| Pesquisa
em São Paulo
Pesquisa Fapesp, abril de 2006
Novas variedades de cana,
melhores técnicas agrícolas, mais
eficácia na fermentação
e destilação: pesquisas por mais
etanol
A revista Pesquisa
Fapesp, publicada pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo, traz na capa de sua edição
de abril a matéria "Revolução
no canavial", de Marcos de Oliveira e Yuri
Vasconcelos. Os repórteres abrem
o texto com a afirmação de que
"um dos atuais desafios do Brasil é
aumentar a oferta de álcool combustível".
A razão disso, explicam, é o crescimento
das demandas interna e externa. Aqui, apontam
os automóveis flex fuel como
os "responsáveis pelo renascimento
do álcool" — em fevereiro
último, 76% dos carros e veículos
comerciais leves vendidos no País estavam
equipados com o sistema que lhes permite rodar
com álcool, gasolina ou qualquer mistura
entre ambos. No exterior, destacam os elogios
ao combustível feitos pelo presidente
norte-americano, George W. Bush, as menções
nos jornais The New
York Times e Financial Times,
e o interesse de empresários como Bill
Gates, da Microsoft, Larry
Page e Sergei Brin — estes dois donos
do Google. Renovável e menos
poluidor do que os derivados de petróleo,
o etanol vem chamado a atenção
mundial. O Brasil tem uma grande oportunidade
de ampliar sua presença no mercado internacional,
mas, para que isso não prejudique o abastecimento
interno, será preciso vencer o desafio
citado pelos repórteres. As soluções
abordadas ao longo do texto são a construção
de novas usinas e o aprimoramento da linha de
produção daquelas que já
existem, a ampliação da área
agrícola e o desenvolvimento de novas
variedades de cana-de-açúcar,
incluindo as transgênicas.
A reportagem lembra que o interesse
mundial pelo álcool cresceu em um momento
de escassez do produto e aumento de preços
no País. Diante desse cenário,
afirma que o governo, os usineiros e os empresários
do setor só pensam em alavancar a produção
nacional, que hoje é de 15 bilhões
de litros — dos quais 3 bilhões
são exportados. "A expectativa de
uma demanda de álcool para os mercados
interno e externo somente será atendida
se houver uma expansão da área
plantada de cana-de-açúcar, em
regiões tradicionais ou em novas fronteiras",
opinou o entrevistado Antônio de Pádua
Rodrigues, diretor técnico da União
da Agroindústria Canavieira de São
Paulo (Unica). Segundo o texto, em São
Paulo a expansão está começando
por Araçatuba, município que,
apesar de ser tradicionalmente voltado para
a pecuária, já é responsável
por 20% da produção estadual de
cana-de-açúcar. As outras áreas
mencionadas são o Triângulo Mineiro
e os Estados de Goiás, Mato Grosso e
Mato Grosso do Sul.
A revista ouviu o professor
José Antônio Scaramucci, do Núcleo
Interdisciplinar de Planejamento Energético
(Nipe) da Unicamp, que conduziu um estudo para
o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos
(CGEE) e o Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT), sob a coordenação
do físico e professor emérito
da Unicamp Rogério Cezar de Cerqueira
Leite. "Existem no Brasil mais de 90 milhões
de hectares agriculturáveis, sem contar
com destruições de áreas
de preservação da Amazônia,
do Cerrado, do Pantanal e da Mata Atlântica",
disse Scaramucci à Pesquisa Fapesp,
afastando a dúvida a respeito da existência
de terra suficiente para alimentar as 300 usinas
em funcionamento no País, mais as 89
que, nos cálculos do setor, serão
instaladas até 2010.
