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..Publicada em 26 de Fevereiro 2007

Science, 9 de fevereiro de 2007
Artigo recomenda programa de álcool brasileiro como alternativa
já viável para substituir gasolina nos países em desenvolvimento

Na edição especial de 9 de fevereiro da revista Science, dedicada ao assunto energias renováveis, José Goldemberg, do Instituto de Estudos Energéticos da Universidade de São Paulo (USP), escreve o artigo "Ethanol for a Sustainable Energy Future" (Etanol para um futuro sustentável de energia), na seção Perspective (Perspectiva). Em pouco menos de três páginas, o ex-secretário paulista do Meio Ambiente (governo Geraldo Alckmin) reúne dados sobre consumo e produção de energia no mundo para mostrar a relevância da experiência brasileira de substituição de combustíveis fósseis por etanol em veículos. Para Goldemberg, o programa do Brasil, iniciado nos anos 1970, é das melhores alternativas para que se alcance esse futuro sustentável em energia, em especial para países em desenvolvimento.

Na figura 1 do artigo, Goldemberg mostra de onde vem o suprimento de energia mundial atualmente: 80% de combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão); 6,3% de energia nuclear; 13,6% de fontes renováveis. Nesses 13,6%, o professor da USP destaca a "biomassa tradicional" como supridora de 8,5% do consumo mundial. Enquadram-se aí a queima de lenha, por exemplo, ainda comum em países em desenvolvimento e causadores de dano ao meio ambiente. A parcela restante de renováveis é fornecida principalmente por "biomassa moderna", com 1,9%; e energia hidroelétrica, com 1,7%. Na descrição apresentada pelo autor, "biomassa moderna" é aquela produzida de maneira sustentável e utilizada para geração de energia elétrica, calor, e transporte.

Em contraposição à energia obtida pela queima de combustíveis fósseis, afirma o autor, a energia vinda de fontes renováveis é vantajosa por poluir menos, ser mais intensiva em trabalho e por evitar a instabilidade política que tem caracterizado as regiões produtoras de petróleo. Nesse sentido, como notam os observadores, o movimento de George W. Bush em direção ao etanol resulta do fim (ou, pelo menos, do afastamento) do sonho de um Iraque pacificado, de onde os EUA poderiam importar petróleo sem sobressaltos.

Renováveis são, portanto, amplamente desejáveis; mas, em geral, o preço da energia obtida dessas fontes é maior do que o preço da energia de combustíveis fósseis. Por isso, os programas de substituição só têm ocorrido em países desenvolvidos. Assim, em países altamente industrializados como a Dinamarca, nota Goldemberg, cresce com rapidez o consumo de energia eólica e solar. Nos países em desenvolvimento, no entanto, a melhor e maior experiência de substituição de energia fóssil por renovável ocorreu no Brasil. Em 3 milhões de hectares de terras, o País produz 16 bilhões de litros, ou 4,2 bilhões de galões, informa o autor; e dirigindo-se a um dos argumentos contrários ao etanol mais disseminados, afirma também que "A competição pelo uso da terra entre comida e combustível não tem sido substancial: a cana de açúcar cobre 10% da terra cultivada e 1% do total da terra disponível para agricultura no país".  O autor não menciona o fato de que um dos problemas da produção de etanol de milho nos EUA é o fato de não haver terra disponível para a expansão do cultivo; e o fato de, por isso, os preços do cereal em alta influírem nos preços da produção de proteína animal.

Replicar a experiência do Brasil, diz Goldemberg, é possível e não causaria danos importantes ao meio ambiente. O professor apresenta uma conta simples: no mundo, há 20 milhões de hectares cultivados com cana; substituir 10% da gasolina atualmente consumida no mundo, ou seja, multiplicar por dez a atual produção do Brasil, significa aumentar para 30 milhões o número de hectares cultivados com cana: "Essa área é uma fração pequena dos mais de um bilhão de hectares de produtos primários já cultivados no planeta".

Estabelecida a possibilidade física e ambiental, Goldemberg apresenta então, em grandes linhas, a história do etanol no Brasil, para mostrar como foram alcançados os níveis atuais de substituição e a viabilidade de custos: a obrigatoriedade da mistura de 25% de álcool anidro à gasolina a partir do final da década de 1970, e o estímulo à produção de carros a álcool pela indústria automobilística. "Essa decisão política criou um mercado para o etanol, e a produção aumentou rapidamente", observa Goldemberg, lembrando que países europeus e certos Estados norte-americanos já vêm adotando a obrigatoriedade de mistura de biocombustíveis à gasolina. Esse mercado, explica o autor a quem não conhece o programa brasileiro, proporcionou as condições para a diminuição do preço ao longo dos anos — pela "curva de aprendizado" dos produtores e pelo subsídio governamental. Em 20 anos, calcula Goldemberg, o governo investiu cerca de US$ 30 bilhões no Próalcool, o que foi "mais que compensado por uma redução de US$ 50 bilhões nas importações de petróleo até 2006". Em 2004, continua, o etanol brasileiro se tornou completamente competitivo com a gasolina sem a intervenção do governo. No início do programa, o etanol era três vezes mais caro que o petróleo. Hoje, não há nenhum subsídio governamental.

Na tabela dois do paper, o físico apresenta os custos de produção de etanol no Brasil, nos EUA e na Europa, e o equilíbrio energético envolvido na produção. O custo por galão do etanol de cana, em 2006, sem a taxa de importação imposta pelos EUA ao produto, foi de US$ 0,81. Acrescida a taxa, US$ 1,35. Já o custo do etanol de milho, nos EUA, em 2006, foi de US$ 1,03; e do etanol feito de beterraba, na Europa, US$ 2,89.

Ainda de acordo com os dados apresentados, originários do Departamento de Agricultura norte-americano, o preço do etanol de celulose já alcançado nos EUA é de US$ 2,25; com expectativa, para 2012, de baixar para US$ 1,07 — ainda 25% superior ao preço atual do etanol brasileiro. A tabela mostra com clareza outra vantagem do álcool de cana: a relação entre a energia produzida pelo etanol de cana e a energia (de fonte fóssil) gasta para produzi-lo é de 10,2; enquanto para o etanol de milho, a relação é de 1,4 — quer dizer, sua produção consome quase tanta energia fóssil quanto a energia renovável que gera. Outra informação sobre custo apresentada pelo autor é sobre o preço do galão de etanol de milho na bomba: US$ 2,5.

Há outros combustíveis que podem ser extraídos de biomassa, observa Goldemberg para finalizar seu artigo — além do já competitivo e viável etanol de cana. O primeiro deles é o etanol celulósico, "que ainda requer considerável esforço de pesquisa e desenvolvimento", e que abrirá a perspectiva de utilização de muitos tipos de resíduos; o aumento do uso de biogás produzido pela conversão microbiana de lixo; e o uso de  madeira de florestas plantadas para geração de eletricidade, por combustão direta ou gaseificação. (M.T.)


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