07/04/2008

Ensino Superior

Em fórum na Unicamp, palestrante chinês retrata programa de expansão que elevou para 100 número de universidades de pesquisa

Por Rachel Bueno

A China é reconhecida globalmente por sua gigantesca população, de mais de 1,3 bilhão de pessoas, e por suas impressionantes taxas de crescimento econômico a de 2007 foi de 11,4%, segundo o Banco Mundial. Mas, desde meados da década de 1990, o governo chinês vem se empenhando para que o país também seja lembrado pela excelência de suas universidades. Esse esforço, aliado ao direcionamento da economia chinesa para o mercado, provocou várias mudanças no sistema nacional de educação superior: surgiram novas instituições de ensino (hoje há 1.867, entre nacionais, regionais e particulares); o número de alunos matriculados nessas instituições atingiu a marca de 23 milhões; criaram-se cursos de graduação mais curtos, de dois a três anos de duração; a carreira acadêmica deixou de ser sinônimo de emprego garantido até a aposentadoria; e instaurou-se um rigoroso sistema de avaliação da produção científica dos professores, que acabou por colocar a China entre os países que mais publicam papers no mundo.

Tornar-se uma potência acadêmica, no entanto, não é tarefa fácil. No Fórum Ensino Superior na República Popular da China, organizado pela Unicamp no dia 28 de março, o professor Zuyou Zhou, da Universidade Normal de Pequim, contou em sua palestra que a China ainda precisa encontrar uma forma de avaliar e melhorar a qualidade do ensino em suas universidades. Zhou é doutor em educação e tem um longo currículo nessa área. Atualmente, é secretário-geral da Sociedade Chinesa de Avaliação da Educação Superior, editor associado do Journal of Education for Teaching e membro do conselho editorial do London Review of Education. Ele veio ao Brasil pela primeira vez para participar do fórum.

Zhou resumiu a história da educação superior na China na visita à Unicamp. De acordo com ele, o país seguiu o modelo acadêmico dos Estados Unidos e da Europa desde a fundação de sua primeira universidade, no final do século XIX, até a revolução de 1949. Poucos anos depois, entre 1952 e 1953, as universidades, que até então se dividiam em públicas (60,4%), privadas (29,8%) e missionárias (9,7%), foram todas submetidas ao controle do governo central, como mandava o modelo soviético. Essa situação perdurou até o princípio dos anos 1980, quando a China restaurou o exame de seleção para os cursos superiores e começou a direcionar sua economia para o mercado. Finalmente, em meados da década de 1990, as universidades expandiram-se e passaram a cobrar taxas de seus alunos pelo ensino. Essas taxas representam hoje cerca de 20% da verba das universidades.

O professor citou dois projetos que o governo chinês lançou na segunda metade dos anos 1990 para financiar a melhoria da qualidade das universidades do país: o 211, de 1995, e o 985, de 1998. Hoje, as universidades nacionais, subordinadas ao Ministério da Educação, são as mais renomadas e as que mais se dedicam à pesquisa. Seis delas apareceram no ranking de 2007 das 200 melhores universidades do mundo preparado pela publicação The Times Higher Education, entre a 36ª e a 163ª posições. A Universidade de São Paulo (USP), classificada em 175º lugar, e a Unicamp, em 177º, representaram o Brasil nessa lista.

Em 1999 veio outra medida governamental, desta vez concernente aos professores universitários. Conforme explicou Zhou em palestra exclusiva para os membros da Comissão de Planejamento Estratégico da Unicamp (Copei), no dia 26 de março, a medida acabou com a estabilidade no emprego, obrigou os professores a assinar contrato com suas universidades e instaurou o sistema de avaliação e compensação baseado no número de artigos científicos publicados. Em 2003, a medida foi revisada e estabeleceram-se duas classes de emprego acadêmico: uma de longo prazo, que garante estabilidade até a aposentadoria, e outra de prazo determinado, em que os contratos têm de ser renovados de três em três anos. Também em 2003, o governo determinou que as instituições de ensino superior tivessem no máximo 18 alunos para cada professor — na época, essa proporção já era de 22 para um.

