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Brasil do Etanol
Empresas de Sertãozinho,
no interior de São Paulo, aproveitam
prosperidade trazida por etanol para investir
em inovação
A edição
128 da Revista Fapesp, de outubro de 2006, trouxe
a reportagem de capa "Sertãozinho,
Usina de Inovações", escrita
por Dinorah Ereno. A repórter
conta como o município de Sertãozinho,
distante 320 quilômetros da capital de
São Paulo, conseguiu dar um salto em
seu desenvolvimento a partir do crescimento
do setor sucroalcooleiro e dos investimentos
das empresas locais em inovação.
Segundo o texto, a cidade de menos de 100 mil
habitantes tem sete usinas produtoras de açúcar
e álcool e 500 empresas espalhadas por
quatro distritos industriais, 90% delas voltadas
para o setor. De acordo com o Centro das Indústrias
do Estado de São Paulo (Ciesp), Sertãozinho
é líder na geração
de empregos no Estado: até agosto havia
crescido em 20,4% o número de empregos
gerados, com a contratação de
6.300 trabalhadores.
A revista afirma que o crescimento
de Sertãozinho, vizinha de Ribeirão
Preto, começou com o Proálcool.
A crise do programa fomentou fusões de
empresas e provocou demissões de funcionários.
Com isso, continua a reportagem, engenheiros
e operários passaram a prestar serviços
de manutenção para vários
setores, entre eles o sucroalcooleiro. Muitos
desses negócios se transformaram, hoje,
em empresas exportadoras de alta tecnologia,
uma tendência forte no município.
"Exportamos US$ 74 milhões em 2003,
US$ 120 milhões em 2004 e US$ 135 milhões
em 2005", afirmou Marcelo Pelegrini, secretário
da Indústria e Comércio da cidade.
A reportagem garante que, para chegar nesse
patamar, as empresas se basearam em diferenciação
por meio de inovações em produtos
e processos. A seguir, o texto da Pesquisa
Fapesp conta alguns casos de sucesso entre
essas empresas inovadoras.
A experiência
das empresas B&S e JW
As duas empresas formadas em
sociedade pelo projetista Valter Felipe Sicchieri
e pelo engenheiro químico Paulo Barci,
a B&S e a JW, são as primeiras experiências
descritas. A B&S projeta equipamentos e
a JW é responsável pela construção.
Os dois empresários são responsáveis
por transformar a pesquisa desenvolvida por
Antonio José Almeida Meirelles, da Faculdade
de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp,
em um processo aplicado ao mercado. O professor
estudou, em seu doutorado, o processo de destilação
extrativa com o etileno-glicol, produto orgânico
da família dos álcoois. Segundo
a revista, a tese mostrou ser possível
produzir o álcool anidro, usado como
aditivo na gasolina, com a mesma qualidade e
menor consumo do processo já existente,
que se aplica ao hexano. A destilação
extrativa com etileno-glicol é mais econômica
em termos de gasto de energia, consome menos
água e produz o dobro de álcool,
quando comparado ao processo aplicado ao ciclo
hexano.
Os empresários firmaram
um acordo com Meirelles e voltaram para Sertãozinho.
Sempre segundo a reportagem, eles procuraram,
na cidade, a Usina Santa Elisa para negociar
o uso de uma planta piloto que havia sido desativada
pela empresa. Os empreendedores fizeram algumas
adaptações na usina e iniciaram
os testes da tecnologia na safra de 1998, destilando
50 mil litros de álcool anidro por dia.
"Nessa etapa, começamos a usar nosso
conhecimento de engenharia e processos para
fazer algumas modificações na
tecnologia básica", contou Sicchieri.
Na safra seguinte, diz o texto, fizeram os testes
finais, convidaram clientes potenciais e fecharam,
de imediato, a venda de sete plantas.
Atualmente, o processo de destilação
extrativa é responsável por 35%
de todo o álcool anidro produzido no
Brasil. Hoje, 34 usinas no País adotam
o processo; uma usina da Cargill, situada em
El Salvador, também utiliza a destilação
extrativa com o etileno-glicol para desidratar
o álcool importado do Brasil e exportar
o produto para os Estados Unidos. Até
o início de setembro, outras quatro unidades,
que devem começar a operar até
2008, haviam sido vendidas para usinas brasileiras.
A bem-sucedida
Smar, no setor de automação industrial
Outra experiência relatada
na revista é a da empresa Smar
Equipamentos Industriais,
criada em 1978. É a maior fabricante
de instrumentos para controle eletrônico
de processos industriais do Brasil. A empresa
desenvolve e produz sensores e transmissores
de processos de automação. A Smar
tem 150 funcionários dedicados a pesquisa,
desenvolvimento e inovação. De
acordo com a Pesquisa Fapesp, a empresa
faturou US$ 80 milhões em 2005, exportando
50% da sua produção para mais
de 60 países. O investimento em pesquisa
e desenvolvimento (P&D) fica entre 10% e
12% do faturamento, anualmente. São 20
patentes concedidas nos EUA e mais de 30 em
análise.
