|
Publicada
em 6 de novembro 2003
Stanley Williams fala ao Senado dos EUA sobre Nanotecnologia
Depoimento
do pesquisador Stanley Williams à Subcomissão
de Ciência, Tecnologia e Espaço da Comissão
para Comércio, Ciência e Transporte do Senado
dos Estados Unidos, prestado a 17 de setembro de 2002.
"Presidente Wyden,
Senador Allen, membros da subcomissão, agradeço
a oportunidade de lhes falar sobre Nanotecnologia , como representante
da Hewlett Packard Company.
Nos últimos
anos, poucas palavras provocaram tanta celeuma e controvérsia
como Nanotecnologia . De um lado, alguns entusiastas criaram
uma quase-religião baseada na crença de que
a Nanotecnologia gerará riqueza e longevidade infinitas
para os seres humanos. De outro lado, os alarmistas temem
que, de algum modo, a Nanotecnologia irá por fim à
vida como a conhecemos, envenenando o meio ambiente ou liberando
algum tipo de nanorobô auto-reprodutivo que domine a
Terra. Nada disso é real. Essas concepções
foram difundidas por pessoas, boas em comunicação,
mas sem experiência relevante em Nanotecnologia .
Esta falta de conhecimento
existe primeiramente porque a maior parte dos cientistas que
trabalham nesse campo é incapaz de transmitir o que
faz para audiências leigas, ou se acha muito ocupada
para tentar fazê-lo. Preocupa-me pensar que muitos cientistas
acreditam que o público em geral, e os que elaboram
políticas em particular, são incapazes de entender
ciência e que seu trabalho deveria ser apoiado simplesmente
porque é belo e importante. Essa atitude de pretensa
superioridade não tem servido aos cidadãos ou
aos cientistas americanos. É bem verdade que os responsáveis
pela elaboração de políticas não
têm tempo para compreender todos detalhes da pesquisa
em qualquer campo do empreendimento científico, da
mesma forma que os cientistas não têm nenhuma
pista sobre o intrincado processo legislativo. No entanto,
devemos a nós mesmos, e ao público americano
em geral, o engajamento em um diálogo significativo.
Ambas as comunidades podem não entender os detalhes
do que a outra parte faz, mas cada uma delas deveria considerar
a contribuição que a outra pode dar para o benefício
geral da sociedade.
Hoje, tentarei esclarecer
esse ponto fazendo uma descrição em alto nível
e expondo-lhes uma série de analogias que, certamente,
serão imperfeitas mas que, juntas, acredito, lhes dará
subsídios para utilizarem em suas deliberações.
A Nanotecnologia é particularmente frustrante de ser
descrita. Não é apenas uma coisa, nem todas
as coisas. Especialistas em relações públicas
têm me dito que preciso simplificar o assunto e oferecer
um único ponto que os encarregados de elaborar as políticas
possam ter como foco. No entanto, isto resultaria em grande
injustiça para esse campo da ciência e acho que,
a longo prazo, representaria um insulto às suas inteligências.
Portanto, permitam-me tentar descrever o que a Nanotecnologia
tem a oferecer, indo ao fundo de parte de sua complexidade.
Primeiramente, precisamos
considerar o tamanho diminuto do nanômetro. Imaginem
encolher seu corpo, nas três dimensões, por um
fator de 1.000 - reduzindo-o ao tamanho de uma pequena formiga.
Agora, tomemos essa formiga e vamos encolhê-la por mais
um fator de 1.000 - o que a reduziria ao tamanho de um único
glóbulo vermelho, que é a menor célula
do corpo humano. Finalmente, vamos encolher essa célula
mais uma vez por um fator de 1.000 - esse é o tamanho
de um nanômetro, essencialmente a dimensão de
alguns poucos átomos. Ao considerar explicitamente
os átomos como bloco fundamental de construção,
Richard Feynman foi clarividente quando disse que, lá,
havia muito espaço.
A Nanociência
, o estudo de estruturas do tamanho de uns poucos nanômetros,
é o campo no qual, nos últimos dez anos, juntaram-se
os avanços de centenas de anos na Física, Química
e Biologia. Cada disciplina, natural e separadamente, evoluiu
em direção a este objetivo comum, através
de uma série de avanços intelectuais, desenvolvimentos
de instrumentação e descobertas experimentais.
Uma fração significativa de prêmios Nobel
em Física, Química e Medicina, nestes últimos
10 anos, foram oferecidos a descobertas realizadas por pesquisas
na nanoescala.