Em relação aos professores em tempo integral, Zhou informou que a área de engenharia é a que concentra o maior número deles: cerca de 250 mil. Em segundo lugar, curiosamente, vem a área de literatura, com pouco mais de 200 mil profissionais, seguida pela de ciências, com algo entre 100 mil e 150 mil. A explicação dele para a grande quantidade de professores universitários de literatura foi simples: estudar humanidades é uma tradição na China. Sobre os alunos de graduação, o professor contou que fez uma pesquisa para descobrir quais eram as atividades menos freqüentes entre eles e obteve uma resposta surpreendente: segundo os estudantes chineses, o que mais falta nas universidades é interação com o corpo docente.

Zuyou Zhou concedeu a seguinte entrevista a Inovação Unicamp:

Qual foi, ou qual é, o papel das universidades no crescimento da China?
Na China existem dois canais de criação de conhecimento: o sistema universitário e as academias de ciências, ambos sob o controle do governo. No caso das universidades, algumas são ligadas ao governo central e outras aos governos das províncias. No caso das academias, há a Academia Nacional de Ciências e também as academias locais, divididas em ciências sociais e ciências naturais. As universidades têm um papel muito importante na criação, na transformação e no desenvolvimento do conhecimento. Na criação, existem mais de 70 universidades nacionais, controladas pelo Ministério da Educação. E cada província — são mais de 30 — tem pelo menos uma ou duas universidades sob seu controle. No total, são mais de cem universidades de pesquisa, das quais se espera reconhecimento e padrão mundial. Elas são as origens de todo o fluxo de conhecimento, a base das descobertas científicas. Contando essas universidades, a China tem ao todo 1.867 instituições de educação superior. Na transformação do conhecimento, há um corpo enorme de estudantes de graduação (em cursos de dois ou quatro anos), mestrado e doutorado: são 23 milhões de pessoas. Com seus diplomas, esses estudantes se transformam em um capital crucial, porque o país precisa de recursos humanos altamente qualificados. E, no desenvolvimento do conhecimento, o governo tem a política de encorajar as universidades a transferir seu conhecimento para o mercado. Algumas das universidades mais renomadas construíram seus próprios parques científicos — algo como o Vale do Silício ao redor de Stanford e a Rota 128 ao redor de Boston, nos Estados Unidos. Esses parques cumprem o papel de transferir o conhecimento para as empresas. Cada nível — criação, transformação e desenvolvimento do conhecimento — tem um impacto diferente sobre a economia.

Como se dá a transferência de tecnologia de universidades para empresas na China?
Existem dois caminhos principais. As patentes dos membros das universidades são um deles. As empresas consultam os bancos de dados dos escritórios de patentes em busca de inovações que lhes interessem. Quando encontram alguma com valor de mercado, negociam a compra da patente e trabalham junto com o inventor, de modo que ele tenha acesso aos resultados da transferência de tecnologia. O segundo caminho é o das empresas que pertencem às universidades — e que, apesar disso, têm independência nos assuntos econômicos. Para elas, é bem mais fácil colocar o conhecimento gerado nas universidades em produção.

As universidades chinesas têm escritórios especializados na transferência de tecnologia?
As universidades têm dois tipos de escritório que cumprem esse papel. Um deles é o escritório de ciências naturais e tecnologia, que se encarrega de apresentar os pesquisadores universitários às empresas e de negociar para que estes trabalhem juntos. O outro é o escritório de desenvolvimento. Uma de suas principais tarefas é convidar pessoas, empresas e organizações para ver o que está sendo feito na universidade e, dessa forma, levantar dinheiro para financiar fundações, projetos de pesquisa etc. O primeiro é mais orientado para pesquisa; o segundo, mais para a parte financeira.