Dos 851 milhões de hectares
de área total do Brasil, a matéria
informa que apenas 58 milhões foram cultivados
em 2004. Com 5,63 milhões de hectares
plantados, a cana-de-açúcar ficou
em terceiro lugar entre as principais culturas,
atrás do milho (12,34 milhões
de hectares) e da soja (21,54 milhões
de hectares). Scaramucci acredita que o Brasil
pode, em 20 anos, expandir a área destinada
à cana-de-açúcar em 35
milhões de hectares e produzir 100 bilhões
de litros de álcool por ano — na
opinião dele, grande parte desse volume
iria para exportação. Em seu estudo,
o pesquisador constatou que o aumento geraria
5,3 milhões de empregos e R$ 153 bilhões
de renda — "valor semelhante ao Produto
Interno Bruto (PIB) do Estado do Rio de Janeiro",
comenta a revista.
O Nordeste é, segundo
o texto, "a única região
que não aparece no mapa da expansão
da lavoura da cana". Apesar de originar
15% da produção nacional, com
produtividade de 55 toneladas por hectare, a
Zona da Mata enfrenta dois problemas, apontados
pelo pesquisador da Universidade Federal Rural
de Pernambuco (UFR-PE) Luiz José Oliveira
Tavares de Melo. A freqüência da
seca nos últimos anos, acima do índice
histórico, é o primeiro deles.
O segundo é o relevo da região,
que, de acordo com ele, "impede o uso da
colhedeira". Em Pernambuco, por exemplo,
a safra 2005-2006 deve terminar neste mês
de abril com 13,5 milhões de toneladas,
20% a menos que no ano anterior. Com isso, a
revista informa que os produtores estão
querendo investir em novas plantações
no Centro-Sul. Formada pelos Estados de São
Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito
Santo, Paraná e Mato Grosso do Sul, a
região responde por 85% da produção
brasileira, com 82 toneladas por hectare.
No que diz respeito aos estudos
genéticos envolvendo a cana-de-açúcar,
a revista destaca a patente depositada em março,
nos Estados Unidos, de 200 genes ligados à
produção de sacarose, substância
fundamental para a fabricação
do açúcar e do álcool —
neste caso, a sacarose serve de alimento para
a levedura que atua no processo de fermentação.
"Analisamos 2 mil genes e encontramos esses
200 alvos relacionados ao acúmulo de
sacarose na planta", contou aos repórteres
a coordenadora do projeto, Glaucia Mendes Souza,
do Instituto de Química da Universidade
de São Paulo (USP). Inserido na modalidade
Parceria para Inovação Tecnológica
(Pite) da Fapesp, o projeto engloba pesquisadores
da USP e da Unicamp, o Centro
de Tecnologia Canavieira (CTC)
e a Usina Central de Álcool Lucélia.
Os dois últimos parceiros entraram com
R$ 800 mil; a agência de fomento, com
R$ 555.693,00 mais US$ 82.867,00. A base do
projeto foram as 43 mil seqüências
expressas de genes que resultaram do seqüenciamento
conhecido pela sigla Sucest, ou Genoma Cana,
feito por universidades de São Paulo,
Rio de Janeiro e Pernambuco entre 1999 e 2003.
Na ocasião desse trabalho, relatam os
repórteres, cerca de 90% dos genes da
cana-de-açúcar tornaram-se conhecidos.
Os pesquisadores, informa a
Pesquisa Fapesp, usaram variedades comerciais
de cana-de-açúcar e cruzamentos
entre elas para chegar aos 200 genes. Alguns
deles já estão sendo empregados
na obtenção de plantas transgênicas
que produzem mais sacarose. De acordo com a
explicação de Glaucia, é
possível selecionar as variedades ricas
nessa substância e introduzir nelas os
genes que elas não possuem — um
processo bem mais rápido que os cruzamentos
tradicionais realizados no campo. "Outra
opção é introduzir esses
genes em variedades resistentes à seca
ou a doenças, mas que não apresentam
uma boa produção de açúcar",
acrescenta a publicação. O texto
também conta que já existem milhares
de plantas transgênicas nos laboratórios
do CTC, em estufas e salas de cultura, e diz
que a etapa seguinte são os experimentos
no campo com autorização da Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBio) — necessários para verificar
se as plantas herdarão todas as potencialidades
dos genes. Glaucia diz ser possível que
os primeiros resultados apareçam daqui
a três anos.
