17/10/2010

Entrevista: Carlos Calmanovici, da Anpei

"Empresas precisam participar mais da governança do sistema de inovação", diz dirigente; hora é de instrumentos "mais ousados"

O engenheiro químico Carlos Eduardo Calmanovici é o porta-voz de um grupo pequeno e importante de empresas — aquelas reunidas na Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Desde abril, Calmanovici — também atual diretor de P&D&I da ETH — preside a entidade — de que fazem parte 106 empresas, seis pessoas físicas e 52 outras instituições comprometidas com a inovação no setor produtivo.  Entre as associadas estão gigantes como Petrobras, Embraer e Suzano Papel e Celulose, por exemplo. E pequenas como a 24x7 Cultural, que criou o sistema de venda de livros em máquinas como as vistas nas estações de metrô de São Paulo.

Quando assumiu a posição de dirigente da Anpei, Calmanovici ainda era executivo da Braskem, responsável pela área de Inteligência Tecnológica. Graduado pela Universidade de São Paulo, mestre pela Universidade Federal de São Carlos e doutor em Engenharia de Processos pelo Instituto Nacional Politécnico de Toulouse, França, sua carreira foi direcionada para o campo da gestão da inovação, desenvolvimento de produtos, aplicações e processos. Tem experiência nos "dois lados do balcão", pois, apesar de ter atuado predominantemente no setor privado, também já passou pelo setor acadêmico. Antes da ETH e da Braskem, ele trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Também passou pela Oxiteno e pela Rhodia.

Quando eleito presidente da Anpei, estabeleceu como "programa de governo" alguns objetivos: estimular fóruns de aprendizado em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&I), incrementar a comunicação entre a Anpei e seus associados, ampliar a atuação da entidade e representar os associados da Anpei junto às entidades privadas e governamentais que se dedicam às políticas públicas de P&D&I. É a terceira vez que o engenheiro se elege na Anpei. Em junho de 2007, foi escolhido como um dos diretores. Em maio de 2008, foi eleito vice-presidente. Ao terminar esse mandato, já foi conduzido ao cargo de presidente, ao qual concorreu também o diretor de Pesquisa e Inovação da Usiminas, Darcton Policarpo Damião. O executivo recebeu a repórter Janaína Simões no dia 30 de setembro, em seu escritório na ETH, em São Paulo, para falar como presidente da Anpei sobre o que foi positivo e o que precisa avançar no Brasil para que o País consiga ter mais empresas inovadoras como as 166 associadas da entidade.

As empresas estão amadurecidas o suficiente para buscar inovações radicais? A cultura de inovação avançou no País?Estamos aquém do que gostaríamos em relação à difusão da cultura da inovação, mas temos muitos elementos essenciais para avançar nessa questão no Brasil. Temos uma academia forte, robusta, de nível mundial, em patamar mais do que razoável para dar esse salto qualitativo. E temos várias empresas inovadoras no Brasil. São, sobretudo, grandes empresas e temos que estimular a difusão dessa tendência nas cadeias produtivas, num universo maior de empresas, incluindo as pequenas e médias. E já temos exemplos de inovação radical no País: os veículos flex, a indústria de medicamentos dando saltos relevantes com novos princípios ativos e fármacos mais competitivos, a prospecção de petróleo em águas profundas, os polímeros verdes, entre tantos outros. Assim, a inovação está cada vez mais no dia-a-dia das pessoas; a sociedade percebe a inovação quando abastece um carro flex ou quando faz um tratamento médico específico que não estava disponível ou era inacessível há alguns anos. Na área das comunicações, tecnologia da informação, novos materiais, energia, em todos os campos confirma-se a mesma tendência. E houve também avanço nos instrumentos de fomento à inovação. Mas, para inovações mais radicais e para empresas pequenas e médias principalmente, ainda não temos todas as condições necessárias. 

Quais seriam elas? 
Ainda temos barreiras críticas, aspectos que dificultam ou subtraem competitividade de qualquer empresa brasileira, que afetam os investimentos em geral, e principalmente os investimentos associados a risco, como é o caso da inovação. Estou me referindo ao câmbio valorizado, às altas taxas de juros, à questão trabalhista e à legislação fiscal, por exemplo. Quando falo que devemos partir para uma inovação mais ousada, falo em assumir mais riscos. Para que a empresa assuma mais riscos, é preciso pensar em outros instrumentos complementares; eles têm de evoluir. Hoje, parece que foram desenhados para uma condição mais modesta de inovação. Projetos mais ousados são mais sujeitos a resultados inesperados, mudanças de rumo, investimentos maiores para riscos mais importantes. Assim, temos que pensar em oportunidades de avanço do ponto de vista da flexibilidade dos instrumentos para dar conta da evolução e adequação dos objetivos dos projetos de P&D de acordo com os resultados obtidos, discussão da contrapartida, prazo dos projetos, análise em fluxo contínuo etc. Do lado das empresas, é preciso aprender a conviver com risco maior. Fazer inovação incremental é muito importante pelos resultados gerados e para preparar as empresas, formar essa massa crítica, competências, mas as empresas precisam ser estimuladas a assumir maiores riscos. 

