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Boletim Eletrônico dedicado a Inovação Tecnológica
INOVAÇÃO UNICAMP

Finalizada em 30 de outubro de 2006
 
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INOVAÇÃO UNICAMP
 
     
 
..Publicada em 30 de outubro 2006

A oportunidade do Brasil
Produtividade e eficiência energética da cana-de-açúcar dão ao
Brasil dianteira mundial em etanol; mantê-la depende de mais P&D

Janaína Simões

Mudanças climáticas, poluição do ar nas cidades, segurança energética e elevação do preço do petróleo, sem perspectiva de que baixe para menos de US$ 50 a US$ 60 o barril. São esses pontos que norteiam os investimentos em torno do etanol, cuja produção é liderada pelo Brasil. A expectativa é de que o consumo atual, da ordem de 33,7 bilhões de litros, salte para 79,4 bilhões em 2010. Os números apresentados por Peter Baron, da International Sugar Organization, sediada em Londres, durante a VI Conferência Internacional da Datagro, mostram que o Brasil consumiu 16,1 bilhões de litros de etanol em 2005, chegará a 16,9 bilhões este ano e tem uma demanda projetada de 27 bilhões para 2010. Em segundo lugar estão os EUA: o país consumiu 14,7 bilhões de litros no ano passado e deve passar para 25 bilhões em 2010.

Na mesma conferência, ocorrida dia 24 de outubro em São Paulo, o presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), Eduardo Pereira de Carvalho, disse estimar, conservadoramente, uma expansão potencial das exportações brasileiras em 4 bilhões de litros, chegando então a 7 bilhões de litros exportados em 2012/2013, contra os 3,1 bilhões vendidos hoje no mercado externo. Seriam 2 bilhões de litros para a América do Norte (EUA e Canadá); 2 bilhões para a Ásia (China, Índia, Japão, Coréia do Sul e Tailândia); 1 bilhão para a Europa; 1 bilhão para outros países; e o 1 bilhão restante para o mercado de álcool não combustível.

Se o mercado mundial for da ordem de quase 80 bilhões de litros, como acredita Baron, e o Brasil ampliar sua venda para o mercado externo para 7 bilhões de litros de etanol, como projetou Carvalho, significará que o País abastecerá cerca de 10% desse mercado. "O Brasil é virtualmente a única origem de etanol porque é o único país com produção suficiente para exportar", destacou Baron em sua palestra.

As perspectivas no mercado internacional

Os números levantados por Peter Baron, da International Sugar Organization, revelam a extensão da oportunidade para o Brasil. Nos Estados Unidos, a demanda vai aumentar à medida que for crescendo a obrigatoriedade, prevista na legislação de vários Estados, de adição de etanol à gasolina. Há Estados em que a porcentagem de álcool misturado à gasolina já é de 85% — como Nova Iorque. Os EUA objetivam eliminar o MTBE, sigla em inglês para éter metil-ter-butílico, aditivo poluente da gasolina que se infiltra no solo; há também legislação federal, combinada com estaduais, para coibir a poluição do ar.

O Japão, que só perde para os EUA em consumo de gasolina no mundo, também é outro grande mercado. O consumo de etanol nesse país, hoje nulo, saltará para 6 bilhões em 2010, indicam as projeções de Peter Baron. Outro importante mercado é o europeu. Nesse continente, com meta de chegar a 25% de mistura, o consumo subirá de 1,5 bilhão para 14 bilhões de litros em 2010. A produção de etanol não cresce de maneira a acompanhar a demanda elevada na União Européia.

Índia e Tailândia estão implementando programas para uso do etanol na gasolina e também querem a tecnologia flex fuel. No caso indiano, dos 300 milhões de litros consumidos hoje, o programa de adição de 5% de álcool na gasolina, em implantação desde outubro de 2005, já elevou a demanda para 500 milhões de litros. Se o país realmente implantar a mistura E10, precisará de 1 bilhão de litros de etanol anualmente para atender à sua demanda. Mesmo produzindo cana, o país tem na sua economia a exportação do melaço, que compete com a produção de etanol, e precisará de outra matéria-prima ou de importar etanol para atender à demanda.