Entre 1999 e 2000, lembra a
reportagem, o CTC tinha plantas transgênicas
resistentes a herbicidas, insetos e doenças
prontas para o teste no campo, mas a paralisação
das atividades da CTNBio emperrou a pesquisa
do Centro por quase cinco anos. "Agora
já temos indicações de
que algumas plantas transgênicas que temos
aqui podem aumentar em 20% a produção
de sacarose", ressalta o agrônomo
Eugênio César Ulian, responsável
pelo Programa de Biotecnologia do CTC, e que
considera o Projeto Genoma Cana "um divisor
de águas" para a área de
biotecnologia do setor sucroalcooleiro.
Outra pesquisa comentada na
matéria, e que também recebe recursos
do Pite, é sobre a identificação
de marcadores moleculares a partir de certas
seqüências do genoma da cana. O texto
diz que esses marcadores são úteis
em estudos de variação genética,
na identificação de linhagens
e de genes específicos, além de
ajudar no mapeamento de genes. "Identificamos
esses marcadores e produzimos o primeiro mapa
funcional (de genes) para cana-de-açúcar,
analisando o genoma de plantas que são
filhas de um cruzamento entre duas variedades,
por exemplo", contou a coordenadora do
projeto, Anete Pereira de Souza, do Instituto
de Biologia da Unicamp. A revista explica que
o mapa terá sua primeira parte disponível
em agosto, e que ele servirá de "ferramenta
de apoio" para os programas de melhoramento
da cana do CTC. O investimento soma R$ 103.675,30
vindos da instituição com R$ 172.403,00
e US$ 45.495,22 provenientes da Fapesp.
O melhoramento da cana não
só fez surgir novas variedades —
eram cinco ou seis há 30 anos, contra
cerca de 500 atualmente, segundo o diretor técnico
da Unica, Antônio de Pádua Rodrigues
— como também elevou a produção,
de 47 toneladas por hectare, na década
de 1970, para 82 toneladas por hectare, em 2005.
"É no programa de melhoramento de
variedades que o País deve, no curto
prazo, se valer para o aumento da produção",
indicam os repórteres, lembrando que
a ampliação da diversidade genética
ajuda a proteger as lavouras contra doenças
e pragas — entretanto, eles também
observam que "a criação de
uma variedade não demora menos de dez
anos". No Brasil, afirmam, existem três
"grandes programas de melhoramento genético
da cana-de-açúcar": o do
CTC, o do Instituto Agronômico de Campinas
(IAC) e o da Ridesa, rede que ficou responsável
pelo acervo genético (variedades, pesquisas,
laboratórios) do Programa Nacional de
Melhoramento da Cana-de-Açúcar
do Instituto do Açúcar e do Álcool,
extinto no começo dos anos 1990.
A reportagem conta que a Ridesa
lançou quatro novas variedades de cana-de-açúcar
em março, desenvolvidas pela Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar). Ao todo,
diz que a rede lançou, em mais de dez
anos, 17 variedades para a Região Centro-Sul
e 13 para a Norte-Nordeste. O IAC, por sua vez,
lançou 13 variedades nos últimos
anos, das quais quatro têm "vocação
regional" — ou seja, são adaptadas
para ambientes específicos de São
Paulo, Minas Gerais e Goiás. Mais recentemente,
continua o texto, o Instituto lançou
outras quatro variedades, estas próprias
para as condições de solo e clima
do Centro-Sul e para a colheita no meio e no
fim da safra, os períodos de maior volume
de produção.
O setor produtivo também
está investindo no desenvolvimento de
novas variedades. A Pesquisa Fapesp cita
a empresa Canavialis, que entrou nessa área
em 2003 e, segundo seu diretor técnico,
Hideto Arizono, está selecionando variedades
com alto teor de sacarose para colheita em abril.
"Atualmente existe apenas uma opção
para a safra de abril no Centro-Sul", contou.