Que instrumentos seriam esses para apoiar uma inovação mais arrojada?
Apresentamos sugestões sobre isso na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação C&T&I [realizada em maio, em Brasília]. Essas propostas resultaram de discussão organizada na X Conferência Anpei de Inovação Tecnológica [realizada em abril deste ano em Curitiba]. As empresas precisam participar de forma mais ativa da governança do sistema de inovação nacional, desde o estabelecimento das prioridades, até as fases de constituição, implementação e avaliação dos instrumentos. No nosso entendimento, precisa haver um foco maior do sistema na inovação. E quando falo em inovação, falo em empresas, pois inovação ocorre na empresa. Isso não significa tirar recursos da área de ciência e tecnologia, nem as empresas competirem com a academia. Há complementaridade entre os atores e todos são importantes no processo de inovação. No entanto, é fundamental fazer essa revisão e ampliar a participação empresarial nas decisões estratégicas. Para estimular as empresas a assumir maiores riscos em uma atividade que já é intrinsecamente de risco, temos que buscar condições diferenciadas. Por exemplo, vamos considerar desenvolvimentos que necessitem de estruturas especializadas, como plantas-piloto, plantas de demonstração, provas de conceito. Esse tipo de investimento é caro e é feito em um momento do processo de inovação em que os riscos ainda são muito altos. Ou seja, deve ter tratamento diferenciado. Caso contrário, continuará limitado. Outra proposta é a criação de fóruns permanentes de incentivo à inovação. Esses fóruns devem encaminhar questões relacionadas a inovação, integrando governo, empresas e academia. Com forte participação do setor privado e autonomia para propor e acompanhar metas estratégicas e indicadores quantitativos e qualitativos de inovação, esses fóruns podem contribuir muito com o avanço da inovação no Brasil. Além disso, a Anpei propõe um conjunto de iniciativas que incluem novos modelos educacionais com foco em inovação, empreendedorismo e sustentabilidade e um trabalho estruturado de preparação para competição global e internacionalização de empresas, fortalecendo competências de gestão empresarial em geral e da inovação em particular. A inclusão de incentivos "verdes" nos instrumentos de fomento à inovação também deve ser considerada e foi sugerida pela Anpei nas suas propostas e recomendações. 

Venture capital seria uma modalidade importante para apoiar essas inovações mais ousadas? 
Vários instrumentos vão contribuir para que o País assuma uma posição de liderança efetiva. Capital semente, venture capital são instrumentos importantes que contribuem para o desenvolvimento das tecnologias que estão mais na fronteira do conhecimento. Quanto mais perto da fronteira, maior o risco, maior o investimento. Precisamos ter um leque de instrumentos para apoiar essa atuação mais diferenciada. São desafios diferentes do que os que tivemos até agora. Se continuarmos trabalhando só com os instrumentos que temos hoje, não vamos conseguir dar respostas diferentes. Precisamos criar instrumentos novos a partir dos instrumentos que temos hoje. Essa é a grande provocação da Anpei e uma evolução natural do sistema.

Os instrumentos de apoio à inovação existentes levaram as empresas a investir mais em inovação?
Não tenho informação do universo todo de empresas. Teremos mais informação com os resultados da Pintec [a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE] que devem ser divulgados em breve. Mas, o sentimento é que houve aumento do investimento das empresas. Houve diversificação, amplificação, espalhamento do interesse. Mas ainda um número muito pequeno dentro do universo empresarial do Brasil usa os instrumentos. É preciso pensar em criar mecanismos que atinjam mais empresas. Parece haver uma convergência de princípio entre governo, empresas e academia em relação a esses conceitos, mas as ações não refletem essa convergência. Houve aumento do interesse, o número de participantes cresceu, mas esse crescimento ainda é muito tímido porque talvez a gente não tenha focado os aspectos principais para enfrentar a questão. Enquanto não atacarmos os problemas mais críticos, esse quadro não vai mudar significativamente. Como disse anteriormente, temos taxa de juros elevada, taxa de câmbio extremamente valorizada e pesada carga tributária. O governo deve atuar nas causas, mitigar algumas dessas dificuldades, de forma a mudar a consequência — o ainda baixo investimento em inovação.

