| Science,
9 de fevereiro de 2007
Artigo recomenda programa
de álcool brasileiro como alternativa
já viável para substituir gasolina nos países
em desenvolvimento
Na edição
especial de 9 de fevereiro da revista Science,
dedicada ao assunto energias renováveis, José
Goldemberg, do Instituto de Estudos Energéticos
da Universidade de São Paulo (USP), escreve
o artigo "Ethanol for a Sustainable
Energy Future" (Etanol para um futuro
sustentável de energia), na seção
Perspective (Perspectiva).
Em pouco menos de três páginas, o ex-secretário
paulista do Meio Ambiente (governo Geraldo Alckmin)
reúne dados sobre consumo e produção
de energia no mundo para mostrar a relevância
da experiência brasileira de substituição
de combustíveis fósseis por etanol em veículos.
Para Goldemberg, o programa do Brasil, iniciado
nos anos 1970, é das melhores alternativas
para que se alcance esse futuro sustentável
em energia, em especial para países em desenvolvimento.
Na figura 1 do artigo, Goldemberg
mostra de onde vem o suprimento de energia mundial
atualmente: 80% de combustíveis fósseis (petróleo,
gás, carvão); 6,3% de energia nuclear;
13,6% de fontes renováveis. Nesses 13,6%, o
professor da USP destaca a "biomassa tradicional"
como supridora de 8,5% do consumo mundial. Enquadram-se
aí a queima de lenha, por exemplo, ainda comum
em países em desenvolvimento e causadores de
dano ao meio ambiente. A parcela restante de
renováveis é fornecida principalmente
por "biomassa moderna", com 1,9%;
e energia hidroelétrica, com 1,7%. Na
descrição apresentada pelo autor,
"biomassa moderna" é aquela
produzida de maneira sustentável e utilizada
para geração de energia elétrica,
calor, e transporte.
Em contraposição
à energia obtida pela queima de combustíveis
fósseis, afirma o autor, a energia vinda de
fontes renováveis é vantajosa por poluir
menos, ser mais intensiva em trabalho e por
evitar a instabilidade política que tem caracterizado
as regiões produtoras de petróleo. Nesse
sentido, como notam os observadores, o movimento
de George W. Bush em direção ao
etanol resulta do fim (ou, pelo menos, do afastamento)
do sonho de um Iraque pacificado, de onde os
EUA poderiam importar petróleo sem sobressaltos.
Renováveis são, portanto,
amplamente desejáveis; mas, em geral, o preço
da energia obtida dessas fontes é maior
do que o preço da energia de combustíveis
fósseis. Por isso, os programas de substituição
só têm ocorrido em países desenvolvidos.
Assim, em países altamente industrializados
como a Dinamarca, nota Goldemberg, cresce com
rapidez o consumo de energia eólica e solar.
Nos países em desenvolvimento, no entanto, a
melhor e maior experiência de substituição
de energia fóssil por renovável ocorreu no Brasil.
Em 3 milhões de hectares de terras, o
País produz 16 bilhões de litros, ou
4,2 bilhões de galões, informa
o autor; e dirigindo-se a um dos argumentos
contrários ao etanol mais disseminados, afirma
também que "A competição
pelo uso da terra entre comida e combustível
não tem sido substancial: a cana de açúcar
cobre 10% da terra cultivada e 1% do total da
terra disponível para agricultura no país".
O autor não menciona o fato de
que um dos problemas da produção
de etanol de milho nos EUA é o fato de
não haver terra disponível para a expansão
do cultivo; e o fato de, por isso, os preços
do cereal em alta influírem nos preços
da produção de proteína animal.
Replicar a experiência
do Brasil, diz Goldemberg, é possível
e não causaria danos importantes ao meio
ambiente. O professor apresenta uma conta simples:
no mundo, há 20 milhões de hectares cultivados
com cana; substituir 10% da gasolina atualmente
consumida no mundo, ou seja, multiplicar por
dez a atual produção do Brasil,
significa aumentar para 30 milhões o
número de hectares cultivados com cana: "Essa
área é uma fração pequena
dos mais de um bilhão de hectares de
produtos primários já cultivados no planeta".
Estabelecida a possibilidade
física e ambiental, Goldemberg apresenta então,
em grandes linhas, a história do etanol no Brasil,
para mostrar como foram alcançados os
níveis atuais de substituição
e a viabilidade de custos: a obrigatoriedade
da mistura de 25% de álcool anidro à
gasolina a partir do final da década
de 1970, e o estímulo à produção
de carros a álcool pela indústria automobilística.
"Essa decisão política criou um
mercado para o etanol, e a produção
aumentou rapidamente", observa Goldemberg,
lembrando que países europeus e certos Estados
norte-americanos já vêm adotando a obrigatoriedade
de mistura de biocombustíveis à gasolina.
Esse mercado, explica o autor a quem não
conhece o programa brasileiro, proporcionou
as condições para a diminuição
do preço ao longo dos anos — pela
"curva de aprendizado" dos produtores
e pelo subsídio governamental. Em 20 anos, calcula
Goldemberg, o governo investiu cerca de US$
30 bilhões no Próalcool, o que foi "mais
que compensado por uma redução
de US$ 50 bilhões nas importações
de petróleo até 2006". Em 2004,
continua, o etanol brasileiro se tornou completamente
competitivo com a gasolina sem a intervenção
do governo. No início do programa, o etanol
era três vezes mais caro que o petróleo.
Hoje, não há nenhum subsídio governamental.
Na tabela dois do paper,
o físico apresenta os custos de produção
de etanol no Brasil, nos EUA e na Europa, e
o equilíbrio energético envolvido na
produção. O custo por galão
do etanol de cana, em 2006, sem a taxa de importação
imposta pelos EUA ao produto, foi de US$ 0,81.
Acrescida a taxa, US$ 1,35. Já o custo do etanol
de milho, nos EUA, em 2006, foi de US$ 1,03;
e do etanol feito de beterraba, na Europa, US$
2,89.
Ainda de acordo com os dados
apresentados, originários do Departamento de
Agricultura norte-americano, o preço
do etanol de celulose já alcançado nos
EUA é de US$ 2,25; com expectativa, para
2012, de baixar para US$ 1,07 — ainda
25% superior ao preço atual do etanol
brasileiro. A tabela mostra com clareza outra
vantagem do álcool de cana: a relação
entre a energia produzida pelo etanol de cana
e a energia (de fonte fóssil) gasta para produzi-lo
é de 10,2; enquanto para o etanol de
milho, a relação é de 1,4
— quer dizer, sua produção
consome quase tanta energia fóssil quanto a
energia renovável que gera. Outra informação
sobre custo apresentada pelo autor é
sobre o preço do galão de etanol
de milho na bomba: US$ 2,5.
Há outros combustíveis que
podem ser extraídos de biomassa, observa Goldemberg
para finalizar seu artigo — além
do já competitivo e viável etanol de cana. O
primeiro deles é o etanol celulósico,
"que ainda requer considerável esforço
de pesquisa e desenvolvimento", e que abrirá
a perspectiva de utilização de
muitos tipos de resíduos; o aumento do uso de
biogás produzido pela conversão microbiana
de lixo; e o uso de madeira de florestas
plantadas para geração de eletricidade,
por combustão direta ou gaseificação.
(M.T.)
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