O
advento da Internet e da Teia Mundial (a World Wide
Web) escancarou as portas da informação
e tornou óbvio o primado da ciência, da
tecnologia e da cultura como elementos fundamentais
para o desenvolvimento econômico e social.
Já
sabiam disso os chineses do século XIV, época
em que a China chegou a ser a sociedade tecnologicamente
mais avançada do mundo graças a um incomparável
domínio das técnicas de manufatura no
campo da náutica, da tecelagem, da impressão,
da fundição e outros. Foi também
graças à pesquisa sistemática e
ao conhecimento acumulado na área da navegação
oceânica que Portugal, uma pequena comunidade
de dois milhões de habitantes cujo governo tinha
a pretensão de dominar o comércio de especiarias,
chegou à altura de tornar-se uma das nações
mais poderosas dos séculos XV e XVI. Que essas
nações tenham perdido sua hegemonia tecnológica
ao longo dos séculos, como Portugal, ou mesmo
abruptamente, como a China, é outra história
que pode ter a ver, segundo Charles I. Jones (Teoria
do Crescimento Econômico), economista da Universidade
de Stanford, com "a falta de instituições
que apoiassem a capacidade empreendedora".
David
Landes, historiador do desenvolvimento econômico,
destaca em seu A Riqueza e a Pobreza das Nações,
que a invenção da invenção,
isto é, a sistematização do método
científico e da atividade de pesquisa a partir
do século XVIII, foi um dos grandes ingredientes
necessários para a existência de uma revolução
industrial na Europa, e para o desenvolvimento que se
seguiu. Tornaram-se mais ricos os países que
souberam criar um ambiente propício à
criação e disseminação do
conhecimento e a sua aplicação na produção.
Ou, no dizer de Landes: "Instituições
e cultura primeiro; a seguir o dinheiro, mas, desde
o princípio e cada vez mais, o fator essencial
e recompensador cabia ao conhecimento."
A "invenção
da invenção" no século XVIII
foi seguida pela "descoberta da invenção"
na segunda metade do século XIX. A nascente indústria
química alemã percebeu por volta de 1870
que para o desenvolvimento dos seus negócios
e a manutenção de sua competitividade
era necessário que a empresa tivesse uma capacidade
de invenção própria. O Estado alemão
percebeu também que precisava garantir o direito
de propriedade intelectual àqueles capazes de
terem idéias, unificou e vitaminou sua Lei de
Patentes em 1877. O respeito à propriedade intelectual
e a percepção da empresa da importância
do conhecimento levou ao nascimento dos primeiros grandes
laboratórios industriais: BASF, Höchst e
Bayer foram as empresas que descobriram o poder das
idéias da invenção primeiro, e
transformaram esta atividade - a de desenvolver conhecimento
- numa atividade essencial, permanente e profissional
dentro da empresa. O assunto principal da pesquisa nestas
empresas era a "criação de cores",
corantes para a indústria têxtil.
Do outro
lado do Oceano Atlântico, e na mesma época
- segunda metade do século XIX, Thomas Edison
e Alexander Graham Bell começavam a criar, com
suas invenções, o que viria a ser a moderna
indústria eletrônica. Pelo final do século
XIX, com muitas das importantes patentes de Edison expirando,
a General Electric, criada por Edison, percebeu que
precisava profissionalizar e intensificar seu esforço
de criação de idéias e conhecimento:
em 1900 inaugurou o General Electric Research Laboratory
em Schenectady, em Nova York, EUA. Hoje a equipe de
cientistas e engenheiros do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento
da GE tem 1.130 pessoas. O "filhote" de Bell
demorou um pouco mais a florescer - no dia de ano novo
de 1925 foi inaugurado em Manhattan os Laboratórios
Bell, outra usina de idéias e invenções
que mudou nosso mundo: ali foi inventado o transistor
em 1948.
É
notável que na teoria econômica sobre o
desenvolvimento o conhecimento só passe a figurar
como elemento explícito a partir da Nova Teoria
de Crescimento estabelecida por Paul Romer, de Stanford,
e seus colaboradores, a partir de 1987. Até então
o conhecimento era considerado como uma variável
externa à teoria econômica, embora houvesse
vários autores que supusessem o efeito do conhecimento
sobre a produtividade do trabalho.
Um destes
foi Robert Solow, professor do MIT, premiado com o Nobel
de Economia em 1987. Solow examinou, no final dos anos
50, os elementos clássicos do crescimento econômico
- capital e trabalho - e observou que o crescimento
da economia norte-americana ao longo do século
XX não podia ser explicado apenas recorrendo
ao crescimento do capital e da mão-de-obra disponíveis.
Com isso foi estabelecido que havia outras fontes de
crescimento econômico. O conjunto destas outras
fontes foi denominado "resíduo de Solow".
Solow mostrou que, no caso dos EUA, praticamente um
terço do crescimento anual da renda per capita
deriva de outros fatores que não capital e trabalho.
