| Dedini
Indústrias de Base
Planta piloto da Dedini
produz etanol celulósico a partir de
bagaço de cana; mas não há
prazo para operação comercial
A discrição cerca
a operação da pequena planta piloto
instalada pela Dedini Indústrias de Base ao
lado da usina São Luiz, em Pirassununga,
em uma fazenda a 207 quilômetros de São
Paulo. Lá, a empresa trabalha para a
melhoria de sua tecnologia proprietária
denominada DHR — Dedini Hidrólise
Rápida. Baseada na hidrólise ácida
do bagaço de cana para obtenção
de etanol, a DHR é uma das rotas tecnológicas
mais promissoras para o aumento da produção
sem expansão da área plantada
de cana-de-açúcar. A hidrólise
ácida é uma das rotas possíveis
para a obtenção de etanol a partir
da celulose, abundante nos resíduos da
cultura da cana-de-açúcar ou do
milho, hoje as duas principais fontes do produto.
Na tecnologia patenteada pela empresa —
maior fornecedora de bens de capital para o
setor sucroalcooleiro —, um solvente dilui
a lignina, estrutura da fibra do bagaço
de cana que protege a celulose, para permitir
a quebra das cadeias de carbono que a formam
e a conseqüente geração de
hexoses — açúcares formados
por cadeias de seis carbonos, que serão
finalmente utilizados para produção
de álcool.
Paulo Augusto Soares, engenheiro
químico formado pela Faculdade de Engenharia
Industrial (FEI) e atual gerente da planta DHR,
recebeu Inovação
em Pirassununga para uma visita à planta.
Ele não revela qual o prazo de conclusão
da fase de operação experimental.
"Essa é uma unidade semi-industrial,
cuja principal finalidade é testar soluções
de engenharia em uma escala de produção
significativa, superior a do protótipo
que operamos no antigo Centro de Tecnologia
Copersucar, [hoje Centro de Tecnologia Canavieira
(CTC)]", explica ele, sem detalhar as soluções.
"O mercado de açúcar e álcool
é bastante conservador. Por isso, a Dedini
toma muito cuidado ao lançar um novo
produto e só o faz depois de eliminar
todos os problemas", completa. Soares acompanha
o projeto desde 2005.
A DHR pode produzir, teoricamente,
até cinco mil litros de álcool
por dia, a partir do processamento de duas toneladas
de bagaço por hora. A empresa não
revela qual é a eficiência da operação
no estágio atual da produção.
Os dados do estudo de viabilidade econômica
que indicam quanto custa a produção
de álcool utilizando a tecnologia DHR
em comparação com o processo normal
são mantidos em sigilo pela empresa.
A empresa só revela que, entre os indicadores
de viabilidade econômica para a adoção
da tecnologia, estão o preço do
álcool a granel cobrado pelas usinas
no Brasil, no exterior e também o preço
internacional do galão de petróleo.
A visita
à planta DHR
A planta experimental não
funciona todos os dias. No dia da visita de
Inovação,
9 de outubro, esperava-se que a unidade entrasse
em funcionamento. Mas não entrou: quando
chove muito, a cana recolhida no campo vem muito
suja de terra, o que pode inviabilizar até
o funcionamento de uma usina convencional; e
a chuva havia sido intensa no fim de semana
anterior. A usina São Luís, a
convencional, estava operando; mas o bagaço
produzido continha muita terra misturada. A
terra dificulta a alimentação
do reator da planta experimental — onde
o bagaço é colocado para sofrer
a hidrólise. No dia seguinte, de acordo
com Soares, as condições do bagaço
melhoraram e a planta experimental funcionou
das sete horas da manhã até o
final da tarde.
A unidade DHR está instalada
ao lado do ponto de onde sai o bagaço
da cana processada na usina convencional e dos
tanques gigantes de resfriamento da água
nela utilizada. À sua frente está
o escritório dos engenheiros que trabalham
na unidade. A planta DHR é pequena, se
comparada às demais estruturas da usina.
Uma placa instalada na planta diz que o projeto
é resultado da parceria entre Dedini,
Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp) e CTC.
Por conta da proximidade com a parte de fermentação
e destilação da usina, o calor
é forte, mas amenizado por uma espécie
de garoa que pode cair dos tanques de água,
situados ao lado, dependendo da direção
do vento. Cerca de 80% dos equipamentos utilizados
na unidade são nacionais. Ela é
operada por oito funcionários. Outros
três engenheiros da Dedini trabalham na
solução de problemas e no desenvolvimento
dos parâmetros e soluções
de engenharia para a planta poder operar em
escala industrial.
José Luiz Olivério,
vice-presidente de operações da
Dedini, contou em uma palestra dada no Seminário
Internacional de Biocombustíveis, em
Brasília, no dia 25 de abril deste ano,
que a empresa está definindo os parâmetros
de engenharia que serão utilizados para
o dimensionamento de uma planta em escala industrial.
Na ocasião, como exemplo do potencial
da tecnologia, Olivério explicou que
hoje, com um hectare de cana, são colhidas
80 toneladas de cana limpa, termo usado quando
se desconta a palha. Essas 80 toneladas produzem,
pelo processo convencional, 6.400 litros do
bioetanol hidratado. Se a empresa passar a colher
a cana integral, que inclui a palha hoje deixada
no campo, a produção por hectare
passa a ser de 96 toneladas. Além dos
6.400 litros de bioetanol hidratado produzido
a partir do caldo resultante do processo convencional,
a empresa poderá produzir mais 5.650
litros de bioetanol com o uso da tecnologia
DHR para extração de mais açúcar
do bagaço e a queima da palha para gerar
energia que antes era produzida a partir do
bagaço. Somam-se, assim, 12.050 litros
produzidos por hectare, ou seja, dobra-se a
produção se a tecnologia DHR for
empregada e se a palha for usada para geração
de energia para a usina.