Agora que essas três
disciplinas chegaram ao mesmo objetivo, cada uma percebeu
que pode aprender muito com as outras, de maneira que o campo
da Nanociência transcendeu os limites acadêmicos
tradicionais. Engenheiros foram muito rápidos em adaptar
o conhecimento adquirido em nanoescala e, em muitos casos,
têm sido os líderes em reconhecer as sinergias
transdisciplinares disponíveis. Ciências dos
Materiais, BioEngenharia e Engenharia Elétrica, estão
todas, rapidamente, tornando-se componentes de uma superdisciplina:
a NanoEngenharia . No mundo das dimensões nanométricas,
propriedades intrínsecas da matéria, como cor,
reação química e resistência elétrica,
dependem de tamanho e forma. Assim, sistemas nanoengenheirados
serão aqueles em se pode desenhar a mais ampla gama
de propriedades - o que, por sua vez, significa que construir
qualquer coisa com controle em nível nanométrico
será a maneira mais eficiente possível de produzi-la.
Portanto, a Nanotecnologia poderá vir a ser aplicada
a tudo o que é feito pelo ser humano - permitirá
que melhoremos dramaticamente quase tudo o que fazemos atualmente
e que sejam criados uma inteira gama de novos materiais, medicamentos
e dispositivos que nem podemos imaginar hoje. A criatividade
humana está em alta - ela vai significar produtos de
alto valor agregado e alto retorno financeiro para as companhias
que dominarem a Nanotecnologia .
Isto posto, temos
que nos compenetrar que a Nanotecnologia é uma coleção
de novas ferramentas disponíveis para um grande número
de cientistas e engenheiros - não é a solução
completa de todos os problemas. Nas próximas décadas,
haverá raros casos em que um produto resulte apenas
da Nanotecnologia mas, cada vez mais, descobriremos que o
componente crucial ou possibilitador de um sistema foi engenheirado
em escala nanométrica. Um exemplo atual disso é
o cabeçote de leitura de magnetoresistência gigante,
encontrados hoje em discos rígidos para computadores
(GMR). O recente e extraordinário aumento na capacidade
de armazenamento dos disk-drives se deve diretamente ao fato
de os cabeçotes GMR terem componentes nano-engenheirados.
O valor dos cabeçotes de leitura, por si só,
é pequeno, mas resulta em uma indústria de multi-bilhões
de dólares por ano. Realmente, Matthias Werner, do
Deutsch Bank, estima que o valor de produtos em que
intervém a Nanotecnologia chegará à cifra
de US$ 116 bilhões em 2002, e aumentará extraordinariamente
no futuro próximo. Assim, quando pensamos em aumentar
o apoio à Iniciativa dos Estados Unidos para Nanotecnologia
(National Nanotechnology Initiative, NNI), não
devemos negligenciar as outras disciplinas, que vão
contribuir com componentes necessários para soluções
completas. Como em tudo o mais, uma abordagem equilibrada
é essencial.
Avanços
recentes em Nanociências e Engenharia
Tem havido tantos
avanços recentes em Nanociência e Engenharia
neste passado recente que eu poderia usar todo o meu tempo
disponível para listá-los. Permitam-me dar apenas
três exemplos que ilustram a amplitude e o alcance do
que é possível no presente, no futuro próximo
e a longo prazo.
Durante os últimos
anos, apareceu um significativo número de nanocompósitos.
Estes materiais são projetados para combinar propriedades
que materiais naturais não possuem, como dureza e resistência.
Materiais duros, como o diamante, fragmentam-se facilmente,
enquanto materiais naturalmente resistentes, como a madeira,
são fáceis de riscar ou curvar. No entanto,
ao misturar materiais duros e resistentes em nanoescala, podem
ser criados novos compósitos, jamais conhecidos antes,
combinando as duas propriedades. Em 2002, a General Motors
desenvolveu um nanocompósito de argila polimérica,
usado agora por um revendedor que instala um estribo opcional
em seus caminhões SUV e pickups. Esse material não
só é mais duro e resistente como também
é mais leve e mais facilmente reciclável do
que outros plásticos reforçados, e a GM planeja
usá-lo em outros componentes de seus veículos
à medida que, economicamente, se tornem mais atraentes.
Por esse exemplo, vemos que a Nanotecnologia pode ajudar a
economia em termos de combustível, segurança,
custo de manutenção e impacto ecológico
de nosso sistema de transporte. No futuro, os nanocompósitos
se tornarão muito mais sofisticados e realmente inteligentes,
com a habilidade de se adaptar a novos ambientes e até
mesmo de se auto-reparar.
Uma das mais significativas
descobertas da Nanociência , dos últimos dois
anos, originária de Stanford, Harvard e Universidade
da Califórnia, em Los Angeles, foi saber que os nanofios,
principalmente nanotubos de carbono e fios semicondutores,
podem ser usados como detectores extraordinariamente sensíveis
de luz e de agentes químicos e biológicos. Nestes
casos, os nanofios têm um diâmetro tão
pequeno que qualquer alteração em sua superfície
tem um efeito incrível em sua condutividade elétrica.
