29/10/2010

Centro de Pesquisa da Petrobras

Desenvolvimento tecnológico de fornecedores é ponto de "atenção" da petrolífera, diz gerente do Cenpes; tamanho do centro dobrou

O Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), instalado ao lado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na capital fluminense, acaba de passar pela sua maior ampliação desde que foi criado nos anos 1960. Com isso, o complexo na Ilha do Fundão passou a ocupar mais 300 mil metros quadrados, tornando-se um dos maiores centros de pesquisa aplicada do mundo e duplicando a capacidade de fazer P&D da empresa. O investimento na ampliação foi de R$ 1,2 bilhão, para atender às novas áreas de negócios observadas pela Petrobras desde que ela se definiu como uma empresa de energia, e não apenas de petróleo e gás. A empresa está entrando em áreas como biocombustíveis e biotecnologia, retomou seu interesse pela petroquímica e conta com os novos desafios tecnológicos impostos pela exploração do petróleo na camada de pré-sal. A estrutura do Cenpes não daria conta das atividades de pesquisa e inovação necessárias para o novo contexto.

Como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou na cerimônia de inauguração das novas instalações do Cenpes, em 7 de outubro, o valor de mercado da Petrobras, que era de US$ 15 bilhões em 2003, foi para US$ 220 bilhões neste ano, o que, de acordo com o presidente, coloca a Petrobras como a segunda maior empresa de petróleo do mundo, atrás apenas da Exxon. A área de P&D também cresceu e a ampliação do Cenpes é apenas um indicador do aumento das atividades de P&D da empresa que mais investe nessa área no Brasil. Os investimentos em P&D cresceram cinco vezes do início da década para agora, segundo Carlos Tadeu da Costa Fraga, gerente executivo do Cenpes. Formado em engenharia civil pela UFRJ, em 1980, pós-graduado em Engenharia de Petróleo pela Universidade de Alberta, no Canadá, em Gestão de Empresas pela Universidade de Columbia, Nova York, Gestão da Tecnologia da INSEAD, na França, e Liderança Estratégica na London Business School, no Reino Unido, ele passou por vários cargos na Petrobras antes de assumir a gerência do Cenpes. Foi gerente geral de produção da Bacia de Campos, líder de operações da Petrobras no Golfo do México e gerente executivo de exploração e produção no Brasil, cuidando de todas as atividades de exploração e produção nas bacias de Campos, Santos e Espírito Santo. Desde fevereiro de 2003, Fraga é o gerente do Cenpes, responsável por todas as atividades de P&D da empresa.

Nos últimos três anos, o orçamento do Cenpes tem ficado na casa dos US$ 800 milhões anuais (R$ 1,3 bilhão), o que totaliza R$ 4 bilhões no período, incluindo o R$ 1,2 bilhão aplicado nas obras de ampliação do Cenpes e na compra dos equipamentos para os laboratórios. Nesse valor não está contabilizada a contribuição da Petrobras para o fundo setorial do petróleo, o CT-Petro, um dos 15 fundos setoriais geridos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Para 2010, a lei orçamentária destinou R$ 122 milhões para execução do CT-Petro, que só perde, em valor, para outros dois fundos setoriais, o CT-Infra, que apoia a modernização e criação de novas infraestruturas das universidades e institutos de pesquisa, e o CT-Verde-Amarelo, que apoia projetos de inovação tecnológica feitos por universidades, mas em parceria com empresas, e mecanismos como a subvenção e a equalização da taxa de juros para financiamentos concedidos pela Finep para as empresas.

A Petrobras tem ampliado também os esforços em P&D cooperativo. Começou fortalecendo a parceria com universidades e institutos, por meio das chamadas redes temáticas, criadas em 2006. A empresa identificou 50 temas estratégicos para seus negócios e selecionou os potenciais colaboradores para cada tema entre as instituições acadêmicas nacionais. Hoje, cerca de 100 instituições nacionais de P&D participam das redes. "Para cada pesquisador da Petrobras, temos dez pesquisadores de universidades ou institutos trabalhando em projetos contratados pela Petrobras", destaca Fraga, em entrevista a Inovação concedida por telefone, no dia 22 de outubro, a Janaína Simões, no qual fala também da estratégia de aproximar seus fornecedores da academia.