A Anpei compartilha do diagnóstico do Ministério da Ciência e Tecnologia de não que o Brasil não atingiu a meta de investimento em P&D constante no Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação por que faltou o investimento das empresas? 
As empresas investem em P&D quando enxergam valor nessa atividade. As empresas associadas da Anpei investem em P&D duas a três vezes mais do que a média das empresas brasileiras. Mais de 60% dos investimentos em P&D das empresas no Brasil são feitos por empresas associadas da Anpei. Essas empresas conseguiram identificar oportunidades e alavancar seus negócios a partir da inovação. São empresas extremamente competitivas, líderes nacionais e muitas até internacionais em seus segmentos. Mas temos muitas empresas hoje no Brasil que ainda estão seguindo as prioridades da sobrevivência. Por exemplo, precisam lidar com questões trabalhistas e fiscais que muitas vezes não existem em outros países. Mas o momento é muito positivo. O investimento em inovação avançou no Brasil nos últimos anos e a participação das empresas cresceu na mesma proporção do aumento do investimento do governo, apesar das condições menos favoráveis comparativamente ao que ocorre em outros países. 

Para a Anpei, temos ou não um quadro de desindustrialização no País? 
Observamos como um processo que não é uniforme, difícil de comentar a partir de uma perspectiva Anpei porque ocorre em uma lógica mais setorial. Alguns setores estão sendo mais afetados do que outros, dependendo das condições macroeconômicas e de competitividade. Em alguns setores, estamos diminuindo o conteúdo tecnológico das nossas exportações, ao mesmo tempo em que produtos de maior valor agregado são os que mais crescem quando olhamos a importação. Nossa expectativa é que isso sirva de alerta para reforçar a importância de se fazer um esforço maior em inovação, de forma a aumentarmos o conteúdo tecnológico e valor agregado dos produtos brasileiros.

O tema educação tem sido recorrente nas discussões sobre inovação. De que forma Anpei tem se posicionado sobre isso?
O Brasil é carente em educação em todos os níveis. E o seu crescimento recente potencializa essa carência mais ainda. A Anpei defende a inclusão das várias dimensões da inovação nos currículos dos vários níveis de ensino, ou seja, o empreendedorismo, a sustentabilidade, a competitividade das empresas e o desenvolvimento da criatividade das pessoas. É importante a sociedade ter percepção da necessidade de competitividade, de inovação, de que estamos inseridos num cenário global desafiador e dinâmico. A conscientização precisa se dar em todos os níveis, em todo o sistema educacional brasileiro. Não basta formar bons pesquisadores, precisamos formar pesquisadores inovadores, bons profissionais. A formação técnica é importante, mas sozinha não garante formação de profissionais inovadores. Essa característica da inovação, do empreendedorismo, precisa ser colocada desde os níveis mais fundamentais até a pós-graduação. Assim, a própria sociedade exigirá inovação como forma de garantir a sustentabilidade e a melhoria da sua qualidade de vida. 

Como é dirigir uma associação de empresas inovadoras em um país em que as taxas de inovação não são altas? 
As empresas e entidades associadas à Anpei são diferenciadas. Isso é motivo de orgulho e satisfação ao mesmo tempo em que é uma grande responsabilidade. Nosso objetivo é que o investimento em P&D aumente nas empresas, conferindo, com isso, uma posição de maior competitividade para o País. Precisamos ter mais empresas inovadoras no Brasil. E queremos ter mais empresas associadas à Anpei. Mas o mais importante é a qualidade dos associados, empresas e entidades que hoje fazem a diferença da inovação no Brasil. Mesmo assim nosso objetivo é aumentar o número de associados, porque assim ampliamos as possibilidades de integração e compartilhamento. Dirijo uma associação que é única em vários aspectos. Ela é transversal, envolve todos os segmentos da economia: temos empresas da área petroquímica, aeronáutica, automotiva, tecnologia da informação e comunicação, siderurgia, fármacos, cosméticos, máquinas e equipamentos... Todos os segmentos industriais, praticamente, têm alguma representação na Anpei através de suas empresas. Isso permite convivência e troca de experiências sem igual. É quase um espaço de open innovation [inovação aberta]. Essa é a primeira força da Anpei. Além disso, a Anpei conta com instituições de ciência e tecnologia públicas e privadas extremamente inovadoras. Ou seja, academia e empresa, atores envolvidos no processo de inovação, estão na Anpei, o que também é único. Mais ainda, a Anpei é uma entidade nacional. A maior parte dos associados ainda é do Sudeste, mas temos o objetivo de ampliar o número de associados em outras regiões. A distribuição geográfica dos associados Anpei está evoluindo de forma muito positiva. Inauguramos, há cerca de dois meses, a primeira representação estadual da Anpei fora de São Paulo, no Paraná, em Curitiba. Gostaríamos de fazer isso em outros Estados, de forma a reforçar essa capilaridade. Finalmente, a Anpei permite integrar empresas pequenas, médias e grandes. Essas empresas, embora tenham realidades diferentes, são complementares em muitos aspectos e aprendemos muito uns com os outros. Ou seja, a experiência da presidência tem sido extremamente desafiadora, mas também muito enriquecedora pessoal e profissionalmente. E tudo isso é possível porque conto com uma equipe interna muito dedicada e eficiente, além de uma diretoria atuante e competente com quem posso dividir a responsabilidade pela gestão da Anpei.

