Por Carolina Neves e Marina Gomes

Dando continuidade à série sobre cidades inovadoras, a partir de levantamento feito pelo Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) a pedido da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I, a cidade abordada aqui é Curitiba, capital que ficou em terceiro lugar, depois de Florianópolis e Rio de Janeiro.

Curitiba tem mostrado relevância em várias situações relacionadas à inovação e empreendedorismo. A cidade ganhou, nos últimos três anos, mais de trinta prêmios nacionais e internacionais voltados para a inovação, mobilidade, inclusão e sustentabilidade.

A cidade é reconhecida, em grande parte, pelos índices de bem-estar da população – e faz bom uso da tecnologia para melhorar a cidadania. Com o projeto Curitiba 2035, quer planejar o desenvolvimento estratégico para os próximos anos. O Portal de Dados Abertos, um exemplo do uso da tecnologia a favor dos cidadãos, disponibiliza documentos, informações e dados governamentais para livre uso da sociedade. O município também promove o Hackathon Curitiba, competição que estimula universitários a desenvolver aplicativos que ajudem a administrar a cidade.

Para os próximos anos, a prefeitura pretende transformar os 42 espaços chamados Faróis do Saber, hoje com lan house e biblioteca, em locais públicos de coworking, com infraestrutura de fab-labs, programação de computadores e design.

No Congresso de Informática e Inovação na Gestão Pública (Conip), realizado em 2016, a cidade ficou em primeiro lugar na categoria de sistemas de informações, com o projeto Curitiba Colabora – articulação de ações para o desenvolvimento colaborativo de soluções para cidades inteligentes. Uma dessas ações foi a criação de semáforos inteligentes para pedestres. “Pessoas com problema de mobilidade possuem um cartão que amplia o tempo de verde para facilitar a travessia”, conta Paulo Miranda, secretário municipal da Informação e Tecnologia.

Esses semáforos foram colocados em cruzamentos que possuíam um índice alto de atropelamentos, eliminando esse problema com o reconhecimento do pedestre com dificuldade de locomoção. Esse projeto ganhou o prêmio mundial pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) de ações inovadoras de segurança no trânsito.

“O Curitiba Colabora tem como objetivo propiciar a busca e o desenvolvimento de soluções para problemas da cidade. Não só pela administração, mas pela ação cooperada com outras forças da sociedade”, explica Miranda.

Infraestrutura tecnológica

Nos últimos três anos, houve muito investimento na modernização da infraestrutura tecnológica da cidade, com foco na adoção de princípios de uma cidade inteligente. “Não só a administração municipal vai desenvolver soluções; nosso programa de abertura da base de dados da cidade para a sociedade estimula que outras organizações desenvolvam soluções que podem ser ofertadas para a cidade”, explica o secretário.

Curitiba é a cidade com o 5º maior PIB do país (R$ 79,4 bilhões) e se destaca quando o assunto é educação. Ter uma das maiores taxas de alfabetização (97,87%) e o melhor desempenho entre as capitais brasileiras no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) certamente é uma ajuda e tanto no desenvolvimento da cidade, que conta com cinco universidades e quatro centros universitários. Cerca de 30% dos empregados no município têm, no mínimo, nível superior incompleto.

Na área econômica, o setor de serviços é o que predomina, com 76% do valor adicionado bruto (VAB) do munícipio, uma boa notícia uma vez que esse é o setor que mais gera emprego e renda. Já a indústria possui uma participação de quase 24%.

As diversas gestões têm estimulado a inovação na cidade, que já conta com excelente padrão de mobilidade, conectividade, infraestrutura, logística e disponibilidade de energia.

Entre os projetos que têm como objetivo alavancar a inovação está o recém-lançado Vale do Pinhão – uma alusão direta ao Vale do Silício, na Califórnia. Em 2018, o Moinho Rebouças, localizado no bairro de mesmo nome, será transformado em Engenho da Inovação, com local para abrigar pesquisadores e empreendedores. A ideia é que surjam novas startups nessa região, principalmente na antiga área industrial.

vale do pinhao

Traçado do Projeto do Vale do Pinhão

Outro ponto de destaque é o programa Curitiba Tecnoparque, que conta com várias ações para melhorar o desenvolvimento da inovação, incluindo um incentivo fiscal para empresas de base tecnológica e instituições de ciência e tecnologia. Quem se enquadra, tem redução de alíquota de 5% para 2% de imposto sobre serviço (ISS).

Em dezembro de 2016, 83 empresas já faziam parte do programa, a grande maioria com foco em serviços de informática ou tecnologia de informação, mas o programa espera abrigar também empresas que desenvolvam atividades como design, laboratórios de ensaios e testes de qualidade; instrumentos de precisão e automação industrial e novas tecnologias em áreas como biotecnologia, nanotecnologia, saúde, materiais, além de tecnologias ambientais.

De olho nos investimentos

Ainda que esteja em um bom patamar para a inovação, a cidade ainda precisa ajustar muitos fatores, especialmente em relação ao ambiente regulatório. Segundo o Índice de Cidades Empreendedoras 2016 da Endeavor, Curitiba só perde para o Rio de Janeiro em ambiente regulatório, dentre os 32 municípios avaliados. Também não está bem colocada na questão de tempo de processos, seja abertura de empresas ou tempo de regularização. Assim, com mais burocracia e altos impostos, acaba perdendo pontos.

Uma iniciativa de bom alcance é a Agência Curitiba de Desenvolvimento (ACD), que faz estudos de atração de investimentos para Curitiba, trabalhando para desenvolvimento local. Para isso, possui um observatório de desenvolvimento econômico, que prospecta investidores e movimentações de empresas que estão procurando se instalar na cidade. “Nós formamos empreendedores e incentivamos criação e desenvolvimento de empresas”, explica Gina Paladino, presidente da ACD.

Presente em oito regiões da cidade, a agência oferece consultorias para milhares de pessoas que buscam, entre outros serviços, informações de formalização e regulamentação de negócios. “A agência tem foco em ajudar novos negócios e também na promoção e desenvolvimento da economia criativa, em parceria com o Sebrae”, completa Paulo Miranda.

Um exemplo do trabalho da ACD é a Beenoculus, que desenvolve óculos de realidade virtual com o auxílio de smartphones. Segundo Rawlinson Terrabuio, co-fundador e diretor executivo de marketing da empresa, “Curitiba se tornou polo de tecnologia em cinco anos porque teve fomento de grandes e pequenas empresas que movimentam a economia”. A Beenoculus foi uma empresa incubada da ACD, usando os espaços da agência e contando com benefícios fiscais, entre outros auxílios. O empreendedor ainda afirma que “o Brasil só não tem mais empresas instaladas porque é muito risco para o investidor encarar as taxas de juros elevadas”.