| P&D
em etanol no exterior
The New York Times, 8 e 12 de setembro de
2006
Empresas de biotecnologia
buscam modificar plantas para aumentar
eficiência na produção de
etanol; cresce investimento em biodiesel
Por Rachel
Bueno
O The New York Times
publicou as reportagens "Redesigning
Crops to Harvest Fuel" (Redesenhando
culturas para colher combustível), de
Andrew Pollack, e "Biofuels Come of
Age as the Demand Rises" (Biocombustíveis
atingem maturidade conforme a demanda aumenta),
de Susan Moran, nos dias 8 e 12 de setembro,
respectivamente. Os biocombustíveis
estão no centro dos dois textos. O primeiro
relata os esforços de grandes empresas
produtoras de sementes e start-ups
de biotecnologia para desenvolver culturas voltadas
especialmente para a produção
de etanol. Por engenharia genética ou
por reprodução convencional, os
cientistas dessas companhias estão criando
variedades de milho e capim capazes de gerar
mais energia por acre plantado — o milho
é a principal matéria-prima do
etanol nos Estados Unidos e o capim é
uma das fontes possível para a obtenção
do combustível a partir da celulose.
O segundo texto ressalta o crescimento da produção
norte-americana de biodiesel: de 2004 até
hoje, o número de refinarias em atividade
no país saltou de 22 para 76. O governo
federal tem um crédito de imposto que
oferece aos produtores e distribuidores de biodiesel
US$ 1 para cada galão (cerca de 3,78
litros) do combustível misturado ao diesel
convencional. O que mais se vende para o consumidor
final nos Estados Unidos é uma mistura
chamada B20, com 20% de biodiesel puro e 80%
de diesel.
Um dos desenvolvimentos mais
destacados pela primeira reportagem é
o da Syngenta. Por meio de técnicas de
engenharia genética, a empresa criou
uma variedade de milho que produz, ela mesma,
uma enzima fundamental à fabricação
de etanol, normalmente adicionada nas usinas:
a amilase. Essa enzima é importante porque
quebra o amido do milho em açúcar,
o qual pode então ser fermentado. "Para
fazer o milho produzir a sua própria
amilase, a Syngenta inseriu um gene emprestado
de um tipo de microorganismo chamado archaea,
que vive perto de respiradouros de água
quente no solo do oceano", explica o jornalista.
"O gene — na verdade um composto
de três genes de amilase — foi desenvolvido
com a ajuda da Diversa", uma companhia
de San Diego, na Califórnia.
A Diversa, continua a matéria,
já está vendendo a enzima separadamente.
Segundo a empresa, o fato de a enzima ser derivada
de um microorganismo acostumado ao calor permite
às usinas operar em temperaturas mais
altas e sob condições mais acidíferas,
o que melhora a eficiência do processo.
Já a Syngenta espera colocar seu novo
milho no mercado em 2008. Por enquanto, ela
está tentando aprovar o uso da variedade,
no mundo todo, também como alimento para
seres humanos e animais. Essa preocupação
se deve ao risco de polinização
cruzada e mistura de sementes entre a variedade
modificada e os tipos destinados ao consumo
alimentar.
A Monsanto também está
preocupada em ter variedades de milho mais adequadas
à produção de etanol, mais
vai concentrar seus esforços na reprodução
convencional por acreditar que terá resultados
mais rapidamente. A companhia, conta o The
New York Times, testou as variedades que
já possui para ver qual delas se sai
melhor. A Pioneer Hi-Bred International, acrescenta,
está fazendo o mesmo. Ambas afirmam ser
possível conseguir uma quantidade de
etanol de 2% a 5% superior se forem usados os
tipos de milho com maior conteúdo de
amido fermentável. Pradip Das, da Monsanto,
disse ao jornal que algumas usinas já
começaram a pedir determinadas variedades
aos produtores ou a pagar gratificações
pelas melhores.
Por outro lado, William Niebur,
da DuPont, disse ao repórter que a demanda
por um tipo de milho mais resistente, ideal
para a produção de etanol, poderá
ser tão grande que os agricultores ficarão
pressionados a plantá-lo seguidamente
ao invés de fazer a rotação
de culturas, o que poderá desgastar o
solo e permitir o aparecimento de insetos e
doenças. Na semana anterior à
publicação da matéria,
a DuPont e a Bunge anunciaram que sua joint
venture para melhoramento da soja destinada
à alimentação começaria
a projetar grãos para produção
de biodiesel e outros usos industriais.