Essa transversalidade não dificulta a tomada de decisões e posições de consenso, já que cada um atua num setor? 
As empresas têm seus fóruns e associações setoriais que dão vazão às reflexões em que a Anpei não entra, aquelas especificamente setoriais. O que nos permite transitar nesses setores é justamente o foco nos instrumentos, na dinâmica, na lógica da inovação. Esse é o ponto comum que une os diferentes associados. A Anpei é um espaço que permite uma convivência não concorrencial de diferentes empresas e setores. Há muitos associados que têm relação fornecedor-cliente com outros associados. Mesmo quando é uma instituição de pesquisa ou outro ator envolvido no processo de inovação, estamos falando de relações que potencialmente são de fornecedor-cliente. É muito positivo para uma universidade saber como é o processo de inovação de uma empresa que tem projetos com ela, ou um fornecedor entender como é o processo de inovação de seu cliente e vice-versa. 

Que instrumentos a Anpei considera serem os mais significativos para apoio à inovação?
O Brasil se desenvolveu muito em pesquisa básica, acadêmica, em geração de conhecimento, algo fundamental para o processo de inovação. Mas ainda estamos no começo do processo de fazer a apropriação desse conhecimento para transformá-lo em inovação, momento em que a sociedade tem um retorno desse conhecimento. O envolvimento das empresas na apropriação do conhecimento e na utilização do conhecimento em benefício da sociedade é o grande desafio para os próximos anos. As empresas precisam de leis e normas adequadas e que possibilitem mecanismos de gestão modernos, ágeis e eficazes e do bom funcionamento de organizações públicas de fomento, pesquisa e desenvolvimento articuladas entre si e sensíveis às demandas da sociedade. A criação dos fundos setoriais, por exemplo, determinou a evolução do setor público de P&D. No entanto, foi sua regulamentação e a legislação recente da inovação, ou seja, as leis "do Bem" e da Inovação, que permitiram a inclusão do setor privado na construção da ciência, tecnologia e da inovação no Brasil. Ciência e tecnologia não se tornarão relevantes para a sociedade brasileira como consequência de leis ou instrumentos, mas como desdobramento de esforços continuados do desenvolvimento das pessoas, da inclusão social e da sensibilização da sociedade para os ganhos com tecnologias mais eficientes e mais sustentáveis. E isso é alcançado com empresas inovadoras capazes de levar os produtos da ciência ao mercado. É assim que vemos a nova fase da Anpei, seus novos desafios. Essa será, espero, uma tônica do próximo governo e a temática dominante na sociedade como um todo, qualquer que seja o resultado das eleições. Estamos entrando numa fase nova no desenvolvimento do País. Temos a oportunidade de buscar uma inovação de outra natureza, mais ousada, de maior impacto e abrangência. Isso seguramente nos colocará numa posição protagonista no cenário internacional. 

O que a Anpei espera do governo José Serra ou do governo Dilma Rousseff?
 
Sentimos que o tema inovação estava ausente da campanha presidencial. Entramos em contato com as equipes responsáveis pelos programas de Ciência, Tecnologia e Inovação dos candidatos José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva e, em setembro, provemos um debate sobre o assunto. Com isso, resgatamos o tema na campanha presidencial. É importante reforçar a importância da inovação constantemente. Espero que a inovação seja um dos pilares do próximo governo, independentemente de quem assuma. E tenho certeza que será, já que é um elemento fundamental para a competitividade do País. Sem inovação não conseguiremos atingir nossos objetivos de desenvolvimento econômico sustentável.

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