| Leia
também:
Linhas de pesquisa vão de variedades
a processo industrial;
cana transgênica também é
estudada, embora proibida
Centro
de Tecnologia Canavieira
Orçamento
do Centro de Tecnologia Canavieira deve triplicar
até 2010; maior linha de pesquisa é
com variedades de cana
Janaína
Simões
O Centro de
Tecnologia Canavieira (CTC), dedicado à
pesquisa e ao desenvolvimento para o setor de
açúcar e álcool no País,
lançou em 2005 as variedades de cana-de-açúcar
CTC 1, 2, 3, 4 e 5, mais produtivas e mais resistentes
às doenças do que as variedades
usadas até então. Em 2006 foram
lançadas mais quatro: CTC 6, 7, 8 e 9.
Até o final de 2010, o orçamento
do centro, de R$ 30 milhões, deverá
triplicar, como definiu seu Conselho de Administração.
O CTC, sediado em Piracicaba, coração
da zona canavieira de São Paulo, é
uma Organização da Sociedade Civil
de Interesse Público (OSCIP).
Nova
administração
Em seus primeiros
dois anos "sob nova administração"
— até agosto de 2004, o centro
pertencia a um grupo de 30 usinas da Copersucar
que representavam 20% da cana moída do
País —, o CTC ampliou o número
de parceiros, englobando não só
outras usinas, mas também os que são
unicamente plantadores de cana. Hoje o centro
tem 132 associados, incluindo 17 associações
de produtores, representando ao todo 12 mil
agricultores.
"A presença
do produtor é uma novidade no CTC. Esses
produtores não tinham acesso imediato
à tecnologia", lembra Tadeu Andrade,
diretor do centro há três anos.
A maior parte dos produtores atualizava-se por
meio de agrônomos, consultores, que tinham
uma visão das tecnologias que estavam
sendo utilizadas ao ver os cooperados do CTC.
Havia, então, uma defasagem. Agora, como
associados, o acesso à tecnologia é
imediato.
Além
de estar mais próximo das associações
de produtores, o CTC quer viabilizar novas parcerias
por meio de trabalhos conjuntos com empresas
que desenvolvam produtos e serviços para
o setor de açúcar e álcool,
como as empresas que produzem máquinas
e equipamentos, hardwares e softwares
para automação das usinas, etc.
O maior programa
de pesquisa do CTC é o de desenvolvimento
de variedades de cana (Leia
mais sobre as linhas de pesquisa).
Isso ocorre, principalmente, por conta da demanda
do mercado. Mas, segundo Andrade, a consciência
sobre a importância do desenvolvimento
tecnológico ainda não é
uma regra. Quando se trata de aumentar a produção
em cana-de-açúcar, os agricultores
pensam em expandir a área plantada. Mesmo
os produtores de São Paulo, Estado que
é o maior produtor e está na vanguarda
tecnológica, priorizaram a expansão
em áreas de pastagens quando decidiram
aumentar a produção canavieira.
O Estado é responsável por 61%
da produção de álcool no
Brasil.
A evolução
da produtividade do setor é um retrato
do domínio brasileiro na produção
de álcool. A ministra da Casa Civil e
ex-ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef,
contou no seminário "Proálcool
— 30 Anos Depois", do Grupo Estado
(Leia
sobre o evento), que a produtividade
média da cana-de-açúcar
no Brasil, de 47,78 toneladas por hectare em
1975, passou para 79,29 toneladas por hectare
em 2005. São Paulo destaca-se: a produtividade
do Estado era de 61,50 toneladas por hectare
há 30 anos; hoje, está em 83,54
toneladas por hectare.
O orçamento
do CTC
Os R$ 30 milhões
do orçamento do CTC vêm, principalmente,
da venda da cana produzida nas fazendas e da
contribuição dos associados. "Produzimos
cana, fazemos as leituras para nossas pesquisas
e vendemos o restante para as usinas",
conta. Os associados financiam a parte de pesquisa
e desenvolvimento (P&D). Como pagam a contribuição
associativa, não pagam por royalties.
Quando uma usina quer adquirir uma tecnologia
já pronta, paga o custo das horas de
trabalho do pesquisador que vai assessorá-la
na implantação da tecnologia.
No período
em que o CTC era da Copersucar, a empresa cobrava
royalties de quem não era associado.
A política mudou com a nova configuração
do centro. "Não distribuímos
variedades para quem não é associado",
explica Andrade. Alguma atividade de licenciamento
é feita, por exemplo, na parte de equipamentos
que o CTC desenvolve, mas não tem como
produzir — diferentemente do que ocorre
com as variedades de cana, que podem ser cultivadas
nas fazendas do centro.