O texto define a produção
de etanol a partir da celulose como "a
nova fronteira". Nesse campo, destaca os
esforços da Ceres e da Mendel Biotechnology,
duas companhias da Califórnia. A Ceres,
que também fornece tecnologia genética
para a Monsanto, está trabalhando com
a Fundação Samuel Roberts Noble,
de Oklahoma, uma referência em capins
de forragem. Nas estufas da empresa existem
versões de capim — conseguidas
por reprodução convencional e
por engenharia genética — destinadas
a produzir mais combustível, a resistir
à estiagem e a ter cadeias de carboidratos
mais fáceis de serem quebradas em açúcar
nas usinas. Richard Hamilton, diretor-executivo
da Ceres, contou ao repórter que algumas
variedades obtidas por reprodução
convencional, já em teste, rendem oito
ou nove toneladas de biomassa por acre, contra
cerca de cinco toneladas provenientes do capim
comum.
O foco da Mendel Biotechnology
é um tipo de capim nativo da China —
por causa disso, ela já estabeleceu uma
operação nesse país. A
reportagem diz que, segundo a Mendel, o tal
capim, conhecido como miscanthus, pode
render, por acre, mais de 20 toneladas anuais
de biomassa. O diretor-executivo da empresa,
Chris Somerville, que também é
professor em Stanford, salientou que o capim
não precisa ser replantado e nem requer
fertilização ou irrigação.
"Você pode simplesmente cortá-lo
todos os anos durante dez anos", afirmou
ao jornal.
O The New York Times
lembra que os desenvolvimentos atuais feitos
por engenharia genética têm preocupado
alguns ambientalistas pelo fato de provocarem
mudanças nas estruturas das plantas —
antes, os cientistas dedicavam-se mais a aprimorar
os processos químicos envolvidos na produção
do etanol. Um exemplo dessas mudanças
estruturais é a tentativa de reduzir
a quantidade de lignina presente nos vegetais
— a substância lhes dá rigidez
para que permaneçam de pé, mas
interfere na transformação da
celulose em combustível. Outra preocupação
diz respeito ao uso de árvores e capins
engenheirados como fonte de celulose, pois seu
tempo de vida e sua capacidade de se espalhar
são maiores que os do milho e da soja
geneticamente modificados.
Para falar sobre o aumento
da importância do biodiesel nos Estados
Unidos, a segunda reportagem chama a atenção
para os planos da companhia Renewable Energy
Group, uma spin-off da cooperativa
de plantadores de soja West Central: produzir
cerca de 1,7 bilhão de litros do combustível,
somando-se a produção de todas
as suas unidades. Em agosto, a empresa anunciou
a construção de mais uma unidade,
que será capaz de refinar 227 milhões
de litros de biodiesel por ano. Ela já
acumula US$ 100 milhões em financiamentos
para o empreendimento — entre os investidores
está a divisão norte-americana
da Bunge. Nile Ramsbottom, presidente do grupo,
disse ao jornal que espera faturar US$ 740 milhões
em 2010; no ano passado, foram US$ 116 milhões.
A reportagem também
contém informações sobre
outras companhias. A World Energy Alternatives,
do Estado de Massachussets, espera que as vendas
de seu biodiesel, feito a partir de soja, canola
e gordura animal, ultrapassem US$ 100 milhões
em 2006. A Imperium Renewables, fundada como
Seattle Biodiesel, recebeu investimentos de
três empresas desde a primavera do ano
passado, totalizando US$ 10 milhões.
A empresa, que hoje produz aproximadamente 19
milhões de litros anuais, está
construindo uma unidade com capacidade para
378 milhões de litros. Há ainda
a Greenshift Corporation, cuja divisão
de biocombustíveis recebeu US$ 22 milhões
em junho da empresa Cornell Capital Partners.
A maior parte do dinheiro será usada
na construção de uma planta de
biodiesel capaz de refinar cerca de 170 milhões
de litros por ano.
Nos Estados Unidos, conta o
The New York Times, a produção
do biodiesel triplicou de 2004 para 2005 e chegou
a aproximadamente 283,5 milhões de litros.
A estimativa do Conselho Nacional de Biodiesel
é de que ela dobre este ano. Mais otimista,
o diretor-executivo do órgão,
Joe Jobe, acredita que o volume alcançará,
e poderá ultrapassar, a marca de 945
milhões litros. Mas isso é pouco
diante dos cerca de 530 bilhões de litros
de gasolina consumidos anualmente no país.
No mundo, o biodiesel também não
tem ainda uma posição de destaque.
Em 2005, informa o jornal, o mercado global
de biocombustíveis totalizou US$ 15,7
bilhões, porém só US$ 1,6
bilhão veio do biodiesel. De acordo com
a empresa de pesquisa Clean Edge, esse valor
pode subir para US$ 7,1 bilhões em 2015.
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