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Publicada
em 28 de novembro 2003
Investimento dos EUA anima empresas; Brasil faz planos
A
indústria mundial está animada com a Nanotecnologia
. Somente em 2003 o investimento na área deve ser de
US$ 3 bilhões segundo um relatório feito pela
Lux Venture Capital, um fundo de capital de risco americano
especializado em investimentos na área. Já em
2015, o mercado global de produtos ligados à Nanotecnologia
será de US$ 1 trilhão segundo a National
Science Foundation (NSF) dos EUA. Somente nos Estados
Unidos, a Iniciativa Nacional em Nanotecnologia (National
Nanotechnology Initiative, NNI) investiu US$ 604 milhões
em 2002, US$ 710 milhões em 2003 e o orçamento
de 2004, já pedido ao Congresso americano, está
em US$ 849 milhões. Se concretizado, o crescimento
nos últimos dois anos terá sido de quase 20%
ao ano, uma taxa muito grande mesmo para padrões americanos.
O potencial
da Nanotecnologia reflete-se também nas ações
e palavras de executivos-chefes de empresas como General Electric
e Dell. Em uma conferência patrocinada mês passado
pelo MIT e pela revista americana Technology Review,
Jeff Imelt, executivo-chefe da GE, disse que sua empresa vai
concentrar seus esforços em pesquisa e desenvolvimento
em três áreas. Uma delas: Nanotecnologia . Nas
palavras de Immelt durante a conferência "o material
de nossos produtos faz as turbinas a jato mais poderosas,
os sistemas de imagem mais precisos e turbinas em geral mais
eficientes. Nano(tecnologia) tem o potencial de abrir a porta
para propriedades totalmente novas dos materiais que não
conseguíamos alcançar." Na mesma conferência,
Michael Dell, executivo-chefe da Dell, quando perguntado em
que área investiria se começasse um negócio
hoje, respondeu: nanomateriais. Em depoimento ao Senado norte-americano
em 2002, o pesquisador Stanley Williams (Leia
em Íntegras), que lidera a pesquisa em Nanociência
s dentro dos laboratórios da Hewlett Packard, afirmou
que os produtos ligados à Nanotecnologia geraram, em
2002, cerca de US$ 116 bilhões.
Ter empresas tão
diferentes como GE e Dell apostando na mesma área mostra
também a abrangência das possíveis aplicações
da Nanotecnologia. Segundo o NSF, ela deve atingir da Tecnologia
da Informação, com a criação de
computadores quânticos, à Medicina, com a melhoria
de sistemas para levar drogas e genes até pontos específicos
do corpo e a criação de sensores para detectar
doenças. O modelo americano para manter o país
na liderança da Nanotecnologia aposta na criação
de centros que incluem, entre outros, o Nanobiotechnology
Center da Universidade de Cornell, que recebeu US$ 56
milhões da NSF, por um período de cinco anos,
para estudar a criação de nanoferramentas para
biologia celular e molecular; e seis Centros para Pesquisa
em Nanoescala (Center for Nanoscale Research), cada
um com uma média de US$ 10 milhões, também
por cinco anos, que estudarão de novos materiais e
aplicativos na computação até novos sensores
químicos e biológicos.
O maior deles em volume
de dinheiro está no Massachusetts Institute of Technology
(MIT) que recebeu, em 2002, US$ 50 milhões do Exército
Americano para criar o Institute for Soldier Nanotechnologies
(ISN) - mais US$ 30 milhões foram colocados pelo MIT
e pela indústria (Brigham and Women's Hospital,
Du Pont, Massasuchets General Hospital e Raytheon). O
contrato de cinco anos prevê a criação
de um novo uniforme para os soldados que seja leve, capaz
de parar balas e agentes tóxicos, monitorar à
distância a saúde de um soldado no campo de batalha
e ainda dar a ele força sobre-humana. Pode parecer
sonho, mas a equipe de pesquisadores envolvida no projeto
já conseguiu avanços significativos em cada
um desses itens. A engenheira química Karen Gleason,
por exemplo, criou uma técnica para impermeabilizar
o algodão, misturando camadas de nanopartículas
de Teflon a ele. A técnica pode ser usada também,
por exemplo, para impermeabilizar os cobertores usados pelos
soldados no campo de batalha. O engenheiro químico
Timothy Swager, diretor associado do ISN, desenvolveu uma
nanomolécula capaz de detectar o nível de óxido
nítrico na respiração, uma substância
cujo aumento é um sinal de estresse do corpo e pode
ajudar médicos a decidirem qual soldado ferido deve
ser tratado primeiro durante uma batalha. Outra invenção
de Swager, desta vez em parceria com o engenheiro mecânico
Ian Hunter, foi uma nanomolécula capaz de se contrair
e expandir quase na mesma proporção de um músculo
humano ao ser submetida a uma carga elétrica. Um dos
usos da molécula poderia ser levantar objetos muito
pesados no campo de batalha. As descobertas feitas pela equipe
do ISN ainda estão longe de aportarem no mundo real,
mas, segundo o diretor do ISN Edwin Thomas, a Nanotecnologia
oferece a oportunidade sem precedentes de se criar novas propriedades
para materiais já que "na escala nano os materiais
têm propriedades novas, diferentes daquelas observadas
no mundo macro".
