Por Juliana Ewers, Marina Gomes e Carolina Octaviano

O MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) – a pedido da InovaçãoRevista Eletrônica de P,D&I, que completa um ano nessa edição – mapeou as dez cidades brasileiras com maior potencial inovador, que serão apresentadas, a partir de hoje, em uma série de reportagens na revista.

Baseado não somente no desenvolvimento tecnológico, Jorge Mário Campagnolo, coordenador da secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, elencou as cinco capitais e as cinco cidades do interior que melhor combinam a promoção da inovação com qualidade de vida, interação entre os players, políticas de incentivo e desenvolvimento econômico. E o resultado foi o seguinte:

O ranking

CAPITAIS

1º. Florianópolis

2º. Porto Alegre

3º. Curitiba

4º. Recife

5º. Rio de Janeiro

 

INTERIOR

1º. Campinas

2º. São José dos Campos

3º. São Carlos

4º. Santa Rita do Sapucaí

5º. Campina Grande

Na avaliação de Campagnolo, a inovação se sustenta na formação de pessoas bem qualificadas, por isso apontam-se as cidades mais inovadoras do Brasil com base nos municípios que tenham boas universidades, centros de pesquisa e institutos de ciência e tecnologia. “Esse é o primeiro ponto. A inovação é um processo que precisa de pessoas bem qualificadas, que sejam capazes de agregar valor a produção, processos ou serviços”, afirma.

Florianópolis e Campinas, cidades que lideram seus respectivos rankings, possuem igualmente onze instituições de ensino superior cada. No caso da capital catarinense, duas são federais e uma estadual; já em Campinas, apenas uma se enquadra na categoria de universidade pública: a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), as demais são todas privadas.

Outro ponto destacado por Campagnolo tem relação com o ambiente, que precisa ser favorável para pessoas mais empreendedoras e criativas. “Leis municipais, iniciativas empreendedoras e a própria qualidade de vida contam bastante quando falamos em ecossistemas de inovação”, reforça o coordenador do MCTI.

Exemplo disso, em Florianópolis, é a Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras), que foi criada em 1984 com foco em pesquisa tecnológica aplicada.

À época de sua fundação, o Brasil demandava saltos de qualidade e desenvolvimento de know-how próprio e inovador, visando o campo da informática e a automação industrial. Hoje, a Fundação Certi atua efetivamente com TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), área automotiva e aeronáutica, indústria, energia, educação, saúde e economia criativa. Em empreendedorismo, a fundação possui um sistema de aceleração de startups, que promove o suporte ao desenvolvimento de novos empreendimentos de base tecnológica.

Florianópolis também possui, desde 2012, um Conselho Municipal de Inovação, cujo objetivo principal é “formular, propor, avaliar e fiscalizar ações e políticas públicas de promoção da inovação para o desenvolvimento do município”, que contemplem tanto iniciativas governamentais como parcerias com agentes privados.

Na capital catarinense há ainda a chamada Rota da Inovação, iniciativa que reúne em um mesmo lugar os diversos players da ciência, tecnologia e inovação da cidade. Criada em 2013, a rota começa no aeroporto internacional de Florianópolis e passa pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Centro Sapiens, Parque Tecnológico Alfa, Celta, Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate) e Sapiens Parque.

A história da inovação em Campinas, por sua vez, se entrelaça com a da Unicamp. Fundada em 1966, a universidade nasceu com o propósito de ser fortemente ligada ao setor produtivo, segundo o projeto do professor Zeferino Vaz, e atendendo o apelo desenvolvimentista do período, em pleno regime militar. Esse perfil fomentou, desde então, a criação do ecossistema que hoje atinge resultados significativos em âmbito nacional e reconhecimento internacional. Para se ter uma ideia, a Unicamp responde hoje por 15% de toda a pesquisa acadêmica do Brasil e é uma das universidades que lidera, em número de patentes, o ranking do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Outras instituições que colaboram fortemente para esse ecossistema de inovação são os parques científicos e tecnológicos. Existem cinco parques hoje na cidade. São eles: o Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, criado em 2008, a Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec), de 1991, o Centro da Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, de 1982, CPqD, de 1976, e Technopark, de 1997.

Das iniciativas mais recentes, foi criado em 2013 o Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, vislumbrando apoio ao desenvolvimento científico, tecnológico e da inovação da cidade. Este ano, a cidade avançou nas políticas voltadas ao ecossistema e lançou o Plano Estratégico de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Segundo informações da prefeitura de Campinas, o planejamento aponta políticas públicas para as empresas e para a sociedade. O executivo municipal participa com incentivos fiscais, financiamento à inovação e o fortalecimento dos parques tecnológicos.

