04/02/2011

Momento Sputnik

Precisamos ser mais inovadores, melhor educados e ter melhor infraestrutura que o resto do mundo, diz Obama ao Congresso dos EUA

Guilherme Gorgulho
A inovação foi o principal mote do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no discurso do Estado da União (clique aqui para ler a íntegra, em inglês) — que anualmente é feito no Congresso norte-americano — para estimular a ciência e a tecnologia e buscar reconquistar o espaço perdido nos últimos anos para competidores globais como os europeus, em infraestrutura, os chineses, nos transportes, e os sul-coreanos, em acesso à internet. Para Obama, o atual momento equivale à corrida tecnológica decorrente do lançamento do satélite Sputnik pelos soviéticos em 1957.
 
"Há dois anos, eu disse que nós precisávamos alcançar um nível de pesquisa e desenvolvimento que não víamos desde o auge da corrida espacial. Em poucas semanas, eu mandarei um orçamento ao Congresso que nos ajudará a atingir esse objetivo", afirmou o presidente no pronunciamento feito no dia 25 de janeiro. "Nós investiremos em pesquisa biomédica, tecnologia da informação e, especialmente, tecnologias de energia limpa — um investimento que vai fortalecer nossa segurança, proteger nosso planeta e criar inúmeros empregos novos para nosso povo."
 
Corrida pela inovação
 
Obama citou o exemplo de países como a China e a Índia, que perceberam a possibilidade de se tornarem mais competitivos no mercado mundial com algumas mudanças internas e investimento em educação para formar profissionais com uma ênfase maior em ciências e matemática. Segundo ele, esse maior investimento em pesquisa e novas tecnologias resultou, no caso chinês, na criação da maior estrutura privada de pesquisa em energia solar e na construção do computador mais veloz do mundo.
 
No discurso, ele lembrou que os EUA já foram líderes mundiais em infraestrutura, mas que perderam o posto. "As casas sul-coreanas têm hoje mais acesso à internet do que nós. Países na Europa e a Rússia investem mais em suas estradas e ferrovias do que nós. A China está construindo trens mais velozes e novos aeroportos. Enquanto isso, quando nossos engenheiros avaliaram a infraestrutura do nosso país, eles nos deram uma nota D", lamentou.
 
Fatia da produção científica mundial

Recentes estudos apontam o avanço dos países emergentes no ranking da produção científica mundial, à medida que líderes tradicionais, como os EUA, vêm perdendo posições. Também em relação aos europeus, os norte-americanos estão se distanciando em C&T, com base em indicadores bibliométricos. Segundo estudo do grupo de mídia Thomson Reuters divulgado em novembro de 2010, os cientistas dos EUA eram responsáveis por quase 40% dos artigos publicados nos mais influentes periódicos em 1981. Em 2009, esse índice caiu para 29%. Já as publicações da Europa, no mesmo período, cresceram de uma fatia de 33% para 36%. Entre 1981 e 2009, a contribuição dos asiáticos para a produção científica subiu ainda mais, de 13% para 31%, ultrapassando os norte-americanos.

O estudo Global Research Report: United States (Relatório de Pesquisa Global: Estados Unidos) dá destaque para o impressionante avanço da China, que no período avaliado cresceu de uma participação de 0,4% para 10,9%, tornando-se responsável pela segunda posição na lista da produção científica mundial, atrás apenas dos EUA. O relatório mostra ainda que os EUA concentraram seus investimentos em pesquisas relacionadas a saúde e ciências biomédicas, relegando a um segundo plano as ciências físicas e as engenharias. Enquanto isso, os asiáticos voltaram seu foco para fortalecer sua base industrial, concentrando recursos em ciências de materiais e engenharias, por exemplo.

Prioridade, mesmo com riscos

No discurso no Congresso, o presidente norte-americano declarou que o "primeiro passo" para se conquistar uma posição de destaque no futuro é estimulando a inovação, mesmo que isso implique nos riscos intrínsecos à atividade. Ele lembrou que o lucro nem sempre é o resultado final dos investimentos feitos pela iniciativa privada em pesquisa básica, mas que, para suprir essa dificuldade, o governo, ao longo da história, concedeu os devidos incentivos para cientistas e inventores de destaque. "Isso é o que plantou as sementes para a internet. Isso é o que ajudou a tornar possíveis coisas como os chips de computadores e o GPS", lembrou Obama.

Classificando a situação atual como o "momento Sputnik" da sua geração, o democrata disse que, quando os soviéticos foram bem-sucedidos na corrida espacial, há meio século, a Nasa (agência espacial norte-americana) nem sequer existia. "Mas depois de investir em pesquisa e educação de melhor qualidade, nós não apenas superamos os soviéticos; nós desencadeamos uma onda de inovação que criou novas indústrias e milhões de novos empregos."

Foco em energia limpa

As "tecnologias verdes" estiveram presentes também no pronunciamento aos parlamentares. Obama disse que o país pode vencer a dependência de petróleo com mais pesquisa e incentivos, substituindo os combustíveis fósseis por biocombustíveis e tornando-se o primeiro país a contar com um milhão de carros elétricos rodando nas estradas até 2015. O presidente pediu que o Congresso acabe com os bilhões de dólares em subsídios oferecidos às companhias petrolíferas para modificar a matriz energética dos EUA e passe a subsidiar a "energia do futuro".

A meta estipulada pelo governo é ter 80% da eletricidade do país sendo gerada por fontes limpas, como energia solar e eólica, entre outras, até 2035. "Alguns querem a energia solar e a eólica, outros querem a nuclear, carvão limpo e gás natural. Para atingir esse objetivo, nós precisaremos de todos eles, e eu conclamo democratas e republicanos para trabalharem juntos para fazer com que isso aconteça", disse Obama.

Na conclusão de seu discurso, o presidente estimou que, nos próximos dez anos, praticamente metade de todos os novos empregos criados exigirá uma formação além do ensino médio e que, atualmente, mais que um quarto dos estudantes norte-americanos não está sequer terminando essa etapa da formação. "Mas se nós quisermos conquistar o futuro, se nós quisermos que a inovação gere empregos na América e não no exterior, então, nós também temos que vencer a corrida para educar nossas crianças." "Precisamos ser mais inovadores, melhor educados e ter melhor infraestrutura que o resto do mundo", disse o presidente.
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