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em biocombustíveis
Pirólise é melhor que
hidrólise para obter combustível a partir
de resíduo agrícola, diz professor que patenteou
tecnologia
Simples, limpa e economicamente
viável. É assim que o agrônomo Luis Augusto
Barbosa Cortez e o empresário Juan Miguel Mesa
Pérez descrevem a pirólise, um dos processos
que permitem transformar matérias-primas
como palha e bagaço de cana-de-açúcar
em biocombustíveis. Os dois têm autoridade
para falar do assunto: Cortez, professor e pesquisador
da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri)
da Unicamp, ajudou a organizar o livro Biomassa
para Energia, lançado
no último mês de julho; Juan, que teve
Cortez como orientador de doutorado, é
um dos sócios da empresa Bioware,
dona de uma planta de pirólise. Cortez e Juan
também dividem a autoria de uma patente
sobre a tecnologia com José Dilcio Rocha,
o outro sócio da Bioware. A patente, solicitada
ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI) em fevereiro deste ano, pertence à
empresa e à Unicamp.
Cortez explica que existem
duas grandes rotas para a conversão de
biomassa em biocombustíveis: de um lado, a hidrólise;
de outro, os processos termoquímicos, entre
os quais estão a pirólise e a gaseificação.
A hidrólise caracteriza-se pelo emprego de ácidos
ou enzimas para decompor duas das estruturas
formadoras das plantas — a celulose e
a hemicelulose — em açúcares que
podem ser fermentados e convertidos em etanol.
Os processos termoquímicos têm em comum
a queima da matéria-prima em reatores,
mas os produtos gerados são diferentes.
Enquanto a gaseificação resulta
em um combustível gasoso, a pirólise dá origem
a três produtos: carvão, extrato
ácido — um líquido com propriedades inseticidas
— e bioóleo. Escuro, espesso e de cheiro
forte, o bioóleo pode alimentar caldeiras industriais
e ser usado para produzir plástico (quando misturado
ao petróleo), entre muitas outras aplicações.
"A tecnologia de pirólise
não tem muito segredo", afirma Cortez.
"É bem mais simples do que a hidrólise:
os reatores são menores e o tempo de
residência [da biomassa no reator] é
de segundos", compara. Juan concorda: "A
hidrólise só vai ser viável para uma capacidade
muito alta de produção, de 100,
200 toneladas por hora, e ainda há muitos gargalos
tecnológicos a ser resolvidos. A pirólise já
está pronta e é viável para baixa capacidade.
Estamos falando de um reatorzinho de uma tonelada,
duas toneladas por hora", diz ele, referindo-se
à capacidade de processamento de uma
planta de pirólise considerada de grande escala.
A vantagem da pirólise em relação
à gaseificação, segundo
Cortez, é a "limpeza" dos produtos
finais. Ao contrário do combustível gasoso resultante
da gaseificação, o bioóleo sai
praticamente limpo. "As cinzas do carvão
já contêm as impurezas", conta o
professor. Por isso, uma opção
é usar a pirólise como pré-tratamento
para a gaseificação. "É possível
gaseificar o bioóleo; aí, você tem um
gás limpo." Juan acrescenta que é
mais fácil transportar e inserir o bioóleo no
reator de gaseificação do que
fazer isso com a matéria-prima vegetal.
"O processo de alimentação
de biomassa é muito complicado, ainda
mais quando reator trabalha a uma pressão
alta."
Processo
Cortez e Juan crêem que
a Bioware é a única empresa do Brasil
a ter uma planta de pirólise em operação.
Com 10 metros de comprimento por 2,5 metros
de largura, a planta pode processar até
200 quilos de biomassa por hora. A matéria-prima
deve estar triturada em partículas de dois a
quatro milímetros e ter até 15% de teor
de umidade para que o processo aconteça
rapidamente. No reator em que as partículas
de biomassa são injetadas há um leito
de areia aquecida por carvão vegetal.
Ao entrar em contato com a areia, que chega
a 500º Celsius de temperatura, as partículas
de biomassa transformam-se em gases, vapores
e carvão, que é imediatamente
separado e reservado. Os vapores são
convertidos em bioóleo e extrato ácido, separados
no sistema de recuperação de forma
independente. Os gases restantes são
queimados na câmera de combustão
e podem ser usados para aquecer o leito de areia.
Cana integral
A planta da Bioware já trabalhou
com serragem, resíduos de fumo, capim elefante,
palha de cana e bagaço de laranja. Agora
a empresa está começando a testar a cana
como matéria-prima —
a planta inteira, com palha, bagaço e
caldo. "Energeticamente, vale a pena",
afirma Juan. "O rendimento é de
60%, 70%, muito maior do que o da produção
de álcool." Segundo ele, o bioóleo obtido
a partir da cana integral tem de 6 mil a 6,5
mil quilocalorias de energia, contra 4,5 mil
quilocalorias da biomassa que entra no reator.
"Também se pode pensar em tirar
o caldo e fazer pirólise de todo o resto",
observa o empresário.
Esse "resto", ressalta
o professor Cortez, não é desprezível.
"Hoje o álcool equivale a uns 15% do petróleo
consumido no Brasil. Poderíamos multiplicar
isso por três se fizéssemos o uso
integral da cana", aponta. Ele prefere
a pirólise à hidrólise para processar
a palha e o bagaço da cana. "A hidrólise,
no meu ponto de vista, não tem tanto
futuro", afirma. "Por que vamos produzir
um álcool mais caro se podemos produzir um álcool
mais barato?”. Cortez avalia que falta
muito para a hidrólise vir a ser competitiva
com o preço atual do etanol brasileiro.
O caso dos Estados Unidos,
onde o etanol é produzido a partir do
milho, é diferente. "Eles terão
o álcool convencional só até o ponto
em que existir terra", afirma Cortez. "Para
eles, faz sentido preocupar-se um pouco mais
com a hidrólise." Apesar disso, o professor
acredita que os norte-americanos vão
investir no desenvolvimento da hidrólise mais
por força de lei. "O governo vai
bancar isso", prevê.
Cortez também não
vê futuro em tecnologias como a da empresa
norte-americana Amyris,
que se instalou no Brasil com o objetivo de
produzir um biocombustível similar ao diesel
a partir do caldo da cana. "A cana é
feita de três partes: sacarose, palha
e bagaço — um terço cada.
O um terço da sacarose já tem bastante
uso. Não vamos pressioná-lo. Vamos pressionar
os outros dois terços, que não
têm uso", defende ele. "Do ponto
de vista do País, é muito mais importante
fazer uso do bagaço e da palha do que
usar a sacarose." (R.B.)
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