Edição finalizada em 26 de janeiro de 2004
Boletim eletrônico dedicado à Inovação Tecnológica

 

Publicada em 28 de novembro 2003
Investimento dos EUA anima empresas; Brasil faz planos

A indústria mundial está animada com a Nanotecnologia . Somente em 2003 o investimento na área deve ser de US$ 3 bilhões segundo um relatório feito pela Lux Venture Capital, um fundo de capital de risco americano especializado em investimentos na área. Já em 2015, o mercado global de produtos ligados à Nanotecnologia será de US$ 1 trilhão segundo a National Science Foundation (NSF) dos EUA. Somente nos Estados Unidos, a Iniciativa Nacional em Nanotecnologia (National Nanotechnology Initiative, NNI) investiu US$ 604 milhões em 2002, US$ 710 milhões em 2003 e o orçamento de 2004, já pedido ao Congresso americano, está em US$ 849 milhões. Se concretizado, o crescimento nos últimos dois anos terá sido de quase 20% ao ano, uma taxa muito grande mesmo para padrões americanos.

O potencial da Nanotecnologia reflete-se também nas ações e palavras de executivos-chefes de empresas como General Electric e Dell. Em uma conferência patrocinada mês passado pelo MIT e pela revista americana Technology Review, Jeff Imelt, executivo-chefe da GE, disse que sua empresa vai concentrar seus esforços em pesquisa e desenvolvimento em três áreas. Uma delas: Nanotecnologia . Nas palavras de Immelt durante a conferência "o material de nossos produtos faz as turbinas a jato mais poderosas, os sistemas de imagem mais precisos e turbinas em geral mais eficientes. Nano(tecnologia) tem o potencial de abrir a porta para propriedades totalmente novas dos materiais que não conseguíamos alcançar." Na mesma conferência, Michael Dell, executivo-chefe da Dell, quando perguntado em que área investiria se começasse um negócio hoje, respondeu: nanomateriais. Em depoimento ao Senado norte-americano em 2002, o pesquisador Stanley Williams (Leia em Íntegras), que lidera a pesquisa em Nanociência s dentro dos laboratórios da Hewlett Packard, afirmou que os produtos ligados à Nanotecnologia geraram, em 2002, cerca de US$ 116 bilhões.

Ter empresas tão diferentes como GE e Dell apostando na mesma área mostra também a abrangência das possíveis aplicações da Nanotecnologia. Segundo o NSF, ela deve atingir da Tecnologia da Informação, com a criação de computadores quânticos, à Medicina, com a melhoria de sistemas para levar drogas e genes até pontos específicos do corpo e a criação de sensores para detectar doenças. O modelo americano para manter o país na liderança da Nanotecnologia aposta na criação de centros que incluem, entre outros, o Nanobiotechnology Center da Universidade de Cornell, que recebeu US$ 56 milhões da NSF, por um período de cinco anos, para estudar a criação de nanoferramentas para biologia celular e molecular; e seis Centros para Pesquisa em Nanoescala (Center for Nanoscale Research), cada um com uma média de US$ 10 milhões, também por cinco anos, que estudarão de novos materiais e aplicativos na computação até novos sensores químicos e biológicos.

O maior deles em volume de dinheiro está no Massachusetts Institute of Technology (MIT) que recebeu, em 2002, US$ 50 milhões do Exército Americano para criar o Institute for Soldier Nanotechnologies (ISN) - mais US$ 30 milhões foram colocados pelo MIT e pela indústria (Brigham and Women's Hospital, Du Pont, Massasuchets General Hospital e Raytheon). O contrato de cinco anos prevê a criação de um novo uniforme para os soldados que seja leve, capaz de parar balas e agentes tóxicos, monitorar à distância a saúde de um soldado no campo de batalha e ainda dar a ele força sobre-humana. Pode parecer sonho, mas a equipe de pesquisadores envolvida no projeto já conseguiu avanços significativos em cada um desses itens. A engenheira química Karen Gleason, por exemplo, criou uma técnica para impermeabilizar o algodão, misturando camadas de nanopartículas de Teflon a ele. A técnica pode ser usada também, por exemplo, para impermeabilizar os cobertores usados pelos soldados no campo de batalha. O engenheiro químico Timothy Swager, diretor associado do ISN, desenvolveu uma nanomolécula capaz de detectar o nível de óxido nítrico na respiração, uma substância cujo aumento é um sinal de estresse do corpo e pode ajudar médicos a decidirem qual soldado ferido deve ser tratado primeiro durante uma batalha. Outra invenção de Swager, desta vez em parceria com o engenheiro mecânico Ian Hunter, foi uma nanomolécula capaz de se contrair e expandir quase na mesma proporção de um músculo humano ao ser submetida a uma carga elétrica. Um dos usos da molécula poderia ser levantar objetos muito pesados no campo de batalha. As descobertas feitas pela equipe do ISN ainda estão longe de aportarem no mundo real, mas, segundo o diretor do ISN Edwin Thomas, a Nanotecnologia oferece a oportunidade sem precedentes de se criar novas propriedades para materiais já que "na escala nano os materiais têm propriedades novas, diferentes daquelas observadas no mundo macro".