Na Tailândia, várias tentativas de início de um programa de desenvolvimento e uso de biocombustíveis foram feitas, frustradas pela necessidade de estoque da produção de melaço, produto importante nesse país e que seria também matéria-prima para produção de etanol, junto com a mandioca. Isso traz problemas por causa da produtividade mais baixa e do custo de produção elevado, que prejudicariam a competitividade dos produtores locais. Nesse país foi aprovada a construção de 25 plantas de produção de etanol e o governo quer eliminar o uso do MTBE em 2007.

A China quer ter 15% da matriz energética baseada em energia renovável em 2020. Nove províncias adotaram a mistura de 10% de álcool na gasolina, o E10. Se isso for feito nacionalmente, a demanda por etanol será superior a 5 bilhões de litros por ano. Ainda na Ásia, Paquistão e Vietnã sinalizam querer misturar etanol à gasolina. A indústria nas Filipinas também trabalha com o governo local para implementar um programa de etanol, com metas de utilizar o E5 em 2007 e o E10 em 2010.

Nas Américas, a Colômbia adotou a mistura de 10% de álcool à gasolina em setembro de 2005. Sua capacidade instalada é suficiente para produzir para o mercado interno. Costa Rica, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Honduras e Belize estão olhando seus mercados domésticos e querem atendê-los produzindo etanol a partir da cana. A Argentina passará a ter 5% de etanol na gasolina em 2010. A Venezuela tem 300 mil hectares de cana cultivados para atender 15 destilarias em construção para suportar seu programa.

Os pontos fortes do Brasil

Para atender à expansão da demanda, o Brasil precisará ampliar sua produção. A primeira, mais fácil e viável alternativa disponível para o País é ampliar a área de cultivo e o número de usinas. No Centro-Sul, segundo a Unica, 77 novas unidades produtoras devem entrar em operação até a safra 2012/2013, o que soma um investimento de US$ 12,2 bilhões e agrega mais de 2 milhões de hectares à área de cultivo apenas nessa região do País. Outros US$ 2,4 bilhões serão investidos em unidades já existentes nessa região. A Unica diz ainda que o Brasil tem mais de 90 milhões de hectares como área agrícola potencial para essa expansão. Sérgio Alves Torquato, do Instituto de Economia Agrícola (IEA), instituição de pesquisa ligada à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) e à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, publicou no dia 2 de outubro de 2006 um artigo no qual estimou em 6,5 milhões, aproximadamente, a área total de cultivo de cana na safra 2005/2006.

Carvalho destaca que a pesquisa e desenvolvimento na parte agrícola, com as diversas variedades de cana, e a tecnologia para a parte de cultivo deram ao País uma eficiência "incomparável". "Nossa cana não é irrigável, só depende da água da chuva e que está no solo. Há 15 anos, tínhamos um período de 140 a 150 dias de moagem por safra, hoje são 210, 220 dias", lembra. A produtividade média da cana-de-açúcar no Brasil, de 47,78 toneladas por hectare em 1975, passou para 79,29 toneladas por hectare em 2005, segundo a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. A produtividade do Estado de São Paulo, o maior produtor nacional, era de 61,50 toneladas por hectare há 30 anos; hoje, está em 83,54 toneladas por hectare.

A fonte principal da competitividade brasileira é a cana. O balanço energético na produção de etanol mostra que para cada unidade de energia investida na indústria canavieira são produzidas 8,3 unidades de energia renovável. Para o milho, essa relação varia de 1,3 a 1,8 unidade; no trigo, é de 1,2 e na beterraba é de 1,9. O Brasil chegou nesse nível por causa dos investimentos em tecnologia que ampliaram a produtividade e reduziram o custo de produção. Os avanços tecnológicos mais importantes são as melhorias na parte agrícola, com o melhoramento genético da cana — são cerca de cem variedades diferentes no campo — e o uso da palha, vinhaça e bagaço para gerar a energia usada nas usinas e como fertilizante nas plantações de cana.

