Por Juliana Ewers

Trabalho duro, estar sempre em movimento, energia, gosto por aprender, inconformismo, inquietação, disciplina, curiosidade, visão de longo prazo, fazer a diferença e estar nessa pelo jogo, não exclusivamente pelo dinheiro. Foram essas as semelhanças identificadas pela jornalista e escritora Cristiane Correa ao tratar dos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles, Beto Sucupira e Abílio Diniz, em sua palestra ministrada no dia 22 de setembro, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Autora dos livros Sonho Grande, que narra a trajetória dos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sucupira, proprietários da ABInbev, Lojas Americanas, Burguer King e Kraft Heinz, e Abílio, uma biografia sobre o empresário brasileiro Abílio Diniz, expoente do varejo global; Cristiane Correa traz na bagagem a experiência de doze anos como editora-executiva da revista Exame.

Foi ainda nessa época que o perfil dos três primeiros despertou a curiosidade da jornalista. “Parecia uma lavagem cerebral”, disse ela sorrindo. “Em todas as entrevistas, sempre ouvia palavras como: meta e meritocracia. E eles, ainda que ocupassem os cargos mais altos dentro das empresas, apareciam para as entrevistas de camiseta de manga curta, calça jeans, falavam palavrão. Era engraçado. Eu vi que ali existiam histórias diferentes e uma cultura muito agressiva”, contou Cristiane. Foi então, em 2007, que ela sugeriu a Lemann, Telles e Sucupira a produção de sua primeira obra.

A primeira resposta foi uma negativa. “Não tenho saco para isso”, foi essa a resposta imediata de Lemann em um e-mail que Cristiane estava copiada. “Mas, sabe como é, né? Jornalista é uma raça pentelha, e como a partir daquele dia eu tinha o e-mail do Jorge Paulo Lemann nas mãos, decidi que seria uma pessoa insistente”, relembra a jornalista.

E bota insistente nisso. O livro só foi publicado em 2013. E, nesse tempo, ela entrou até para a aula de tênis para ajudar no processo de convencimento – Jorge Paulo Lemann pratica o esporte e ela também pegou gosto. Disse, inclusive, que joga até hoje.

Sonho Grande foi lançado em abril de 2013 e ficou 118 semanas na lista da revista Veja, entre os mais vendidos. Foram mais de 300.000 exemplares vendidos no país. A obra foi lançada também nos Estados Unidos, China e Coreia.

Depois da primeira publicação, era hora de decidir quem seria o próximo empresário de sucesso a ser tratado em livro. Entre as exigências da escritora estavam: um personagem de alcance nacional e com histórias que pudessem ensinar e motivar mais pessoas. “Foi aí que me veio o Abílio Diniz à cabeça”, afirmou.

Para Cristiane, Abílio Diniz pode ser considerado a melhor definição de self-made man. Vindo de uma família modesta, sem muito luxo, ele construiu um império a partir de uma doceira do pai dele, Valentim dos Santos Diniz. Hoje, o Pão de Açúcar é o maior varejista do País e “vale dezenas de bilhões de reais”.

“Polêmico, Abílio é do tipo ame-o ou odeie-o. Ele fala o que vem na cabeça e sempre gostou muito de política”, descreveu a jornalista.

Um episódio que retrata bem o perfil de Abílio nos remete aos anos 1990, quando o Pão de Açúcar, que era uma empresa familiar, enfrentou “uma crise tão brava, que o pedido de concordata estava quase escrito”, conta Cristiane. “Estava muito próximo de quebrar.”

Foi então que Abílio afastou os irmãos e fez a maior reviravolta em uma empresa nacional. Se não estava rendendo, fechavam o negócio. E foi assim que Abílio passou de 600 para pouco mais de 200 lojas da rede Pão de Açúcar. O número de funcionários, por sua vez, foi reduzido a um terço. “O lema era: ‘corte, concentre e simplifique’. E deu certo.”

Retomando as características marcantes dos empresários de sucesso, a busca por fazer a diferença é um dos pontos fortes de Abílio. Nos anos 1960, “quando o varejo brasileiro mal podia ser chamado de varejo”, por ser tão incipiente, Abílio já estava preocupado em fazer benchmarking. Naquela época, ele já fazia viagens de reconhecimento ao redor do mundo. Em 1960, ele chegou a ir para a Suécia ver uma esteira que era utilizada em um mercado. “São em exemplos como esse que vemos a ambição dele de fazer a coisa dar certo realmente. Ele não entrou no mercado olhando para o próprio umbigo, ele sempre esteve atento para o mundo”, comentou a jornalista.

Durante as entrevistas para o livro, a primeira mulher de Abílio disse que, logo após o casamento, eles tiveram quatro meses de lua de mel. “Adivinha o que ele fez nesse tempo? Visitou lojas com a esposa todos os dias. Essa é outra característica muito comum entre os empreendedores que deram certo e que eu conheço. Eles não desligam. O cara gosta do jogo, gosta de ver seu negócio crescer.”

Abílio Diniz tem hoje 78 anos. É bilionário, um dos homens mais ricos do Brasil. Pensando assim, o que você acha que ele decidiu fazer após sua saída do Grupo Pão de Açúcar em 2013? Continuar trabalhando, claro! Hoje, ele é o quatro maior acionista do Carrefour no mundo, é presidente do Conselho da BRF e tem a Península, uma empresa de investimentos.

