As pedras preciosas em cores vibrantes, vistas em joias adornadas com quartzo e topázio, por exemplo, não vêm prontas da natureza. As gemas passam por um processo chamado irradiação, que envolve uso de tecnologia nuclear, aplicada para acelerar um trabalho de coloração que a natureza demoraria muitos anos para concluir. A irradiação que dá cor a pedras preciosas pode ser igualmente aplicada em frutas, como manga ou mamão papaia, para que durem até 21 dias, podendo ser transportadas da área de cultivo mais remota para as cidades brasileiras e do exterior e ainda assim chegar em boas condições à mesa do consumidor. Mas não são só esses os potenciais em tecnologia nuclear no Brasil. Só a construção de sete novas usinas deve requerer investimentos da ordem de R$ 40 bilhões até 2030, com índice de nacionalização da usina de Angra 3, em construção, de mais de 50%, e das demais em 70%. Essas e outras oportunidades foram tema do 1o Encontro de Negócios de Energia Nuclear, organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), e realizado no dia 23 de novembro, em São Paulo.
Estudo do CGEE avaliando a cadeia de suprimentos para geração de eletricidade a partir de usinas nucleares, e que também avaliou o uso da tecnologia nuclear na medicina, na agricultura e em segmentos da indústria, mostrou que o Brasil pouco explora o potencial nesses setores, apesar de ser um entre três países — ao lado de Rússia e Estados Unidos — a dominar o ciclo completo do combustível nuclear, que vai da mineração do urânio até a obtenção da energia. O conhecimento e tecnologias nucleares desenvolvidos para o setor elétrico permitem que o País também se desenvolva em outras áreas da aplicação nuclear, como agricultura e saúde, mas a iniciativa privada é pouco presente nessas áreas. O Encontro teve como objetivo sensibilizar os empresários a respeito desses mercados. O Teatro Sesi, na sede da Fiesp, em São Paulo, foi ocupado por 390 pessoas, entre empresários e pesquisadores, interessados em ouvir os 16 participantes dos cinco painéis apresentados ao longo do dia.
O Plano Nacional de Energia (PNE) do governo brasileiro trabalha com cinco cenários de potência instalada no País até 2030. A energia nuclear, segundo o plano, passaria dos atuais 2,1% de participação para 3% no cenário mais conservador. Já na perspectiva mais favorável, a energia nuclear atingiria uma fatia de até 5% de participação na matriz energética nacional em 2030. O Programa Nuclear Brasileiro (PNB), retomado pelo atual governo em 2007, quando anunciou a decisão de construir Angra 3, prevê que, para atender as metas do PNE, será preciso R$ 40 bilhões de investimento ao longo dos próximos 20 anos. As obras de Angra 3 começaram neste ano e os investimentos são calculados em R$ 9,9 bilhões, com operação comercial prevista para iniciar em dezembro de 2015. Outras áreas estão sendo prospectadas no Brasil, em especial no Sudeste e no Nordeste, para instalação de mais seis usinas.
Odair Dias Gonçalves, presidente da CNEN, contou que o órgão, responsável pelo PNB, saiu de um orçamento da ordem de pouco mais de R$ 40 milhões no final dos anos 1990 para quase R$ 140 milhões no final da década de 2000. Segundo ele, 80% das atividades de pesquisa na área nuclear são feitas por instituições de pesquisa do governo, especialmente da Marinha, mas também com participação do Exército e Aeronáutica, e com menor presença das universidades.
Participação da iniciativa privada
Leonam dos Santos Guimarães, assessor da presidência da Eletrobrás Termonuclear/Eletronuclear, explicou aos empresários na Fiesp que o monopólio do Estado, na área nuclear, se dá exclusivamente sobre os materiais radioativos para produção do combustível nuclear, mas a iniciativa privada pode participar do setor de energia nuclear comprando ações da Eletrobrás, que é dona da Eletronuclear, empresa geradora de energia nesse segmento. "Energia nuclear e renovável não são concorrentes, há complementaridade entre elas, não são competidoras", ressaltou o assessor aos empresários da Fiesp. São Paulo é o maior produtor de cana-de-açúcar, etanol e eletricidade a partir da queima de bagaço de cana no Brasil e parte importante dos associados à Fiesp são empresários desse segmento.
Guimarães comentou também que 75% das reservas de urânio no mundo estão em apenas seis países — Austrália, Cazaquistão, Canadá, África do Sul, Namíbia e Brasil. No território brasileiro, as reservas somam 309.370 toneladas, ou 5,9% do total mundial, mas o volume pode ser maior porque o País não fez toda a prospecção do território. O Brasil pertence a um grupo de apenas sete países que têm reservas, dominaram a tecnologia de enriquecimento de urânio e a usam comercialmente — os outros são EUA, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha, Japão e Holanda. Atualmente o quilo do urânio custa US$ 150,00.
