03/12/2007

Pesquisa e Desenvolvimento em Etanol I

Criação de centro de tecnologia do etanol é meta do plano do MCT; sede será em Campinas, terá 70 pesquisadores e R$ 35 mi até 2008

Um centro de pesquisas com agenda dedicada a duas questões principais: planejar a produção de etanol em alta escala no País e enfrentar os desafios científicos relacionados à viabilização da obtenção de etanol por meio da hidrólise enzimática. O centro terá sede em Campinas, em área que a prefeitura da cidade vai desapropriar, dentro do Pólo Tecnológico II; e, de acordo com um de seus idealizadores, o físico Rogério Cerqueira Leite, terá R$ 35 milhões de recursos federais até o final de 2008. No Plano de Ação 2007-2010, divulgado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) no dia 20 de novembro, a criação do "Centro de Tecnologias do Etanol" está relacionada como uma das metas do Programa C&T&I para o Etanol (seção 10.2).

A articulação em torno do centro iniciou-se durante a realização do estudo prospectivo "Avaliação da Expansão da Produção de Etanol no Brasil", coordenado por Cerqueira Leite e feito pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização social ligada ao MCT. Cylon Gonçalves, ex-secretário de políticas e programas do MCT durante a gestão de Eduardo Campos (atual governador de Pernambuco) no ministério, foi encarregado, pelo CGEE, da apresentação de uma proposta para a estruturação do centro de pesquisas. A proposta será entregue pelo CGEE ao MCT até 31 de dezembro de 2007.

Número de pesquisadores e agenda

Cerqueira Leite falou à repórter Maria Tereza Costa, do Correio Popular. Segundo ele, o centro reunirá cerca de 70 pesquisadores próprios; e contará também com colaboradores em 15 universidades nacionais e quatro estrangeiras e empresas que já integram a Rede Bioetanol.

O professor emérito da Unicamp referiu-se ao fato de essa rede de pesquisa já trabalhar no desenvolvimento da tecnologia da hidrólise, ácida ou enzimática. No pensamento do professor, a eficiência da rede de pesquisa aumentará com a instalação do centro, que comparou a uma "âncora", capaz de fazer "coisas mais planejadas".

A agenda de pesquisas do centro incluirá temas mais tecnológicos e também pesquisa fundamental. Cerqueira Leite mencionou a necessidade, por exemplo, de investigação sobre fotossíntese na cana, assunto pouco tratado na literatura científica existente. Ao mesmo tempo, também é necessário estudar formas de racionalização do plantio e da colheita. Finalmente, a viabilização comercial da produção de etanol a partir do bagaço e da palha de cana. Nesse campo, há esforços importantes de pesquisa nos EUA. Mas, segundo o professor, também lá a viabilidade comercial para a obtenção do etanol chamado "de segunda geração", por processos de quebra da celulose presente principalmente em resíduos agrícolas, ainda não foi alcançada.

Um desenho mais detalhado

Em busca dos subsídios para chegar a uma proposta para a estruturação do futuro centro de pesquisas, Cylon Gonçalves observou que o caminho que levou os produtores brasileiros à tecnologia de produção de etanol a partir do caldo da cana não requereu grande esforço de pesquisa. Em entrevista para Notícias.CGEE, boletim eletrônico divulgado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Cylon destacou o trabalho, nesse campo, do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), de Piracicaba, interior de São Paulo, financiado pelo setor privado.

Para o Brasil produzir etanol e atender ao mercado internacional crescente, no entanto, o modelo produtivo atual, que se baseia na queima da palha e em mão-de-obra barata, não é adequado à expansão da produção. Para tanto, afirmou o físico, será necessário estabelecer um novo modelo, mais intensivo em tecnologia, baseado na agricultura de precisão e na mecanização da colheita.  A sustentabilidade, enfatizou ele, será imprescindível; e aí é que entra a busca pelo etanol celulósico, um dos temas mais importantes de pesquisa para o centro.

A planta-energia

Mas o desafio do centro a longo prazo, de acordo com Gonçalves, deveria ser a pesquisa para chegar à "planta-energia" — quer dizer, a adaptação da cana não mais à produção de açúcar, mas à produção de energia, de etanol. Atualmente, o Brasil produz etanol a partir do açúcar da cana, pela fermentação do caldo. A dificuldade em produzir etanol a partir de celulose é que a molécula serve a estruturar a planta. O físico compara essa estrutura feita de celulose a uma armadura. Por isso, observa, é tão difícil quebrar a celulose nos açúcares que a constituem e que, fermentados, servem à produção do etanol de segunda geração.

A solução para esse problema seria desenvolver variedades de cana que permitam acesso mais fácil à celulose. O centro, de acordo com as opiniões manifestadas ao boletim do CGEE, deverá então desenvolver um programa de pesquisas em que haja lugar para genômica, proteômica e metabolômica da cana; estudo do metabolismo de organismos capazes de digerir a celulose; engenharia genética das leveduras que fermentam o açúcar, para que se tornem capazes, por exemplo, de sobreviver em alta temperatura e pressão. Para ele, a tarefa só poderá ser cumprida se o centro for um mobilizador das competências nacionais. (M.T., com jornais)

 

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