A Nanotecnologia
está criando também novas formas de trabalho
dentro das universidades. Entre os 40 professores do MIT e
mais de 100 estudantes que fazem parte do ISN há químicos,
físicos, engenheiros (mecânicos, químicos,
civis, elétricos) e biólogos. "A Nanotecnologia
é essencialmente interdisciplinar", disse a Inovação
Unicamp, o físico Marcelo Knobel, do Instituto
de Física da Unicamp. Knobel faz parte da Rede de Nacional
de Materiais Nanoestruturados, uma das quatro Redes de Nanociência
s e Nanotecnologia s criadas pelo governo federal em 2001
e financiadas pelo CNPq que receberam um investimento total
de R$ 5 milhões este ano (US$ 1,6 milhão). Essas
redes reúnem hoje 310 pesquisadores de cerca de 40
instituições públicas de ensino e pesquisa
e publicou no ano de 2002 aproximadamente 1.100 artigos em
periódicos internacionais, além de ter depositado
17 patentes em Nanotecnologia e Nanociência . A política
governamental para Nanociência e Nanotecnologia irá
mudar em breve. O documento preliminar para desenvolvimento
da Nanociência e Nanotecnologia - Plano
Plurianual 2004-2007 foi
concluído e colocado em consulta pública até
7 de dezembro de 2003. O MCT avalia as sugestões dadas
para enviar ao ministro, o que ainda depende da definição
sobre quem vai ocupar a pasta, já que Roberto Amaral
colocou o cargo à disposição.
Os resultados já
obtidos pela estratégia governamental, no entanto,
não serão suficientes para colocar o Brasil
na liderança deste mercado promissor. "Elas são
apenas um componente em uma estratégia mais ampla,
que precisa ser estabelecida a nível nacional ligada
à questão da inovação e dos possíveis
desenvolvimentos de tecnologias e de produtos" afirma
o físico José Antônio Brum, diretor-geral
do Laboratório Nacional de Luz Síncroton e vice-coordenador
da Rede Nacional de Materiais Nanoestruturados. Mesmo assim
o Brasil tem produzido trabalhos importantes na área
como o obtido ano passado pelo físico da Unicamp Edison
Zacarias da Silva, em conjunto com os físicos da USP
Adalberto Fazzio e Antônio José Roque da Silva.
O trio mostrou com simulações computacionais
a mais detalhada perspectiva do processo de formação
de uma corrente de ouro composta por uma única fileira
de átomos de ouro já feita. Há também
trabalhos que em breve podem virar produtos como a língua
eletrônica, criada pelo engenheiro da Embrapa Instrumentação
Agrícola Luiz Henrique Caparelli Mattoso em parceria
com o pós-doutorando Antonio Riul Jr, capaz de detectar
diferenças de qualidade em produtos como café
e vinhos, um trabalho feito hoje por provadores humanos.
Mas há empresas
investindo em Nanotecnologia no Brasil. A HP, através
do HP Labs, seu braço de pesquisa, tem
um convênio de desenvolvimento de pontos quânticos,
um dos estágios necessários para a criação
de um computador quântico, com o Laboratório
Nacional de Luz Síncroton (LNLS). O trabalho é
coordenado pelo engenheiro do LNLS Gilberto Medeiros-Ribeiro,
que trabalhou no HP Labs sob a batuta do também
físico R. Stanley Williams, um dos mais respeitados
estudiosos da área que está tentando reinventar
o transistor usando Nanotecnologia no HP Labs, na Califórnia.
Ribeiro falou de seu trabalho, publicado recentemente na
Applied Physics A, no Simpósio de Fronteiras
da Nanoengenharia realizado recentemente na Unicamp. Mas,
segundo Knobel, as empresas brasileiras ainda não cumprem
o seu papel na inovação. "A maioria das
empresas não realiza pesquisa, de modo geral, seja
em nano, ou em macro. Há exceções, mas
são raras". Com (ou sem) investimentos, as nanopartículas
continuarão a fazer parte da nossa vida e a nos levar
com segurança de um lado para o outro, toda vez que
subimos em uma bicicleta, ônibus, carro ou caminhão:
um dos ingredientes dos pneus é o negro de fumo, uma
nanopartícula que o torna mais resistente à
tração e abrasão; e tem um mercado mundial
de aproximadamente US$ 5 bilhões.
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