Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos anunciaram, no início de maio, um acordo com três grandes empresas do setor farmacêutico para que dados sobre drogas experimentais abandonadas sejam partilhados com a academia.
A ideia é que pesquisadores possam explorar novos usos para as substâncias, informa o boletim noticioso Science Insider, da revista Science. O governo americano vai investir US$ 20 milhões (R$ 40 milhões) na iniciativa.
As empresas poderão revisar os artigos científicos produzidos pela parceira, a fim de proteger seus dados confidenciais De acordo com a secretária de Saúde e Serviços Humanos dos EUA – cargo que combina algumas das atribuições que, no Brasil, são exercidas pelos de ministros da Saúde, Trabalho e Previdência Social – Kathleen Sebelius, o objetivo do programa é “ver se conseguimos ensinar truques novos a remédios velhos”.
As empresas envolvidas são Pfizer, AstraZeneca e Eli Lilly, que darão aos pesquisadores acesso mais de vinte compostos já aprovados em testes de segurança, mas que não avançaram nos ensaios clínicos. As fórmulas foram abandonadas por questões econômicas ou porque se mostraram ineficazes contra as doenças que deveriam combater.
O governo americano diz que o programa economiza recursos e reduz a duplicação de esforços. “O tempo médio de desenvolvimento de uma droga é de 13 a 15 anos”, afirma nota distribuída pelos NIH, destacando que os compostos envolvidos no acordo “já avnaçaram de modo significativo nos testes pré-clínicos e de Fase I, e estão prontos para novos testes em seres humanos”.
“Com esses compostos disponíveis para toda a comunidade científica, pesquisadores (...) não precisarão começar do zero“, o que deve reduzir o tempo e os custos envolvidos em determinar se essas drogas podem ser úteis. Das mais de 4.500 doenças cujas causas foram descobertas em anos recentes, diz relatório do governo dos EUA sobre a iniciativa, “só existem tratamentos eficazes ara cerca de 250”.
“Precisamos acelerar o ritmo em que transformamos descobertas em melhores resultados médicos”, disse o diretor dos NIH, Francis Collins, referindo-se à questão como uma “necessidade urgente que está além da capacidade de qualquer organização ou setor isolado”.
Os US$ 20 milhões destinados a esse programa-piloto virão do orçamento de US$ 575 milhões do novo Centro Nacional de Avanço das Ciências Translacionais Um exemplo de droga que encontrou um importante uso alternativo depois de ter sido descartada em sua finalidade original, citado em nota dos NIH, é o AZT, criado originalmente para o combate ao câncer e que se mostrou essencial na luta contra o vírus HIV.
O acordo dá à empresa fornecedora da molécula usada na pesquisa a primeira opção de licenciamento dos direitos de propriedade intelectual que surgirem da pesquisa feita com verba pública – por exemplo, no caso de os estudos encontrarem uma aplicação médica viável para a droga “engavetada”.
“Caso a companhia faramcêutica ainda detenha a patente do composto, ela decidirá se comercializa a nova indicação ou se abre espaço para outra empresa fazê-lo”, diz a nota dos NIH. “Se não houver mais patentes ativas e se a companhia farmacêutica abrir mão da opção de comercialização, o parceiro responsável pela pesquisa biomédica estará livre para buscar outro parceiro comercial”.
O AZT, que fracassou no combate ao câncer, se mostrou importante na luta contra o HIV As empresas também podem revisar os artigos científicos produzidos pela parceira, a fim de proteger seus dados confidenciais, e de pedir o adiamento da publicação para que possa buscar uma patente.
O acordo com as três empresas representa um programa-piloto, e o governo americano espera que o mesmo modelo possa ser usado para acelerar a liberação de outras moléculas para o mesmo tipo de iniciativa.
Os US$ 20 milhões destinados a esse programa-piloto virão do orçamento de US$ 575 milhões do novo Centro Nacional de Avanço das Ciências Translacionais (NCATS, na sigla em inglês) estabelecido pelo presidente Barack Obama. O investimento terá a forma de dotações para estudos de viabilidade clínica, com prazo de três anos.