02/07/2012

Polêmica

Parlamento Europeu debate financiamento de pesquisas com células embrionárias

Definição do programa de apoio à ciência Horizon 2020 reabre discussão sobre uso de verba da UE

A preparação do novo programa europeu de financiamento à pesquisa científica, o Horizon 2020, está reabrindo o debate, no bloco, sobre o financiamento público de pesquisas científicas realizadas com células-tronco embrionárias, informa o site da revista Times Higher Education (THE). Eurodeputados ligados a causas religiosas gostariam de ver as verbas para o setor reduzidas.


Eles argumentam com base numa decisão, tomada ano passado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, que proibiu o patenteamento de tecnologias desenvolvidas a partir da destruição de embriões humanos. Citado pela THE, o eurodeputado eslovaco Miroslav Mikolášik questionou: “Se um dos principais incentivos à competitividade da UE são pesquisas que geram patentes, como poderíamos financiar pesquisas que não são patenteáveis?” Defensores do setor, no entanto, argumentam que os procedimentos ainda podem ser patenteados nos EUA e em outros importantes mercados.


Outra fonte de argumentos para os deputados que gostariam de ver o fim das verbas para as pesquisas com células embrionárias vem do anúncio, feito no fim de 2011, de que uma empresa pioneira do setor, a americana Geron, abandonaria suas pesquisas com material de embriões.


Os deputados contrários aos estudos veem isso como sinal de que outras estratégias, como as células de pluripotência induzida – semelhantes às células-tronco embrionárias, mas criadas a partir da modificação genética de células humanas adultas – já estão sendo encaradas como mais promissoras pela comunidade científica.


A movimentação dos deputados contrários às pesquisas, no entanto, provocou uma reação de grupos de defesa dos direitos de pacientes e de órgãos financiadores privados. Especialistas lembraram que avanços como as células pluripotentes só foram possíveis por causa de estudos anteriores feitos com células embrionárias, e que ainda há muito a descobrir na área. Atualmente, estão em andamento os dois primeiros testes clínicos, em todo o mundo, de terapias envolvendo células embrionárias.


O diretor do Centro de Pesquisas com Células-Tronco do Wellcome Trust, em Cambridge, Austin Smith, disse que a União Europeia é pluralista. “As pessoas não deveriam poder impor suas visões fundamentalistas à comunidade inteira”, declarou, citado pela THE.


O pesquisador Outi Hovatta, do Institito Karolinska da Suécia, disse que o envolvimenhto da UE é importante porque viabiliza parcerias internacionais. “Não podemos fazer tudo sozinhos, em pequenos países, como Suécia e Finlândia. Precisamos dos consórcios”. Outro representante do Wellcome Trust, David Lynn, disse que um corte no financiamento enviaria uma mensagem preocupante à comunidade científica. “Poderíamos dar a impressão de que a Europa não está mais aberta para os negócios nessa área”.


Sob o programa atual de apoio à investigação científica, a Comissão Europeia, braço executivo da UE, aplica € 107 milhões (R$ 277 milhões), ao longo de sete anos. Pelas regras hoje em vigor, a União pode financiar os estudos nos países-membros onde esse tipo de pesquisa é legal (20 dos 27), mas as verbas não podem ser usadas em atividades que destroem embriões, como a criação de novas linhagens de células. Em alguns países, a criação de linhagens é ilegal, e os pesquisadores têm de importar o material.

 

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