Quais são as fontes de recursos das universidades chinesas?
Os recursos para pesquisa entram pela via vertical, que é a do governo central, e pela via horizontal, que engloba financiamentos de empresas e doações. Nos anos 1970 e começo dos anos 1980, a maior parte do dinheiro vinha do governo. Essa porcentagem diminuiu na última década, quando as universidades começaram a cobrar taxas para a entrada dos alunos e a abrir suas próprias empresas. Hoje, cada universidade tem porcentagens diferentes de recursos vindos do governo. Nas mais renomadas, essa verba em geral corresponde a algo entre 45% e 60% do orçamento total da instituição. Já os financiamentos de empresas são para pesquisa cooperativa: elas dão o dinheiro e determinam os parâmetros da pesquisa; em troca, a universidade lhes dá o conhecimento. Isso ainda está muito no começo. Na minha universidade e em outras também, esses financiamentos vêm crescendo consideravelmente nos últimos anos.

Como as universidades e as empresas dividem a propriedade intelectual dos resultados dessas pesquisas cooperativas?
Não sei qual é o porcentual de participação dos pesquisadores universitários, isso depende do que é especificado em cada contrato. Os interesses são diferentes: os pesquisadores pensam em publicar papers, enquanto as empresas querem dominar o conhecimento para lucrar com ele. Na negociação dos contratos, as duas partes precisam chegar a um acordo.

A China é um dos países que mais publica papers hoje em dia, não?
Sim. Isso acontece porque a China tem muitos pesquisadores acadêmicos — pelo menos cem das intuições de ensino superior do país são universidades orientadas para pesquisa. E há também o sistema de recompensa para encorajar os pesquisadores a publicar. Creio que essa tendência vai continuar. Com o desenvolvimento da metodologia de pesquisa em engenharia, ciências naturais e mesmo ciências sociais, mais e mais especialistas chineses vão ser lançados na comunidade acadêmica internacional. O desafio é balancear quantidade e qualidade.

O número de patentes depositadas por pesquisadores de universidades também está aumentando?
Os pesquisadores querem publicar, eles ainda não têm uma inclinação forte para patentear as descobertas de suas pesquisas. No meu ponto de vista, existe uma "cultura da pesquisa" na China. Se a filosofia das patentes dominar a comunidade acadêmica no futuro próximo, aí sim o número de patentes vai crescer. Por enquanto, as patentes universitárias ainda não são muito comuns.

Muitos cientistas saem da China para fazer pesquisa nos Estados Unidos e na Europa. Isso afeta a produção chinesa de ciência e tecnologia?
Por um lado, há uma espécie de "brain drain", porque os pesquisadores que saem da China são muito talentosos, costumavam ser os melhores alunos em suas universidades. Eles vão para o exterior, trabalham duro e alcançam um patamar muito mais alto na comunidade acadêmica, mas pertencem a instituições estrangeiras. Por outro lado, mesmo estando fora da China, esses pesquisadores mantêm ligações com seus antigos professores, colegas e amigos. O fluxo de informações entre os que estão dentro e os que estão fora da China é muito fácil, principalmente por causa da Internet. Além disso, os pesquisadores chineses que trabalham no exterior constroem sua própria comunidade acadêmica lá fora, e isso pode ser útil para os colegas que estão na China.

Então a saída de cientistas não é totalmente um problema?
Depende de como se define "problema". Muitos especialistas deixaram a China na última década. Eles simplesmente saíram. É uma pena que não trabalhem lá. Mas a pesquisa científica não tem fronteiras. Do ponto de vista do mundo acadêmico, não há limites para explorar, para buscar a verdade do mundo natural, dos seres humanos. Isso é uniforme, é uma língua comum em qualquer lugar. Se um pesquisador faz uma descoberta, ele dá uma contribuição para a ciência. Nesse sentido, não é um problema.

O governo chinês investe em pesquisa e desenvolvimento nas empresas?
Sim. Este é um novo fenômeno. Antigamente, só as universidades e academias de ciência recebiam dinheiro do governo para pesquisa. Nos últimos anos, o governo se deu conta de que as empresas também são setores muito importantes para fazer inovação e abriu alguns fundos voltados para elas.

As multinacionais que foram para a China instalaram centros de pesquisa e desenvolvimento no país?
Não tenho dados exatos sobre isso, mas sei que algumas empresas estrangeiras estabeleceram suas próprias faculdades. A sueca Ericsson, por exemplo, tem um escritório em Pequim e também uma faculdade, onde treina sua equipe.

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