30/04/2010

Conferência Anpei

Inserção internacional pequena de empresas brasileiras é gargalo para inovação; e macroeconomia importa, conclui mesa-redonda

Gargalos relacionados à política macroeconômica continuam inibindo os investimentos em inovação, apesar da criação dos novos instrumentos de apoio às atividades de pesquisa e desenvolvimento das empresas, apontaram especialistas participantes da mesa sobre "As contribuições do setor privado à inovação", na X Conferência Anpei de Inovação Tecnológica, promovida pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), na cidade de Curitiba, Paraná, entre os dias 26 e 28 de abril. Outro fator persistente a atrapalhar a inovação é a pouca inserção das empresas nacionais na economia global. Ainda mais voltadas ao mercado interno por causa da crise econômica, elas não estão expostas ao ambiente extremamente competitivo do mercado global, onde a inovação é um elemento chave para a sobrevivência e a conquista de novos clientes. Um dos problemas está no fato de a política de comércio exterior do Brasil ainda ser pouco casada com as políticas industrial e de inovação, expressas na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP).

Um indicador que mostra como a macroeconomia afeta os investimentos em inovação é a correlação entre os investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e a chamada formação bruta de capital fixo, a principal medida da taxa de investimento da economia nacional. O diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, analisou uma amostra de 24 países e notou que há uma correlação forte entre os dispêndios em P&D privados e a formação bruta de capital fixo da economia: ambos seguem a mesma trajetória, de aumento ou de queda, em 23 das 24 nações analisadas por ele. A exceção ficou para o Japão.

O diretor científico da Fapesp dividiu a mesa na manhã do dia 27 com o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Carlos Américo Pacheco, e com o co-fundador da Bematech, Wolney Betiol, empresa da área de tecnologia da informação e comunicação que fornece soluções e serviços de automação comercial, com sede em Curitiba e centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, Estados Unidos e Coreia do Sul. Quase 800 pessoas estiveram no encontro, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), e que teve "Cooperação para Inovação Sustentável" como tema geral.

A palestra de Brito Cruz

As apresentações da mesa sobre as contribuições do setor privado à inovação tiveram como objetivo subsidiar os participantes da Conferência Anpei na elaboração de propostas a serem encaminhadas pela entidade à 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, a se realizar entre 26 e 28 de maio, em Brasília. Os participantes tinham um roteiro de perguntas a ser respondidas e, com base nele, Brito, Pacheco e Betiol fizeram suas apresentações.

O diretor científico da Fapesp citou os principais gargalos da economia hoje, que afetam a inovação: a baixa qualidade do ensino e da escolaridade no Brasil, os juros altos, o real valorizado perante o dólar, o excesso de burocracia, os problemas de infraestrutura e os encargos tributários elevados. Para ele, o Brasil tem uma oportunidade com a importância crescente do tema sustentabilidade -- pelo fato de a matriz energética do País contemplar 47% de fontes renováveis, diferentemente da maior parte do mundo. Sobre a escolaridade, ele destacou o esforço espanhol, cujos jovens registram mais anos de escolaridade do que os estudantes da França ou Inglaterra.

Ao entrar no assunto de interesse mais direto da conferência, as atividades de P&D do setor privado, Brito destacou o esforço pioneiro da Anpei, que no final dos anos 90 começou a medir os investimentos das suas empresas associadas. A seguir, o governo lançou a Pintec, feita pelo IBGE. Foram três edições da pesquisa, em 2000, 2003 e 2005. "De lá para cá, estamos em voo cego, são seis anos sem medir nada", lembrou. O IBGE começou uma nova rodada da Pintec no segundo semestre de 2009. Os resultados devem sair entre final de junho e começo de julho deste ano. Para ele, não é possível entender melhor os efeitos dos incentivos do governo para inovação tecnológica ou até mesmo criticar as políticas públicas ou o comportamento empresarial sem ter medições periódicas de indicadores de seus impactos.  

Por causa da ausência de dados mais recentes, Brito fez um exercício: buscou um indicador que pudesse sinalizar a tendência do comportamento das empresas em relação às atividades de P&D. Comparou a formação bruta de capital fixo (FBCF) de 24 países, no período de 1981 a 2008, e relacionou o dado com o volume de investimento privado em P&D dessas mesmas nações. Em sua análise, encontrou forte correlação entre ambos: quando há crescimento na FBCF, eleva-se o investimento em P&D. A correlação mostra-se mais fraca no caso da Alemanha, Portugal e Japão. A hipótese do palestrante é que, no período, a Alemanha passou pela unificação e Portugal se inseriu na União Europeia. Brito não conseguiu encontrar explicação para o comportamento do Japão.

