06/10/2011

Mudança climática

Britânicos suspendem teste de tecnologia de geoengenharia

Ao mesmo tempo, grupo nos EUA pede mais estudos sobre tecnologias que modificam o clima

Um projeto para injetar água do mar a uma altitude de 1 km na atmosfera, conduzido por pesquisadores de quatro universidades do Reino Unido, não será mais realizado neste mês de outubro. O plano, que envolvia suspender uma mangueira por meio de um balão de hélio, seria um teste preliminar de uma família de estratégias de geoengenharia – a manipulação deliberada do clima terrestre – para combater os efeitos do aquecimento global.

Grupos ambientalistas consideram que a simples realização do teste seria um “Cavalo de Troia” Chamado “Spice” (sigla em inglês de “Stratospheric Particle Injection for Climate Engineering”, ou Injeção de Partículas na Estratosfera para Engenharia do Clima), o programa investiga a viabilidade de se lançar partículas na alta atmosfera para refletir parte da energia do Sol de volta ao espaço.

O teste previsto originalmente para outubro, mas agora suspenso por pelo menos seis meses, não teria a capacidade de afetar o clima: um modelo realmente funcional teria de injetar partículas a uma altitude de 20 km. O teste em escala serviria para gerar dados sobre o comportamento do balão e da mangueira.

De acordo com o material de divulgação do projeto, o efeito de resfriamento global esperado de uma aplicação dessa estratégia seria comparável ao de uma grande erupção vulcânica, um tipo de evento que lança grandes quantidades de material à base de enxofre na estratosfera.

Os pesquisadores envolvidos no Spice citam como exemplo a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, me 1991, que causou uma redução de 0,5º C na temperatura média global, ao longo dos dois anos seguintes.

 

Pressão política

De acordo com o site da revista New Scientist, o teste foi adiado depois de uma forte pressão exercida pela ONG ETC, baseada no Canadá.

Em cartas enviadas a autoridades britânicas, a organização acusava o experimento de violar acordos internacionais como a Convenção de Biodiversidade das Nações Unidas, que impõem uma moratória na implementação de estratégias de geoengenharia até que seus efeitos ambientais sejam bem estudados.

Mas um especialista ouvido pela revista aponta que o teste do Spice não deveria ser visto como uma violação desse princípio, já que não teria o potencial de, realmente, afetar o clima. Mas alguns grupos ambientalistas consideram que a simples realização do teste representaria um “Cavalo de Troia” para a introdução efetiva de tecnologias de geoengenharia.

Também há o temor de que a opção de manipulação tecnológica do clima seja usada como pretexto para que medidas mais urgentes, como a redução das emissões de dióxido de carbono por atividade humana, sejam adiadas.

Opções de geoengenharia “só deveriam ser consideradas como parte de um pacote mais amplo de alternativas” A nota do Conselho de Pesquisas em Engenharia e Ciências Físicas do governo britânico que anunciou a suspensão do teste informa, apenas, que a decisão foi tomada para “permitir mais tempo de interação com as partes interessadas”. “Adotamos uma abordagem responsável de inovação com este projeto”, diz o texto. “E nossa decisão de interromper o teste reflete conselkhos que recebemos de nosso comitê consultivo”.

A oposição à geoengenharia não vem só de ONGs, no entanto. Em 29 de setembro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre meio-ambiente que, entre outras disposições, manifesta “oposição a propostas de geoengenharia de larga escala”. O mesmo texto reconhece “a importância da pesquisa, desenvolvimento e inovação, e a necessidade de cooperação científica e tecnológica.”

Recomendação nos EUA

A despeito da perda de prestígio na cena europeia, a pesquisa sobre geoengenharia recebeu, no início de outubro, um impulso de um grupo de estudos nos Estados Unidos, o Bipartisan Political Center (BPC). Relatório divulgado em 4 de outubro pede que o governo federal americano lance um “programa coordenado de pesquisas para explorar a eficácia potencial, viabilidade e consequências de estratégias de remediação climática”.

O relatório afirma que “os riscos da mudança climática são reais e estão aumentando”, e que “os riscos geopolíticos e para a segurança nacional da adoção de tecnologias de remediação climática por outros países ou agentes são reais”.

Com base nisso, indica que os EUA deveriam pesquisar se alguma estratégia de “remediação climática” poderia representar uma resposta significativa aos riscos da mudança climática, e avaliar que medidas outros países podem ser levados a tomar. Os Estados Unidos deveriam “liderar as importantes conversações internacionais que provavelmente surgirão” a respeito do assunto.

Royal Society

Em 2009, a Royal Society do Reino Unido publicou um relatório de mais de 90 páginas intitulado Geoengineering the climate: science, governance and uncertainty, que avaliava a viabilidade de diversas opções propostas para a manipulação deliberada do clima, notando logo no início a “ausência de informação acessível e de qualidade” a respeito de tais propostas.

É preciso avaliar os riscos geopolíticos e para a segurança nacional da adoção de tecnologias de remediação climática por outros países O trabalho divide os vários planos sugeridos em dois grupos – remoção de dióxido de carbono, com as estratégias para retirar o excesso de gás causador do efeito estufa da atmosfera; e controle da radiação solar, envolvendo propostas para reduzir a energia do Sol que chega á superfície do planeta.

O relatório conclui que as opções de geoengenharia “só deveriam ser consideradas como parte de um pacote mais amplo de alternativas”, incluindo reduções nas emissões de gases causadores do efeito estufa, e que ainda assim os métodos relacionados à remoção do dióxido de carbono são preferíveis. No entanto, o texto diz que, numa situação de “emergência climática”, técnicas para refletir a luz solar de volta ao espaço podem representar “a única forma de reduzir as temperaturas globais”.

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