| A
oportunidade do Brasil
Produtividade e eficiência
energética da cana-de-açúcar
dão ao
Brasil dianteira mundial em etanol; mantê-la
depende de mais P&D
Janaína
Simões
Mudanças climáticas,
poluição do ar nas cidades, segurança
energética e elevação do
preço do petróleo, sem perspectiva
de que baixe para menos de US$ 50 a US$ 60 o
barril. São esses pontos que norteiam
os investimentos em torno do etanol, cuja produção
é liderada pelo Brasil. A expectativa
é de que o consumo atual, da ordem de
33,7 bilhões de litros, salte para 79,4
bilhões em 2010. Os números apresentados
por Peter Baron, da International Sugar Organization,
sediada em Londres, durante a VI Conferência
Internacional da Datagro, mostram que o Brasil
consumiu 16,1 bilhões de litros de etanol
em 2005, chegará a 16,9 bilhões
este ano e tem uma demanda projetada de 27 bilhões
para 2010. Em segundo lugar estão os
EUA: o país consumiu 14,7 bilhões
de litros no ano passado e deve passar para
25 bilhões em 2010.
Na mesma conferência,
ocorrida dia 24 de outubro em São Paulo,
o presidente da União da Agroindústria
Canavieira de São Paulo (Unica), Eduardo
Pereira de Carvalho, disse estimar, conservadoramente,
uma expansão potencial das exportações
brasileiras em 4 bilhões de litros, chegando
então a 7 bilhões de litros exportados
em 2012/2013, contra os 3,1 bilhões vendidos
hoje no mercado externo. Seriam 2 bilhões
de litros para a América do Norte (EUA
e Canadá); 2 bilhões para a Ásia
(China, Índia, Japão, Coréia
do Sul e Tailândia); 1 bilhão para
a Europa; 1 bilhão para outros países;
e o 1 bilhão restante para o mercado
de álcool não combustível.
Se o mercado mundial for da
ordem de quase 80 bilhões de litros,
como acredita Baron, e o Brasil ampliar sua
venda para o mercado externo para 7 bilhões
de litros de etanol, como projetou Carvalho,
significará que o País abastecerá
cerca de 10% desse mercado. "O Brasil é
virtualmente a única origem de etanol
porque é o único país com
produção suficiente para exportar",
destacou Baron em sua palestra.
As perspectivas
no mercado internacional
Os números levantados
por Peter Baron, da International Sugar Organization,
revelam a extensão da oportunidade para
o Brasil. Nos Estados Unidos, a demanda vai
aumentar à medida que for crescendo a
obrigatoriedade, prevista na legislação
de vários Estados, de adição
de etanol à gasolina. Há Estados
em que a porcentagem de álcool misturado
à gasolina já é de 85%
— como Nova Iorque. Os EUA objetivam eliminar
o MTBE, sigla em inglês para éter
metil-ter-butílico, aditivo poluente
da gasolina que se infiltra no solo; há
também legislação federal,
combinada com estaduais, para coibir a poluição
do ar.
O Japão, que só
perde para os EUA em consumo de gasolina no
mundo, também é outro grande mercado.
O consumo de etanol nesse país, hoje
nulo, saltará para 6 bilhões em
2010, indicam as projeções de
Peter Baron. Outro importante mercado é
o europeu. Nesse continente, com meta de chegar
a 25% de mistura, o consumo subirá de
1,5 bilhão para 14 bilhões de
litros em 2010. A produção de
etanol não cresce de maneira a acompanhar
a demanda elevada na União Européia.
Índia e Tailândia
estão implementando programas para uso
do etanol na gasolina e também querem
a tecnologia flex fuel. No caso indiano,
dos 300 milhões de litros consumidos
hoje, o programa de adição de
5% de álcool na gasolina, em implantação
desde outubro de 2005, já elevou a demanda
para 500 milhões de litros. Se o país
realmente implantar a mistura E10, precisará
de 1 bilhão de litros de etanol anualmente
para atender à sua demanda. Mesmo produzindo
cana, o país tem na sua economia a exportação
do melaço, que compete com a produção
de etanol, e precisará de outra matéria-prima
ou de importar etanol para atender à
demanda.