O diretor da Fapesp fez uma projeção para o Brasil, que tem dados da FBCF levantados periodicamente pelo IBGE, mas não tem a mesma informação para a atividade de P&D do setor privado. Utilizando a correlação encontrada entre FBCF e investimento em P&D e os dados da Pintec disponíveis, Brito projetou uma curva para o investimento, com base na correlação. Encontrou estagnação nos investimentos em P&D até 2001, queda entre 2001 e 2005, e um crescimento após esse período.

"Isso mostra como o ambiente econômico afeta a decisão de investir em P&D. A política pública de incentivo à inovação deve ser algo que se relaciona com o ambiente econômico geral, pode compensar um ponto desfavorável ou reforçar onde já estamos bem", destacou. Para ele, o que acontece em São Paulo mostra a relação entre a economia e a inovação. No Estado economicamente mais desenvolvido do País, 62% do total investido em P&D vem do setor privado, enquanto no Brasil esse indicador está em cerca de 50%. Se tirar São Paulo das estatísticas nacionais, o investimento privado em P&D na escala cai para 38%.

Ele identificou ainda a limitada exposição internacional das empresas do Brasil como uma restrição sistêmica. "Talvez um dos grandes motores [da inovação] seja a competitividade. A exposição mundial coloca as empresas para competir com quem procura as melhores oportunidades. Conviver com o mundo estimula fazer mais e melhor", comentou. Em relação a uma das perguntas centrais da Anpei -- o que deve ser feito para as empresas terem maior protagonismo na inovação --, Brito sugeriu que pensassem em medidas para tentar eliminar as restrições que impedem maior exposição internacional.

Brito falou de outra preocupação da Anpei, o acesso e melhoria dos instrumentos de incentivo à inovação. Segundo ele, os mecanismos disponíveis no Brasil são razoavelmente competitivos quando comparados aos existentes em outros países, mas nunca serão perfeitos. Também contou que o acesso a mecanismos semelhantes em outros países impõe as mesmas dificuldades às empresas, como a burocracia no preenchimento de formulários. Para ele, é importante ampliar a participação de setores representativos dentro do universo das empresas que inovam para que possam participar da formatação e ajustes das políticas públicas de apoio à inovação. Ele também destacou a pouca presença do venture capital no Brasil.

A apresentação de Carlos Américo Pacheco

O economista da Unicamp destacou que o correto diagnóstico sobre a baixa demanda pelos instrumentos de incentivo à inovação se deve à falta de cultura de inovação nas empresas, mas afirmou que isso é apenas parte da verdade. Ele acrescentou que a inovação precisa ser disseminada entre as empresas, mas há problemas sistêmicos e não é possível abstrair a macroeconomia, como se inovar fosse uma decisão tomada de forma independente ao contexto onde está inserida. Inovar, ressaltou ele, é uma decisão econômica das companhias.

Ele também afirmou que inovação é mais do que fazer P&D e deve ser vista como inovação em negócio, algo que crie valor para empresas e acionistas. Pacheco disse que a agenda para inovação só fará sentido se conseguir alavancar a competitividade das empresas. "Vemos um foco em projetos pontuais, hoje, no sistema de apoio à inovação, e uma ênfase ao apoio à P&D e não à inovação, cuja agenda precisa ser maior do que a agenda de P&D", apontou.

Concordando com Brito, o economista da Unicamp disse que as empresas no Brasil, historicamente, sempre foram mais voltadas ao mercado interno. Quando houve estratégia para buscar o mercado externo, o foco sempre foi a resolução de problemas relacionado ao déficit comercial, e não uma estratégia empresarial ou de governo em busca da internacionalização das empresas e da economia nacionais. "Temos uma dificuldade em fazer uma política de comércio exterior que dialogue com a política industrial e de inovação", diagnosticou.

