Untitled Document
Boletim Eletrônico dedicado a Inovação Tecnológica
INOVAÇÃO UNICAMP

 
CADASTRE-SE AQUI!
Receba nosso boletim quizenalmente em sua caixa postal.
e-mail:
 
INOVAÇÃO UNICAMP
 
     
 
..Publicada em 22 de maio de 2007

Entrevista: Marcos Sanches Vieira
Diretor-executivo da Ridesa conta a história e o que faz a maior rede
de pesquisa universitária em melhoramento genético da cana-de-açúcar

A Ridesa, Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro, nasceu antes do Proálcool. No início dos anos 1970, quando o governo criou o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), responsável por todo o controle da produção e comercialização do açúcar e do álcool, montou também o Planalsucar, o Programa Nacional de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar. Esse plano criou quatro estações experimentais, em Carpina (PE), Rio Largo (AL), Campos (RJ) e Araras (SP), que trabalhavam em conjunto para desenvolver projetos tecnológicos para o setor. O principal projeto da rede Planalsucar foi a criação de novas variedades de cana.

Com o Planalsucar, formaram-se grupos de pesquisadores em cada uma das estações, na verdade, fazendas experimentais, e criou-se também o banco de germoplasma, em Alagoas. Surgiram grupos nas áreas de solos, herbicidas e de controle biológico de pragas da cana; quatro anos depois, no final de 1974, veio o Proálcool. "Houve uma grande euforia do setor, semelhante a que vemos hoje, mas sem a atual infra-estrutura. A variedade principal na época era a NA-5659, que era argentina", lembra Marcos Sanches Vieira, pesquisador e professor do Departamento de Biotecnologia Vegetal do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e diretor-executivo da Ridesa, formada hoje por 31 estações experimentais.

Vieira é um dos pesquisadores que acompanharam todo o percurso do etanol no Brasil. Desde 1976, quando começou a trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), após sua graduação em Engenharia Agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz daUniversidade de São Paulo (Esalq-USP), ele estuda a cana-de-açúcar. Do IAC, foi para o Planasucar em 1978, para trabalhar no desenvolvimento das variedades República do Brasil, conhecidas pela sigla RB. Quando o Planalsucar quase foi extinto no governo Collor, ele passou para a Ridesa.

"Com o estímulo para a expansão do setor dado pelo Proálcool, os produtores plantavam tudo que havia, mas o pessoal não se preocupou muito com a qualidade da muda, com as variedades", conta. Em meados dos anos 1980 veio a crise do Proálcool. "As variedades já não respondiam mais suficientemente à demanda que existia. Essa foi uma das causas da crise", aponta. Mestre e doutor em Genética Molecular e Biologia Molecular pela Unicamp, Vieira recebeu Janaína Simões na UFSCar para contar o que a histórica Ridesa faz hoje para ajudar o País a manter-se entre os principais produtores de cana, açúcar e etanol.

Na sua visão, há uma relação entre a crise do Proálcool e a pesquisa e o desenvolvimento. O que houve na crise, o P&D estagnou?
Não estagnou, mas o setor não estava preparado para o surgimento de algumas doenças, em especial a introdução da ferrugem da cana-de-açúcar. Todas as variedades eram sensíveis; isso provocou uma queda grande da produção.

Na época do Planalsucar, só o setor público financiava e fazia P&D?
Desde o início do Planalsucar, o objetivo já era atender o produtor. Já existia naquela época o IAC, que tinha quatro variedades. Depois veio a Copersucar [hoje Centro de Tecnologia Canavieira (CTC)], que começou praticamente junto com as estações do Planalsucar. Todos atuavam no sentido de desenvolver tecnologia para dar condições de crescimento ao setor. Mas, tirando o CTC, tudo era financiado exclusivamente pelo poder público. Não havia cobrança de royalties, licenciamentos etc.