O que impede hoje a expansão das vendas

Diante desse quadro, hoje, jogam contra a liderança do Brasil as elevadas tarifas impostas por países importadores de etanol que querem proteger seus produtores. Os EUA produzem etanol a partir do milho, cujo custo de produção é de US$ 0,25 por litro, contra US$ 0,17 do Brasil, indica o New York Board of Trade. Nos Estados Unidos, a tarifa de importação que incide sobre o etanol brasileiro é de US$ 0,14 por litro.

A única importação livre de tarifa nos EUA é a de países do Caribe e da América Central, limitada a um teto de 7% do consumo total dos norte-americanos. Para entrar nos EUA, o Brasil manda álcool hidratado para o Caribe; lá, ele é desidratado para ser transformado em anidro, vai para os EUA e é adicionado à gasolina. No caso dos EUA, além das tarifas, há subsídios e incentivos fiscais. O produtor local norte-americano tem ainda isenção tributária de US$ 0,51 por galão e créditos tributários estaduais (em média, de US$ 0,15 por galão) e os específicos para pequenos produtores (US$ 0,10). Há também subsídios específicos para o cultivo de milho. Segundo informações dadas pelo professor Tad Patzek, da Universidade de Berkeley (Califórnia), ao jornal Valor Econômico em janeiro deste ano, os produtores do grão dos EUA receberam US$ 37,4 bilhões em subsídios de 1995 e 2003. Apesar de todo o esquema protecionista, os Estados Unidos são os grandes compradores do etanol brasileiro. Até agosto, compraram cerca de US$ 450 milhões do produto, ou 1,3 bilhão de litros.

Mas os produtores de cana não estão preocupados, nesse momento, com a competição norte-americana. Segundo Carvalho, para os produtores nacionais, os EUA têm uma importância enorme no processo de consolidação do mercado global de etanol. Ou seja, a meta, hoje, é conseguir convencer o maior número de países possível a produzir e consumir etanol. Nos EUA, os produtores brasileiros querem complementar a oferta de etanol ou substituir as importações de petróleo. "Nosso concorrente é a indústria de petróleo, não são os países que produzem álcool. O mercado de gasolina é o nosso mercado", apontou ele, no evento da Datagro. O empresário afirmou ainda que o acesso a mercados dependerá do preço do petróleo, que ele acredita que não baixará dos US$ 50 o galão, da maior abertura do mercado dos EUA e do estabelecimento de políticas públicas que obriguem a adição de álcool à gasolina. "Não existe potencial para crescimento espontâneo, a demanda só existe quando for mandatória", concluiu.

O papel da tecnologia para manter o País na dianteira

A tecnologia do futuro deverá ser a hidrólise para extração de açúcar e produção de etanol da celulose dos resíduos — que representa dois terços da planta de cana. Nisso, o Brasil está ficando para trás por falta de investimento, pensa o presidente da Unica, apesar de ser o país mais próximo de ter algo viável comercialmente. "Isso vem sendo estudado há tempos, mas quem está na liderança são os Estados Unidos, que investem dinheiro a fundo perdido, mais de centenas de milhares de dólares. Nosso investimento nesse campo é ridículo", critica. Como ação concreta, ele lembra apenas da iniciativa da Dedini e sua planta semi-industrial de hidrólise ácida instalada em Pirassununga (SP). "Temos de rever isso em nossa política, precisamos ser líderes no assunto. O grande custo é a coleta e transporte do material, mas não temos esse problema porque o bagaço já está na usina", acrescenta. Para ele, a maior vantagem dessa tecnologia é permitir que um grande número de países passe a produzir álcool a partir de outro material, já que a tecnologia poderá ser aplicada em outros tipos de biomassa.