Na Tailândia, várias
tentativas de início de um programa de
desenvolvimento e uso de biocombustíveis
foram feitas, frustradas pela necessidade de
estoque da produção de melaço,
produto importante nesse país e que seria
também matéria-prima para produção
de etanol, junto com a mandioca. Isso traz problemas
por causa da produtividade mais baixa e do custo
de produção elevado, que prejudicariam
a competitividade dos produtores locais. Nesse
país foi aprovada a construção
de 25 plantas de produção de etanol
e o governo quer eliminar o uso do MTBE em 2007.
A China quer ter 15% da matriz
energética baseada em energia renovável
em 2020. Nove províncias adotaram a mistura
de 10% de álcool na gasolina, o E10.
Se isso for feito nacionalmente, a demanda por
etanol será superior a 5 bilhões
de litros por ano. Ainda na Ásia, Paquistão
e Vietnã sinalizam querer misturar etanol
à gasolina. A indústria nas Filipinas
também trabalha com o governo local para
implementar um programa de etanol, com metas
de utilizar o E5 em 2007 e o E10 em 2010.
Nas Américas, a Colômbia
adotou a mistura de 10% de álcool à
gasolina em setembro de 2005. Sua capacidade
instalada é suficiente para produzir
para o mercado interno. Costa Rica, Guatemala,
El Salvador, Nicarágua, Honduras e Belize
estão olhando seus mercados domésticos
e querem atendê-los produzindo etanol
a partir da cana. A Argentina passará
a ter 5% de etanol na gasolina em 2010. A Venezuela
tem 300 mil hectares de cana cultivados para
atender 15 destilarias em construção
para suportar seu programa.
Os pontos
fortes do Brasil
Para atender à expansão
da demanda, o Brasil precisará ampliar
sua produção. A primeira, mais
fácil e viável alternativa disponível
para o País é ampliar a área
de cultivo e o número de usinas. No Centro-Sul,
segundo a Unica, 77 novas unidades produtoras
devem entrar em operação até
a safra 2012/2013, o que soma um investimento
de US$ 12,2 bilhões e agrega mais de
2 milhões de hectares à área
de cultivo apenas nessa região do País.
Outros US$ 2,4 bilhões serão investidos
em unidades já existentes nessa região.
A Unica diz ainda que o Brasil tem mais de 90
milhões de hectares como área
agrícola potencial para essa expansão.
Sérgio Alves Torquato, do Instituto de
Economia Agrícola (IEA), instituição
de pesquisa ligada à Agência Paulista
de Tecnologia dos Agronegócios (APTA)
e à Secretaria Estadual de Agricultura
e Abastecimento de São Paulo, publicou
no dia 2 de outubro de 2006 um artigo no qual
estimou em 6,5 milhões, aproximadamente,
a área total de cultivo de cana na safra
2005/2006.
Carvalho destaca que a pesquisa
e desenvolvimento na parte agrícola,
com as diversas variedades de cana, e a tecnologia
para a parte de cultivo deram ao País
uma eficiência "incomparável".
"Nossa cana não é irrigável,
só depende da água da chuva e
que está no solo. Há 15 anos,
tínhamos um período de 140 a 150
dias de moagem por safra, hoje são 210,
220 dias", lembra. A produtividade
média da cana-de-açúcar
no Brasil, de 47,78 toneladas por hectare em
1975, passou para 79,29 toneladas por hectare
em 2005, segundo a ministra da Casa Civil, Dilma
Roussef. A produtividade do Estado de São
Paulo, o maior produtor nacional, era de 61,50
toneladas por hectare há 30 anos; hoje,
está em 83,54 toneladas por hectare.
A fonte principal da competitividade
brasileira é a cana. O balanço
energético na produção
de etanol mostra que para cada unidade de energia
investida na indústria canavieira são
produzidas 8,3 unidades de energia renovável.
Para o milho, essa relação varia
de 1,3 a 1,8 unidade; no trigo, é de
1,2 e na beterraba é de 1,9. O Brasil
chegou nesse nível por causa dos investimentos
em tecnologia que ampliaram a produtividade
e reduziram o custo de produção.
