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em etanol no exterior
Technology Review, julho/agosto de 2006
Viabilidade comercial
da produção de etanol de celulose
passa por
engenheirar organismos; Craig Venter quer criar
um só para isso!
A revista Technology
Review publicou a reportagem "Redesigning
Life to Make Ethanol" (Redesenhando
a vida para fazer etanol), de Jamie Shreeve,
em seu número de julho e agosto.
A reportagem faz parte de um conjunto de textos
elaborados pela revista (que é para o
Massachusetts Institute of Technology —
MIT — o que Inovação
é para a Unicamp) sobre como a ciência
pode evitar os malefícios causados pelas
mudanças climáticas. Entre as
reportagens da revista, há inclusive
um ensaio
fotográfico sobre
a produção de etanol no Estado
de São Paulo. Em seu texto, Shreeve mostra
por quais caminhos a pesquisa pode tornar comercialmente
viável a obtenção de etanol
a partir de celulose — o material de que
são feitos caule e folhas das plantas.
Se essa barreira for vencida, mais etanol poderá
ser produzido com a mesma área plantada;
e o custo passará a ser plenamente competitivo
com o dos derivados de petróleo. A reportagem
indica o quanto esse campo de pesquisa se tornou
importante e de resultados cobiçados;
e também o risco que a tecnologia brasileira
corre, se não houver investimento consistente
em pesquisa e desenvolvimento no assunto.
A obtenção de
etanol a partir de celulose se faz pelo processo
chamado hidrólise. Existe a hidrólise
enzimática, feita por meio de enzimas,
por via biológica, e a ácida (a
respeito, leia as entrevistas de Pedro
Wongstchowski e de Carlos
Rossell a Inovação).
A Technology Review debruça-se
sobre a hidrolise enzimática e apresenta
assim a questão: "Converter celulose
em etanol envolve dois passos fundamentais:
quebrar as longas cadeias das moléculas
de celulose em açúcares e fermentar
esses açúcares em etanol".
Continua dizendo que, na natureza, esses processos
são encetados por fungos e bactérias
— que secretam as enzimas capazes de quebrar
a celulose (chamadas celulases) —, e principalmente
por leveduras, quando se trata da fermentação
dos açúcares em álcool.
Quanto mais os cientistas forem capazes de manipular
geneticamente esses microorganismos "para
reduzir o número de passos no processo
de conversão", mais barata ficará
a hidrólise enzimática —
"e mais cedo o etanol de celulose vai se
tornar comercialmente competitivo".
A revista conta que a Iogen,
empresa de biotecnologia canadense, começou
a vender, em 2004, etanol feito de celulose
— usando palha de milho como substrato
e um fungo geneticamente modificado para "hiperproduzir
suas enzimas que digerem celulose". Custo,
no entanto, ainda é um problema para
a Iogen. O preço da primeira planta comercial,
esperada para 2007, atingirá US$ 500
milhões — de acordo com a Technology
Review, cinco vezes o custo de uma planta
convencional para a produção de
etanol derivado de milho de tamanho similar.
Engenheirando
organismos naturais
O repórter conversou
com Greg Stephanopoulos, do MIT, especialista
em processos metabólicos celulares. Sobre
a tarefa à frente de um pesquisador da
área, ele disse que "a questão
é como engenheirar toda a rede de reações
para converter os diferentes açúcares
em etanol com alta produção e
alta produtividade", e acrescentou que
será preciso "manipular muitos genes
ao mesmo tempo". O organismo ideal, diz
o texto, seria aquele capaz de quebrar a celulose
como uma bactéria; fermentar o açúcar
como uma levedura; tolerar altas concentrações
de etanol (no processo de fermentação
correntemente em uso, o etanol tem de ser continuamente
retirado dos tanques de fermentação,
caso contrário as leveduras morrem);
e produzir etanol tão exclusivamente
quanto possível. Para criá-lo,
uma opção seria remover as características
genéticas indesejadas de um microorganismo
e acrescentar genes desejados vindos de outros
microorganismos. A segunda opção,
conta a Technology Review, seria "construir
um genoma customizado quase que do zero"
em uma célula sintética.