Produto
da hidrólise ácida não
é álcool, mas água com
açúcar
Paulo Soares acompanhou Inovação
para explicar como funciona a unidade DHR. O
bagaço é agrupado em montes tão
grandes que, de longe, parecem dunas. A semelhança
com a areia acaba quando se chega próximo
deles. O bagaço é, na verdade,
fibra, pequenos pedaços de cana que sobram
depois de ela ser moída. Esse bagaço
é transportado para cima em uma esteira,
chegando à boca do reator, instalado
em uma torre da planta experimental. Ao lado
do reator, no fundo da torre, está instalado
um sistema que prepara e dilui o ácido,
que fica circulando dentro do equipamento. O
líquido passa por um tanque onde é
resfriado por redução brusca de
pressão, processo necessário para
interromper a reação química
do ácido. Depois de passar por esse tanque,
o líquido vai para a coluna de destilação.
Nela é recuperado o solvente, que sai
pela parte de cima da coluna e volta para o
reator. Já a água, os açúcares
e os produtos pesados saem pelo fundo. "Ao
final do processo de hidrólise não
temos álcool, mas açúcar
e água, que serão levados para
o processo normal de fermentação
e destilação, ou seja, passam
a ser integrados ao sistema convencional da
usina", aponta.
"Nosso processo tem uma
característica especial: tudo é
feito em um estágio. É rápido
porque as reações ocorrem em menos
de uma hora", afirma Soares. Na hidrólise
enzimática, a outra
rota tecnológica em investigação
no Brasil e no exterior para viabilizar a produção
de etanol celulósico, as reações
— segundo o engenheiro — demoram
mais de 72 horas. "A hidrólise enzimática
é um processo para longo prazo, por isso
a Dedini preferiu seguir a rota da hidrólise
ácida", acrescenta. A hidrólise
com processo organosolv começou a ser
estudada pela Dedini em meados dos anos 1980.
A iniciativa de trazer essa tecnologia para
a empresa foi de Dovílio Ometto, presidente
da Dedini Indústrias de Base.
O processo foi patenteado pela
empresa em 1996. Desse ano até 2002 a
companhia se preocupou em desenvolver e operar
a tecnologia em uma pequena planta piloto, instalada
na Copersucar. A partir de 2002, passou a trabalhar
na unidade semi-industrial de Pirassununga.
Além do Brasil, a tecnologia foi patenteada
nos Estados Unidos, União Européia,
Canadá, México, Rússia
e Japão. O engenheiro não soube
dizer quanto a empresa investiu no desenvolvimento
da tecnologia, mas só da Fapesp a Dedini
obteve R$ 1,7 milhão, no âmbito
do programa Parceria para Inovação
Tecnológica (PITE), e deu como contrapartida
R$ 1,8 milhão, no período de 1º
de fevereiro de 2002 a 30 de junho de 2003.
Trabalhou como parceiro no
projeto o professor Carlos Eduardo Vaz Rossell,
na época pesquisador do CTC, onde foi
instalada a primeira unidade piloto. Pesquisador
associado do Núcleo Interdisciplinar
de Planejamento Energético (Nipe) da
Unicamp, hoje Rossell atua como consultor da
empresa. Em entrevista
concedida a Inovação
em julho deste ano, Rossell disse que essa tecnologia
tem potencial para chegar ao mercado em cerca
de dois anos.
Objetivo
do negócio
A empresa entrou no projeto
porque tem como intenção vender
a tecnologia DHR para outras usinas, já
que o foco de negócios da companhia é
a venda de equipamentos para o setor de açúcar
e álcool. Outra parte do grupo, a Dedini
Agro, é responsável pela produção
de açúcar e álcool, e sua
sede é na Usina São Luís,
onde está a planta semi-industrial em
teste. A São Luís tem capacidade
instalada de esmagamento de 13 mil toneladas
por dia de cana-de-açúcar, pode
produzir 28 mil sacas de 50 quilos de açúcar
cristal e 400 mil litros de álcool anidro
e hidratado, diariamente. Tudo isso gera uma
produção de três a quatro
mil toneladas de bagaço por dia, hoje
queimado para gerar energia para a própria
usina ou adicionado à vinhaça
e usado como fertilizante.
"A planta DHR não
foi concebida para operar sozinha, mas para
ser integrada ao sistema convencional das usinas",
destaca o engenheiro. Essa tecnologia será
utilizada de forma complementar, como estratégia
para aumentar a produção de álcool
utilizando-se um resíduo industrial,
que é o bagaço, algo interessante
para quem não tem condições
de aumentar a área de cultivo de cana,
por exemplo. Atende, assim, à estratégia
do setor de aproveitar todos os seus rejeitos.
A vinhaça, por exemplo, é usada
como fertilizante, e o bagaço como fonte
de energia para a usina. Há pesquisas
para aproveitamento da palha, que fica no campo
na colheita e hoje é queimada, na geração
de energia, liberando assim mais bagaço
para produção de álcool.
Além disso, a tecnologia
DHR segue a tendência das usinas de açúcar
e álcool de se transformar em empresas
produtoras de energia e alimento. "A Dedini
pretende, em dois anos, gerar energia para seu
próprio consumo e ainda vender para as
concessionárias", conta. Soares
afirma ainda que não conhece nenhuma
experiência semelhante em hidrólise
ácida como a da Dedini. "Há
em outros países iniciativas parecidas,
mas não na escala em que estamos",
conclui. (J.S.)
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