Seu primeiro desenvolvimento
foi a automação de uma esteira
de alimentação de cana para a
moenda de uma usina em Pontal, interior paulista.
A partir de 1980, a empresa passou a desenvolver
o transmissor de pressão com célula
capacitiva, que mede e controla a pressão,
o nível e a vazão das caldeiras
das usinas. O produto é o carro-chefe
da empresa até hoje. Mas agora ganhou
aplicações em outros nichos de
mercado, como papel e celulose e petróleo
e gás. Nas feiras Fenasucro & Agrocana
2006, realizadas no final de setembro, a empresa
lançou um novo modelo do produto —
sempre de acordo com a revista.
A experiência
da Sermatec
Mesmo não tendo equipe
própria de P&D, a Sermatec, produtora
de equipamentos para usinas de álcool
e açúcar, recorre a parcerias
de exclusividade para desenvolver seus projetos.
A empresa fabrica difusores, usados na extração
do caldo da cana-de-açúcar, e
caldeiras. Os dois equipamentos foram desenvolvidos
em parceria com as empresas Uni-Systems e HPB,
respectivamente, ambas também de Sertãozinho.
O difusor substitui a moenda, tornando o processo
de extração da sacarose do caldo
mais eficiente, segundo a reportagem, porque
a moenda esmaga a cana para extrair dela a sacarose,
e o difusor retira o caldo com água quente.
As caldeiras de alta pressão da Sermatec
podem ser movidas com o vapor oriundo da queima
do bagaço da cana, que gera vapor e produz
energia para a própria planta. O excedente
dessa energia pode ser também vendido
para as concessionárias, processo chamado
de co-geração. A empresa tem 700
funcionários e estima um faturamento
entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões
para 2006. Vendeu quatro difusores em 20 anos,
mas apenas em 2006 já vendeu nove e espera
comercializar mais cinco até o fim do
ano.
Caldema
investe R$ 120 milhões em construção
de usina em Minas Gerais
A reportagem conta também
o caso da empresa Caldema, outra produtora de
caldeiras de alta pressão para co-geração
de energia. A empresa investirá R$ 120
milhões em uma usina de Uberaba (MG)
em parceria com o Grupo Balbo, também
de Sertãozinho. O desenvolvimento das
caldeiras é feito em parceria com empresas
nacionais e internacionais. No Brasil, a principal
parceira da Caldema nessa atividade é
a Thermocal Engenharia, de Piracicaba (SP).
A empresa lançou recentemente um novo
modelo de caldeira, o AMD — Aquatubular
MonoDrum —, no qual a água da caldeira
a vapor circula em um grande cilindro de aço
chamado tubulão. "O novo modelo
surgiu porque as usinas, com a maior eficiência
das turbinas, começaram a ter maior capacidade
de produção de vapor por hora
e aumento de pressão. Como conseqüência,
houve necessidade de desenvolver uma caldeira
mais possante", explicou para a Pesquisa
Fapesp Alexandre Martinelli, diretor de
marketing da empresa.
TGM é
outro caso de sucesso
A demanda por turbinas de alta
pressão e altas temperaturas por parte
das usinas, que querem aproveitar o potencial
de co-geração, foi, segundo a
revista da Fapesp, o que motivou a TGM a investir
no desenvolvimento e inovação
desse tipo de equipamento. De acordo com Waldemar
Manfrin Júnior, diretor da empresa, em
2005 foram vendidas 60 turbinas; em 2006 já
foram 75, com expectativa de chegar a 80 até
dezembro. A empresa, fundada há 15 anos,
tem 800 funcionários, 42 deles engenheiros
trabalhando no projeto de turbinas, pois cada
usina requer um projeto diferente. O faturamento
foi de R$ 200 milhões em 2005 e deve
saltar para R$ 300 milhões este ano.
A TGM exporta para 26 países.
A empresa prestava serviço
de manutenção de turbinas importadas.
Começou a absorver funcionários
de uma empresa brasileira que fabricava turbinas
com tecnologia alemã e que se mudou de
Sertãozinho para Osasco, na Grande São
Paulo. Muitos funcionários qualificados
dessa empresa, conta a reportagem, não
queriam se mudar e foram absorvidos pela TGM,
que de sete passou a ter 50 empregados. Em 1995,
começou a desenvolver sua primeira turbina,
deixando de ser unicamente prestadora de serviço.
(J.S.)
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