“O empreendedor está sempre em movimento. Não tem linha de chegada. A barra de exigência sempre vai subir, na busca de algo mais impactante e com menor gasto. Ser empreendedor é ser um inconformado”, disse Cristiane.

Para a produção do primeiro livro, relembra a jornalista, ela entrevistou Waren Buffet, o terceiro homem mais rico do mundo. “Eu lembro que ele marcou comigo em um sábado de manhã. E uma das minhas perguntas foi essa: ‘você trabalha aos sábados?’. Ele disse assim: ‘ah, quando tem um jogo de futebol bom, eu até assisto. Caso contrário, eu venho para o escritório sim’.”, relembra. Na ocasião, Buffet já tinha completado seus 83 anos.

“Eles estão nessa não pelo dinheiro, mas pelo jogo. O Waren Buffet mora na mesma casa há quarenta anos. O Jorge Paulo Lemann, há 30 anos. Eles não fazem isso para vestir Chanel, fazem isso porque realmente gostam. Entendem?”, enfatizou a jornalista.

O gosto por aprender também faz parte desse perfil empreendedor. Apesar de estar próximo dos 80 anos, Abílio nem pensa em parar de aprender. Pratica natação, musculação e corrida. E, há dois anos, decidiu que queria aprender nada mais nada menos do que: piano. “Dá para acreditar? Piano é um instrumento muito difícil e mesmo assim, Abílio está empenhado em aprender. Os empresários sempre têm curiosidade, o gosto pelo novo”, analisou Cristiane.

No caso de Paulo Lemann, essa curiosidade ficou estampada em um episódio quando a jornalista ainda trabalhava na revista Exame. “Certa vez, fui conhecer um Centro de Treinamento de Executivos da GE no exterior, que é muito renomado. Eu sempre soube que educação é uma das bandeiras de Lemann, justamente por isso encaminhei a reportagem que tinha rendido exatas dez páginas na Revista Exame. Ele me retornou o e-mail questionando se ele poderia mandar algumas perguntas, pois tinha ficado muito interessado no assunto. Adivinha quantas eram as dúvidas dele? Vinte perguntas. Algumas delas não tinham nem ao menos passado pela minha cabeça na hora da entrevista. Ou seja, para eles boas ideias podem surgir de qualquer lugar e eles nunca perdem a oportunidade de aprender.”

A perda nesse caminho é que Abílio não criou uma cultura de sucessão dentro da empresa, diferentemente de Lemman, Telles e Sucupira. “Os três hoje não administram mais diretamente as empresas, mas lá têm pessoas que seguem a cartilha deles. No caso do Pão de Açúcar, quando Abílio saiu (após acordo com o grupo francês Casino), a rede claramente mudou. Resguardadas as devidas proporções, compararia o Abílio ao Steve Jobs. Ele é genial e é algo dele, funciona com ele e para ele.”

A imagem do empresário

Na opinião de Cristiane, a imagem do empresário vem mudando ao longo dos anos. “Há não muito tempo atrás, pode-se dizer que era comparável a imagem que os políticos têm. Há dez anos, a palavra empreendedorismo não existia. Nesse tempo, houve uma mudança na percepção da sociedade. Ganhar dinheiro não é pecado. E isso gera, sem dúvida, um estímulo, motiva as pessoas a buscar o seu também”, analisou.

O problema, segundo Cristiane, é que empreendedorismo tem uma visão muito romanceada no Brasil, como se empreender fosse fácil ou significasse “trabalhar pouco e ganhar muito dinheiro da noite para o dia” . “Não é assim. Muito provavelmente, você vai ser a pessoa que mais vai trabalhar na sua empresa para que ela dê realmente certo. Empreendedorismo exige entrega e determinação”, salientou.

Por isso, a jornalista afirma: empreendedorismo não é algo para todo mundo. “Isso não quer dizer que trabalhar em uma empresa não vai dar certo. É uma coisa de perfil. A questão é: as pessoas têm que querer fazer a diferença. E ter vontade. Infelizmente, são inúmeros os casos de gente que vai para o trabalho e fica enrolando durante as oito horas por dia que passa no escritório. Sério mesmo que você vai fazer isso? É inacreditável, mas existe.”

É preciso enxergar oportunidades. “Na vida da gente, sempre passam os cavalos selados. E nós temos que ir observando, enquanto vamos tocando a vida, nos preparando. O negócio é reconhecer qual é o seu cavalo. Porque, quando ele passar, você tem que agarrar, montar nele, porque o bicho é seu. E é assim que as coisas dão certo”. Foi com essa história, contada certa vez por Marcel Telles, que Cristiane Correa finalizou sua palestra.

 A autora Cristiane Correa

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, tem especialização em Publishing pela Universidade Yale. Em 2013, foi eleita pela revista Época como uma das personalidades mais influentes do Brasil.

cms-image-000443580

Sonho Grande

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juliana Ewers

Juliana Ewers é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e possui especialização em Gestão de Comunicação com o Mercado, pela Esamc. Atuou como repórter do Jornal Metro e do Grupo Bandeirantes de Comunicação . É editora assistente da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I .