Apesar do domínio tecnológico destacado pelos órgãos do governo, o Brasil ainda depende do exterior para a etapa da conversão — fase entre a mineração e o enriquecimento do urânio, em que se converte o concentrado de urânio, chamado de yellow cake, em gás, o hexafluoreto de urânio. Este é encaminhado para o enriquecimento, operação que aumenta a concentração de urânio acima do natural para que ele possa ser usado como combustível para geração de energia elétrica nas usinas de Angra 1 e 2. A etapa de conversão é feita na França, pela empresa Areva, que tem contrato com a empresa Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para prestar o serviço. "Não temos instalações para fazer a conversão", disse Alfredo Tranjan Filho, presidente da INB.
No mundo, há 441 reatores, gerando 375 gigawatts (GWe) — 104 nos Estados Unidos e 59 na França —, responsáveis por 15% da matriz energética mundial. Há 58 usinas em construção e 481 em planejamento para serem construídas e entrarem em operação entre 2030 e 2050. Na China, são 23 em construção e 159 planejadas. Na Índia, quatro estão sendo levantadas e outras 60 em fase de planejamento. "A Coreia [do Sul] lançou seu programa [de usinas nucleares] no mesmo dia que o Brasil e tem seis usinas em construção [20 em funcionamento]", explicou Tranjan Filho.
A oportunidade para a iniciativa privada no setor de energia está na própria construção de Angra 3, pois o governo trabalha com um índice de nacionalização de 54% nessa obra, contra 50,4% da usina de Angra 2. E para as seis novas usinas planejadas pelo governo, o índice de nacionalização chega a 70%. "Precisamos de engenharia civil, de desenvolvimento de novos materiais. O empresariado já participa, mas temos necessidade de expansão [da participação do setor privado], muitas pequenas e médias empresas podem e têm capacidade para trabalhar no setor. Não é preciso ser uma empresa nuclear para participar desse mercado", enfatizou Odair Gonçalves, presidente da CNEN. "O ciclo do combustível é algo estratégico, é questão de segurança nacional, de competência do Estado e tutela da Marinha, mas, se dependermos exclusivamente do investimento estatal, vamos continuar avançando nesse ritmo atual, em que temos uma nova usina a cada 15 anos", alertou Carlos Antonio Cavalcanti, diretor titular do Departamento de Infraestrutura e Energia da Fiesp.
Gargalos em energia
Francisco Rondinelli Júnior, coordenador geral de Planejamento e Avaliação da CNEN, disse que as usinas de Angra 1 e 2, hoje, movimentam recursos da ordem de R$ 600 milhões ao ano. O negócio pode chegar a R$ 700 milhões com Angra 3 e a R$ 2,7 bilhões em 2030, caso o Brasil tenha sete usinas em funcionamento. Como pontos críticos, ele identificou o licenciamento dos empreendimentos a mobilização para atrair investimentos do setor produtivo, a produção de forjados de grande porte e de aços e ligas especiais de aplicação nuclear, grande parte importados, a gestão do poder de compra do Estado, a inexistência de uma rede de fornecedores, a indefinição na estratégia de desenvolvimento para a indústria nuclear, a necessidade de certificação, que encare produtos e processos, e a formação de recursos humanos para o setor. Ele defendeu uma maior aproximação ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para que se faça editais de subvenção e dos fundos setoriais dedicados, especificamente, à cadeia de suprimentos da área nuclear.
Saúde e o reator multipropósito
O Brasil conta com cerca de 3 mil instalações industriais que usam fontes de irradiação ou energia nuclear, mas a presença em radiofármacos, por exemplo, é reduzida. A atividade está concentrada no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), cuja fábrica pode produzir até 80 milhões de radiofármacos por ano. Há 403 instalações de medicina nuclear no Brasil, mas não há fabricantes de equipamentos para elas no País. "Há muitas oportunidades para o mercado, podemos produzir reatores, equipamentos, insumos gerais. Hoje, grande parte dos insumos e, cada vez mais, dos equipamentos, são importados", enumerou Rafael Madke, consultor do CGEE que trabalhou no estudo sobre as oportunidades de negócios no setor nuclear, investigando a área médica.
Um novo reator multipropósito, que também poderá ser usado para pesquisa com radiofármacos está sendo construído pelo governo em Iperó (SP), onde fica o Centro de Tecnologia de Aramar, da Marinha. O investimento é de R$ 850 milhões. Além da área médica, o reator deve ser usado para pesquisas em energia elétrica e propulsão naval — o PNB também envolve a construção de um submarino nuclear para a Marinha, projeto iniciado no final dos anos 1970 e que sempre sofreu de descontinuidade na execução, principalmente por causa do baixo volume de recursos direcionado pelos governos ao projeto. A Marinha trabalha agora com a previsão de que o primeiro submarino brasileiro movido a energia nuclear fique pronto entre 2015-2020. O modelo usado será um submarino francês, com tecnologia nuclear desenvolvida no Brasil.