Os avanços tecnológicos mais importantes
são as melhorias na parte agrícola,
com o melhoramento genético da cana —
são cerca de cem variedades diferentes
no campo — e o uso da palha, vinhaça
e bagaço para gerar a energia usada nas
usinas e como fertilizante nas plantações
de cana.
O que
impede hoje a expansão das vendas
Diante desse quadro, hoje,
jogam contra a liderança do Brasil as
elevadas tarifas impostas por países
importadores de etanol que querem proteger seus
produtores. Os EUA produzem etanol a partir
do milho, cujo custo de produção
é de US$ 0,25 por litro, contra US$ 0,17
do Brasil, indica o New York Board of Trade.
Nos Estados Unidos, a tarifa de importação
que incide sobre o etanol brasileiro é
de US$ 0,14 por litro.
A única importação
livre de tarifa nos EUA é a de países
do Caribe e da América Central, limitada
a um teto de 7% do consumo total dos norte-americanos.
Para entrar nos EUA, o Brasil manda álcool
hidratado para o Caribe; lá, ele é
desidratado para ser transformado em anidro,
vai para os EUA e é adicionado à
gasolina. No caso dos EUA, além das tarifas,
há subsídios e incentivos fiscais.
O produtor local norte-americano tem ainda isenção
tributária de US$ 0,51 por galão
e créditos tributários estaduais
(em média, de US$ 0,15 por galão)
e os específicos para pequenos produtores
(US$ 0,10). Há também subsídios
específicos para o cultivo de milho.
Segundo informações dadas pelo
professor Tad Patzek, da Universidade de Berkeley
(Califórnia), ao jornal Valor Econômico
em janeiro deste ano, os produtores do grão
dos EUA receberam US$ 37,4 bilhões em
subsídios de 1995 e 2003. Apesar de todo
o esquema protecionista, os Estados Unidos são
os grandes compradores do etanol brasileiro.
Até agosto, compraram cerca de US$ 450
milhões do produto, ou 1,3 bilhão
de litros.
Mas os produtores de cana não
estão preocupados, nesse momento, com
a competição norte-americana.
Segundo Carvalho, para os produtores nacionais,
os EUA têm uma importância enorme
no processo de consolidação do
mercado global de etanol. Ou seja, a meta, hoje,
é conseguir convencer o maior número
de países possível a produzir
e consumir etanol. Nos EUA, os produtores brasileiros
querem complementar a oferta de etanol ou substituir
as importações de petróleo.
"Nosso concorrente é a indústria
de petróleo, não são os
países que produzem álcool. O
mercado de gasolina é o nosso mercado",
apontou ele, no evento da Datagro. O empresário
afirmou ainda que o acesso a mercados dependerá
do preço do petróleo, que ele
acredita que não baixará dos US$
50 o galão, da maior abertura do mercado
dos EUA e do estabelecimento de políticas
públicas que obriguem a adição
de álcool à gasolina. "Não
existe potencial para crescimento espontâneo,
a demanda só existe quando for mandatória",
concluiu.
O papel
da tecnologia para manter o País na dianteira
A tecnologia do futuro deverá
ser a hidrólise para extração
de açúcar e produção
de etanol da celulose dos resíduos —
que representa dois terços da planta
de cana. Nisso, o Brasil está ficando
para trás por falta de investimento,
pensa o presidente da Unica, apesar de ser o
país mais próximo de ter algo
viável comercialmente. "Isso vem
sendo estudado há tempos, mas quem está
na liderança são os Estados Unidos,
que investem dinheiro a fundo perdido, mais
de centenas de milhares de dólares. Nosso
investimento nesse campo é ridículo",
critica. Como ação concreta, ele
lembra apenas da iniciativa da Dedini
e sua planta semi-industrial de hidrólise
ácida instalada em Pirassununga (SP).
"Temos de rever isso em nossa política,
precisamos ser líderes no assunto. O
grande custo é a coleta e transporte
do material, mas não temos esse problema
porque o bagaço já está
na usina", acrescenta. Para ele, a maior
vantagem dessa tecnologia é permitir
que um grande número de países
passe a produzir álcool a partir de outro
material, já que a tecnologia poderá
ser aplicada em outros tipos de biomassa.
Pela hidrólise, os pesquisadores
buscam extrair açúcar da celulose
de resíduos florestais e agrícolas.