Como é organizado o Cenpes?
O Cenpes é centro cativo de pesquisa da Petrobras criado na década de 1960 e inaugurado no início dos anos 1970. Além dessa estrutura no Rio de Janeiro, temos sítios experimentais em escala semi-industrial destinados a temas específicos que também estão sob minha coordenação: biolubrificantes, em Fortaleza (Ceará); biocombustíveis, em Guamaré (Rio Grande do Norte); tecnologias de produção, em Aracajú (Sergipe); tecnologias de construção de postos (Recôncavo Baiano); tecnologias de separação de gás carbônico (Recôncavo Baiano); e tecnologias de refino, em São Mateus do Sul (Paraná). Temos equipes alocadas em cada uma dessas instalações, com coordenação local e comunicação em tempo real conosco no Rio. São sítios onde realizamos experimentos de maior porte, já reproduzindo as operações em escala industrial. E praticamente duplicamos nossa capacidade experimental com a ampliação do Cenpes no Rio.

Qual o orçamento do Cenpes?
O orçamento atual, que vem se mantendo há três anos, tem sido de US$ 800 milhões por ano. Nesse valor estão inclusos todos os investimentos feitos, inclusive os feitos por obrigação contratual [existente nos contratos de exploração — Nota da E.]. O recurso que a Petrobras recolhe para União e alimenta o CT-Petro não está nesse valor, porque é tributo, mas estão incluídos os valores que a Petrobras aporta como contrapartida em projetos do CT-Petro. Nesse caso, falo de projetos executados pelas universidades que são de nosso interesse e que achamos que vale a pena colocar mais recursos. A decisão de aporte dos recursos que vão para o CT-Petro não é nossa, mas do comitê gestor do fundo [a Petrobras tem representante no comitê — Nota da E.].

Quantas pessoas trabalham para o Cenpes, incluindo as unidades fora do Rio de Janeiro?
Temos 1.610 pessoas, a maior parte trabalhando na Ilha do Fundão. São cerca de 800 pesquisadores e 400 engenheiros de desenvolvimento, que transformam as ideias em projeto industrial. O restante são pessoas de suporte, operando laboratórios, mantendo as plantas industriais, atuando no administrativo. Para cada um desses 800 pesquisadores do Cenpes, temos 10 pesquisadores nas universidades ou institutos de pesquisa trabalhando em temas associados à nossa carteira, em projetos contratados pela Petrobras. Um estudo feito pelo Ipea [Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada] mostrou essa relação.

O Cenpes faz pesquisa básica?
Fazemos essencialmente pesquisa aplicada. Eventualmente apoiamos projetos de pesquisa básica em universidades e institutos, mas majoritariamente a carteira é de pesquisa aplicada.

Como é a relação da Petrobras com seus fornecedores, no que se refere à inovação? Praticam o conceito de inovação aberta?
Temos dado ênfase crescente a desenvolvimento de projetos em conjunto com outros atores. Se olharmos os três últimos anos, veremos que dos US$ 2,4 bilhões aplicados em P&D, 56% foram direcionados para projetos cooperativos, com universidades ou fornecedores, da seguinte forma: 20% foram para projetos desenvolvidos com fornecedores nacionais e os 36% restantes desenvolvidos com instituições acadêmicas majoritariamente nacionais. Tem sido cada vez maior, e esse é um movimento mais recente, a Petrobras promover o desenvolvimento de projetos feitos em parceria entre nossos fornecedores e academia, independentemente da participação da Petrobras, inclusive com fomento da empresa para esses projetos.

O nível de desenvolvimento tecnológico da cadeia do petróleo é um complicador para a Petrobras, diante das exigências em inovação e tecnologia demandadas pela exploração do pré-sal?
Diria que não é um complicador, mas é um ponto de atenção. Há um diagnóstico claro, já feito pelo Prominp [Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural], no qual a Petrobras tem participação ativa. Esse programa mapeou diversos gargalos existentes na cadeia de fornecedores de bens e serviços e alguns desses gargalos têm aspectos tecnológicos. A boa notícia é que já existem ações em curso, inclusive do fundo setorial do petróleo [CT-Petro], direcionando recursos para que esses gargalos sejam superados. Recentemente a Finep lançou dois editais [neste ano, a Finep lançou dois editais envolvendo o pré-sal, um de R$ 100 milhões para projetos em cooperação com empresas, e outro de R$ 30 milhões para infraestrutura em laboratórios em que uma empresa pode entrar com parceira, se houver interesse — Nota da E.], com recursos vultosos, direcionados exatamente para fornecedores de bens e serviços da cadeia de petróleo, em temas identificados como gargalos tecnológicos pelo Prominp. Esses dois editais promovem a aproximação das empresas da cadeia com a academia.