Já existe uma grande atividade, nos Estados Unidos
e no exterior, para a fabricação de sensores
baseados nesta descoberta. Esses sensores podem ser usados
em diagnósticos médicos, para detectar e relatar
quantidades extremamente pequenas de patógenos para
a descoberta precoce de doenças como um câncer
ou uma nova infecção bacteriana ou viral. O
professor James Heath, da UCLA, imagina criar um laboratório
de nanosensores em um chip, que ajudaria os pesquisadores
a ir de um novo vírus a uma nova droga em 24 horas.
No entanto, provavelmente sua aplicação mais
imediata, a curto prazo, será na segurança,
para detectar explosivos, agentes químicos de destruição
ou ameaças biológicas. Com um adequado nível
de apoio, será possível, em dois ou três
anos, começar a fornecer esses sensores em áreas
sensíveis. Alcançada economia de escala, seria
possível num espaço de cinco a dez anos fabricar,
a baixo custo, centenas de milhões a bilhões
de unidades desses sensores, que iriam monitorar continuamente
nossos edifícios públicos, correios, rede de
transporte e outras instituições vulneráveis
a ataques terroristas.
Quero mencionar também
que, para um tempo um pouco mais distante, recentes descobertas
e publicações na área de memória
nanoeletrônica e circuitos lógicos prometem estender
esses grandes melhoramentos ao desempenho de custos de uma
forma como ainda não vimos nestes últimos 40
anos. Tais avanços prometem chegar a benefícios
econômicos para a indústria eletrônica
como jamais aconteceu nos Estados Unidos por várias
décadas. Prometem também continuar aumentando
a eficiência com que conduzimos nossos negócios
nas atividades econômicas governamentais. Veremos uma
larga variedade de novos produtos emergindo mas, mais importante
que tudo, veremos nossas ferramentas eletrônicas tornarem-se
muito mais fáceis e intuitivas de usar.
Qual é o
significado e o potencial do desenvolvimento e da utilização
da Nanotecnologia ?
Por estes exemplos,
podemos ver que a Nanotecnologia tem potencial para melhorar
muito as propriedades de quase tudo o que o homem faz atualmente,
e irá levar à criação de novos
medicamentos, materiais e dispositivos que irão, substancialmente,
melhorar a saúde, riqueza e segurança dos cidadãos
americanos e do restante do mundo.
O governo federal
está investindo adequadamente em Nanotecnologia ?
Dado o ponto inicial
da Iniciativa Nacional para Nanotecnologia no ano 2000 e as
realidades orçamentárias, acho que os fundos
atuais para a Nanotecnologia são apropriados. Seria
um erro colocar rapidamente muito dinheiro especificamente
para a Nanotecnologia na comunidade de pesquisadores, uma
vez que ela não poderia ajustar-se e absorver eficientemente
esses fundos. No entanto, experiências em curso mostram
que o número de excelentes propostas para os fundos
de pesquisa em Nanociência e Engenharia ultrapassam
os fundos disponíveis e por isso, a escalada deve ser
gradual, aproximadamente 30% ao ano, e sustentada por, pelo
menos, cinco anos. Um Programa Nacional para Nanotecnologia
permitirá um monitoramento contínuo e um retorno
que assegure que as melhores idéias tenham sustentação.
Também, o aumento do apoio à Nanotecnologia
deve ser consistente com o aumento geral do total da ciência
Física e da base de Engenharia em agências tais
como a National Science Foundation, o Departamento
de Energia e o Departamento de Defesa.
Como nação,
na última década, negligenciamos nossos investimentos
em ciências físicas e Engenharia . Esquecemos
que eles foram os impulsionadores de nosso atual nível
de bem estar material. A analogia é de que as ciências
físicas e as engenharias foram um pomar, e que nós
estivemos ativamente colhendo os frutos desse pomar durante
os últimos 20 anos. No entanto, como nação,
esquecemos que, se quisermos continuar a colher esses frutos,
precisamos continuar a plantar novas árvores. Como
fração do PIB, nossos investimentos em pesquisa
básica, Ciências Físicas e Engenharias
caíram cerca de 30% na última década.
Este estado de coisas convenceu os jovens americanos que não
há futuro para eles nessas disciplinas, apesar do potencial
dessas áreas ser muito grande.
Como perito e líder
neste campo, quais suas preocupações na área
da Nanotecnologia ?