O que aconteceu com o Planalsucar?
Em 1990, o governo Collor extinguiu todos os institutos e ficamos em condições muito precárias de trabalho. Poucas empresas perceberam a importância do projeto naquela época. A extinção dos institutos foi feita sem nenhum critério, sem uma análise sobre o que estava funcionando ou não. O setor privado, enxergando isso, passou a investir mais. Mas o investimento em melhoramento genético é muito caro porque se trata de uma cultura perene. O resultado demora de 10 a 12 anos, em função das características botânicas da espécie. A partir do corte, há a rebrota dos cortes seguintes. E a avaliação de uma variedade é feita por cinco, sete anos. Às vezes, uma nova variedade pode se mostrar muito boa no início de safra, nos dois primeiros anos, e depois perder a capacidade produtiva. Precisamos ter um período de avaliação muito consistente para poder ter segurança em liberar um material que venha mesmo a superar as variedades em cultivo. Após muitas negociações, o governo decidiu transferir as quatro fazendas do Planalsucar para as universidades. As Universidades Federais de Pernambuco, de Alagoas, Rural do Rio de Janeiro e de São Carlos absorveram a estrutura física e o pessoal das coordenadorias Norte, Nordeste, Leste e Sul do Planalsucar. Em janeiro de 2001, fomos incorporados pela UFSCar, em São Paulo, com o compromisso de criar cursos de graduação. Posteriormente, outras universidades e Estados que têm importância no setor canavieiro aderiram à rede: as Universidades Federais do Paraná, de Viçosa, em Minas Gerais, e de Goiás. Sabemos que custa caro um programa de melhoramento genético — R$ 10 milhões por ano. Esse seria o custo se não tivéssemos ajuda governamental, atuando em padrão para sermos competitivos e espelho para o resto do mundo. O nosso programa tem um custo relativamente baixo porque temos o governo bancando salários, laboratórios. Como o governo investe, há condições de trabalhar com menos recursos do setor privado. México, Austrália, Paraguai, Peru, Bolívia, África nos procuraram para tentar estabelecer convênio e levar material RB para cultivo em suas terras. Daí se vê a importância e eficiência do nosso trabalho. Se não desse resultado, não nos procurariam.

Qual a configuração da Ridesa hoje?
Atualmente, contamos com sete universidades federais e vários de seus departamentos. O que todas as sete universidades fazem é o melhoramento genético de cana-de-açúcar. O grupo é bastante heterogêneo. Temos convênios com Embrapa, Esalq, órgãos federais e estaduais. A Embrapa nos auxilia nos estudos na área de transgenia, por exemplo. A iniciativa privada participa de tudo. Temos 130 empresas parceiras, que contribuem no desenvolvimento de produto e na questão financeira. São 140 pesquisadores, 83 técnicos de nível médio e 68 trabalhadores de campo dentro da rede. Hoje, a rede produz 2 milhões de plântulas [material originado dos cruzamentos] por ano. Desses 2 milhões, fazemos o processo de seleção, que leva de 10 a 12 anos, e que vai chegar ao final com variedades comerciais. É um trabalho que, sem equipe bem preparada e experiente, não se faz. Temos pessoas que fazem melhoramento há 15, 25 anos. Importamos variedades do mundo todo, e hoje, na Ridesa, contamos com 2.400 acessos ou genótipos importados e nacionais disponíveis para ser combinados.

Qual a relação entre o CTC, a Ridesa e o IAC, principais desenvolvedores de novas variedades de cana no Centro-Sul?
Existe uma certa competitividade entre essas iniciativas, pois fazemos trabalhos semelhantes. O que é positivo, porque cada um quer colocar material para o setor que seja superior ao que está sendo cultivado comercialmente. A gente utiliza as variedades IACs e as SPs, que agora são chamadas de CTCs, como padrão. E queremos superá-las. Assim como eles também querem nos superar. Além disso, o produtor não planta uma variedade só, pois o germoplasma seria muito semelhante e, no caso de uma doença ou praga, arrasaria a produção. A gente usa de 10 a 15 variedades para compor a área agrícola de um produtor, dependendo do tamanho da área de cultivo, para ter maior heterogeneidade genética. Há variedades com maturação tardia e precoce, boas para moer em uma ou outra fase da safra. Uma variedade não consegue ser eficiente em todo aquele período de safra, então jogamos com as características de cada uma delas para tornar o setor mais eficiente.

Não seria mais lógico trabalhar em conjunto para não repetir esforços?
Não exatamente. Temos um banco de germoplasma diferente do CTC, por exemplo. A hibridação não é a mesma. Temos ainda um banco de informações. Tudo que for informação, características que se referem ao fenótipo do material, armazenamos nesse banco de dados, e, com um programa de computação, fazemos as combinações entre as variedades em busca da ideal. No melhoramento genético, não criamos nada; transformamos. Por exemplo, se amanhã o setor conseguir processar uma cana integralmente para fazer álcool usando a biomassa, as variedades que a gente produz hoje devem ser diferentes, com baixo teor de açúcar e alta tonelagem. São variedades mais resistentes. Enquanto as espécies nativas são mais resistentes e produtivas, as canas nobres têm maior teor de açúcar, mas perdem produtividade [porque 'gastam' mais energia para produzir açúcar do que para crescer]. Esse equilíbrio no melhoramento genético entre produtividade e resistência depende muito do grupo, das equipes que trabalham no melhoramento, daí ser interessante ter mais de uma empresa fazendo isso.