Além das variedades "superprecoces",
a Canavialis aposta nas plantas transgênicas
em parceria com a empresa de biotecnologia Alellyx
— ambas pertencem ao grupo Votorantim
Novos Negócios. A primeira planta transgênica
demonstrou ser resistente ao mosaico, doença
que ataca a cana, e está sendo testada
no campo com aprovação da CTNBio.
Outras opções
para elevar a produção nacional
de etanol, de acordo com a revista, são
a adoção de técnicas de
agricultura de precisão e a mecanização
do campo. Segundo o engenheiro Suleiman José
Hassuani, do CTC, 35% da colheita de cana de
São Paulo é feita por máquinas.
Embora tenha apontado alguns obstáculos
a ser superados, ele disse que a mecanização
traz grandes benefícios para o setor
e é irreversível, visto que um
decreto do governo federal proíbe a queima
dos canaviais a partir de 2018.
Os avanços na indústria
são a última alternativa para
aumentar a produção do álcool
a ser tratada pela matéria. Entre eles
está o desenvolvimento de processos mais
eficazes de fermentação —
por exemplo, a criação de uma
levedura geneticamente modificada que simplifica
a produção e reduz os custos,
feita pela equipe do geneticista Gonçalo
Amarante Guimarães Pereira, do Instituto
de Biologia da Unicamp. "Trabalhamos com
levedura de laboratório. Agora nosso
desafio é conseguir fazer a modificação
genética em leveduras industriais, usadas
pelos usineiros", disse Pereira à
revista. Ela apresenta outra pesquisa da Unicamp
na mesma linha: o pesquisador Francisco Maugeri
Filho, da Faculdade de Engenharia de Alimentos,
e seu aluno de doutorado Daniel Atala criaram
uma técnica para extrair o etanol a vácuo
ainda nas dornas de fermentação
— o que faz a levedura agir de maneira
mais eficiente, segundo o pesquisador. Ele está
negociando o início de um teste-piloto
nas usinas ainda nesta safra. "Simulações
do custo do álcool por esse processo
apontam para uma redução final
de 10% a 15%", contou.
A destilação
é outra etapa que vem sendo aprimorada.
Em 2001, conta a reportagem, chegou ao setor
industrial o processo de destilação
extrativa. Voltado para a produção
de álcool anidro, aquele misturado à
gasolina, o processo já é usado
em 28 usinas e dá origem a 2,5 bilhões
de litros do produto — "cerca de
30% do total produzido no País".
O texto também fala sobre a tecnologia
Dedini Hidrólise Rápida (DHR),
desenvolvida em conjunto pelo CTC e o Grupo
Dedini, "um dos maiores fabricantes de
equipamentos para o setor sucroalcooleiro".
Patenteada no Brasil e em outros países,
a tecnologia "promete transformar o bagaço
e a palha em álcool em poucos minutos
por meio de um processo de hidrólise
(reação química com água)".
Uma unidade de demonstração está
funcionando desde 2004 na Usina São Luiz,
em Pirassununga (SP). "A maior vantagem
do novo método é elevar a produção
de álcool em até 30% sem aumentar
a área plantada", explicou o engenheiro
químico Carlos Eduardo Vaz Rossel, que
lidera o projeto no CTC.
No encerramento da matéria,
os repórteres comparam os números
da safra 2005-2006 com as perspectivas para
o futuro. Essa safra, escrevem eles, rendeu
386 milhões de toneladas de cana e deve
chegar aos 15,7 bilhões de litros de
álcool, ficando um pouco acima dos 15,1
bilhões da safra anterior. Em 2010, contam
que a produção no campo será
de 535 milhões de toneladas de cana,
de acordo com estudos. Antônio de Pádua
Rodrigues, da Unica, complementa: "Para
a safra 2013-2014 seriam 670 milhões,
mas já para a safra 2006-2007 deverão
ser colhidos 420 milhões para produzir
17 bilhões de litros de álcool
e quase 29 milhões de toneladas de açúcar."
(R.B.)
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