A Nanotecnologia está criando também novas formas de trabalho dentro das universidades. Entre os 40 professores do MIT e mais de 100 estudantes que fazem parte do ISN há químicos, físicos, engenheiros (mecânicos, químicos, civis, elétricos) e biólogos. "A Nanotecnologia é essencialmente interdisciplinar", disse a Inovação Unicamp, o físico Marcelo Knobel, do Instituto de Física da Unicamp. Knobel faz parte da Rede de Nacional de Materiais Nanoestruturados, uma das quatro Redes de Nanociência s e Nanotecnologia s criadas pelo governo federal em 2001 e financiadas pelo CNPq que receberam um investimento total de R$ 5 milhões este ano (US$ 1,6 milhão). Essas redes reúnem hoje 310 pesquisadores de cerca de 40 instituições públicas de ensino e pesquisa e publicou no ano de 2002 aproximadamente 1.100 artigos em periódicos internacionais, além de ter depositado 17 patentes em Nanotecnologia e Nanociência . A política governamental para Nanociência e Nanotecnologia irá mudar em breve. O documento preliminar para desenvolvimento da Nanociência e Nanotecnologia - Plano Plurianual 2004-2007 foi concluído e colocado em consulta pública até 7 de dezembro de 2003. O MCT avalia as sugestões dadas para enviar ao ministro, o que ainda depende da definição sobre quem vai ocupar a pasta, já que Roberto Amaral colocou o cargo à disposição.

Os resultados já obtidos pela estratégia governamental, no entanto, não serão suficientes para colocar o Brasil na liderança deste mercado promissor. "Elas são apenas um componente em uma estratégia mais ampla, que precisa ser estabelecida a nível nacional ligada à questão da inovação e dos possíveis desenvolvimentos de tecnologias e de produtos" afirma o físico José Antônio Brum, diretor-geral do Laboratório Nacional de Luz Síncroton e vice-coordenador da Rede Nacional de Materiais Nanoestruturados. Mesmo assim o Brasil tem produzido trabalhos importantes na área como o obtido ano passado pelo físico da Unicamp Edison Zacarias da Silva, em conjunto com os físicos da USP Adalberto Fazzio e Antônio José Roque da Silva. O trio mostrou com simulações computacionais a mais detalhada perspectiva do processo de formação de uma corrente de ouro composta por uma única fileira de átomos de ouro já feita. Há também trabalhos que em breve podem virar produtos como a língua eletrônica, criada pelo engenheiro da Embrapa Instrumentação Agrícola Luiz Henrique Caparelli Mattoso em parceria com o pós-doutorando Antonio Riul Jr, capaz de detectar diferenças de qualidade em produtos como café e vinhos, um trabalho feito hoje por provadores humanos.

Mas há empresas investindo em Nanotecnologia no Brasil. A HP, através do HP Labs, seu braço de pesquisa, tem um convênio de desenvolvimento de pontos quânticos, um dos estágios necessários para a criação de um computador quântico, com o Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS). O trabalho é coordenado pelo engenheiro do LNLS Gilberto Medeiros-Ribeiro, que trabalhou no HP Labs sob a batuta do também físico R. Stanley Williams, um dos mais respeitados estudiosos da área que está tentando reinventar o transistor usando Nanotecnologia no HP Labs, na Califórnia. Ribeiro falou de seu trabalho, publicado recentemente na Applied Physics A, no Simpósio de Fronteiras da Nanoengenharia realizado recentemente na Unicamp. Mas, segundo Knobel, as empresas brasileiras ainda não cumprem o seu papel na inovação. "A maioria das empresas não realiza pesquisa, de modo geral, seja em nano, ou em macro. Há exceções, mas são raras". Com (ou sem) investimentos, as nanopartículas continuarão a fazer parte da nossa vida e a nos levar com segurança de um lado para o outro, toda vez que subimos em uma bicicleta, ônibus, carro ou caminhão: um dos ingredientes dos pneus é o negro de fumo, uma nanopartícula que o torna mais resistente à tração e abrasão; e tem um mercado mundial de aproximadamente US$ 5 bilhões.


 



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