Ele recordou que a política econômica atual olha para dentro do País, para o mercado interno, com políticas como a expansão do crédito para ampliar o consumo. A situação pode se consolidar com a emergência do pré-sal, pois os recursos gerados na sua exploração podem retirar a restrição externa da economia brasileira, promovendo uma folga cambial que reduza ainda mais a preocupação com a inserção internacional do Brasil.

Outro ponto de preocupação do professor da Unicamp está na compatibilização entre o quadro macroeconômico e a política de inovação. Ele defendeu na Conferência Anpei que é possível fazer a conciliação, procurando políticas públicas que compensem as desvantagens. Deu como exemplo a política para o setor agrícola, com créditos que não dependem da Taxa Selic, controlada pelo Banco Central e instrumento da política macroeconômica para manutenção de superávit primário.

Sobre os atuais instrumentos de incentivo à inovação, Pacheco identificou um "grave" problema. "Nossos instrumentos melhoraram, mas estão muito longe do que é preciso fazer para contornar as desvantagens", afirmou. Segundo ele, dois terços de todos os incentivos concedidos derivam da Lei de Informática; retirado esse valor, o Brasil concede incentivos em volume semelhante ao praticado pelo México, que seria um terço do que fazem Estados Unidos ou França. Para o economista, o sistema atual precisa ser reformado, pois hoje é muito concentrado: apenas 1.500 empresas foram apoiadas por recursos dos fundos setoriais em seus 10 anos de existência, 441 empresas se beneficiaram dos incentivos fiscais à inovação em 2008, e apenas 150 empresas usam a Lei de Informática. "O sistema é precário, em termos de volume e de recursos, o número de empresas atendidas é pequeno", completou.

A palestra de Wolney Betiol

O co-fundador da Bematech começou a apresentação com um desabafo sobre a maneira como os empresários aparecem na mídia: ligados a casos de corrupção, nos jornais, ou como golpista, nas telenovelas. "Não será assim que vamos gerar empreendedores", disse. A seguir, contou que encontrou um executivo da sul-coreana Hyundai e o questionou sobre qual seria a maior inovação da empresa. O executivo disse que foi a aquisição de parte do capital de revendedoras europeias quando a empresa decidiu entrar no mercado da Europa. Mesmo com o lançamento de carros da marca no continente, as vendas não aconteciam porque os revendedores europeus não compravam os produtos Hyundai para vender ao público. A solução foi a compra de parte do capital de revendedoras do continente. Betiol disse que não conseguiria dialogar com agência de fomento no Brasil para fazer algo parecido, uma inovação em negócio.

A Bematech já atua de forma internacional, com centros de P&D no Brasil (Paraná e São Paulo), nos Estados Unidos e na Coreia. Ele comparou um engenheiro brasileiro e norte-americano. O primeiro tem salário de US$ 130 mil por ano, contando encargos, trabalha 40 horas por semana, tem um mês de férias e é pouco motivado, cercado por problemas como a segurança e a educação dos filhos. Um engenheiro no Vale do Silício (EUA) recebe US$ 120 mil por ano, trabalha 60 horas por semana, tem uma semana de férias e trabalha motivado. Para complicar, no Brasil a justiça trabalhista é caótica e a legislação ultrapassada. Há geração de passivos trabalhistas que intimidam o empreendedorismo.

O empresário mostrou ainda um segundo comparativo, usando números da própria Bematech, de 2009. A empresa faturou R$ 397 milhões, e R$ 192 milhões sobraram, depois de pagos os fornecedores e parte dos impostos. Desses R$ 192 milhões, 40% foram direcionados para pagamento de impostos. A companhia investe 7% do faturamento em P&D anualmente. "Se uma empresa resolve ser apenas comercial, trazer algo fabricado na China para vender aqui, veremos um mesmo desenho. Só que essa empresa não investe em P&D", acrescentou. Ele concordou que os mecanismos de incentivo à inovação melhoraram, mas disse que beneficiam poucas empresas perto do número total de companhias no Brasil.

Por fim, o empresário apresentou algumas ideias, como as empresas que investem em P&D poderem postergar o pagamento de impostos por quatro anos e abater, do pagamento desses impostos, o valor que obteve a mais em seu faturamento. "Como a empresa cresceu, pagaria mais imposto, ampliaria o PIB e não haveria retirada de dinheiro da sociedade", disse. Ele também sugeriu que houvesse mais programas no estilo das bolsas Rhae Pesquisadores na Empresa, com mais recursos das empresas.

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