Falando em aproveitamento integral da cana, que papel o Brasil tem em hidrólise?
A rota mais divulgada é a enzimática; essa parece ser a tendência mundial, processar o produto integralmente. Mudará o paradigma se tivermos como processar o material que deixamos no campo de maneira eficiente. Vamos passar a fazer cana com alta produtividade agrícola e menor teor de açúcar. A tecnologia é cara, mas com o aumento da escala, se tornará viável. Tudo vai depender da eficiência do projeto. Os norte-americanos são os maiores produtores de etanol, mas preferem pagar para proteger mercado. O Brasil tem as melhores condições, é o principal produtor de cana do mundo e é onde estão sendo desenvolvidas as tecnologias de ponta para o setor. Nós estamos ditando as tecnologias em cana para o mundo. Estamos com a cultura totalmente mecanizada, do corte à colheita, carregamento e transporte. Precisamos preparar melhor nosso produtor para que ele não use esses equipamentos em condições não adequadas.

Quais as linhas de pesquisa da Ridesa?
A linha principal é o melhoramento genético clássico, por meio da hibridização, em função da característica genética da planta. A cana é um poliplóide, tem um número de cromossomos muito grande. O ser humano tem 46 cromossomos e o número de cromossomos da cana é variável — de pouco mais de 70 pode chegar a até 128, dependendo do híbrido com o qual se está trabalhando. Estamos investindo em outro projeto, usando biotecnologia para desenvolver marcadores genéticos. Com isso, queremos estudar a nossa distância da base genética, se estamos estreitando ou ampliando essa base. O estreitamento leva a uma perda de qualidade. Seria o mesmo que pegar uma população e diminui-la de tal forma que comece a haver cruzamento entre seres de parentesco muito próximo, o que provoca a degenerescência genética. Hoje, a avaliação da distância da base genética é feita por meio da observação e análise de características morfológicas, o que é um processo muito relativo, pois depende das pessoas que estão observando. Isso traz também dificuldades na análise de materiais muito semelhantes. O uso desses marcadores é importante ainda para termos um processo de identificação do nosso material. Desde 1997, o Ministério de Agricultura criou a Lei dos Cultivares e é de nosso interesse ter uma forma mais eficiente de identificar nosso material [para cobrar do produtor pelo uso da variedade].

O que a Ridesa procura em melhoramento genético?
No momento, queremos o equilíbrio, variedades com alto teor de açúcar e que também respondam em termos de produtividade e sanidade em relação a doenças e pragas. Hoje, 53% da área canavieira no País é coberta por variedades RB, o que corresponde a 5,5 milhões de hectares. A safra da cana começava em maio e ia até outubro há 15 anos. Era relativamente curta. Hoje, há regiões no Centro-Sul começando em março, e o pessoal ampliou até novembro e dezembro. As variedades precisam ter características específicas em termos de capacidade de brota, de maturação, para ser processadas em todo esse período. É isso que a gente tem trazido para o mercado.

Vocês trabalham com transgênicos na Ridesa?
Em parceria com o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), introduzimos um gene de feijão em uma variedade de cana visando à resistência à seca. Esse material está em uma casa de vegetação e sendo avaliado. Tudo é 100% controlado. Contudo, acreditamos que, por um bom período, as variedades ainda vão ser obtidas por hibridação natural. Isso porque as vias metabólicas da cana-de-açúcar, pelo fato de ela ter muitos cromossomos e genes, são muito complexas.

A Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) financiou o projeto genoma da cana. Ele já impactou a produção de novas variedades, de alguma forma?
A UFSCar participou desse projeto com dois laboratórios, um das Ciências Agrárias, de Araras, e o de Genética, no campus de São Carlos. O genoma da cana, em si, não significa muito; precisamos conhecer as funções dos genes. Nossa idéia é aproveitar alunos de pós-graduação para identificar e descobrir as funções dos genes que seriam mais interessantes para o sistema produtivo.

A Ridesa só faz melhoramento genético?
Não, temos como linhas de pesquisa ainda a fitopatologia; os estudos de solos e nutrição de plantas; a área ambiental, envolvendo a queima e tecnologias para minimizar seus impactos; a sociologia, para avaliar as condições dos trabalhadores; e estudos sobre como fazer transferência de tecnologia.

O que pesquisam na área de fitopatologia?
Consideramos como principal doença do canavial hoje o raquitismo da soqueira, causado por uma bactéria. Ela provoca o entupimento dos vasos, do floema, impedindo que a planta aproveite dos solos as substâncias importantes para o seu desenvolvimento. Ela afeta os três principais parâmetros de produção: diminui o número de perfis na touceira, diminui o diâmetro dos colmos e a altura. É uma doença com diagnóstico complexo, porque é difícil saber se aquele padrão foi resultado de alguma condição climática ou adubação inadequada ou se a planta está doente. Para evitar essa doença, temos um tratamento de termoterapia: damos um choque térmico para matar essas bactérias. A planta perde um pouco da capacidade de germinação.