Pela hidrólise, os pesquisadores buscam extrair açúcar da celulose de resíduos florestais e agrícolas. No caso do Brasil, essa tecnologia tem sido aplicada para aproveitar a celulose presente no bagaço da cana, que hoje é queimado. Como explica Carlos Rossell, pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp, o bagaço é formado pela celulose, um polímero da glicose formado por seis carbonos, as hexoses; por hemicelulose, composta por açúcares de cinco carbonos, as pentoses, não aproveitadas ainda para produção de açúcar; e por lignina, material estrutural da planta, que pode ser fonte de outras matérias químicas ou de combustíveis. A celulose e a hemicelulose podem ser transformadas em açúcares, que são então processados nas usinas para se transformarem em álcool.

Há duas rotas em hidrólise, a ácida e a enzimática. A diferença está no catalisador. Na primeira rota, o catalisador é um ácido. Na segunda, o catalisador é uma enzima, uma molécula biológica. Para cada tipo de biomassa são necessárias enzimas específicas para agir na degradação do material a ser transformado em açúcar. A Petrobras está investindo em pesquisa sobre a hidrólise enzimática. O objetivo, segundo Sillas Oliva Filho, gerente de álcool e oxigenados da Petrobras, é obter hidrogênio a partir do álcool.

Antônio Bonomi, gerente de contas-chave da Diretoria Adjunta de Negócios e Marketing do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), explica que os EUA utilizam apenas o grão de milho, deixando como resíduo a planta e o sabugo. "Por isso eles se interessam pela rota química da hidrólise, é uma forma de aumentar a produção por hectare. Os EUA têm a maior produção de grãos do mundo, mas enfrentam a sazonalidade da produção por conta do clima", acrescenta. De acordo com o pesquisador, que coordena a participação do IPT no Projeto Bioetanol, os norte-americanos investiram US$ 2 milhões em duas empresas produtoras de enzimas.

Peter Baron, da International Sugar Organization, conta que nenhum país chegou a uma escala industrial no emprego da tecnologia, algo que, para ele, deve ocorrer em dez anos. "Queremos ter ce países produzindo etanol e a transformação da celulose pela hidrólise ácida ou enzimática será o caminho para a generalização da produção competitiva. Esse processo não vai ocorrer apenas pela produção a partir do milho ou da cana", argumenta Eduardo Carvalho.

O uso da biotecnologia para desenvolvimento de cana mais produtiva, em especial a pesquisa com transgênicos, é outro ponto-chave no desenvolvimento tecnológico. "Nisso o setor não está atrasado. Temos uma quantidade significativa de pesquisas, já temos variedades geneticamente modificadas desenvolvidas, mas não há licenciamento para colocar essas variedades em campo", aponta o empresário. O Brasil foi o primeiro a fazer o seqüenciamento genético da cana, o que já trouxe impacto positivo para o setor produtivo. Segundo ele, mesmo no melhoramento genético tradicional houve avanço, pois a partir desse conhecimento é possível identificar mais rapidamente os melhores indivíduos para se fazer os cruzamentos, reduzindo o tempo para se encontrar a melhor variedade. "A CTNBio [Comissão Técnica Nacional de Biossegurança] precisa mudar, acabar com essa exigência de maioria absoluta do total de integrantes da comissão para autorização do plantio de transgênicos", diz. É preciso ter a aprovação de um quórum de dois terços da CTNBio, formada por 54 pessoas, para a liberação dos OGMs.

O Brasil poderia exportar tecnologia em etanol? "Não quero vender tecnologia, quero é produzir mais álcool e usar mais eficientemente o bagaço. Não estou preocupado com propriedade intelectual, é difícil considerar essa alternativa quando temos os EUA investindo pesadamente nisso", pensa Carvalho. E o que falta para o País, maior investimento do governo? "Não podemos mais contar com dinheiro público para pesquisa e desenvolvimento. Nós, líderes, é que temos de tomar coragem e colocar dinheiro nisso, mas o empresário brasileiro não tem a prática de investir em P&D", conclui.

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