Minha maior preocupação
é que nós, aqui nos Estados Unidos, não
teremos número suficiente dos melhores pesquisadores
para sermos líderes nesta área crucial. Atualmente,
os Estados Unidos destinam aproximadamente 25% do financiamento
federal global para a Nanotecnologia . Outros países
estão empenhados em manter o mesmo passo ou em ultrapassar
nossos esforços. Apesar de o Japão atravessar
sérios problemas econômicos, o país assegura
que sua Iniciativa em Nanotecnologia seja igual ou exceda
os níveis de financiamento aprovados pelos Estados
Unidos. A Comunidade Européia está fazendo o
mesmo. Coréia, Singapura, Taiwan e China estão
investindo uma percentagem muito grande de sua economia para
pesquisa nesta área. Quando consideramos o poder aquisitivo
local das moedas, a República Popular da China tem
a maior iniciativa em Nanotecnologia do mundo em termos do
número de pesquisadores que pretende sustentar. Outra
parte significativa das iniciativas em Nanotecnologia de todas
as outras nações é que elas reservaram
grandes valores em fundos para recrutar pesquisadores seniors
e talentosos de outros países -- e seu alvo principal
são os Estados Unidos. O requisito primário
do apoio federal para a pesquisa básica, do ponto de
vista de uma grande corporação, é o treinamento
de pessoal necessário para inventar, nos laboratórios
corporativos de pesquisa e desenvolvimento, os novos produtos
que vão assegurar nosso futuro. Teremos que nos tornar
mais espertos e mais eficientes para irmos em frente - precisamos
de cooperação entre o governo, em todos os níveis,
os laboratórios nacionais e as instalações
para Pesquisa e Desenvolvimento corporativos.
Tenho, também,
uma preocupação secundária quanto à
saúde futura do empreendimento de P&D nos Estados
Unidos. Como resultado, principalmente, da falta de fundos
para pesquisa, as universidades americanas tornaram-se extremamente
agressivas em suas tentativas de levantar fundos junto a grandes
corporações. Sérios desacordos surgiram
por causa de interpretações conflitivas do Bayh-Dole
Act. Grandes corporações estabelecidas nos Estados
Unidos ficaram tão desencantadas e desgostosas com
a situação que estão agora trabalhando
com universidades estrangeiras, especialmente as instituições
de elite da França, Rússia e China, que estão
mais do que desejosas de oferecer acordos de propriedade intelectual
extremamente favoráveis.
A situação
com relação à associação
entre corporações e Laboratórios Nacionais
dos Estados Unidos não está muito melhor. Neste
caso, políticas inconsistentes, longas linhas de tempo
para negociar relacionamentos e mudança constante de
prioridades governamentais geralmente tornam muito difícil
para as companhias associarem-se aos Laboratórios Nacionais.
De novo, há um mercado internacional. Laboratórios
Nacionais, em outros países, cortejam agressivamente
as companhias americanas. Talvez o principal exemplo seja
o Centro de Inovação em Micro e Nano Tecnologia,
ou MINATEC, de Grenoble, França, que provê acesso
a seus laboratórios e uma fonte de estudantes para
as companhias que instalarem laboratórios de pesquisa
em seu campus.
O problema mais importante
é que perdemos de vista o fato de que os fundos governamentais
e corporativos gastos em pesquisa não são despesas
ou luxo que podem ser cortados por capricho. São investimentos
essenciais para a viabilidade a longo prazo de um empreendimento.
Temos negligenciado esses investimentos há muito tempo.
A prosperidade dos anos 90 foi preparada pelos investimentos
feitos nos anos 60, quando o governo federal estava investindo
2% do PIB em P&D. Estes investimentos proporcionaram grande
retorno durante décadas mas, como nos tornamos ricos,
esquecemos que precisávamos continuar investindo para
permanecermos ricos. A impaciência das diretorias corporativas
e de investidores institucionais manteve uma pressão
muito forte em resultados a curto prazo, com pequeno investimento
a longo prazo. Um fator importante na situação
econômica atual, especialmente no setor de alta tecnologia,
é que não temos produtos e serviços novos
e atrativos em numero suficiente para gerar demanda de consumo.
A bolha da Internet foi uma experiência fracassada quanto
a substituir planos de negócios inteligentes para novos
produtos.
Como a colaboração
entre governo e indústria pode incentivar a pesquisa
e o desenvolvimento da área de Nanotecnologia ?
O Governo dos Estados
Unidos tem diversos papéis a desempenhar para assegurar
a liderança da América em Nanotecnologia . O
primeiro é investir suficientemente em pesquisa básica,
que produz os cientistas e os engenheiros que irão
inventar o futuro. O segundo é agir como adotadora
precoce das tecnologias novas, especialmente nas áreas
onde as vantagens tecnológicas aumentam nossa segurança.
Finalmente, o governo deve considerar um novo papel: aquele
de mediador, unindo laboratórios de pesquisa acadêmicos,
laboratórios nacionais e corporativos para que trabalhem
juntos e a nação possa participar dos benefícios
de suas descobertas.
|