A revista procurou também
o professor de engenharia Lee Lynd, da Universidade
de Dartmouth, um dos pesquisadores que seguem
o primeiro caminho para criar o microorganismo
ideal. O objetivo dele é "colapsar
os muitos passos biologicamente mediados envolvidos
na produção de etanol em um só"
— modificando um organismo que metabolize
celulose de maneira a incentivá-lo a
produzir alta quantidade de etanol, ou engenheirando
um organismo que naturalmente produza etanol
para que ele também metabolize celulose.
Já há resultados em duas frentes:
um grupo de pesquisa da Universidade de Stellenbosch,
da África do Sul, com o qual Lynd colabora,
anunciou ter desenhado um fungo que quebra as
moléculas de celulose e fermenta os açúcares
simples resultantes em etanol. O grupo na Universidade
de Dartmouth, por outro lado, modificou uma
bactéria termofílica — que
gosta de altas temperaturas — de tal forma
que seu único produto de fermentação
seja o etanol. Suportar altas temperaturas é
importante, pois nelas as celulases já
existentes alcançam maior eficiência.
"Estamos muito mais próximos do
uso comercial do que as pessoas pensam",
afirmou ele, que também comercializa
"tecnologia de etanol avançada"
na start-up Mascoma, do Estado de Massachusetts.
Craig
Venter quer criar um organismo sintético
Outra empresa engajada na busca
do microorganismo que quebrará a celulose
e também produzirá etanol é
a Synthetic Genomics, fundada pelo famoso Craig
Venter — o primeiro a seqüenciar
o genoma humano. Ari Patrinos, ex-diretor associado
do Escritório de Pesquisa Biológica
e Ambiental do Ministério da Energia
dos EUA, preside a start-up de Venter.
Grande parte da pesquisa para tornar etanol
comercialmente viável como combustível
é financiada pelo ministério.
Nas palavras de Venter, a Synthetic Genomics
quer criar uma bactéria que "fará
tudo". Os cientistas ligados a ele e a
Patrinos trabalham para adicionar e subtrair
genes de microorganismos já existentes,
a mesma abordagem do grupo de Lynd, por exemplo.
No entanto, o plano do pesquisador para o longo
prazo é construir um microorganismo sintético
que quebre celulose e fermente os açúcares
exclusivamente em etanol. Para isso, pretende
partir de um genoma que contenha apenas os genes
necessários para manter a vida, ao qual
seriam acrescentados os necessários para
fabricar etanol de celulose. "Com uma célula
sintética, você só tem os
caminhos que quer que estejam lá",
disse ele ao repórter.
Esse genoma mínimo para
manter a vida não é novidade para
Venter. Na década de 1990, pesquisadores
do seu grupo — inclusive sua ex-mulher,
Claire Frasier — mostraram que um microorganismo
do sistema urinário humano, dono do menor
genoma já visto em um ser vivo, com apenas
517 genes, poderia sobreviver sem quase metade
de seus genes codificadores de proteínas.
"Usando a seqüência de DNA desse
'genoma mínimo' como guia, eles estão
agora tentando sintetizar um cromossomo artificial
que, inserido em uma célula oca [da qual
terão retirado seu cromossomo original,
nota do E.], levará a uma forma viável
de vida", detalha o texto. O passo seguinte,
se tudo der certo, será construir caminhos
genéticos no genoma para "instruir"
a célula a quebrar celulose e, ao mesmo
tempo, produzir etanol.
"Este é um campo
totalmente novo à beira de explodir",
resumiu Venter, que vê a imaginação,
e não a biologia, como principal limite
no longo prazo para os cientistas. Há
mais gente que pensa como ele: Jay Keasling,
bioengenheiro da Universidade da Califórnia
em Berkeley, o último entrevistado da
Technology Review, pretende projetar
microorganismos para fabricar outro tipo de
combustível — gasolina.
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