Outra fonte
de receita do CTC vem de trabalhos de consultoria,
como o feito para a União da Agroindústria
Canavieira de São Paulo (Unica). O CTC
avaliou a idéia do governo de adicionar
corante ao álcool misturado na gasolina,
o álcool anidro, de forma a preservar
o consumidor de fraude. A proposta estava em
consulta pública e o CTC deu subsídios
técnico-científicos para a Unica
poder posicionar-se sobre a questão.
A Agência Nacional do Petróleo
(ANP) aprovou em audiência pública
realizada no dia 8 de novembro a adição
do corante.
O CTC pretende
registrar-se juridicamente como uma Organização
Social Civil de Interesse Público (OSCIP),
o que vai facilitar sua atuação
em parceria com empresas, nos moldes previstos
pelos incentivos fiscais para inovação
contidos na Medida Provisória 255, convertida
na Lei 11.196/05, e também na obtenção
de recursos no âmbito das agências
de financiamento para ciência e tecnologia,
como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep),
o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) e a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp).
A estrutura
O CTC é
dividido em quatro unidades. Na sede, situada
na Fazenda Santo Antônio, da Copersucar,
em Piracicaba, estão os laboratórios
e a fazenda para cultivo da cana, onde se fazem
experimentos e análises. São 540
hectares, aproximadamente. Ali estão
os cinco laboratórios do CTC: de Química;
Industrial; de Criação de Pragas;
de Doenças da Cana; e de Biotecnologia.
O Laboratório Industrial desenvolveu
a técnica de moagem da cana e o processo
de fermentação utilizado até
hoje por todas as usinas. Em Jaú, interior
de São Paulo, há outra propriedade,
de 640 hectares, também voltada para
a pesquisa.
A terceira propriedade
do CTC fica em Maracatu, na Serra do Mar paulista.
"Nós importamos muitas variedades
de cana e quando chega uma espécie no
Brasil é preciso colocá-la em
quarentena, para ver se não manifesta
alguma doença", explica. A espécie
fica confinada por dois anos nessa unidade do
litoral; se manifestar alguma doença
nesse período, a variedade é descartada.
A quarta unidade
é o banco de germoplasma, em Camamu,
na Bahia, onde são produzidas as variedades
de cana. "No norte do País, por
causa do clima, a cana obrigatoriamente floresce
e sempre produz a semente, o que não
ocorre ao sul do Brasil. Por isso dizemos que
todas as variedades de cana do CTC são
baianas", brinca. Produzida a variedade,
ela é trazida para completar seu ciclo
em Piracicaba ou Jaú.
Das sementes
produzidas no banco de germoplasma vão
surgir as novas variedades. Dessa etapa até
a chegada das novas variedades nas fazendas,
os pesquisadores precisam de um tempo de estudo
que varia de 10 a 12 anos. Ou seja, uma variedade
desenvolvida em 2005 só chegará
aos produtores depois de 2015. "A cana
é uma cultura que usa pouco defensivo
agrícola para controle de doenças.
Fazemos esse controle por meio do programa de
seleção de variedades, então
precisamos realizar uma série de testes
para pragas e doenças, de modo que teremos
uma boa variedade, qualquer que seja a situação
no campo", diz Andrade, ao justificar a
demora.
Conselho
de Administração
Sentam-se no
Conselho de Administração 20 empresários:
Roberto de Rezende Barbosa, da Nova América,
presidente do CTC; Victor Wanderley Jr., da
Coruripe, o vice-presidente do centro; Antonio
Alberto Stuchi, da Guarani; Antonio José
Zillo, do Grupo Zillo; Eduardo Biagi, da Usina
Pedra; Eduardo Junqueira Pereira, Francisco
Junqueira e Maurílio Biagi, da CrystalSev;
Homero Correa de Arruda Filho, da Usina São
Martinho; Jairo Balbo, do Grupo Balbo; Julio
Capobianco, da Goiasa; Luiz Carlos de Carvalho,
da Alta Mogiana; Manoel Ortolan, da Orplana;
Nilton Salim, da Equipav; Norberto Bellodi,
da Usina Santa Adélia; Pedro Mizutani,
Rodolfo Norivaldo Geraldi e Rubens Ometto Silveira
Mello, da Cosan; Sandro Cabrera, da Usina Estiva;
e Werther Annicchino, da Copersucar.
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