E na área de solo e nutrição?
Há variedades selecionadas para solos mais fracos. As empresas procuram mapear as propriedades; temos especialistas fazendo a caracterização pedológica [estudo do solo] das empresas.

A pesquisa na área ambiental está focada na queima?
Não. Só por ser uma monocultura, a cana já causa um impacto ambiental. Mas, das culturas de maior importância econômica, é a que causa menos danos de erosão ao solo, por ser semiperene e manter restolho [os restos da cana que ficam no solo depois da colheita e que o protegem, não o deixando exposto] no corte. Existe uma preocupação grande entre os produtores para evitar que a água de chuva cause erosões e cause prejuízos ambientais, como assoreamento de rios, ravinas e voçorocas.

Qual alternativa para o desemprego que o processo de mecanização causará?
A idéia não é expulsar, mas aproveitar o pessoal em mecanização ou transferi-lo para outras atividades agropecuárias. A cana não afasta outras culturas. Ribeirão Preto é a maior região produtora de cana-de-açúcar e também a maior produtora de grãos. Anualmente, é possivel reformar [eliminar a cultura anterior e plantar cana novamente] 20% da área de cana. Nesses 20% em reforma, dá para produzir eficientemente grãos ou criar animais em confinamento. A sazonalidade do trabalho preocupa o setor. Temos colegas procurando alternativas para não criar bolsões de trabalhadores marginalizados nas margens das cidades.

Como a Ridesa faz a transferência de tecnologia para os produtores?
Existem dois sistemas. Em áreas maiores de cana-de-açúcar, levamos em conta a tonelagem, quanto a empresa mói e a área de variedades protegidas [as registradas no Ministério da Agricultura]. Alguns Estados preferem cobrar um percentual apenas sobre a área total moída pela empresa. Todos podem plantar nossas variedades, mas pagam royalties. Cobra-se hoje R$ 18 por hectare plantado com variedade protegida.

Como os produtores chegam até a Ridesa?
Nossos conveniados da área privada não só participam financeiramente, mas também na seleção no campo. Quando chegamos à fase da experimentação, os produtores começam a multiplicar o material na sua área de produção. Nem todos fazem esse trabalho de experimentação porque é um custo maior para a empresa, já que eles fornecem a mão-de-obra e as máquinas. Eles também não fazem o tratamento térmico [para combater doenças]. Nós entramos com a equipe para fazer a seleção, e ela também se encarrega de orientar o plantio. Ccomercializamos mudas, viveiros primários e secundários. Produzimos uma variedade que ficará por oito, dez cortes. Quanto mais sadia estiver a cana, mais tempo ela permanecerá no campo. Isso traz economia para o produtor no custo da reforma: tem de cortar muda, transportá-la, preparar o solo.

Qual o perfil desses associados?
São pequenos, médios e grandes produtores. Não atingimos diretamente os fornecedores de cana. Atingimo-os indiretamente porque as usinas repassam esse material para eles, mas estamos começando a trabalhar com uma cooperativa de Guariba. Esperamos que outras venham a aderir a esse projeto. Estamos pensando em montar uma estrutura própria para atender o pequeno produtor, o fornecedor. Cerca de 50 milhões de toneladas de cana vêm dos fornecedores só em São Paulo.

Quanto se investe na Ridesa?
Temos o investimento feito pela universidade, em laboratórios, salários dos funcionários, pois a maioria é gente da universidade. É difícil calcular. No ano passado, por exemplo, conseguimos R$ 1,8 milhão do Ministério da Ciência e Tecnologia para investir em uma estação de cruzamento no Nordeste. Parte do dinheiro foi liberada. Os recursos para tocar o negócio vêm da iniciativa privada e o governo financia a parte de infra-estrutura do trabalho. É difícil dizer quanto vem do setor privado.

Qual foi investimento da iniciativa privada na Ridesa em 2006?
É difícil falar em número, esse investimento e variável, depende do valor da ATR [Açúcar Total Recuperável, método que determina o preço da tonelada de cana-de-açúcar no mercado; leva em consideração a qualidade da cana, apurada conforme a sua concentração em ATR; o preço do açúcar e do álcool no mercado externo e interno, livre de imposto; e a participação do custo da cana-de-açúcar no custo do açúcar e do álcool].

Untitled Document



© 2006 - Inovação Unicamp - site dedicado P&D em Cana e Etanol | Direitos Reservados