A capitalização recente da Petrobras vai aumentar o volume de recursos para P&D?
A Petrobras aumentou seu portfólio de acionistas e, ao fazer isso, obteve recursos para cumprir seus planos de investimento que, de outra forma, seriam obtidos junto ao mercado financeiro, como dívida, por exemplo. Esses recursos vão contemplar todos os tipos de investimentos: poços, plantas industriais, P&D. Não tem um dinheiro carimbado para P&D, isso vai para o cofre da companhia para que ela possa honrar seus planos de investimento. Temos o orçamento de P&D da companhia, na casa dos US$ 800 milhões, e uma política da companhia de longa data que estabelece que a empresa deve investir, no mínimo, 1% do seu faturamento em P&D. Os investimentos em P&D cresceram cinco vezes do início da década para agora, do mesmo jeito que cresceu 5% o investimento em P&D nas universidades. Hoje, nosso patamar de investimento em P&D se situa entre os cinco maiores investimentos em P&D em energia no mundo.

A Petrobras tem se preocupado com a atração de centros de pesquisa de empresas do exterior para o Brasil. Por que a empresa está fazendo essa política?
A Petrobras vem trabalhando a algum tempo na fronteira das tecnologias disponíveis. Desde as nossas modificações nas refinarias ao avanço em exploração de petróleo em águas profundas, temos sido líderes em desenvolvimento tecnológico em diversos temas da indústria de petróleo. Para conseguir essa posição de liderança, temos a integração e cooperação externa como forte vetor. O pré-sal dá uma escala que garante para a gente aumentar o relacionamento com esses atores. Eles têm interesses comerciais por conta da escala do pré-sal e nós temos interesse que eles desenvolvam aqui no Brasil, inclusive compartilhando com as universidades brasileiras, as inovações que vamos demandar.

Como a Petrobras definiu que áreas seriam beneficiadas, com a construção de novos laboratórios, na expansão do Cenpes?
O Cenpes foi construído quando a Petrobras tinha um porte muito menor do que o atual. O conjunto de desafios tecnológicos da época também era bem diferente dos de hoje. Precisávamos expandir nossa capacidade em temas hoje muitos mais relevantes. Das 10 novas alas de laboratórios, cinco são destinadas ao pré-sal. Também investimos nessa expansão na área de petroquímica, tema que a Petrobras colocou muito fortemente em sua carteira; em biotecnologia, uma área de enorme desenvolvimento recente e com número grande de potenciais aplicações inovadoras em nosso negócio; em reuso e redução de consumo de água, pois é um recurso mais crítico para nossa indústria e cada vez menos abundante no planeta; tecnologias de mitigação de impactos ambientais, como as emissões de gases de efeito estufa; e biocombustíveis. São áreas de prioridade, que ganharam muita ênfase na companhia. Não tínhamos laboratórios adequados para os desafios presentes e a expansão foi direcionada para isso, obviamente.

Falando em biocombustíveis, como estão os estudos com a planta-piloto para produção de etanol a partir de celulose?
Temos essa planta-piloto operando desde 2007, com resultados muito bons. Porém, não só nós, mas toda a indústria, em nível mundial, ainda está um pouco distante de atingir a escala comercial de produção de etanol usando essa tecnologia. Como usamos o modelo de open innovation, estamos observando o que ocorre no mundo. Identificamos rotas tecnológicas que podem ser complementares às nossas, propriedade intelectual de terceiros, e firmamos um acordo para que possamos aportar esse conhecimento o mais rápido possível para acelerar ainda mais nosso processo interno.

Por que a Petrobras decidiu firmar o acordo com a empresa KL Energy Corporation (KLE), dos Estados Unidos, se já tem uma planta-piloto no Rio?
A planta dos EUA é de maior porte, o que nos dá ganho de tempo enorme no scale up. Ao invés de construir uma planta de maior porte, vamos usar uma já existente, modificada para o nosso processo. Estamos nos aproximando do ponto da atratividade comercial dessa tecnologia. Isso é uma corrida, queremos acelerar o processo, por isso as parcerias.
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