No caso das aplicações em saúde, o novo reator será focado na produção do molibdênio-99, matéria-prima para a produção do tecnécio-99, principal radiofármaco usado em medicina nuclear no Brasil. O produto era importado pelo País da empresa MDS Nordion, do Canadá, que em meados de 2009 teve problemas em seu reator nuclear e reduziu drasticamente a produção, afetando o mercado brasileiro. O tecnécio é usado em diagnóstico de tumores, funções renais, problemas pulmonares, cardiológicos e hepáticos. Nas aplicações em energia elétrica e propulsão naval, o reator fará testes e qualificação dos combustíveis nucleares e servirá para pesquisa de novos combustíveis e novos materiais para uso em reatores.
Também terá o objetivo de formar recursos humanos e ser a base para criação de um Laboratório Nacional de Pesquisas com Feixes de Nêutrons, que atuaria de forma complementar ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), instalado em Campinas (SP). O problema desse projeto, assim como ocorre com o submarino nuclear, é orçamentário. Os recursos para a construção do reator ainda não foram liberados, segundo Isaac José Obadia, coordenador geral de Ciência e Tecnologia Nucleares da CNEN. Foram investidos apenas R$ 2 milhões, do orçamento da própria CNEN, no projeto, recursos que serviram para a elaboração de parte do projeto básico.
Os investimentos para o segmento nuclear são elevados, especialmente por causa das exigências relacionadas à segurança, que requerem desenvolvimento tecnológico para serem atendidas. Para o consultor, é preciso que a iniciativa privada tenha um posicionamento claro e objetivo sobre como poderia participar mais da radiofarmácia no Brasil. Ele defendeu que a parceria com o Estado é fundamental, dado o alto volume de investimento que se requer para os negócios.
Aplicações em agricultura e produção de joias
Outro segmento analisado pelo CGEE, estudo a cargo do consultor Maurício Favacho, foi o de aplicações de irradiadores na cadeia produtiva de gemas. Segundo ele, 70% das joalherias usam essa técnica para colorir pedras preciosas. O Brasil exporta topázios azuis, por exemplo, mas em forma bruta. Poderia adicionar valor se aplicasse a irradiação para vender a pedra colorida. A China tem comprado quartzo bruto de vários países para irradiar. "Os arranjos produtivos de gemas e joias no Brasil não conhecem a técnica de irradiação e não há serviços desse tipo no Brasil, exportamos matéria bruta", alertou. Ele citou apenas uma empresa privada no Brasil que presta o serviço, a CBE-Embrarad, especializada em esterilização. Essa técnica também pode ser aplicada em gemas orgânicas, como sementes, também muito usadas, especialmente no exterior, para produção de bijuterias finas e joias.
Na cadeia de agronegócios, contou Moacyr Saraiva Fernandes, consultor do CGEE que analisou as aplicações nucleares para esse segmento da economia, o potencial também é importante, dado o tamanho do agronegócio brasileiro. Hoje, mais de 50 países aprovaram o processo de irradiação para cerca de 60 produtos alimentares, incluindo o Brasil, que tem regulamentação a esse respeito desde 2001. A aprovação para uso da irradiação em alimentos é feita mediante análise caso a caso.
Como principais benefícios do uso da técnica, ele citou a redução de perdas pós-colheita, desinfecção e redução de riscos por doenças e intoxicação alimentar, aumento do prazo de validade dos produtos e redução ou eliminação de microorganismos causadores de deterioração do produto. Com a técnica, o alho pode estar apto para consumo por até 10 meses, ante quatro meses sem a irradiação (entre a colheita e a data final de validade); a manga e o mamão papaia passaram de sete para 21 dias; e o frango refrigerado de sete para 30 dias.
Como dificuldade há o marketing dos produtos irradiados, que precisam ter um selo de advertência na embalagem para informar o consumidor, o que inibe a compra pelo fato de as pessoas acharem que o alimento é contaminado, quando eles, na verdade, não se tornam radioativos com o uso da técnica. Os investimentos para uma instalação de irradiação também são elevados, da ordem de US$ 4 milhões. Há poucas instalações que prestam esse serviço no País, e o conhecimento da técnica entre os pequenos produtores é baixo. Como há poucas instalações, o custo de logística para esses produtos é maior, o que impacta no preço final das mercadorias. A técnica é usada em uma gama limitada de produtos.
"O Brasil tem avançado em irradiação de alimentos, uma exigência para exportação em muitos mercados, mas perderemos capacitação em todas as áreas se não tivermos a energia nuclear bem desenvolvida", lembrou Odair Gonçalves, presidente da CNEN, destacando a importância do desenvolvimento de tecnologia nuclear no setor elétrico e seu transbordamento para outras áreas da economia. (J.S.)