Aqui entra o conhecimento no jogo do desenvolvimento.
Romer
desenvolveu o modelo básico da Nova Teoria do
Crescimento considerando que o conhecimento afeta a
produtividade do trabalho. Por isso, um milhão
de trabalhadores com pouco acesso ao conhecimento produzem
menos do que um milhão de trabalhadores com acesso
ao conhecimento mais moderno.
Conhecimento só
pode ser gerado e ser acessível quando há
pessoas educadas para isso. A inclusão do conhecimento
como variável de destaque para o desenvolvimento
econômico traz consigo para a teoria econômica
a educação e a cultura como parâmetros
explicitamente determinantes do desenvolvimento de uma
nação.
A escolaridade
média do brasileiro de apenas cinco anos não
nos ajuda nem um pouco a ter mais competitividade. Formar
seis mil doutores por ano poderia ajudar mais, se empresas
usassem uma fração apreciável destes
doutores para criar idéias e gerar inovação
na empresa e competitividade. Enquanto os doutores brasileiros
têm tido seu mercado restrito ao meio acadêmico
e ao setor público, os doutores coreanos vão
engrossar as fileiras de cientistas na indústria.
Com efeito, dos 90 mil cientistas de que a Coréia
dispõe - praticamente o mesmo número de
cientistas disponíveis no Brasil -, cerca de
80% dedicam-se a fazer pesquisa e desenvolvimento (inovação,
portanto) na indústria, enquanto, entre nós,
a indústria não absorve mais que 10% dessa
qualificada força de trabalho. Essa disparidade
explica o alto volume de patentes depositadas em escritórios
americanos no ano passado - mais de 3.400, contra apenas
113 patentes brasileiras.
Aqui vale
a pena mencionar novamente Jones quando diz que "o
estoque de qualificação nos países
em desenvolvimento é tão baixo porque
as pessoas qualificadas não conseguem auferir
o retorno pleno de suas qualificações".
Essa realidade é ainda mais impressionante quando
se considera a massa industrial brasileira - mais significativa
que a coreana - e, não por acaso, a relativamente
baixa competitividade dos produtos brasileiros. Não
só a capacidade empreendedora, mas também
a política nacional para a ciência e tecnologia
estavam, até há pouco - digamos, até
1998 -, baseadas no fundamento equivocado de que o lugar
da inovação era a universidade, não
a indústria - ou de que a universidade poderia
substituir a atividade de pesquisa e desenvolvimento
na empresa.
A partir
dos últimos quatro ou cinco anos vem se impondo
entre nós a idéia de que a inovação
é um elemento fundamental do desenvolvimento
econômico, e de que a indústria é
o lugar privilegiado de sua materialização.
À universidade cabe certamente desenvolver ciência
e tecnologia, não raro em parceria com a indústria,
mas seu papel principal é o de formar pessoas
qualificadas que, mais adiante, vão gerar o conhecimento
necessário para que a inovação
se produza. Finalmente, o fato relevante dessa mudança
foi a entrada em cena de um terceiro ator - indispensável
em todos os países de capacidade inovativa -
que é o governo com uma política facilitadora
que vá dos incentivos fiscais ao uso do poder
de compra do Estado para viabilizar projetos de pesquisa
e desenvolvimento no interior das empresas. Tem sido
assim até mesmo (e sobretudo) nos Estados Unidos,
onde se calcula sejam gastos anualmente US$ 20 bilhões
em compras tecnológicas pelas agências
governamentais norte-americanas. O apoio estatal tem-se
revelado, nesses países, um círculo virtuoso
em que cada dólar investido pelo Estado corresponde,
em geral, a outros US$ 9 aplicados pela empresa.
Pode-se
concluir, com algum otimismo, que está se formando
no país uma mentalidade capaz de levar a empresa
a investir no conhecimento para aumentar sua competitividade,
dando maior sentido ao papel formador da universidade
e compelindo o Estado a cumprir sua função
de todos os tempos, que é a de criar um ambiente
propício à geração e à
disseminação do conhecimento, bem como
a sua aplicação na produção?
Há sinais de que sim. Mas para isso é
preciso que essa atitude tripartite, esse arranjo sistêmico
entre parceiros - a empresa, a universidade e o Estado
- se torne efetivamente uma política de Estado,
e não de governos que se sucedem; e que não
haja solução de continuidade nem interrupções
que ponham a perder o que já foi feito.
Carlos Henrique de Brito Cruz
é reitor da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e ex-presidente da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp)
2
X Política Industrial "Diretrizes",
o documento divulgado
pelo governo "Crescimento
econômico", o
documento da Fiesp Lei
de Inovação Novo
Projeto da Lei
de Inovação Patentes Licenciamento
de patentes na
Universidade dos EUA Nanotecnologia: Stanley
Williams fala ao
Senado dos EUA Andifes Proposta
de expansão para
o Ensino Superior