No caso do Brasil, essa tecnologia tem sido
aplicada para aproveitar a celulose presente
no bagaço da cana, que hoje é
queimado. Como explica Carlos
Rossell, pesquisador associado
do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento
Energético (Nipe) da Unicamp, o bagaço
é formado pela celulose, um polímero
da glicose formado por seis carbonos, as hexoses;
por hemicelulose, composta por açúcares
de cinco carbonos, as pentoses, não aproveitadas
ainda para produção de açúcar;
e por lignina, material estrutural da planta,
que pode ser fonte de outras matérias
químicas ou de combustíveis. A
celulose e a hemicelulose podem ser transformadas
em açúcares, que são então
processados nas usinas para se transformarem
em álcool.
Há duas rotas em hidrólise,
a ácida e a enzimática. A diferença
está no catalisador. Na primeira rota,
o catalisador é um ácido. Na segunda,
o catalisador é uma enzima, uma molécula
biológica. Para cada tipo de biomassa
são necessárias enzimas específicas
para agir na degradação do material
a ser transformado em açúcar.
A Petrobras está investindo em pesquisa
sobre a hidrólise enzimática.
O objetivo, segundo Sillas Oliva Filho, gerente
de álcool e oxigenados da Petrobras,
é obter hidrogênio a partir do
álcool.
Antônio Bonomi, gerente
de contas-chave da Diretoria Adjunta de Negócios
e Marketing do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
do Estado de São Paulo (IPT), explica
que os EUA utilizam apenas o grão de
milho, deixando como resíduo a planta
e o sabugo. "Por isso eles se interessam
pela rota química da hidrólise,
é uma forma de aumentar a produção
por hectare. Os EUA têm a maior produção
de grãos do mundo, mas enfrentam a sazonalidade
da produção por conta do clima",
acrescenta. De acordo com o pesquisador, que
coordena a participação do IPT
no Projeto Bioetanol, os norte-americanos investiram
US$ 2 milhões em duas empresas produtoras
de enzimas.
Peter Baron, da International
Sugar Organization, conta que nenhum país
chegou a uma escala industrial no emprego da
tecnologia, algo que, para ele, deve ocorrer
em dez anos. "Queremos ter ce países
produzindo etanol e a transformação
da celulose pela hidrólise ácida
ou enzimática será o caminho para
a generalização da produção
competitiva. Esse processo não vai ocorrer
apenas pela produção a partir
do milho ou da cana", argumenta Eduardo
Carvalho.
O uso da biotecnologia para
desenvolvimento de cana mais produtiva, em especial
a pesquisa com transgênicos, é
outro ponto-chave no desenvolvimento tecnológico.
"Nisso o setor não está atrasado.
Temos uma quantidade significativa de pesquisas,
já temos variedades geneticamente modificadas
desenvolvidas, mas não há licenciamento
para colocar essas variedades em campo",
aponta o empresário. O Brasil foi o primeiro
a fazer o seqüenciamento genético
da cana, o que já trouxe impacto positivo
para o setor produtivo. Segundo ele, mesmo no
melhoramento genético tradicional houve
avanço, pois a partir desse conhecimento
é possível identificar mais rapidamente
os melhores indivíduos para se fazer
os cruzamentos, reduzindo o tempo para se encontrar
a melhor variedade. "A CTNBio [Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança]
precisa mudar, acabar com essa exigência
de maioria absoluta do total de integrantes
da comissão para autorização
do plantio de transgênicos", diz.
É preciso ter a aprovação
de um quórum de dois terços da
CTNBio,
formada por 54 pessoas, para a liberação
dos OGMs.
O Brasil poderia exportar tecnologia
em etanol? "Não quero vender tecnologia,
quero é produzir mais álcool e
usar mais eficientemente o bagaço. Não
estou preocupado com propriedade intelectual,
é difícil considerar essa alternativa
quando temos os EUA investindo pesadamente nisso",
pensa Carvalho. E o que falta para o País,
maior investimento do governo? "Não
podemos mais contar com dinheiro público
para pesquisa e desenvolvimento. Nós,
líderes, é que temos de tomar
coragem e colocar dinheiro nisso, mas o empresário
brasileiro não tem a prática de
investir em P&D", conclui.
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