“As duas cidades são exemplos de iniciativas inovadoras. Há onze anos, criamos a Lei de Inovação Federal. Hoje, boa parte dos estados tem as suas e alguns municípios começaram a seguir o mesmo movimento. A base legal para transferência de tecnologia e empreendedorismo passa segurança jurídica e facilita o processo para as empresas se tornarem mais competitivas”, afirma Campagnolo.

No entanto, há muito o que avançar. Não é de hoje que players ligados à inovação cobram revisão do marco regulatório, agilidade no registro de patentes, maior segurança jurídica, redução da burocracia e continuidade de políticas públicas. “Sei que ainda estamos caminhando. O que temos não está suficiente, pois há muitas amarras. A Lei 8.666 (sobre licitações e contratos administrativos) é um exemplo, porque não condiz com a rapidez da inovação. E quando se fala em inovação, a morosidade pode ser fatal”, completa.

Investimentos para poder crescer

Para que mais cidades remontem o exemplo das dez cidades do ranking, investimentos em ciência e tecnologia (C&T) são essenciais. De acordo com dados do MCTI, o dispêndio nacional em C&T passou de R$ 22,1 bilhões, em 2003, quando representava 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto); para R$ 85,6 bilhões, em 2013, alcançando participação de 1,66%.

Dentro desses números, os gastos com P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) representaram R$ 17,1 bilhões em 2003. E passaram para R$ 63,7 bilhões na década seguinte.

No caso das cidades listadas no ranking, podemos observar os esforços de seus respectivos estados para investir em C&T. Com base nos dados do MCTI e no ranking das cidades elaborado pela Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I, São Paulo (4,11%), Paraná (1,45%), Rio de Janeiro (1,02%) e Santa Catarina (0,86%) foram os estados com maior dispêndio dos governos estaduais em P&D, em relação às receitas totais.

Estados cujas cidades integram o ranking: dispêndios dos governos estaduais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e o percentual em relação às receitas totais, em 2013:

1º. São Paulo – 4,11% (acima de R$ 1 bilhão)

2º. Paraná – 1,45% (entre R$ 501 milhões e R$ 1 bilhão)

3º. Rio de Janeiro – 1,02% (entre R$ 501 milhões e R$ 1 bilhão)

4º. Santa Catarina – 0,86% (entre R$ 201 milhões e R$ 500 milhões)

5º. Paraíba – 0,49% (entre R$ 51 milhões e R$1 00 milhões)

6º. Minas Gerais – 0,41% (entre R$ 201 milhões e R$ 500 milhões)

7º. Pernambuco – 0,26% (entre R$ 51 milhões e R$ 100 milhões)

8º. Rio Grande do Sul – 0,22% (entre R$ 101 milhões e R$ 200 milhões)

O aumento nos investimentos também exigiu mais recursos humanos. Nos anos 2000, eram 231.158 pesquisadores e pessoal de apoio atuando em P&D no Brasil. Já em 2010, data da última atualização desse levantamento do MCTI, a quantidade dobrou, chegando a 469.257.

Os resultados desses reforços podem ser observados no número de depósitos de patentes, um dos principais indicadores de inovação. Em 2014, foram 33.182 pedidos de registro junto ao INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). E de janeiro a agosto de 2015, já chega a 21.142 o número de requisições.

Depósitos de patentes (propriedade intelectual, modelo de utilidade e certificado de adição) feitos pelos municípios em 2014, de acordo com o INPI:

Capitais

1º. Florianópolis – 51 patentes

2º. Porto Alegre – 181 patentes

3º. Curitiba – 252 patentes

4º. Recife – 100 patentes

5º. Rio de Janeiro – 403 patentes

Interior

1º. Campinas – 250 patentes

2º. São José dos Campos – 51 patentes

3º. São Carlos – 42 patentes

4º. Santa Rita do Sapucaí – 13 patentes

5º. Campina Grande – 9 patentes

 

Pedidos de patentes em 2014 feitos pelos Estados das cidades listadas no ranking:

1º. São Paulo – 2.934 patentes

2º. Rio Grande do Sul – 737 patentes

3º. Minas Gerais – 709 patentes

4º. Paraná – 668 patentes

5º. Rio de Janeiro – 585 patentes

6º. Santa Catarina – 510 patentes

7º. Pernambuco – 143 patentes

8º. Paraíba – 42 patentes

Interessado nos diferenciais de cada município? A partir de agora, a Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I publica o perfil de cada uma das cidades do ranking. A primeira delas é Florianópolis, em Santa Catarina.

 

Créditos das fotos:

Divulgação_Prefeitura de Florianópolis

Divulgação_Prefeitura de Campinas

Juliana Ewers

Juliana Ewers é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e possui especialização em Gestão de Comunicação com o Mercado, pela Esamc. Atuou como repórter do Jornal Metro e do Grupo Bandeirantes de Comunicação . É editora assistente da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I .