras de cumprir a legislação
e mecanizar a colheita", pondera o docente
da Feagri. O processo de adaptação
da Unimac está sendo conduzido pela Agricef
– Soluções Tecnológicas
para a Agricultura, empreendimento abrigado
na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica
da Unicamp (Incamp).
Gargalo
A safra brasileira de cana-de-açúcar
no período 2005/2006 ficou em torno de
400 milhões de toneladas, de acordo com
dados do Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento. Com o crescimento do interesse
mundial pelo álcool, que tem sido apontado
como uma das alternativas aos combustíveis
derivados de petróleo, a tendência
é que haja uma grande ampliação
da produção nacional. Se isso
de fato ocorrer, existe o risco de o País
enfrentar logo à frente um sério
gargalo tecnológico, visto que os níveis
de mecanização da colheita ainda
são baixos no setor sucroalcooleiro.
"Se não quisermos ter problemas,
temos de pensar nas soluções desde
já", alerta o professor Oscar.
De acordo com ele, o segmento
de mecanização voltado à
colheita da cana-de-açúcar carece
de novas idéias. As soluções
existentes hoje em dia são baseadas em
modelos clássicos, concebidos há
pelo menos 50 anos. "Penso que a engenharia
agrícola pode contribuir muito nesse
aspecto, sobretudo se desenvolver equipamentos
sem grande complexidade tecnológica,
mas adequados às nossas necessidades.
Nossas pesquisas estão voltadas justamente
para essa direção", afirma.
Origem
A cana-de-açúcar
é originária da Ásia. Trazida
ao Brasil por Martim Afonso de Souza, por volta
de 1530, passou a ter destacada importância
econômica para o País. Inicialmente,
o principal pólo de produção
nacional foi a região Nordeste. Com o
tempo, a cultura foi expandida para outros Estados,
inclusive São Paulo, que responde atualmente
por 60% da safra brasileira. Embora tenha outras
aplicações, a cana é empregada
basicamente como matéria-prima para a
produção de açúcar
e álcool. |